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"Ideias Feitas". "Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
Hoje queres ir à violência racista e xenófoba na África do Sul.
É, parece que está a acontecer e se calhar para muita gente é uma novidade. Vou só lembrar que até aos anos 1990 toda a gente sabia que a África do Sul era um país inequivocamente racista. Havia o regime do apartheid, que segregava a população negra local, como toda a gente sabe, e além de segregar os locais, segregava também os imigrantes com I, praticava políticas migratórias racistas, nas quais os negros que vinham de países vizinhos eram usados como mão de obra, no mínimo, barata e eram explorados nas minas e na agricultura e por aí fora. Depois do apartheid, nos últimos anos do século XX, houve a transição democrática e houve reformas e novas aplicações do racismo, onde antes se discriminavam negros, passou a discriminar-se brancos e de modo legitimado por leis. Havia leis de ação afirmativa para favorecer a população negra e uma pessoa até pode entender que tenha havido uma espécie de vingança, até certo ponto compreensível, à luz das injustiças do regime anterior. O que está a acontecer agora na África do Sul é mais dificilmente justificável ou não é de todo justificável com o regime do apartheid e com alguma espécie de vingança. O que está a acontecer é o crescimento da xenofobia contra imigrantes de outras nações africanas e que são bodes expiatórios da atual crise econômica. E não se trata daquelas formas de xenofobia e de racismo tal como as conhecemos na Europa hoje em dia e que tanto assustam a ortodoxia no poder e o discurso vigente. Na África do Sul, a coisa não se resume a um partido que questiona a imigração no Parlamento de forma mais ou menos civilizada, nem se resume a uns palpites mais exaltados de uns cidadãos anônimos nas redes sociais. Na África do Sul, infelizmente, a coisa é séria e é a doer. Há protestos nas ruas contra estrangeiros, há expulsões forçadas desses estrangeiros, há milícias organizadas e legalizadas, pelo menos uma delas em partido político recentemente, que intimidam pequenos comerciantes, que montam piquetes à porta de hospitais e escolas para impedir a entrada de imigrantes, mesmo que sejam grávidas, mesmo que sejam crianças, que promovem ultimatos informais de expulsão, estipulam prazos para que determinadas pessoas, determinados estrangeiros sem documentos abandonem o país. E há mesmo desgraçados que vêm de países como o Zimbabué, Nigéria, Moçambique, Malaui e Burundi, que veem os seus negócios vandalizados, que são ameaçados de morte e que às vezes são mesmo mortos. Sob qualquer perspectiva, acho eu, é um clima de terror absoluto e que tem levado muitos milhares de pessoas a fugir do país, isto sob a passividade e provavelmente até o aplauso mais ou menos discreto dos políticos locais. Eu imagino que muita gente, ao ter contacto com esta notícia, cá em Portugal pelo menos o Observador noticiou estes factos que referi, deva supor que há um engano qualquer nisto, porque nas últimas décadas, essa muita gente tem sido ensinada que o racismo e a xenofobia são fenômenos de via única, ou seja, que apenas se dirigem dos brancos ocidentais contra outras etnias e pessoas de origens não ocidentais. Isto passa-se nas universidades, na generalidade dos mídia e no poder político ou em boa parte do poder político. Há uma lengalenga constante em volta da maldade intrínseca dos caucasianos e da inocência inata dos restantes indivíduos. E mesmo no dia a dia, já todos ouvimos centenas de vezes a frase: "Os negros não podem ser racistas." E este não podem é no sentido de que não conseguem ser racistas, não faz sentido aplicar-lhes o epíteto de racistas. Pois bem, eu acho que nem vale a pena notar o brutal paternalismo e o racismo implícito e explícito nestas historietas que nos contam e que no fundo remontam ao "Bom Selvagem" de Rousseau, que é um dos mitos mais racistas de todos os tempos. Os acontecimentos na África do Sul demonstram ou provam, se fosse preciso voltar a provar, que a desconfiança, o ressentimento e o ódio face ao outro, quando os contextos tendem para isso, é uma característica comum à espécie em peso. A brutalidade que está em curso por lá não é herança do colonialismo e do apartheid, como já li em mais do que um jornal estrangeiro. Já vou terminar, Ricardo. Os racistas e os xenófobos da África do Sul são assim por um motivo muito simples: são assim porque são humanos e essa humanidade que os alegados antirracistas deste mundo, e este antirracistas vai entrar aspas, naturalmente, é essa humanidade que os antirracistas deste mundo teimam em negar ao outro, que retratam invariavelmente como dócil, como meigo e com adjetivos que é habitual dedicarmos aos animais domésticos. Tal como nos tem servido ultimamente, e acho que esta é uma moral que podemos tirar desta história, que não é muito moral, mas é o possível. O tipo de antirracismo com que temos contactado nos últimos anos, até às últimas décadas, é a coisa mais racista que há.
Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
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