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E com a seleção já metida no avião rumo ao Qatar, está na hora de irmos para mais uma história desconhecida de Ronaldo, uma rubrica que ficou muito mais difícil de fazer depois de Ronaldo ter aberto o livro cheio de roupa suja com a plena entrevista que faz correr tinta. O certo é que ao pé do nosso caríssimo jornalista João Filipe Cruz, o Piers Morgan é um ardina, não passa disso. João, ontem andámos por qualquer coisa de marciano, Ronaldo fora do nosso domínio espacial. Hoje creio que vai ser mais calmo.
É, hoje vamos ficar por cá, com certeza. Vamos até à escola onde Cristiano Ronaldo andou quando chegou a Portugal continental, ou seja, a Escola Básica de Telheiras, em Lisboa. Foi lá que encontrámos a professora Margarida Miranda, que muito simpaticamente nos acolheu no seu local de trabalho. A professora Margarida foi docente, só para não usar o termo professora duas vezes seguidas.
Fizeste bem.
De Cristiano Ronaldo na disciplina, e não cadeira, como eu disse muitas vezes à professora, e ela corrigiu-me.
Com certeza.
De Educação Visual do capitão da seleção portuguesa.
Não me digas que ele tinha jeito para desenho. Pelo menos desenhou o próprio corpo depois de deixar a escola.
Quem sou eu para dizer? Eu prefiro dar a palavra a quem sabe.
Esforçava-se pouco e não tinha muito jeito.
Está respondido.
Está respondido.
Não tinha jeito e ainda dava algum trabalho à professora Margarida, se bem que havia pontos positivos.
O Cristiano Ronaldo era uma criança muito simpática. Tinha muita energia, mas era muito irrequieta e, de facto, isso refletia-se no rendimento dele enquanto aluno.
Eu lembro-me dos primeiros tempos do Cristiano, ele já falou várias vezes disso, no continente, por ter sotaque da Madeira, sofreu algum bullying nesses primeiros tempos de escola.
E, Bruno, eu tinha essa engatilhada. Era das coisas que mais queria saber, não por ser sórdido ou por ser menos positivo, mas de facto, queria saber por interesse se a professora Margarida se recordava desses tempos. Mas acontece que a professora Margarida chega no segundo ano de Ronaldo a estudar em Lisboa e não o apanhou nesse primeiro ano em que tudo foi um bocadinho mais exponencial. Provavelmente neste segundo ano o Ronaldo já estava um bocadinho mais adaptado. Não era dos mais populares, pelo que diz a professora Margarida, mas nessa altura já se daria bem basicamente com todos os colegas e não só os do Sporting, porque havia muitos jogadores do Sporting a estudarem na Escola Básica de Telheiras. Mas havia algo mais naquele miúdo irrequieto e mais concentrado no que tinha à espera fora da sala de aula.
Ele era um menino com olhar triste, com olhar muito triste, o que me sensibilizou bastante, porque tinha à época, ainda tenho, dois filhos de uma idade aproximada da dele, mais ou menos da mesma idade. Até o facto de eu me lembrar que ele aqui tinha muitas saudades de casa e contavam as funcionárias que telefonava para casa a chorar para a mãe. E ele sensibilizou-me muito, marcou-me, por ser como era, afetivo e muito preocupado com a família, notava-se isso.
Isto também já sabíamos dos primeiros tempos. Não foram anos fáceis e de certa forma subjulados com trabalho. E este é um lado da vida de Ronaldo que conseguimos transportar até para a atualidade. Esta preocupação com a família. Mas a professora Margarida também identificou o que basicamente Cristiano já contou várias vezes a todo mundo. Mas também em Educação Visual, o na altura aspirante a jogador, já queria ser o melhor do mundo e fazia questão de o dizer à professora.
E ele tinha aspectos também muito engraçados. Eu, por exemplo, chamava Cristiano e ele dizia-me Ronaldo. E eu perguntava-lhe: "Por que Ronaldo?" E ele dizia-me: "Porque foi o nome que o meu pai me deu e porque é o nome do presidente dos Estados Unidos. E eu quero ser importante como ele."
E foi, e é. Ronaldo não era propriamente o nome do presidente dos Estados Unidos, mas é uma adaptação portuguesada da coisa e está tudo bem. Mas a professora Margarida Miranda contou-nos um episódio curioso e para acabar, já numa altura em que tinha deixado de ter Ronaldo na sua pauta, e que nos evidencia que Cristiano tem memória.
Como não conhecia quase ninguém, eu ensinava também a acumulação no São João de Brito, no colégio. Às vezes ia para a Estrada da Torre e cruzava-me com a carrinha que os levava para jogos e ele à janela a dizer-me adeus.
Um miúdo irrequieto, pouco esforçado na escola, sempre a pensar na bola e a professora Margarida conta-nos que ele mal dava o toque de saída, ia com a bola nos pés para fora da escola a driblar. Uma história como muitas outras que andam aí. Mas era também afetuoso e tinha, claro, um olhar triste como quem está a quilómetros e a um mar de distância de casa e da família. Este era o Ronaldo há um quarto século ou há 25 anos, para não nos sentirmos todos muito velhos. Sim, qualquer coisa como isso, João Filipe Cruz. Histórias desconhecidas de Ronaldo, elas ainda existem e tu e o André Maia têm feito um belíssimo trabalho a descortiná-las. Vai haver novo episódio na segunda-feira depois do Jornal das quatro. Piers Morgan, poeta na pau, caso para dizer. Um abraço. Um abraço.