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A esta hora desfazemos a Ideias Feitas com Alberto Gonçalves. Viva, Alberto. Quero te comentar hoje as declarações de Pedro Nuno Santos numa conferência sobre transportes em Lisboa. Que declarações foram essas?
Já lá vamos. Olá, Luís, boa tarde. É engraçado que nesta altura o que está a acontecer são más trapalhadas e com uma intensidade até nunca vista, que envolvem o PS e os senhores das luminárias do PS. Temos este caso do doutor Costa, primeiro-ministro com o ex-governador do Banco de Portugal e a Isabel dos Santos metida ao barulho. Temos o caso do doutor Costa, presidente da Câmara de Lisboa e os ajustes diretos àquele senhor que entretanto foi secretário de Estado e já não é. Há uma série de coisas por aí a acontecer e, no entanto, as notícias ou a maioria das notícias, e ao que sei a abertura dos noticiários recai sobretudo nos ativistas do clima. Se isto não é feito para distrair as atenções das pessoas do que se passa com o PS e com os governantes que são do PS, não sei, pode ser que seja apenas uma coincidência, mas que parece, parece. Agora, felizmente, também há quem no PS venha ligar as duas realidades, a realidade dos ativistas e lembrar-nos aquilo que o PS de facto é. E essa pessoa é, no caso, Pedro Nuno Santos, que se solidarizou com os ativistas inequívocamente e com as suas motivações. É estranho, desde logo, que um membro do governo se solidarize com pessoas que passam os dias a chamar criminoso e terrorista a um colega seu de governo, no caso o ministro da Economia. Mas enfim, são aquelas peculiaridades em que o PS é pródigo. E Pedro Nuno Santos, além de demonstrar solidariedade nas palavras, parece querer demonstrá-la na prática. E esteve presente nesta conferência em Lisboa dedicada aos transportes, uma conferência mais ou menos de escala internacional, e que veio agora com a história dos comboios enquanto veículo, por assim dizer, nos dois sentidos, para a salvação do planeta, para a famosa transição climática. Portanto, Pedro Nuno Santos não se fica pela retórica, quer de facto estar realmente com os estudantes, aqueles estudantes que não sabem dizer coisa com coisa, mas que dizem querer salvar o planeta e Pedro Nuno Santos está com eles através da promoção da ferrovia. Pelos vistos converteu-se Pedro Nuno Santos, também outra coisa um bocado estranha, mas enfim, mais uma. Até agora conhecíamos Pedro Nuno Santos como o grande impulsionador da TAP. Ou seja, 4 mil milhões foram tão queimados quanto o combustível que os aviões gastam, e os aviões gastam bastante combustível. Como se sabe, são uma forma de transporte particularmente poluente. Mas os 4 mil milhões ou perto disso já lá foram e o Pedro Nuno Santos agora passou para os comboios e para a questão da transição energética e para a necessidade de se fazer frente à emergência climática. Muito bem, as pessoas mudam e ele nitidamente mudou. O nosso dinheiro já lá foi. E agora os comboios são a nova demanda, o novo desígnio de Pedro Nuno Santos. E mais uma vez também, mais um projeto megalómano, que vai correr bem, com certeza, e que mais uma vez vai consumir o nosso dinheiro, como sempre, e Pedro Nuno Santos passará depois para o transporte seguinte. Não sei se depois vai dinamizar a rede de carroças puxadas a cavalo, se as bicicletas, se a trotinete, mas alguma coisa se há de arranjar. O transporte que Pedro Nuno Santos não admite é o automóvel, porque o automóvel é normalmente particular e isso é que não. O futuro tem que ser sempre ou um transporte desgraçado, uma coisa miserável, ou um transporte público. Isso é inegável e com ele é incontornável, é inegociável. Portanto, o automóvel não admite e ele nesta conferência em Lisboa dedicada aos transportes, veio dizer que é preciso tirar as pessoas dos carros. Por acaso parecia mais lógico, mesmo dentro desse ponto de vista, que não tem lógica nenhuma, dizer que era preciso tirar os carros das pessoas. E pelo aumento do custo de vida e dos combustíveis, não será uma coisa muito difícil. Mas não, ele quer tirar as pessoas dos carros, quer deixar-nos a pé. E agora falando um bocadinho mais a sério, isto é o cúmulo da desfaçatez, é o cúmulo da hipocrisia. Nenhum governante se ir anda de um lado para o outro nestas importantíssimas conferências e nestas viagens importantíssimas e relevantíssimas que fazem, nenhum deles se ir anda no meio de transporte e qualquer meio de transporte vagamente ecológico. Andam de automóvel. O Pedro Nuno Santos até é um ministro particularmente conhecido por ser conduzido, não é o único ministro, conhecemos outros casos e alguns infelizmente trágicos, de ministros que são conduzidos para as nossas autoestradas pelos respetivos motoristas em carros particularmente potentes e que às vezes causam algumas maçadas e algumas delas um bocadinho excessivas. E depois Pedro Nuno Santos, para cúmulo, é o ministro que era conhecido por se deslocar de Porsche e depois de Maserati, exceto quando vai a encontros do Partido Socialista, que aí convém mostrar-se mais proletário, pelo menos alguma coisinha menos capitalista. Dizia-se também que o Maserati em que Pedro Nuno Santos se desloca ou deslocava era do pai, com certeza não foi adquirido em negócios ligados a nada que tenha a ver com o Partido Socialista. Dou isto de barato, com certeza que foi tudo muito lícito e muito honesto. Mas a verdade é que dessa fama de se deslocar com carros de luxo, com carros altamente poluentes, ninguém livra Pedro Nuno Santos. Agora, Pedro Nuno Santos acha-se no direito de se poder deslocar nesse tipo de transporte. É um direito que ele, pelos vistos, não alarga aos restantes concidadãos, entre os quais nós, por exemplo. Nós não temos esse direito, não podemos andar nem que seja de Opel Corsa, passe a publicidade, já que fiz publicidade às marcas de luxo, uma marca de uso mais corrente também merece. Nós não podemos andar de Opel Corsa ou com o carro que calha. Mas o senhor doutor Pedro Nuno Santos pode andar com o carro que muito bem quiser. Este tipo de hipocrisia entra numa dimensão que parece quase caricatural. Parece quando nós vemos aqueles filmes de Hollywood, super-heróis e os seus contrapontos supervilões, que são maus, demasiado maus para a verdade e uma pessoa faz aquela suspension of disbelief, aquela suspensão da descrença e aceita aqueles vilões porque estamos a ver um filme, mas pensamos: ninguém na realidade é tão mau ou tão hipócrita ou tão cínico assim diretamente, no mundo real não há disto. Pelos vistos há. Todos os políticos ou a grande maioria tem uma boa dose de cinismo, com certeza, senão não seriam políticos. Mas o Pedro Nuno Santos, e não é caso isolado neste PS e neste governo, mas particularmente este Pedro Nuno Santos, não se distingue muito desses supervilões desses filmes de ficção óbvia. Aqui a realidade acaba por imitar aquela coisa da vida imitar a arte. Isto não é grande arte, é uma arte bastante rasteira, mas a vida imita, pelos vistos, na pessoa deste Pedro Nuno Santos. É de desconfiar sempre, é de desconfiar muito, é de desprezar até qualquer político que peça aos seus cidadãos um esforço que ele próprio não está disposto a fazer. Pronto, isso é adquirido. Agora, a este ponto, quando vemos um sujeito, mais um, a querer que nos desloquemos sei lá como, agora é de comboio, sabe-se lá o que será amanhã, quando ele se desloca com todo o conforto possível, nos melhores meios de transporte possível. Isto é até um bocado pueril eu estar a dizer isto, Sílvia, é um bocado ridículo ter que estar a acentuar estes pormenores, mas a falta de vergonha é tanta num sujeito como este, que vai dizer estas coisas e pior, depois tem público que o ouve e o aplaude. Não digo especialmente na conferência, com certeza, aplaudem por cordialidade, por protocolo, por simpatia, por educação. Mas tem um público cá fora, fora das conferências, tem um público que de certeza acha estas ideias brilhantes, sem colocar em causa, sem encostar à parede o ministro, o tipo de vida e de hábitos e de costumes que tem o sujeito que nos está a pedir estas coisas ou exigir, ele não está a pedir nada, está a exigir que nós deixemos de andar de carro. Ora, o que eu gostava é que o Pedro Nuno Santos, eu não faço nenhuma questão que os meus concidadãos deixem de andar de carro, nenhuma. Há trânsito? Com certeza, faz parte. Agora acho que antes de sequer um cidadão ter que abandonar o seu automóvel, acho que Pedro Nuno Santos devia dar o exemplo e devia abandonar os automóveis todos dele. Quando eu vir, de uma forma continuada, aqueles dias internacionais sem carros, aquelas patetices folclóricas que eles fazem. Não, aqueles espetáculos que eles fazem de chegar a pé ou de bicicleta durante 100 metros, ao longo de 100 metros para serem filmados. Não é esse espetáculo degradante que os governantes fazem. É quando eu vir o Pedro Nuno Santos a viver literalmente sem automóvel, sem recurso a automóvel, sem recurso a meios poluentes, sem recurso aos aviões, incluídos da TAP. Quando eu vir o Pedro Nuno Santos fazer isto de uma forma consequente, de uma forma recorrente, eu aí posso começar a ponderar a hipótese de ele poder ter razão. Não vou abdicar na mesma do meu carro por isso, mas posso passar a respeitá-lo minimamente e a acreditar naquilo que ele diz. Neste momento, não acredito em nada, nada, nada que aquele senhor diz e não o respeito de todo.
É preciso tirar Pedro Nuno Santos do Maserati é o título do podcast de hoje, opinião de Alberto Gonçalves. Está de regresso amanhã. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Luís.