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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade.

Olá, bom dia, boa tarde ou boa noite, dependendo da hora em que nos está a ouvir ou a ver. No caso de hoje, só mesmo a ouvir, porque não temos câmaras no estúdio, o que calha bem, porque somos três camafeus. Este é o "Homens de Uma Certa Idade", no episódio de hoje. Já não sabemos qual é o número do episódio. Lá está, estamos velhotes e a memória não é a mesma. A pergunta é: o que aprendeste com os teus mais velhos que nunca conseguiste esquecer? Como há um limite de 40 caracteres, não é assim que vai aparecer nas plataformas. Depois há de haver uma versão mais sucinta, mas o espírito é este: o que é que aprendeste com os teus mais velhos que nunca conseguiste esquecer? A conduzir esta emissão, eu próprio, Luís Filipe Borges, 47 anos, clarinetista na Orquestra de Surdos de Frankfurt.

Marco Horácio, 51 anos, caçador de osgas albinas.

António Raminhos, 44 anos, lavador de dentaduras. Sim. Estás a olhar pra mim a fazer assim: "O que é isso?" Como se o caçador de osgas albinas fizesse sentido. Por acaso há dias ou há semanas, já não sei quando é que isto vai para o ar, raramente falamos de futebol aqui, mas dei comigo empolgado, já não me acontecia há muito tempo, a ver a final da Taça da Liga das Nações, porque encavar espanhóis é sempre saboroso, e estava na esplanada de um café com uma osga gigantesca, mesmo na parede, por cima do meu ombro. E no início, confesso, acho que é humano, acho que há uma coisa primitiva em nós, ficamos com medo do desconhecido. E aquele animal de sangue frio, que consegue ficar imóvel durante tanto tempo e que está numa posição tão antinatural para nós. Ele está perfeitamente alinhado numa parede. Como é que ela consegue? E a sensação que dá é: isto pode saltar-me para cima a qualquer momento. Ao fim de um bom bocado, de repente já sentia que era uma amiga esta osga e já estava só a apreciar a osga, não estava nem aí para mim. E estava só a apreciar a habilidade com que esta osga mantinha aquela paralisia para poder caçar. E estava ali a comer melgas, mosquitos e moscas, umas atrás das outras. E aranhas.

Era amiga osga?

Chupa o dinheiro.

O que somos nós senão osgas da sociedade? Há muitos anos fui- Parados tanta vez ...eu sou tão totó, que há muitos anos- A tentar comer ...fui chamado por uma ex-namorada para ir matar uma osga que lhe estava a aterrorizar a sala da sua casa nova. E eu fui.

E mataste a osga?

Eu acho que sim, infelizmente. Eu não mato nada, eu nem melgas. Mas deu muito trabalho. Não.

Eu faço às melgas a mesma coisa que me fazem a mim, eu chupo-lhes o sangue.

Zero retorno. O que é que tu fazes às osgas? Desculpa.

Às melgas.

Às melgas. Ah é? Gostas? Eu sou tão bom com os animaizinhos, até com as melgas, que eu tento convencer as melgas que o meu sangue não presta.

Mostras as análises.

"Não, a glicose está muito alta. É muito doce, depois faz-te mal também".

Estou cheio de anemia.

Eu não consigo fazer nada. Eu costumo dizer que sou sexy apenas para dois tipos de seres: idosas e melgas. As melgas adoram-me, não há nada que eu possa fazer. E a propósito das idosas, diz lá, o que é que aprendeste com as idosas e os idosos? O que eu aprendi com os meus patients? Eu acho que fui levado para esta pergunta porque apesar de tudo, tenho um lado sensível e depois, por outro lado, sinto o peso da idade. É como diz o Woody Allen: "A única coisa que me interessa é o futuro, porque é o sítio onde vou viver". E o meu futuro é: Sombrio ...se Deus quiser, chegar à terceira idade, chegar à velhice. Eu fiz recentemente um projeto chamado Caixa Negra: Arca de Memórias Açorianas, em que em cada ilha dos Açores, eu e um grande amigo, genial fotógrafo, Luís Godinho, que partilhava a autoria disto comigo, sentávamo-nos com representantes da terceira idade e portanto, estávamos com um velhinho ou uma velhinha em cada ilha, às vezes duas. No Corvo, estivemos com duas grandes amigas, septuagenárias, uma delas, infelizmente, a dona Maria Fátima, faleceu há poucas semanas. Eu tinha 25 perguntas e eu colocava os mesmos tópicos a toda a gente, o Luís fotografava-as e enquanto as fotografava, ia conversando espontaneamente com estes protagonistas. E a ideia aqui era criar uma espécie de pequena arca, em que vais conservar a sabedoria destas pessoas com quem nós devíamos estar todos a aprender e que, na verdade, infeliz e ironicamente, o que acontece, pelo menos na sociedade ocidental, é que fugimos dos nossos velhos como o diabo da cruz. A publicidade não tem velhos. A não ser que seja daqueles Lindora ou Azónia. Pois é, os lares não têm visitas, ou muitos lares não têm visitas. Encaramos a morte como uma coisa quase vergonhosa. Não queremos sequer pensar nisso. E uma das conclusões que eu tirei, até porque agora estou a escrever um livro homônimo a partir desta série documental, é que há uma diferença evidente entre esta velhice Felizmente ainda entre nós, na maioria dos casos, e a nossa geração e as gerações abaixo. Eu tinha perguntas como, por exemplo: qual é o seu maior arrependimento? Se pudesse trocar de vida com outra pessoa durante 24 horas, com quem gostaria que fosse? Qual é o seu sonho que ainda tem por realizar? Invariavelmente, a resposta a estas perguntas era: "Não gostava de trocar de vida com ninguém. Está tudo feito. Acho que está tudo feito, não deixei nada por fazer." Eu acho que isto mostra, não significa que estas pessoas estejam cheias de si, de tudo. É o contrário. Tinham as expectativas mais baixas, muito mais moderadas. Passaram por dificuldades, genericamente, muito maiores. Muitas destas pessoas de 70, 80. O nosso protagonista mais velho, que entretanto também partiu, tinha 92 anos quando falámos com ele, Dr. Álvaro Mojrdino. Muitas destas pessoas passaram, literalmente, por miséria, terremotos, necessidades de imigração e depois chegaram a um ponto da vida que estão satisfeitos com aquilo que conseguiram, com aquilo que atingiram. E acho que isso é logo uma diferença evidente para os dias de hoje, onde se vive numa permanente insatisfação e numa permanente competitividade, mesmo que as pessoas não queiram assumir ou não entendam isso, por causa do que, entre muitas coisas boas, há uma coisa horrível que a internet trouxe, que as redes sociais trouxeram, que é nós estamos sempre a ver-nos refletidos nos aparentes sucessos e alegrias dos outros. Quando, na verdade, as pessoas só partilham um cenário, partilham uma ilusão. Ninguém tem vidas assim tão frescas, fofas e cheias de filtros como os influencers mais bem-sucedidos.

Sim, e mesmo que tenham, é a vida deles. Ou seja, nós temos é que nos preocupar com a nossa, aceitar a nossa, trabalhar a nossa e as nossas próprias.

Então eu sinto que aprendi, ou pelo menos estou a tentar aprender com essa experiência, com essa homenagem que eu e o Luís Godinho quisemos fazer à terceira idade açoriana. Aprendi, por um lado, a relativizar, ou estou a tentar aprender a relativizar, e por outro, fiquei muito inspirado por esse contentamento que vem de: eu dei o meu melhor e a vida deu-me em troca aquilo que achou que devia dar. E é assim que as coisas têm de ser. Basicamente, as pessoas querem saúde e mais anos, e não têm. Estão satisfeitas com o ponto onde estão.

E será que nós não chegamos a essa idade, a maior parte de nós, com esse sentimento de satisfação? Porque enquanto tu és mais novo, tens sempre coisas para fazer, mas chega uma altura que tu ficas naquela de: "Epá, já está tudo".

Ainda ontem ou anteontem, um amigo meu partilhou comigo um artigo do New York Times precisamente sobre a escala de felicidade ao longo da nossa vida. Isto tem a ver com sondagens que foram feitas, salvo erro, a 200 mil pessoas nos Estados Unidos e que foram feitas com intervalos de 10 anos. E, por acaso, uma coisa que eu achei curiosa é: a partir dos 50, a maioria das pessoas, tornamo-nos mais satisfeitas. E há uma fúria antes, há uma perseguição de sonhos, de objetivos, quando somos mais novos. Mas uma conclusão chocante deste censo mais recente é que nos últimos 10 anos, a taxa de felicidade, que normalmente estava ali no seu pico, na adolescência e nos 20 e início dos 30, a taxa de felicidade das pessoas nessas faixas etárias, pessoas muito novas, baixou drasticamente. E o que é que mudou o mundo nos últimos 10 anos?

As redes sociais.

As redes sociais, sobretudo. As redes sociais, depois, claro, o Covid, claro que também teve um grande impacto. As dificuldades financeiras, o fato de as gerações de hoje. Nós chegamos a essa conclusão em Portugal aqui há um par de anos, os miúdos que estão a nascer agora são os primeiros que, de certeza absoluta, não vão superar a capacidade financeira dos pais, quando fazemos a média. É a primeira vez que isto acontece desde que vivemos em democracia. Portanto, todo esse peso, o aquecimento global e a sensação de que o mundo está a ir para o brejo, como diziam antigamente no Brasil. Obviamente que todos esses fatores juntos, não são só as redes sociais, mas estão a fazer com que as idades onde éramos mais felizes, porque também somos mais ingénuos, temos mais vigor e temos a oportunidade de sonhos, as pessoas dessas idades nunca estiveram tão deprimidas, tão ansiosas, tão frustradas.

Eu no outro dia estava-

O que certamente não levará a uma velhice, se calhar nem levará à velhice.

Não, e também não levará a uma próxima geração feliz.

É isso.

Eu no outro dia estava a almoçar e às vezes eu gosto de ouvir o telejornal. Eu tenho o hábito de ter sempre a televisão ligada. Mau ou bom, é um hábito. Mas muitas vezes também desligo e estamos todos à conversa, até por causa das notícias. E eu estava a ver, estávamos a almoçar e as miúdas estavam lá e de repente eu começo a reparar nas notícias e era: Faixa de Gaza, Rússia, Estados Unidos, aquecimento global. E o que me pôs a pensar assim: já passaram por uma pandemia Eu não me lembro, nos anos 80, a gente passou por tanta coisa. O que tivemos nos anos 80?

Era a Guerra Fria.

Era a Guerra Fria.

Só que nós éramos tão miúdos.

E era uma coisa distante.

Os nossos pais, sobretudo, claro, na Europa menos. Embora a Rússia esteja aqui pertinho, em termos relativos. Mas os nossos pais certamente sentiram receio, pelo menos por causa da grande influência americana, que já se sentia na nossa cultura. Foi uma época em que a qualquer momento o mundo podia literalmente ir à vida, porque havia esta tensão permanente entre as duas superpotências mundiais e potências nucleares.

Sim, e os mísseis apontados e não sei mais o quê. Mas também me lembro: anos 80. A Guerra Fria foi em 80?

A Guerra Fria termina com o Glasnost, com a Perestroika.

A Perestroika foi em 89.

A queda do Muro de Berlim é o grande símbolo, em 89. Podemos confirmar na net, mas acho que é em 89.

Sim. Mas nós também tivemos, se formos pensar bem-

O Reagan a dizer: "Mr. Gorbachev, tear down that wall"

Tivemos também Chernobyl, e disso eu lembro-me bem. Eu lembro bem do pânico de Chernobyl. Tivemos Chernobyl, tivemos a Guerra Fria, tivemos o Iraque.

Felizmente não aconteceu nada, tirando tu teres 3,18 metros.

E três pilas.

Três pilas todas pequenas.

Tivemos o Iraque.

Tivemos a primeira Guerra do Iraque em 90 ou 91.

Talvez 91.

Que foi a primeira Arthur Albarrán em direto.

Exato. E é a guerra que faz a CNN, é a primeira guerra que é transmitida em direto.

Exatamente. Eu lembro-me de estar a ver isso. Ou seja, ao mesmo tempo, a ideia que eu tinha que tivemos uma infância tranquila, se calhar não foi assim tão tranquila. Se tu pensares bem.

É como o Luís diz: não havia redes sociais. Ou seja, a informação que chegava a ti era muito pouca e era muito filtrada.

Exato, era isso, era mais filtrada.

Sim, e até pelos nossos pais, ou seja, na maior parte, nem sequer davam muita importância a isso.

Sim.

E portanto, não era motivo de conversa. Hoje em dia com as redes sociais, tu tens acesso a tudo na hora, quando acontece. E há tanta coisa a acontecer. Desculpa.

Desculpa. Estamos perto do final da primeira parte e vamos ouvir o nosso primeiro áudio da minha amiga Noa, cantora, violinista, que tentou responder à pergunta: o que aprendeste com os mais velhos que nunca esqueceste?

Muitos parabéns, o podcast está incrível. Vocês três são demais. Em relação à vossa pergunta, o que eu aprendi com os mais velhos? Acho que vale a pena fazer aqui uma contextualização. Uma pessoa quando não tem filhos, pensa de uma forma, e a partir do momento que nasce a primeira criança, há aqui uma reorganização dos valores e daquilo que nós achávamos que é verdade, relativiza. Neste caso, o que eu aprendi com os mais velhos foi sentir na pele, depois que nasceu a Luz, a minha filha, sentir na pele a importância que é ter uma aldeia inteira a educar uma criança. Antes, eu pensava que era só os pais ou a família mais próxima que poderia ter uma intervenção direta na educação da criança, mas, de facto, depois de a ter, depois de conviver, depois de ela entrar na rotina própria das crianças, ir pra escola e pro infantário, ir pras atividades, conhecer os amigos, de facto, toda gente tem qualquer coisa que educa a criança. Não no sentido restritivo, e de castigar, não é nada desse gênero, mas no sentido de ensinar, de trazer aqui uma semente que vai ajudar a desenvolver a personalidade da criança. E, de facto, é com os mais velhos que eu aprendi isso. É preciso uma aldeia inteira, já dizia o provérbio africano: "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". Um beijinho a todos e espero encontrar-me convosco brevemente.

Excelente final de primeira parte. Vamos para o intervalo e já retomamos isto. Até já pra segunda parte de "Homens de Uma Certa Idade". Ora, aqui estamos nós para a segunda parte. O nosso episódio de hoje é: o que aprendeste com os teus mais velhos que nunca conseguiste esquecer. Terminamos a primeira parte a ouvir a Noa, que deixou uma belíssima mensagem.

Noa, violinista, não é?

Violinista, cantora também, autora do livro "Tu És", que é um livro de poemas para bebês, com poemas da Noa e ilustrações de Lovely Joanne, e também prestes a iniciar a sua tour Saudade. Ela está a fazer 10 anos de carreira.

Que bom.

E é isto. A ideia da aldeia é mesmo fantástica. Deprimo um bocadinho, porque eu não a tenho, mas gostava muito de ter.

As minhas filhas tiveram e têm ainda um bocadinho essa educação da aldeia, porque nós vivemos com elas sempre em vários sítios desses, várias aldeias. Quando a minha mais velha, que já tem 14, era pequenina, e depois nasceu a outra, o conceito da aldeia era mesmo: elas iam à casa da vizinha, da avó, que é pra elas uma avó. Não é de sangue, mas é de coração. Iam lá pra casa, a avó vinha à nossa casa. Eu dizia assim: "Maria Rita, já lanchaste?" E ela: "Não, já lanchei na casa da avó". O contacto com a natureza e com as pessoas. Andavam de motoquatro, andavam de burro. Tinham essa experiência. Mas isto fez-me lembrar aqui outra coisa. Isto pra mim foi um bocado difícil. Às vezes lembrar-me do que eu aprendi custa-me ir buscar as referências, mas há uma coisa que eu acho que aprendi e que todos nós que estamos aqui aprendemos com os nossos pais, que é: isto de ser pai é mesmo difícil.

Só passando por isso. Um dia, quando os nossos pais diziam: "Um dia, quando fores pai, vais perceber".

E é mesmo isso. E não estou a falar dos erros, estou a falar da paciência que é preciso ter pra educar crianças, da paciência que é preciso ter pra não te passares da cabeça com determinadas coisas. E é aí que eu vou buscar mais vezes coisas aos meus pais e à minha mãe. Então quando começam a entrar na adolescência, esquece. E a psicologia explica isto, que o desenvolvimento do córtex pré-frontal não é o mesmo, ou seja, é feito a um ritmo mais lento, se não me engano, do que as próprias emoções. Então as emoções não são filtradas. Por isso aquela ideia de falar antes de pensar. Ou seja, é ciência, eles não fazem por mal, está tudo à flor da pele. E eu penso assim: "Caraças", quando as minhas dizem coisas, a única coisa que eu penso é: "Coitada da minha mãe, deve ter passado por tanto".

Realmente a gente pode ler os livros que quiser, nada nos prepara. Há bocadinho, aqui com a nossa Rita Camarneiro, também do Observador, estávamos a conversar lá fora, mãe recente, e estávamos a fazer um comparativo saudável. Ela perguntou pelos meus filhotes e eu disse: "Olha, recentemente estive com eles o feriado inteiro". E sabes aquelas cenas dos filmes que têm imensa graça? Há um filme, por exemplo, parvo, aquela ideia da troca de corpos. Há um belo dia que o Ryan Reynolds e o Jason Bateman fizeram um desejo estúpido enquanto urinavam pra uma fonte. Um é um playboy, o outro é um pai de família, trocaram de corpos e de repente o gajo que era o playboy está no corpo do amigo e o amigo tem filhos bebês, tens 40 segundos ou um minuto hilariantes na cozinha, porque um bebê está a vomitar e o outro está a tentar enfiar os dedos numa tomada. Eu disse à Rita: "Eu sinto que isso é a minha vida permanente". Dois putos. O mais velho parece ser uma diva por causa dessa questão, porque tem tudo à flor da pele. Ele diz as coisas.

Mas ele nem sequer está na adolescência.

E não pensa sobre elas. Mas no mesmo dia, ele abraça-te e diz que te ama e diz: "Não és mais meu amigo, não quero falar contigo, ficas de castigo". Enquanto que o mais pequenino, com um ano e oito meses, parece que a única motivação que tem é analisar rapidamente todos os passos e descobrir qual a pior coisa que eu posso fazer aqui.

Sim.

Qual é a pior coisa que eu posso fazer aqui? Partir o router do meu pai, vamos a isto. E a Rita disse assim: "Pois, imagino que com duas meninas seja mais fácil". E eu: "Não, ainda bem que dizes isso, não era isso que eu queria dizer. Eu estava só a falar de números".

É igual.

Tu tens um bebê, eu tenho dois. É só isso. Tu então com três, não imagino o que possa ter sido.

E depois foi piorando. A minha terceira foi tipo as outras duas, mas aprimorada. Apanhava às vezes com tesouras na mão, não sei onde é que ela ia buscar. Às vezes estava no pé do caixote do lixo e depois eu ia ao caixote do lixo, tinha metido lá tênis. Merdas assim avulso. Além das vezes, abriu o lábio com oito meses, levou não sei quantos pontos. E acontecem essas cenas todas. Mas mais desta questão emocional, eu lembro-me muito, sobretudo disso, dos mais velhos, da sabedoria. Eu lembro-me muitas vezes dos meus pais e pensar: "Caraças, eles devem ter passado um mau bocado", porque eu fui igual e os meus irmãos também foram iguais. Devemos ter sido muito injustos em vários momentos.

Já que estamos a falar de pais e filhos, vou passar o áudio do nosso amigo Ruben Pacheco Correia, empresário, autor, 27 anos apenas.

E futuro presidente do Governo Regional dos Açores.

No mínimo. E o Ruben entendeu a pergunta: o que aprendeste com os teus mais velhos que não conseguiste esquecer, como sinônimo de pais. Portanto, parece-me perfeito.

O que aprendi com os meus pais que não consigo esquecer? Muitas coisas, mas a que fica na cabeça é, imaginem, a famosa lição de não colocar o dedo na tomada. Ao longo da vida, comecei a pensar se na prática, essa expressão não seria uma metáfora pra evitarmos fazer coisas perigosas ou arriscadas, embora às vezes a tentação de testar os limites, confesso, seja irresistível. No entanto, como sempre fui bastante curioso, tive mesmo que colocar o dedo na tomada na minha infância pra perceber na prática que afinal, os nossos pais têm sempre razão. E com o passar do tempo, essa razão vai ganhando cada vez mais importância na nossa vida e a tomada vai deixando de ser desejada.

Que bonito.

Ruben, autor de "Rabo de Peixe: Toda a Verdade", que já vai com três edições.

Já?

Três edições? Espetáculo. Parabéns!

E pra mim, tudo que seja sobre o Rabo de Peixe, séries, livros, músicos como o magnífico Romeu Bairros, é muito bem-vindo. Estamos a falar do que aprendemos com os nossos mais velhos, que nunca conseguimos esquecer e estamos a falar eu e tu, Jorge Ribico, porque o Marco Arraz não aprendeu nada com os mais velhos.

Estou deliciado a ouvir-vos, porque há algum sono também, o senhor está a mandar sono.

Está mais calmo este programa. Mais sensível. Mas também é preciso.

Eu vou quebrar aqui um bocadinho esta vossa onda do Ruben, porque eu acho que o que eu aprendi com os meus pais, acima de tudo, foi não pensar como eles

Sim.

Em muita coisa. Ser mais tolerante, ouvir mais a razão do outro. O meu pai tinha aquela mentalidade de que o que ele diz é que é a verdade absoluta e é aquilo que prevalece no mundo. Das coisas boas que eu aprendi com ele, foi ser pontual e ser muito organizado, o que em excesso também é mau. Tudo em excesso é mau, o extremismo é sempre mau. Mas acima de tudo, aprendi que há certos comportamentos que eu não quero mimicar, não quero repetir, certas atitudes que eu não quero ter que o meu pai tinha conosco. E mesmo a minha mãe, a minha mãe era uma pessoa muito afetuosa, muito de beijinhos, muito emocional. E foi isso que fez com que o meu pai tivesse esta carta branca de às vezes ser extremamente agressivo com os filhos e muito autoritário. Ela também não soube pôr travão nisso. E fazia sentido, naquele tempo eram coisas-

Lá está, e não sabes tu, se calhar, da missa a metade.

Sim.

De como é que era a relação deles mesmo na intimidade.

Se eu falasse com o meu irmão mais velho, se calhar tinha histórias para me contar. A minha irmã mais velha já me contou coisas. Eu falo da minha própria experiência. E acima de tudo, aprendemos sempre coisas com os mais velhos. Eu aprendi com o meu pai uma coisa que pra mim é fundamental, que é respeitar os mais velhos, que hoje em dia acho que não há muito essa noção, as pessoas não respeitam os mais velhos. E quando digo os mais velhos, imagina, eu que estou na faixa dos 50, há miúdos com 20 e com 30 que não respeitam a malta que tem 50. Eu acho que há sempre um estatuto de estares cá há mais tempo vivo e a sobreviver, e só por isso, tem que haver respeito das gerações mais novas.

Só por estares vivo no mesmo tempo que ele.

Mas é uma questão de educação básica.

Sim. Eu estava me a lembrar, estavas a falar dos pais. Claro que nós vamos buscar as referências, o que aprendemos com os mais velhos, vamos buscar aos pais. Mas há aqui duas: eu levei uma vez ao meu podcast, "Só Somos Todos Malucos", o senhor Baião, pai de dois outros Baiões, que eu também sou Baião, mas não somos da mesma família. E este senhor é muito engraçado, porque os filhos estão ligados a uma corrente mais holística. Um é da Zen Family, eles promovem viagens a sítios como a Índia, Bali, Vietname, estão muito ligados à comida consciente ou ioga, etc. O outro, o Vasco, é professor de Tai Chi, Chi Kung, foi um cara que mudou completamente de vida. E os pais destes meus amigos são alentejanos e pessoas muito simples. Mas quando os filhos começaram a enveredar por este caminho, eles começaram também a entrar nesta alimentação consciente. E então o senhor Baião tem 80 e tal, e quando foi o podcast, ele levou para lá pulseiras feitas com caroço de azeitona, que foi ele que fez, e contou a história dele, de coisas como as pessoas no tempo dele viviam pro dia a dia. As pessoas viviam muito pro dia a dia. E que muitas vezes ele trabalhava pra comer, ia trabalhar pro campo e no campo comia a fruta que havia lá e isso era o suficiente pra comprar um pão, e o dia estava feito. A contar como foi registado, tipo ele foi pro registro, aquela brincadeira que a gente diz: "Foi pro registro de bicicleta". Ele foi pro registro de bicicleta. A escola também estudou mais tarde e eu acho que o que tu podes aprender com essas pessoas mais velhas é que-

O privilégio que tu tens hoje em dia.

Sim, o privilégio que tu tens hoje em dia e sobretudo a importância que é viveres o dia a dia. Claro que nós temos, podemos e devemos fazer planos, mas o engraçado é que ele vive ainda nesse registro do dia a dia. E eu acho que tu, quando chegas a velho, e não sei o que é o conceito de velho, eu acho que isso varia pra cada um. Mas tu quando chegas a uma certa idade, acho que voltas a viver este registro do dia a dia, ou pelo menos devias viver este registro do dia a dia. Eu acho que isso é o que nós podemos aprender mais com os mais velhos, exatamente.

Isso é bem bonito mesmo.

De viver este registro do dia a dia.

E se calhar fechávamos aqui, não?

A segunda parte, temos que fazer mais uns minutinhos para não sermos multados pela ERC.

Pois.

Ao contrário, por tempo de menos.

Essa mesma, multam por tudo e por nada.

Eu acho que a primeira vez que uma pessoa bastante mais velha me disse algo que me ficou gravado, foi o meu avô paterno, avô Carlos, Beirão, agricultor. Meu avô e a minha avó acordavam às 05:00 para irem lavrar umas terrinhas que eles tinham em Vila Nova de Tazem, um lugarejo onde o meu pai nasceu. E o meu avô, eu não o conheci muito bem, porque o meu avô quando morreu, eu estava na universidade, já tinha alguma idade. Mas eu o conhecia ano sim, ano não, que era quando íamos de férias. E eu era muito pequeno, e depois quando era adolescente, era estúpido. Também não queria estar a ouvir o meu avô, desperdicei tempo muito valioso. Mas quando eu fiz 10 anos, calhou que estávamos lá na aldeia, e o meu avô, que tinha estas características, quarta classe, homem do campo, disse-me: "Arranja uma coisa que gostes de fazer". Ofereceu-me uma harmônica

Muito bonita, porque ele tocava e até era da festa, ao contrário do meu pai. E ele deu este conselho: "Arranja uma coisa que gostes de fazer e nunca mais trabalhes na vida", que é uma coisa que eu sinto que me aconteceu e que só já nos meus 30 e qualquer coisa é que descobri que é uma frase de Confúcio, o grande filósofo chinês. Coisa que eu duvido que o meu avô tivesse qualquer ideia disso. Acho que é uma sintonia cósmica e é uma coisa que ele aprendeu sozinho. Ele gostava genuinamente do que fazia. Mas é um grande conselho: arranja uma coisa que gostes de fazer e nunca mais trabalhes na vida. A maioria das pessoas, infelizmente, ou um grande número de pessoas, encara o emprego como um sacrifício, é uma coisa que eu preciso de fazer pra pagar contas. Eu acho é que podes fazer uma coisa pra além disso, porque muitas vezes as pessoas podem ter essa impossibilidade de fazerem aquilo que gostam no trabalho, mas têm que compensar fazendo o que gostam noutra área qualquer. É o que eu digo: se tu no teu trabalho não consegues mudar e não gostas, tens que encontrar aquilo que tu gostas de fazer. O teu propósito tem que estar sempre presente de alguma maneira.

É o que eu digo sempre, até em espetáculos de rocha inácio eu digo isso: todas as pessoas têm um dom e têm a vida toda pra descobrir aquilo que realmente gostam de fazer e aquilo que as faz feliz. Nunca é tarde pra isso, mas pra isso também têm que estar disponíveis a arriscar. As pessoas também às vezes acomodam-se muito pela vida, pela sociedade, pelo preço das coisas, pela dificuldade, acomodam-se muito a ter que pagar contas e a ter que criar filhos. E depois às vezes esquecem-se de: "Então e eu? E aquele sonho que eu tinha e aquela vontade?"

E depois andam a correr atrás do prejuízo. Há só uma coisa que eu gostava de dizer do senhor António Baião, que eu estava a falar do podcast, que é o pai do Luís e do Vasco Baião. O senhor António tem uma frase, que deu o título ao podcast, que é o lema de vida dele, que é: "Nascer alegre e morrer contente". Que espetáculo! Ou nascer contente e morrer alegre, vai dar ao mesmo, na realidade. O que ele diz é: tu nasces, és criança e vais sorrir muitas vezes e que na tua morte, que seja também assim. Esqueço-me de quem é a frase, mas fez-me lembrar: a ideia aqui é morrer jovem o mais tarde possível. Sim. Terminamos assim a nossa presença na rádio.

Há pessoas a chorar.

Foi o nosso programa talvez mais sério, no bom sentido, até agora. Mas calma, falta a terceira parte exclusiva do podcast. Não sei bem como, mas eu devo-te conseguir chegar à pornografia. Dos velhos badalhões.

Sim.

Olha, eu aprendi muita coisa com mais velhos em filmes porno. Ai, meu Deus, que horror!

Por amor de Deus.

Como assim? Descubram no podcast. Até já.

Homens de uma certa idade.

Há três semanas vocês não falavam de pornografia.

Aqui estamos. Sobre o tema, Borges? Qual é o tema? O que é que aprendeste com os teus mais velhos que nunca conseguiste esquecer?

Raminhos, tem a palavra. A atores pornográficos mais velhos, o que é que tu aprendeste?

Há uma atriz que é bué da sexagenária. Há um filme que se chama: "I was 18 fifty years ago". "Eu tinha 18 há 50 anos".

Estou-me a sentir tão estúpida.

Eu nunca vi. A sério, o meu limite está: eu gosto de MILFs e cougars, não passo disso, não passo de cougars.

E então?

Pronto, são filmes que... O Raminho já vai às greihs.

Faz só um resumo. Já estou a perceber que é uma senhora muito velha, é isso?

Sim.

Tipo 80 anos?

Trabalha num centro de dia.

Trabalha num centro de dia.

E vai o rapaz lá ao centro de dia, o enfermeiro. Estava a correr tão bem. E ela diz: "Estou aqui, não me consigo levar."

Uma ajuda.

"Duma ajuda. Pode-me ajudar aqui a lavar-me que eu não consigo?" E ele vai buscar a esponja. Mas de que forma é que isso é excitante, foda-se? A esponja.

E lava a senhora.

E lava a senhora, mas ela entretanto começa a fazer outras coisas. Ai, meu Deus do céu. Tira a dentadura. Não!

Portanto, tu estás à espera de quê? Também de usar as dentaduras. O que é que tu aprendeste com isso?

O que eu aprendi com isto é nunca ir pra um centro de dia.

Nem dar banho a senhoras mais velhas.

Há uma coisa que eu gostava de dizer.

Mal-intencionada a senhora.

Inventei tudo. Menos o título do filme. Existe. Existe, esse título existe, que eu já tinha partilhado contigo. Também há um excelente, só conheço o título, juro, chama-se: "Festa de Anos da Avó".

Chama-se Festa de Anos da Avó?

Festa de Anos da Avó. Está na secção Fora de Normal do Videoclube de Nós. Eu queria dar umas palavras a um amigo de quem sinto muita falta. Eu quando, ali nos meus 30, fui muito próximo, no fim dos meus 20, início dos 30, fui superpróximo de um homem maravilhoso que podia ser meu pai, era sexagenário, Vicente Jorge Silva, grande jornalista, vulto dos média nacionais, fundador do Público, da Revista do Expresso, melhor amigo madeirense que eu já tive. E o Vicente já não está entre nós, enfim, morreu de cancro, como está destinado a tantos, e era, sem exagero, mais novo de cabeça do que eu. Eu adorava estar com o Vicente, com o seu chapéu à Indiana Jones, com o seu sentido de humor desbragado. Um sedutor

A mulher dele era linda. Vivia numa casa maravilhosa. Eu não sei como é que se chama a rua, é aquela rua que vai do Rato à Estrela, se calhar chama-se Rua do Rato à Estrela. Nós íamos jantar com muita frequência a um belo restaurante italiano e depois muitas vezes acabávamos em casa do Vicente a beber um grande uísque e a ler poesia em voz alta. Ele recomendava-me livros, recomendava-me filmes. Era um apaixonado por cinema, realizou um filme muito fixe chamado "Porto Santo". Era apaixonado pelos Açores também. Fez uma versão moderna das "Ilhas Desconhecidas" do Raul Brandão, na qual tive o prazer de participar. E o Vicente foi uma pessoa que me ensinou que eu tinha que ter muito mais amigos desta idade. E ele falava, porque ele lembrava-se desse tempo, de ainda ter participado em tertúlias, nas chamadas tertúlias. Cafés onde a malta se reunia e onde pessoas com interesses artísticos de várias gerações se conheciam umas às outras e se estimulavam umas às outras.

Tu não tens isso.

E tu não tens isso.

O que parece que tens é gerações umas contra as outras.

Exatamente. O que há hoje em dia é clivagem, e não há conhecimento, e não há esse estímulo. Eu só tenho outro amigo, que já está nos 70, que é o professor Fernando Casqueiro, com quem eu fiz um projeto chamado "Conta-me uma História". Outro homem que o seu chapéu é Indiana Jones. Ainda hoje joga ténis duas vezes por semana, bon vivant, ótimo garfo, no seu tempo campeão nacional de danças de salão, músico, toca qualquer coisa. Estes homens são inspirações, são ótimos exemplos do: a ideia é morrer jovem o mais tarde possível. Eu gosto imenso de pensar neles quando me sinto mais down. Eu quando tinha 17 anos dei uma entrevista para o único semanário açoriano, que já nem existe. E eu acho que já era um tipo tão melancólico na altura que o destaque da primeira página quando essa entrevista saiu, porque eu tinha ganho um concurso de jornalismo juvenil, uma coisa a nível nacional, é por isso que fui entrevistado. E depois o destaque da primeira página era: "Luís Filipe Borges, 17 anos, que parece 71".

A sério? Que lindo!

Resumindo e concluindo, até porque vamos acabar mais cedo hoje. Precisamos de amigos mais velhos, precisamos de tertúlias.

Sim.

E precisamos de morrer jovens o mais tarde possível.

Há uma expressão que é muito certa, que é: envelhecer é inevitável, ficar velho é opcional. E acho que é um bocadinho por isso.

Muito fixe.

E nós hoje, eu acho que se tu fores ver, eu estava a pensar: que velhos é que nós vamos ser? Que velhos é que nós vamos ser?

Eu acho que vou ser um velho que não vai falar muito.

Mas isso é o que já és.

Sim, já sou um velho que fala pouco. Eu gosto sempre mais de ouvir. Mas eu vou vos confessar uma coisa: eu cada vez mais tenho menos vontade de fazer aquilo que faço. Eu cada vez mais tenho vontade de me retirar para um canto, mesmo à velha, ter o meu quintalzinho, desligar-me das redes sociais, ter uma vida completamente tranquila e se calhar morrer mais jovem dessa maneira, porque o mundo como andamos hoje em dia e as notícias e tudo o que está a acontecer, tu vais envelhecendo. Cada vez que tu fazes scroll e tu vês como o mundo está violento, ódio, eu sinto-me a envelhecer cada vez mais e a ter cada vez menos paciência para isto. Imagina, um gajo luta para fazer as pessoas rir e divertir as pessoas e dar alguma alegria e pegar nestas notícias que são uma merda, e desculpem lá, que é a primeira vez que digo isto, mas chateia-me, isto é uma merda, e tu tentares aligeirar a coisa. Neste momento, o humor é uma caça às bruxas. És preso, se for preciso. O que é que nós andamos aqui a fazer? Eu ando aqui há 30 anos a fazer humor de uma forma socialmente consciente e sempre naquele espírito de missão de levar as mensagens certas às pessoas, de inclusão, de amor. Ajudem, sejam felizes e façam felizes os outros. É isto, tão simples quanto isto. E as pessoas estão cada vez a caminhar para o contrário. Chega uma altura em que um gajo, depois de 30 anos, está cansado e pensa assim: "Foda-se, que seja a nova geração agora, que tome conta disto". Um gajo está aqui 30 anos a puxar por isto, a puxar pelas pessoas. Pensem por vocês próprios, sejam felizes e ajudem, olhem à vossa volta. E está cada vez pior. Eu acho que vou ser mesmo um velho que vou-me retirar e vou ter gajos da CMTV e da SIC a bater-me à porta para fazer notícias.

Vai viver para Barrancos com o Zé, aquele que ganhou o Big Brother, que também desapareceu, o Zé Maria.

E eu vou espantá-los à caçadeira.

Falou pouco, mas falou bem. Vamos terminar com o áudio de um magnífico escritor, que tive a oportunidade de te apresentar recentemente. Chama-se Pedro Almeida Maia, que está com o seu último romance a sair, "Condenação", mais uma vez baseado numa história verídica. Um gângster açoriano envolvido num caso que fez muita notícia nos Estados Unidos, na altura da Lei Seca, e o Pedro respondeu desta forma à nossa pergunta de hoje.

Olá a todos, parabéns pelo programa. Apesar de ter preferido quase sempre conviver com os mais velhos, eu acho que consegui a proeza de esquecer os grandes e os maiores ensinamentos que me deixaram. Não sei se tem a ver com essa forma acelerada de viver que temos hoje em dia, provavelmente é esse o motivo. Mas restam algumas máximas, aquela máxima de: se eu tivesse a tua idade e soubesse o que sei hoje. Hoje em dia aplico isso, penso isso tantas vezes: se eu tivesse menos 20 anos e soubesse o que sei hoje, as coisas diferentes que faria. A começar pela maneira como se tratava o dinheiro e como se tratava as propriedades. Lembro-me do meu avô paterno dizer: "Podes não ter dinheiro, mas se tiveres um pedaço de terra, tens tudo". E eu acho que ignorei isso durante uma boa temporada. Mas também há outras coisas boas. A minha mãe incentivava-me a fazer coisas diferentes e, por exemplo, aquela velha história de não gostares de um determinado estilo musical ou fosse o que fosse, ela dizia: "Faz a tua própria música." E isso penso que também me incentivou a criar e a fazer coisas nas artes que acho que fizeram, de certa forma, o que sou hoje.

E antes de ser um grande romancista, o Pedro era músico e vamos terminar com música, como é costume. Hoje, com um valente idoso, o mítico Johnny Cash, que gravou muito perto do fim, um tema de uns rapazes que podiam ser filhos ou netos dele, os Nine Inch Nails, um tema chamado "Hurt" e fez esta absoluta maravilha. Até para a semana.

I hurt myself today. To see if I still feel. I focus on the pain. The only thing that's real. The needle tears a hole. The old familiar sting. Try to kill it all away. But I remember everything. What have I become? My sweetest friend. Everyone I know goes away in the end. And you could have it all. My empire of dirt. I will let you down. I will make you hurt. You stay the hell away from me, you hear? I wear this crown of thorns. Upon my liar's chair. Full of broken thoughts. I cannot repair. Beneath the stains of time. The feelings disappear. You are someone else. I am still right here. What have I become? My sweetest friend. Everyone I know goes away in the end. And you could have it all. My empire of dirt. I will let you down. I will make you hurt. If I could start again. A million miles away. I would keep myself. I would find a way.

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.