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"Ideias Feitas" com o Alberto Gonçalves. Hoje dás um salto aos Estados Unidos, país que gostas muito, Alberto, sei que sim. E para ti, não é que metade da América descobriu agora que Joe Biden, o presidente norte-americano, não está bem? Olá.
Olá, Vanessa, boa tarde. Sim, gosto dos Estados Unidos, das coisas de que gosto. Há coisas nos Estados Unidos que não gosto, mas em geral gosto. E sim, parece que uma parte significativa da América, talvez metade, contas por alto, descobriu no debate da semana passada, há oito dias, o debate entre o senhor Biden e o senhor Trump, que o senhor Biden não está bem mentalmente, em termos de saúde neurológica, talvez. Como não sou neurologista, não vou arriscar, mas parece que há ali um problema de senilidade. Não vale a pena estarmos a moderar as palavras. E a surpresa aqui não é que o senhor Biden esteja doente ou esteja com problemas. A surpresa aqui é o facto de só agora uma parte das pessoas terem reparado nisso. Eu vou descontar, desde logo, teorias da conspiração, como aquela que reza que os democratas aproveitaram o debate para exibir a senilidade do senhor Biden e assim podê-lo substituir antes de novembro, provavelmente em agosto, aquando da convenção. Vou descontar isto, porque mesmo semelhante teoria não anula o fato de que as manifestações de senilidade, repito, do senhor Biden, já eram do conhecimento público há muito tempo. Toda a gente via, aparecem nas redes sociais, imagens do senhor Biden a fazer figuras que não parecem corresponder às figuras que faria uma pessoa que estivesse no seu estado mental normal, vamos dizer assim, por muito que a normalidade seja um conceito discutível, aquilo não é normal sob perspectiva nenhuma. E o ponto é que as pessoas que sabiam que o senhor Biden estava naquele estado e que tinham notado isso, e que já notavam isso há anos, durante todo o seu mandato, a coisa não é recente, mas parece estar a agravar-se. As pessoas que notavam isso e que sabiam disso, sabiam não graças aos media convencionais, mas graças às redes sociais, sobretudo, em larga medida. Essas redes sociais, o X agora, o Twitter, menos o Facebook, não conheço o Instagram, e há outras redes que eu desconheço também, mais obscuras ou menos participadas, mas as imagens apareciam aí. E se parte das pessoas viam ou não viam as provas do desnorte do senhor Biden, se viam e não queriam acreditar ou acreditavam, isso já não sei, não faço ideia. O que eu sei é que quem sai muito mal disto, para além do Partido Democrata, para além da família do senhor Biden, que devia aconselhá-lo de outra maneira, para além do próprio senhor Biden, coitado, que será a pessoa menos culpada no meio disto tudo, quem sai com uma reputação mais manchada desta história toda é o jornalismo tradicional, ou seja, o jornalismo que se tornou aquele tipo de jornalismo partidário e engajado, que, por exemplo, levou o New York Times a ignorar o debate na primeira página do dia seguinte. Não há uma referência, uma única referência ao debate, e a publicar dois dias depois um editorial a pedir a desistência do senhor Biden. Ou seja, esse jornalismo, esse tipo de jornalismo que tem uma causa, que tem um candidato, no caso, é o grande derrotado nesta história. Os media tradicionais passaram o mandato do senhor Biden a ocultar tanto quanto possível o respectivo estado de saúde. E tudo bem, podemos recuar umas décadas largas e lembrar que já haviam feito o mesmo aquando dos efeitos da poliomielite no segundo Roosevelt, o Franklin Delano Roosevelt. Agora, há uma diferença. O princípio até poderá ser o mesmo, mas é diferente um presidente dos Estados Unidos estar limitado fisicamente, que era o que acontecia com o Roosevelt, e é diferente um presidente dos Estados Unidos estar limitado mentalmente, intelectualmente, cognitivamente. E neste processo, nisto que os media tradicionais americanos têm feito, isto chama-se ocultar informações relevantes para o público. E ocultar informações relevantes para o público, a isto também se chama desinformar. Está muito na moda a palavra desinformação, mas muitas vezes é mal aplicada. Este é um exemplo clássico de desinformação. Ou seja, quando os media selecionam as imagens de Joe Biden, não acho que devam selecionar as imagens em que mostram especificamente que o senhor está mal, mas não deviam ocultá-las. E quando essas imagens que os media tradicionais americanos ocultam estão ao dispor toda a gente em fontes alternativas, essa desinformação que os media estão a praticar é exposta ao ridículo. Acho que não é preciso desenvolver grandes teses para concluir que não faz muito bem à credibilidade do jornalismo mentir e ser apanhado a mentir. Até porque isso já não é jornalismo, é uma espécie de comédia involuntária, que faz uma pessoa soltar uma gargalhada aqui ou ali, mas no fundo é uma coisa de mau gosto. Ou seja, o jornalismo tradicional, se virmos bem as coisas, não está muito melhor que o senhor Biden. E se calhar, pelo contrário, se calhar até pode estar pior. É muito triste. Eu consumi e ocasionalmente consumo, naturalmente, informação americana, mesmo os jornais ditos liberais, no sentido americano do termo, mais à esquerda, como o Washington Post ou o New York Times, o Wall Street Journal menos. Menos, quer dizer, consumo mais até, mas menos à esquerda. Mas era informação que, apesar de tudo, se nós tivéssemos em conta um certo viés, que a informação tem sempre, isso é naturalíssimo, era informação boa. Não me ocorre palavra melhor. Era informação boa. Por muito que não fosse exata, não fosse objetiva, havia uma subjetividade que há sempre. Agora, já não se trata de subjetividade, agora trata-se de ver os principais canais americanos, ABC, NBC, CNN, etc., e os principais jornais americanos, eu prefiro os jornais às televisões, embarcarem numa farsa. E isso é triste para os jornais americanos, é triste para o jornalismo em geral, é triste para os Estados Unidos e é um bocado triste para o nosso mundo, para o Ocidente, porque estas coisas refletem-se, estas coisas contagiam e estas coisas propagam-se. Não ficam lá retidas nos Estados Unidos. É pena que isto esteja a acontecer. O senhor Biden, no meio desta história, também é digno de pena, mas isso é uma questão apenas humana e é triste que isto tenha acontecido, tenha chegado a este ponto, que agora os democratas é uma bota que eles não sabem descalçar ou que fingem que não sabem descalçar, não sei, são as tais teorias da conspiração. A verdade é que aquele senhor não tem condições para ser presidente dos Estados Unidos. Isso já é nítido, já é evidente há muito tempo.
Conclusão do Alberto Gonçalves, o presidente idoso e o jornalismo senil. Alberto, amanhã nova crônica, sexta-feira é a última desta semana. Até lá.
Até amanhã, Vanessa.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.