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"Ideias Feitas" com o Alberto Gonçalves. O assunto do momento é o tema da crônica de hoje, a abrir a semana, Alberto, o atentado contra Donald Trump. Olá.

Olá, Vanessa, boa tarde. Sim, houve o atentado e houve as reações ao atentado. E das reações, é difícil estabelecer um ranking das mais ponderadas até às mais excêntricas. Eu acho que no meu primeiro lugar das mais excêntricas, está um senhor que eu não conheço de lado nenhum, que apareceu na SIC Notícias, a sugerir a hipótese de o senhor Trump poder ter feito sangue na orelha ao coçá-la. Quer dizer, podia ter ali uma borbulha, uma coisinha qualquer na orelha e ao coçar aquilo fez sangue e, portanto, nem sequer houve atentado. Para já, é o meu primeiro classificado nesse tal ranking. Depois, por aí abaixo, há uma série de opiniões esdrúxulas também dignas de registo, não vou enumerar todas, mas há um conjunto de opiniões que com pequenas diferenças vão mais ou menos todas no mesmo sentido, e esse sentido é o de que aquilo foi uma encenação. Não terá sido exatamente a borbulha na orelha, mas foi uma encenação, ou seja, houve um indivíduo escolhido para dar um tiro, o indivíduo deve ser o melhor sniper da história, que conseguiu acertar numa orelha deliberadamente só para fazer uma ferida de raspão. E houve um candidato a presidente e um ex-presidente que é maluco o suficiente para se arriscar a levar, enquanto mexia a cabeça, a levar um tiro apenas de raspão na orelha, arriscando-se a levar um tiro 2 cm ao lado e a ficar no estado em que ficou um antecessor dele no cargo presidencial chamado John Kennedy. Portanto, essa teoria envolve um conjunto de mini teorias com pequenas diferenças, mas é o conjunto de teorias mais em voga daqueles que desvalorizam o atentado de sábado à noite. E desvalorizam por quê? Desvalorizam porque não gostam do senhor Trump. Eu sei que hoje em dia, deixa-me só fazer um parêntesis, uma pessoa liga as televisões, e eu felizmente faço muito pouco, mas mesmo que não ligue, as imagens aparecem de outras formas, através do Twitter e das redes sociais. E as televisões, não estou a falar só das portuguesas, mas posso falar só das portuguesas, mas no caso das nossas, aparecem comentadores de toda a ordem. Nessa noite, por acaso, estive em casa de pessoas amigas e estava a televisão ligada, corremos vários canais e apareceram-me, não estou a exagerar, 16, 18, 17 comentadores, que eu não conhecia de lado nenhum, não são portugueses, quer dizer, não faço ideia de quem sejam, mas estavam todos, tinham teorias já muito sedimentadas, muito estruturadas sobre aquilo que tinha acontecido, sobre o Trump, e muito poucas eram baseadas em factos, ou seja, naquilo que nós conhecemos. E o que nós conhecemos é que houve um indivíduo que num comício na Pensilvânia, num comício do senhor Trump, subiu a um armazém, a um edifício, uma estrutura qualquer, e com uma arma, conseguiu dar um tiro no senhor Trump, que lhe acertou de raspão. Esses são os factos. E também que os serviços secretos não foram particularmente eficazes na proteção da pessoa que deviam proteger. Mas ouvi dezenas de indivíduos já a esmiuçar isto muito para além dos factos, a fazer juízos de intenções que eu não sei como é que eles conseguem. Como é que eles conseguem? Conseguem, abrem a boca e dizem coisas. Agora, em que é que se baseiam? É que é mais complicado, não faço a mínima ideia em que é que eles se basearam para dizer as coisas que dizem, para falar em encenações e em derivados disso. O que aconteceu foi um atentado a um candidato presidencial, que ainda por cima, não torna a coisa mais grave, nem menos grave, mas é um ex-presidente dos Estados Unidos e é uma pessoa que nas sondagens, mesmo nas sondagens anteriores ao atentado, tinha fortes possibilidades e continua a ter, de voltar a ser presidente dos Estados Unidos, independentemente de se gostar dele ou de não se gostar dele. Agora, o que faz com que tanta gente desvalorize este atentado e tente fazer passar a ideia de não é um atentado, aliás, seguindo os títulos da CNN original e do New York Times e de boa parte dos mídia americanos, que começaram nos primeiros minutos ou na primeira meia hora a seguir ao atentado, tinham títulos também bastante extravagantes, do gênero: "Serviços secretos interrompem comício de Trump", "Trump é protegido por serviços secretos após queda em comício". Coisas assim. Quando já se tinha percebido perfeitamente, e houve esses tiros, não era uma coisa fortuita, não era propriamente um incidente, como vi por aí também dito. Ou seja, esta vontade de desvalorizar o atentado, vem de uma vontade de desvalorizar a vítima do atentado, que é o senhor Trump. E eu acho que essa vontade de desvalorizar a vítima do atentado, ou seja, o ódio ao senhor Trump, que pode ser justificado, pode ser explicado com argumentos, eu aceito isso, mas é esse ódio ao senhor Trump e é essa necessidade que tantos dizem, alguns até já o disseram em editoriais de jornais importantes americanos, de que é preciso travar a candidatura do senhor Trump custe o que custar. Pode ser outra coisa qualquer, mas, a meu ver, é esse sentimento que levou um indivíduo a pegar numa arma e a tentar matar o senhor Trump, para se transformar numa espécie de herói de uma causa qualquer. Vi também alguém dizer, não estou a fugir da conversa, que o discurso de ódio do senhor Trump é que levou ao atentado contra o senhor Trump. Não vale a pena comentar isto. Acho que o discurso de ódio contra o senhor Trump é que faz com que deva haver uma espécie de fila de sujeitos que querem matar o senhor Trump e de interesses que querem ver o senhor Trump morto e eliminado da corrida presidencial e impedido, por maioria de razão, de chegar à presidência. Acho que não só se está a discordar de um candidato ou a achar que as suas políticas são perigosas, são daninhas, são o que quer que seja, são negativas, pelo menos. Não, está-se a demonizar o senhor Trump, aquela coisa do "reducio ad Hitlerum". Ou seja, o senhor Trump tem sido retratado como o Hitler. Ainda por cima, nós já tivemos o senhor Trump na presidência e acho que as ações dele, boas ou más, ou outras assim assim, estiveram muito longe de podermos compará-lo ao Hitler. Acho que não estamos a falar de duas pessoas comparáveis. Mesmo assim, continua-se a fazer a comparação. E ao transformar uma pessoa em alguma coisa que já não é uma pessoa, que já não é um ser humano, uma espécie de monstro, de demônio, de algo que não pode existir, não devia poder existir, está-se a facilitar e a criar o clima, evidentemente, para que aconteça o que aconteceu no sábado.

Não acaba por ser irónico, Alberto, já agora, que Donald Trump

Em relação à questão das armas, como disse o Durão Barroso.

Defendendo a liberalização das armas, tenha sido ele próprio baleado.

A questão das armas levava-nos muito longe, Vanessa, e eu não tenho tempo para isso.

Pode ser tema para outra crônica.

Pode ser tema para outra crônica. Posso dizer só que o Brasil tem uma das legislações mais apertadas em termos de posse de armas e tem uma taxa de homicídio com armas de fogo extraordinariamente e infelizmente muito superior à dos Estados Unidos. É muito mais fácil ter uma arma no Brasil, pelos vistos, do que ter uma nos Estados Unidos, embora as leis digam o contrário. Portanto, não é bem pela legislação das armas. Uma pessoa, se quiser arranjar uma arma, consegue uma arma, como nós vemos, infelizmente, em quatro quintos do mundo. A Suíça é o país que tem mais armas da Europa per capita e não parece que as pessoas se andem a matar umas às outras. Muita gente nos Estados Unidos precisa da arma, dado o isolamento de algumas regiões. Outros têm arma, provavelmente sem precisar ter as armas, mas é uma espécie de tradição local. Quer dizer, há aqui muitas componentes envolvidas e isso é mesmo outra questão, Vanessa. Agora, acho que demonizar um candidato, demonizar um político, cria um clima que faz com que muita gente, alguns um bocadinho mais avariados da cabeça, resolvam passar à ação, da teoria à ação, e tentar eliminar esse político. E foi isso que aconteceu no sábado. E eu acho que pode voltar a acontecer até o fim da campanha. Não estou a ver o senhor Trump desaparecer da campanha ou proteger-se a ponto que os comícios já não pareçam sequer comícios. Ou a segurança é mais apertada e mais eficaz do que foi no sábado. Isto é capaz de voltar a acontecer e, eventualmente, esperemos que não, nem com o senhor Trump, nem com ninguém, que pode acontecer e desta vez que o alvo não seja apenas a orelha do senhor Trump.

O atentado contra Trump e os atentados ao bom senso, título do "Ideias Feitas" de hoje, com Alberto Gonçalves. E amanhã nova crônica, Alberto. Até lá.

Até amanhã, Vanessa. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.