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Últimas ideias Feitas da semana e o Alberto Gonçalves quer comentar na edição de hoje o episódio em que o cantor Dino Santiago acusa um taxista de racismo. O título desta crônica é: "Racismo chamar pateta a Dino Santiago?" Por que pateta, Alberto? Boa tarde.

Olá, boa tarde. Por vários motivos, mas vamos começar pelo fato de eu nunca ter ouvido falar até este episódio do senhor Dino Santiago. Fui ver quem era e vi que é um cantor, é um cidadão português de origem cabo-verdiana. Fui também ouvir, porque eu gosto de alguma música cabo-verdiana e de alguma em particular gosto mesmo muito, dos Tubarões e do Travadinha, que era um violinista cabo-verdiano já falecido, infelizmente. Mas pela música do Dino Santiago, também não fiquei especialmente seduzido. Depois li também que ele é um ativista, que cantou na festa do Avante. Portanto, uma série de outros atributos que também não me entusiasmaram. E depois esta história do táxi, que me fez a princípio ficar curioso, porque podia ter sido realmente um ato racista, óbvio, mas depois, se escalpelizarmos todo o assunto, vemos que de racismo ali há muito pouco ou absolutamente nada. O que vemos, primeiro pelo texto que o Dino Santiago publicou, salvo erro, no Instagram, e depois pelo vídeo que ele divulgou hoje ou ontem à noite, em que ele esteve a filmar a própria conversa dele com o taxista em questão. Não se vê ali qualquer espécie de racismo. Vê-se um taxista, um senhor já de uma certa idade, que se desculpa dizendo que já estava no fim do seu turno e que estava só à espera de ir buscar uma senhora ao Cais do Sodré e que só levaria alguém se fosse para aquela zona. É possível que o senhor, quando soube que o destino era a Amadora, que de madrugada tenha evitado ir e isso por razões que não se prendem certamente com o racismo, mas prendem-se, com certeza, com insegurança e com outros fatores. O que se conclui disto é que, pelo menos do texto do senhor Dino Santiago e do vídeo que o senhor Dino Santiago partilhou, é que o senhor Dino Santiago aproveitou uma coisa absolutamente banal. Mesmo que o taxista fosse incorreto, eu já fui alvo de vários taxistas incorretos, acho que todos nós já fomos, ou taxistas que inventam uma desculpa para não nos levarem a um certo destino ou que nos levam muitíssimo contrariados, também já me aconteceu e já aconteceu a todos, com certeza. Agora, de racismo ali não havia nada. O senhor Dino Santiago aproveitou uma situação para jogar aquilo que os americanos chamam de race card, a carta racial. É uma carta que costuma ser um trunfo no jogo público de hoje em dia. E com isso conseguiu, pelo menos ser notado. Foi notado por mim. Juro que nunca tinha ouvido falar no senhor. Foi notado por mim, foi de certeza notado por muitas outras pessoas e mereceu aplauso de muitas outras que provavelmente já o conheciam e acharam por bem embarcar nesta história, tomá-la exatamente por aquilo que o senhor Dino Santiago disse, levar o que ele disse à letra e aceitar sem mais, sem questionar, sem hesitar, que o senhor foi alvo de um ato absolutamente racista que ninguém consegue descortinar. O senhor fez aquilo ao jogar a carta racial, fez aquilo que se faz hoje em dia ou que muitas pessoas infelizmente fazem hoje em dia, seja na questão racial, seja na questão da opção sexual, da identidade de gênero, aquelas coisas todas. Puxou a vitimização. Chamou a si um estatuto de vítima que, francamente, ninguém com algum bom senso consegue ver nesta situação. O que eu vi nesta situação foi um sujeito relativamente novo, no máximo de meia-idade, que tem aspecto de estar bem na vida, ali a confrontar com maus modos um senhor de idade que estava no seu trabalho e que provavelmente não tem uma vida que se compare em conforto ao senhor Dino Santiago, e que o tratou com uma educação que não foi recíproca. Pelo que o senhor taxista falou para o senhor Dino Santiago com os melhores modos que se pode falar numa circunstância daquelas e a inversa infelizmente não foi verdadeira. O senhor Dino Santiago quis puxar esta história porque sabe que esta história, como de costume neste tipo de coisas, dá notoriedade. Dá notoriedade, dá likes no Instagram. Não sei se no Instagram se chamam likes, não conheço a aplicação, mas percebe-se a ideia. Atrai a simpatia de muita gente e ganha uma espécie, pelo menos por uns tempos, por uns dias, ganha um estatuto de mártir, de vítima do racismo, quando obviamente não houve racismo absolutamente nenhum. Este é apenas um episódio completamente insignificante em todos os aspectos. É insignificante em si, é insignificante, espero eu, ou será insignificante nas consequências que tenha. Agora, é revelador, é exemplar, é um sintoma do tempo em que vivemos, em que as pessoas, mesmo pelas mais corriqueiras razões, gostam de se sentir vítimas ou de se fazer passar por vítimas. Antigamente, ninguém gostava de ser digno de pena, era uma coisa que se evitava, só em último caso. Hoje em dia, ser digno de pena, ser vítima, ser uma espécie de mártir instantâneo e descartável, é uma coisa desejável que muita gente procura e atrai as atenções ali, especialmente quando se trata de uma figura que, pelos vistos, é pública, eu não sabia, mas neste tipo de figuras que não conseguem viver à margem dos holofotes, mesmo que sejam os pequenos holofotes portugueses. Estas pessoas fazem tudo para aparecer, é mesmo isso. É normal que apareçam por outros motivos, é triste que apareçam por motivos destes. O senhor Dino Santiago, em vez de se passar por mártir, que não é mártir nenhum, devia provavelmente, talvez, confrontar os taxistas com outros modos e talvez evitar andar a filmar as conversas que tem com eles, digo eu. Não me parece que seja assim andarmos a filmar. Agora, a coisa do telemóvel, toda a gente filma tudo, não me parece que seja um ato de grande educação estarmos a filmar uma conversa, a menos que ele já previsse, antes de a conversa começar, que a conversa ia descambar e que por isso começou logo a filmar à cautela. Agora, em última instância, se ele queria irritar o taxista, se não concordou com o taxista, se não gostou dele, chamasse um Uber, também existem. E teria ficado tudo resolvido e ele levaria dele avante e o taxista era capaz de ficar mais aborrecido por perder uma viagem que afinal acabou por não querer fazer. E está com certeza, imagino, no direito dele. Não sei se há alguma lei que o obrigue a ir para Amadora quando ele está a acabar o seu turno, quando ele diz que está a acabar o seu turno. De qualquer maneira, racismo aqui não há nenhum. Há uma vontade de apelar a causas e a dramas, de criar dramas a partir do nada, que infelizmente hoje em dia é corriqueira e palpita-me que de futuro, pelo menos num futuro a curto e médio prazo, será cada vez mais frequente.

O comentário de Alberto Gonçalves ao episódio em que o cantor Dino Santiago acusa um taxista de racismo.