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Olá Alberto, bem-vindo. "Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves na Rádio Observador.
Olá Ricardo, muito boa tarde.
E queres falar sobre o vídeo de Leitão Amaro.
Pelo menos de início, sim, porque eu ontem, como te lembrarás, previ aqui que depois da tempestade viria o spin governamental, ou seja, o aproveitamento de uma desgraça para visto eterno.
E até explicámos o que era o spin.
Exatamente. O "Ideias Feitas" também é cultura.
Também faz pedagogia.
Exatamente. E pelos vistos, acertei em cheio e também não era muito difícil acertar, porque hoje o país e sobretudo as zonas do país mais afetadas pelo mau tempo, foram presenteadas com um vídeo protagonizado pelo ministro da presidência, António Leitão Amaro, que aparece em mangas de camisa, rodeado por outras pessoas não identificadas, mas que se presume que sejam pessoas que trabalham com ele. E aquilo passa-se numa sala cheia de computadores. O senhor ministro está a falar, está a escrever umas coisas no telemóvel também. Presume-se que está a coordenar todos os esforços de auxílio às vítimas da tempestade. E o vídeo, que quase parece um teledisco, como se dizia antes, um videoclipe muito curtinho, vem acompanhado também de uma musiquinha ao estilo dos telejornais. Tem uns planos gerais, tem uns planos americanos, uns grandes planos e planos até a preto e branco. Só o plano que está na origem daquilo é que é um bocado incompreensível, porque num certo sentido, e não no melhor sentido, é uma peça esquisita, extraordinária, de estratégia política. Ou seja, houve alguém que pode ser ou não ser o próprio senhor ministro, que perante os protestos que se começaram a ouvir a propósito do abandono a que se sentem votados os habitantes de Leiria e de Redosa e de Santarém, de Coimbra, daquela zona centro, alguém achou que aquilo que se devia fazer era o tal filmezinho. As pessoas que ficaram sem telhado ou sem automóvel iam ver o filmezinho, logo que tivessem luz e internet, claro, e depois sentiam-se muito melhor, sentiam que o governo estava com elas, nem que fosse à distância e a fingir que faz coisas no telemóvel. Infelizmente, o truque não funcionou, o vídeo foi gozado por toda a gente e em pouco tempo acabou removido da página do senhor ministro e a justificação dada foi que não teve o efeito desejado. Ou seja, se calhar o senhor ministro estava à espera ter uma aclamação popular nas ruas, de toda a gente ir para as ruas gritar o seu nome, de forma simpática, claro. Se a reação do poder ou do governo à tragédia foi assim ridícula, o ridículo não fica por aqui. Acho que ainda mais ridículas foram as tentativas de explicar a tragédia. Nas televisões vi mais de um comentador atribuir as responsabilidades pelos ventos, estes ventos brutais, ciclónicos, que houve no oeste português, mais ou menos, atribuí-o à extrema-direita, as culpas por esses ventos e, claro, além da extrema-direita, ao senhor Trump, porque estes criticam as alterações climáticas. Isto parece assim um bocado revesado, mas se bem percebo, não sei, a coisa talvez funcione da seguinte maneira: a extrema-direita e o senhor Trump criticam as alterações climáticas, o clima fica furioso ou particularmente furioso com a desfeita e depois resolve-se vingar em Portugal e numa região específica de Portugal. Essa região, Leiria e Coimbra, fica semidestruída. O senhor ministro faz um vídeo vagamente inspirado no "We Are the World" para efeitos de ajuda e muitos dos desgraçados que moram por lá continuam sem luz e água e nalguns casos sem casa. Um dos desgraçados, um senhor de alguma idade, isto só para terminar, Ricardo, falou à CMTV e deu a sua explicação para a calamidade, que aliás não difere muito desta anterior. Segundo esse senhor, a zona de Leiria está a ser castigada por Deus porque há demasiados portugueses a votar no Diabo. E depois, um bocadinho mais pressionado pelo repórter, nem por isso, o senhor acrescentou que o Diabo é obviamente o André Ventura, ou seja, a extrema-direita. Portanto, de uma maneira ou de outra, comprova-se que a extrema-direita é a grande responsável por esta catástrofe natural, se calhar por outras catástrofes naturais, vai-se a ver, e até o meteoro que extinguiu os dinossauros teve intervenção de algum fascista daquela época.
Obrigado, Alberto. Bom fim de semana.
Bom fim de semana, Ricardo. Um abraço.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.