Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Ideias Feitas". Alberto Gonçalves na Rádio Observador, no "Ideias Feitas". Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje estiveste na banca dos jornais, olhaste para a primeira página do "Público" e sentiste algum sobressalto?
Sobressalto é uma maneira eufemística de dizer as coisas. Mas deixa-me começar por lembrar, e eu parafraseando uma personalidade cujo nome não citarei, que a ofensiva israelita sobre Gaza, que ainda decorre, agora está numa fase mais em banho-maria, mas que continua a decorrer, não nasceu no vácuo. E eu estive a retirar aqui alguns dados e entre a retirada israelita de Gaza, que foi em agosto de 2005, e o início de outubro, o 7 de outubro de 2023, o Hamas e outros grupos armados mais pequenos, como a Jihad Islâmica, aquelas coisas, mas sobretudo o Hamas, dispararam nesses anos mais de 20 mil rockets ou foguetes e morteiros contra Israel. Houve incidentes de menor intensidade, com tiroteios na fronteira e infiltrações por túneis, lançamento de uns balões incendiários que provocaram os incêndios no sul de Israel. E houve cinco conflitos de maior escala, escala média ou grande, ou relativamente grande, e depois uns confrontos intermédios. Mas os ataques do Hamas a Israel foram contínuos. Lembrei-me de pesquisar o seguinte: num total aproximado de 6620 dias que decorreram entre a retirada de Israel de Gaza e o 7 de outubro de 2023, nesses 6620 dias, houve 1800 dias em que Israel foi atacado pelo Hamas ou organizações derivadas. Portanto, cerca de 26 a 27% do tempo, Israel esteve sob ataque do Hamas durante esses anos todos. E depois chegou o 7 de outubro. E no 7 de outubro, eu ia dizer que as pessoas sabem o que aconteceu. Infelizmente, muitas pessoas não sabem e algumas acho que não querem mesmo saber e recusam-se a acreditar que 1200 pessoas foram mortas no próprio dia, nos dias imediatos, esmagadoramente civis, homens, mulheres, crianças, velhos. Houve também soldados mortos, com certeza. Naquele festival Supernova, quase 400 pessoas foram mortas a tentar fugir. Houve casos de violência absolutamente extrema, e o extrema aplica-se corretamente. Pessoas foram queimadas vivas, com violência sexual. Depois houve as pessoas raptadas, levadas para Gaza e, em suma, foi o dia em que mais judeus foram assassinados desde o Holocausto, foi no 7 de outubro. E perante tudo isto, no dia que se completam estes anos desde o massacre, qual é a manchete do jornal português "Público"? A manchete é a seguinte: "O 7 de outubro não mudou Israel, acelerou o caminho da radicalização". Portanto, pro "Público", o Hamas aparentemente nem conta para esta história. O que conta é Israel, que pelos vistos já era malvado ou já tinha políticas malvadas por responder moderada e ocasionalmente aos ataques do Hamas, coisa que Israel foi fazendo ao longo desses anos, desde que retirou de Gaza, e tornou-se muito mais malvado e pérfido quando após o 7 de outubro, respondeu de modo mais expressivo, digo eu, naturalmente mais expressivo, a tentar erradicar de vez uma força que está completamente empenhada no genocídio do povo israelita. O Hamas não tem outra função. É uma função que está declarada, que está na carta do Hamas, acabar com Israel e com o seu povo. E é pena que isto aconteça, porque em tempos já remotos, que começam a ser um bocado distantes, mas eu ainda me lembro, o "Público" já foi um bom jornal, já foi até um excelente jornal, um bocadinho antes disso. Infelizmente, ao longo dos anos, foi acontecendo ao "Público" aquilo que imputa às políticas israelitas, a radicalização. Hoje é um folheto tão radical que consegue abordar e pensar o 7 de outubro apenas sob a perspectiva da reação de Israel, naturalmente considerando essa reação absolutamente despropositada e desproporcional, era a palavra que eu procurava, e remove essa reação, a reação israelita, do contexto que a justifica, que a meu ver a justifica plenamente, porque acho que nenhum outro país faria diferente do que Israel fez após tamanha selvageria. E eu aproveito e faço aqui um pequeno parêntesis para informar as pessoas, aquelas que não acreditam, que o 7 de outubro, infelizmente, e até muito por mérito, vamos dizer assim, do Hamas, está plenamente registado. Há sites em que se encontram as filmagens todas. Eu não gosto de ver aquilo, não consigo ver aquilo. Mas quem quiser procurar, pode encontrar na internet, sem grande dificuldade ou sem dificuldade nenhuma, as filmagens do 7 de outubro ou de muito do que aconteceu no 7 de outubro. Mas dizia eu que nenhum outro país faria diferente do que Israel fez após a selvageria do 7 de outubro, com a diferença de que provavelmente nenhum outro país teria tantas cautelas quanto Israel em evitar a morte de civis, mesmo quando muitos desses civis colaboram com os terroristas. E o pior, eu vou terminar, Ricardo, o pior de tudo, muito pior, é que a obscenidade, o caráter abjeto do título do "Público" e a própria disposição do "Público" sobre este tema não são casos isolados. Isto não se reduz ao "Público", antes se reduzisse. E que contra toda a racionalidade, contra todas as evidências, o 7 de outubro abriu as portas e algumas gargantas a um sentimento que pelos vistos continuava por aí e estava latente, tímido, envergonhado. E não foi um protesto pela reação de Israel, pela tal reação desmesurada ou desproporcional de Israel, não. As manifestações de antissemitismo começaram pelo Ocidente fora ainda antes de o governo israelita esboçar qualquer resposta ao massacre cometido pelo Hamas. Foi como se meio mundo estivesse à espera de um pretexto para expressar o que de fato sentia. Foi estranho que esse pretexto para libertar o tradicional ódio ao judeu tivesse sido a chacina de uma enorme quantidade de judeus inocentes. Mas foi assim que aconteceu e é pena, e é uma vergonha que isto esteja a acontecer. E capas como a do "Público" de hoje, eu não consigo encontrar outra palavra, ponderei bastante, mas capas como esta são um nojo.
Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.