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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.

Benedita Pais de Vasconcelos, mãe de três filhos, avó de duas netas, herdou o negócio do filho. Normalmente os filhos herdam o negócio dos pais, ou dos avós, ou da família, mas aqui foi a Benedita que herdou o negócio do filho há nove anos, um hostel em Lisboa, e desde há nove anos está no pódio mundial. Ou seja, este hostel está em primeiro lugar em Portugal e em terceiro no mundo, e em nove anos nunca deixou de estar abaixo do top four, dos primeiros e melhores quatro hostels do mundo, numa floresta incrível de hostels, com milhares de hostels. Esta é uma pequena introdução. Bem-vinda aos Imperdíveis, Benedita Pais de Vasconcelos. Posso lhe perguntar como é que se define?

Como é que eu me defino a mim própria? Isso é uma pergunta um bocadinho . Sou uma pessoa lutadora, que não me conformo com as situações que se me deparam no dia a dia. Basicamente, é essa a minha definição. Uma pessoa muito tolerante e uma pessoa que tenta sempre resolver os problemas.

É uma pessoa que põe os meios pra atingir os fins e que aposta muito no staff, que aposta muito em fazer equipe, no team bonding, nos laços que se criam na equipe.

No hostel, eu estou a falar agora exclusivamente no hostel, nós temos um serviço de pessoas para pessoas e, portanto, as pessoas são o principal nesta "indústria". E por isso todo o meu empenho ponho em conseguir formar um staff que queira e goste de receber os hóspedes como se fossem amigos.

Como se fossem família, se calhar.

Como se fossem família.

Benedita, se calhar é isso que lhe dá depois os reviews e que faz com que esteja sempre neste pódio mundial.

É o principal. Quer dizer, há toda aquela parte que é tomar conta de uma casa, que é a parte chata de um trabalho destes. As camas, os lençóis, as almofadas.

Mas tu numa casa onde todos os dias há entradas e saídas.

Tanta roupa de cama nova e milhares de lençóis e milhares de coisas assim. Mas essa é uma parte que é fácil de gerir, a parte da casa grande é uma parte que é relativamente fácil de gerir, desde que a estrutura esteja bem montada. O que é difícil mesmo é ter a certeza que as 17 pessoas que trabalham comigo tenham a vontade de agradar a toda a gente e a vontade de colaborar uns com os outros.

E, na verdade, têm. A verdade é que têm, porque se ficou em primeiro lugar em Portugal e em terceiro no mundo, têm que ter. E, portanto, muitos parabéns.

Obrigada.

Se calhar devia ter começado por aí. Muitos parabéns, porque é uma proeza incrível, porque há mais de 50 mil hostels no mundo, e estou a dizer um número que se calhar não é completamente certo, mas há tantos e tão bons, que não deixa de provocar admiração e fascínio perceber porque é que o seu faz a diferença e está de facto neste pódio. Conte-me um bocadinho como é que começou tudo isto, como é que herdou um negócio do seu filho.

Eu tenho três filhos, todos diferentes uns dos outros, e tenho um filho que às tantas resolveu abrir um hostel. Só havia dois ainda em Portugal e ele abriu juntamente com outro hostel, foram os quatro primeiros em Lisboa.

Isso foi em que ano?

Isto foi há 13 anos, mais ou menos. Coisa com coisa, agora não sei exatamente os anos. E logo na primeira semana abriu cheio e o João sempre esteve nos top 10 também dos hostels.

Em inglês uma pessoa pode dizer: "It runs in the family". Aliás, esqueci-me de dizer que a Benedita tem um lado germânico. Eu acho que esse seu lado germânico, que já falaremos também sobre isso, faz de si também uma gestora muito afinada.

E então, ao fim de quatro anos, o João fartou-se. Disse que estava farto de ser dona de casa e partiu para outras vidas, digamos assim.

E foi para fora do país.

Foi para fora do país. E estávamos em plena crise. Eu, que sempre trabalhei durante 20 e tal anos na produção de decoração, estava sem trabalho. E detesto estar sem trabalho, detesto estar sem nada pra fazer. Estava realmente a ficar preocupada. Então quando o João veio ter comigo e disse: "Mãe, eu vou vender o hostel, porque estou farto de ser dona de casa", eu imediatamente, no mesmo minuto, disse: "Tá bem, eu fico com isso".

E na altura tinha 54 anos.

Na altura tinha 54 anos.

Agora tem 63.

Sim, exatamente.

E ele achou extraordinário.

Não sei se achou extraordinário, mas disse: "Tá bem". Nós somos um bocadinho impulsivos lá em casa e, portanto, as coisas são decididas assim.

Eu disse três filhos, mas é um rapaz e duas raparigas. Uma muito artista, uma muito ligada a causas humanitárias e à gestão.

À gestão, sim.

E este seu filho também em business.

Não, nem tanto business. É um goza a vida sem lhe dar muitos problemas.

Então, a partir do momento em que herda este negócio, nunca se arrependeu?

Nunca me arrependi, apesar de ter imensas saudades da produção de decoração, que era mesmo o que eu gostava de fazer.

Mas aplicou isso no hostel, porque o hostel é tão bonito. Então, como é que foram os passos? Eu acho que isto é uma ideia-

Eu fiquei com o hostel do João, que não é o meu agora, e achei que quem tem um, tem dois. Estava um à venda por um preço bastante acessível e que eu achei que era capaz de fazer negócio. Então, de repente, vi-me com 125 camas na mão pra gerir, staff em dois hostels, e foi um desafio. Eu lembro-me do primeiro dia que eu entrei no hostel do João pra anunciar que o hostel agora é meu Fui ter com uma empregada nossa, que ainda está a trabalhar conosco e em quem eu confio plenamente, e disse: "Olha, eu não percebo nada disso, tens que me ajudar".

Isso é maravilhoso. Isto é um exercício de verdade, exigência interior e de humildade incrível. Não sei se há muitas pessoas a fazer isso.

Pois, não sei. Saí-me completamente isso.

Não sei se o dono, o CEO ou o C-level consegue chegar aos funcionários, aos colaboradores e dizer: "Olha, não percebo nada disso, ajuda-me". Acho extraordinário.

De resto, é a minha filosofia. Nós, como gestores, não abrangemos os campos todos. Eu tinha uma amiga minha que me dizia várias vezes: "Um bom gestor não é aquele que sabe fazer tudo, mas um bom gestor é aquele que sabe rodear das pessoas que sabem fazer". E é um bocadinho isso que eu faço. Eu não percebo de marketing, eu não percebo de redes sociais. Há tantas coisas que eu não percebo, o que eu preciso é de encontrar a pessoa certa que o saiba fazer e que sob a minha orientação, a minha guidance, digamos assim, faça aquilo que eu quero, mas bem feito, que eu não era capaz.

Então, esta sua colaboradora, a quem já prestou homenagem, não sei se quer dizer o nome ou não.

É a Tatiana.

Não sei se os outros 16 do staff vão ficar com algum ciúmes.

Não, porque a Tatiana é de longe a que está lá há mais tempo. A Tatiana trabalha conosco há 12 anos.

A maior longevidade. Homenagem prestada à Tatiana. Então com a Tatiana, uma com a outra, conseguiram entrar e encontrar as pessoas certas no lugar certo e as ferramentas.

Sim, primeiro comecei por arrumar a casa, como filho João não era propriamente o mais indicado. Comecei por tentar perceber o que era um hostel, perceber o que é uma empresa que presta serviços a hóspedes, sejam portugueses ou não. E a pouco e pouco fui começando a entender que não era só uma questão de ter a cama limpinha, o pequeno-almoço e as casas de banho e a água quente a funcionar, mas a própria indústria dos hostels foi evoluindo.

Expandindo.

E foi evoluindo. Há grandes cadeias de hostels que estão já em Lisboa, que no fundo vendem uns edifícios espetaculares, uma decoração maravilhosa, umas camas fantásticas, mas não têm aquilo que eu chamo S de socializing do hostel.

Ok. E o que é que faz para isso?

Atividades, atenção.

Ia dizer, o hostel é, e eu interrompi.

O hostel é um hotel com S de sharing e socializing. Essa é a definição que eu tenho de hostels.

Isso é bonito. Ainda bem que eu interrompi e desinterrompi. E o que é que faz? Ou seja, quando diz atividades, é uma coisa muito abstrata. Tem uma cozinha, uma cozinha comunitária?

Todos os dias eu tenho que facilitar o contato das pessoas umas com as outras, porque há muitas pessoas que viajam sozinhas e eu cada vez mais estou a trabalhar para essas pessoas.

Ou seja, posicionou-se no mercado para os-

No mercado para o solo traveler.

Ok, solo traveler, e portanto as pessoas sabem que indo para o seu hostel, além de tudo e destas reviews e de estar em primeiro lugar em Portugal e em terceiro lugar no mundo, sabem que também é um sítio onde podem fazer um match humano.

Entre pessoas. Um humano.

Não é para promover-

De resto eu mudei o nome do hostel agora, assim não distrai.

Não é para promover outro tipo de relações.

Não, também acontece, como é óbvio.

Cada um é um actor e as pessoas são livres, e há que respeitar, mas não, é solo traveler.

Aliás, eu mudei o nome do meu hostel agora para Good Morning Solo Traveler Hostel, exatamente para que seja essa a perceção das pessoas que reservam comigo, que saibam que isso vai acontecer e que vejam nos reviews o que aí acontece. Desde o momento em que eles entram no hostel, o meu objetivo e a minha preocupação é eles encontrarem outras pessoas com quem partilhar, com quem dividir, com quem fazer programas, com quem conversar, com quem trocar impressões. E é esse o objetivo. E nós temos desde jogos de nomes, temos uma hora, não sei bem se vou aqui contar, mas nos reviews está lá escrito, a maioria das pessoas sabem. Todos os dias tenho uma hora de bebida grátis ao fim do dia, que faz com que as pessoas queiram vir, tomam o seu duche e vão para a sala e têm uma hora de bebida grátis. E isso começam todas a conversar umas com as outras, flui, fica o hostel cheio a essa hora e depois partem aos dois e dois, três e três, partem para a atividade.

De repente, um grupo de pessoas que entra isolada, de repente, parece já um grupo de amigos.

É, ou toca uma música.

Já há uma relação.

E fora isso, tenho jantares.

A cozinha, como é que a cozinha é usada?

A cozinha é toda construída à volta de um fogão.

É muito bonita a cozinha e acho que tem lá qualquer coisa a dizer: "Hoje a mãe não está em casa".

A mãe não está. Lavam os pratos, está sujo.

Lavem tudo, ponham tudo no sítio, porque hoje a mãe não veio trabalhar. E essa cozinha à volta da-

Temos jantares todos os dias. Para já temos o pequeno-almoço, que é muitas vezes feito pela Tatiana, que é a pessoa mais extrovertida que eu conheço e que consegue logo pôr as pessoas: "Ah, és coreano. Ah, e és coreana. Então olha, vocês estão os dois a viajar sozinhos". Ou é: "Ai, tu és dinamarquês. Tenho aqui outra pessoa também do norte da Europa", e consegue estabelecer isso.

Uma pessoa com uma grande intuição e uma grande sensibilidade.

E tenho muitos outros a fazer isso também, que também já conseguem, ao princípio com um bocadinho mais de dificuldade, mas ao fim de dois meses está lá a trabalhar, já o fazem lindamente.

E portanto, essa homenagem vai para todo o staff, que são 17. Aliás, eu sempre ouvi dizer que o segredo do sucesso, a alma do negócio, é o staff.

É o staff.

Portanto, começámos por aí e continuamos por aí. Benedita, vou dar aqui um salto, que sai aqui do hostel, mas sai daquilo que é o dia a dia do hostel para uma atividade que é muito sua, que é viajar. Viaja incansavelmente, incessantemente. E a última viagem que fez, eu acho que faz imensa inveja a muita gente, foi para uma experiência de astronauta. Foi para um space camp na Rússia, em Moscow.

Em Moscow, sim.

Como é que isso acontece? De repente, como é que está vestida de astronauta a fazer uma experiência de gravidade zero? O que é que aconteceu?

Bom, a minha família tem uma tradição do ar. O meu pai tinha o brevê, a minha mãe tem o brevê de avião com motor e sem motor, eu tenho o brevê de avião com motor e sem motor, portanto a nossa experiência tem muito a ver com o ar.

É uma novidade para mim. Peço desculpa não ter falado sobre isso. Não investiguei bem.

Não investigou. Tem muita coisa ainda.

Uma caixa de surpresas.

Apesar de que nunca foi a minha paixão o ar, digamos assim, a minha paixão de desporto era outra diferente.

Os cavalos.

Os cavalos, claro. Acho que fica lá qualquer coisa, porque eu não me lembro, mas lembro-me de ver o meu irmão mais novo. Nós vivíamos no meio dos aviões, quer dizer, a minha mãe levava a alcofa do bebê pro campo de aviação, ia voar e a alcofa do bebê ficava ali, à guarda das pessoas que tomavam conta dos hangares. Portanto, a nossa experiência de vida foi muito à volta do ar e sempre à busca de coisas novas para substituir a perca dos cavalos.

Ou seja, deixou de poder montar a cavalo por questões de saúde?

Sim, exatamente.

E de articulações e de coisas deste género.

Coisas da idade.

Mas eu acho que é importante falarmos da idade, uma vez que a Benedita tem 63 anos, herdou o negócio do seu filho aos 54, acabou de fazer uma viagem, um espaço em que foi astronauta, tem o brevê e, portanto, não é a idade. E se há a idade, há muita novidade em cada idade. Importante: nova idade, novidade. Novidade narrativa.

E então, enquanto o tempo todo de vida que eu montei, para mim viajar significava não montar. Era sempre uma dualidade muito grande, vou viajar ou fico para montar, que era aquilo que eu mais gostava de fazer. Quando tive que deixar de montar, foram dois meses a chorar e depois, de repente, pus as coisas atrás das costas. Então toca lá de encontrar qualquer coisa que preencha um bocadinho esse vazio. E comecei a viajar. Porque eu já não precisava de gastar.

E como diz alguém, meu conhecido, é preciso também ter bolsos fundos e ter uma retaguarda financeira, ou podemos viajar low cost, high cost.

Eu já viajei low cost e já viajei high cost.

Uma viagem a um camp space é high cost? Medium?

Não, depende da pessoa que está a falar. Para mim, posso dizer que seja uma coisa medium cost, para a pessoa normal que recebe o seu salário ao fim do mês.

Então conte-me como é que foi essa experiência de ser astronauta e zero gravity.

Zero gravity, zero companhia, porque as pessoas que eu desafiava.

É verdade, eu sei que é a primeira e única portuguesa que fez esta experiência na Space Camp. Espetacular.

Então, não arranjei ninguém pra vir comigo e resolvi: "Eu não vou estar à espera de pessoas para virem comigo para fazer isto que eu quero tanto fazer", e decidi ir. Fui sozinha pra Rússia. Confesso que foi um bocadinho de borboleta no estômago, sem saber o que é que ia encontrar, porque isto é uma agência on-line. Uma pessoa fica sempre um bocadinho desconfiada das agências on-line, mas informei-me e pareceu que era credível. E realmente lá estava a minha pessoa à espera no aeroporto de Moscovo.

Que alívio!

Foi mesmo um alívio muito grande. E então passámos dois dias na Star City, que é a cidade onde tudo se passa, menos os lançamentos, que são no Casaquistão, penso eu. Onde há toda a tecnologia, todos os engenheiros, os astronautas, tudo o que é preciso de staff à volta de um programa destes, e nós estivemos lá dois dias.

E é uma espécie de uma formação.

Formação não foi preciso muita. O que foi, foi darem-nos a conhecer um bocadinho aquilo que têm. E o que é que fizeram para trás. Eu posso dizer que eu estive dentro de uma das cápsulas que veio do espaço e amarou, aquelas que antigamente se viam na televisão, que caíam com paraquedas no meio do mar e que os astronautas subiam lá dentro. Eu estive dentro de uma dessas cápsulas.

Isso é extraordinário.

Estive dentro da réplica exata da Mir, que já se desintegrou, e eu estive lá dentro a experimentar as coisas todas. E depois no dia seguinte foi o voo, que foi extraordinário.

Ou seja, no dia seguinte é vestir de astronauta e ter a experiência.

De gravidade zero.

Exatamente.

Beber a água.

Como é que se bebe a água? Isso é muito interessante.

A garrafa é de baixo para cima, espreme-se e sai uma bolha d'água que nós tentamos apanhar com a boca.

E uma pessoa não fica engasgada, não acontece nada?

Aquilo é tão divertido que não dá para pensar nisso. Engasgar, paciência.

E uma pessoa querer encontrar um objeto, se há qualquer coisa que nos escapa da mão.

É engraçado, porque é a nossa inclinação do corpo que dá a orientação da trajetória.

Mas o que nos acontece é como os balões de hélio. Eu, se não fizer nada, de repente estou colada ao teto.

De repente, aquilo era um sinal sonoro e eles faziam assim: e nós começávamos a subir. Estávamos lá em cima, encostados ao teto do avião, que era uma coisa enorme, e é o avião onde os astronautas fazem o treino.

Isso é extraordinário. E o que uma pessoa sente? Sente-se atordoada, sente-se enjoada, não sente nada, sente-se levíssima, sente-se o quê?

O que eu me apercebi foi que até o próprio cérebro deixa de ter gravidade.

Ficou maluco.

As conexões são todas diferentes, aquilo quase que não se sente nada, é mesmo um vazio, é um vazio de gravidade, um vazio de tudo. Só quando nós caíamos pra gravidade 2 Gs, porque quando o avião fazia trajetória ao contrário, era a gravidade 2 Gs. Então estávamos colados ao fundo do avião e não nos conseguíamos mexer.

Com uma densidade total.

Aí punha-me a pensar: "Uau, o que eu senti?" E então tentar transpor pra essa experiência.

Quando está no momento de gravidade zero, uma pessoa sente os dentes, sente os olhos, sente as mãos, sente o seu corpo? Quer dizer, sente muito a vivência intracraniana.

Não sinto o corpo.

Isso é muito extraordinário, Benedita. Acho isso espetacular. Eu acho que qualquer ser humano à face da Terra, desde que há homens na Lua e homens a explorar o espaço, é um mito. Qualquer pessoa gostaria de fazer essa experiência.

Eu agora, para além disso, gostava de ir à Lua, mas essa já não é pra mim.

Não sabemos, Benedita, às tantas.

Sabe-se lá.

Sabe-se lá. Benedita, então depois deste salto no espaço, e depois quando voltou, não há sequelas?

Não, não houve sequelas nenhuma. Esteve ligeiramente enjoada porque as cambalhotas no ar foram imensas e fizemos imensa coisa lá em cima.

A única coisa que tenho de parecido é ter feito uma viagem com a Diana, piloto que faz acrobacias no ar. E de facto, uma pessoa faz aquelas acrobacias todas e vê o mundo de pernas pra baixo e chega cá abaixo, feliz, mas completamente enjoada. Mas é um nível que nem se compara com gravidade zero. Antes desta viagem muito espacial, fez outras viagens, já vamos falar sobre elas. Queria só aqui fechar a questão do hostel, porque daqui a um ou dois minutos temos que fazer uma pausa para as notícias. O que é que aprende mais sobre a natureza humana, sendo dona de um hostel, neste caso, do hostel que está em terceiro no mundo e em primeiro em Portugal?

O que eu aprendo da natureza do homem? Eu não sei o que eu aprendo deles, propriamente dito.

Da natureza humana.

Da natureza humana. Porque todas as pessoas são diferentes, todas as pessoas têm maneira de interpretar, de ouvir, de receber as mensagens e de pensar diferentes. E, portanto, eu acho que é mais uma aprendizagem minha sobre como olhar para essas pessoas e não classificar as pessoas, o que eu sei delas.

Ou seja, olhar sem julgar.

É totalmente sem julgamento. O meu lema de vida é mesmo não julgar as pessoas, porque as pessoas são como são e cada pessoa tem a sua história atrás, e cada pessoa tem o seu caráter. É olhar para elas. Esta pessoa é assim, tu és assim, então vamos lá saber lidar, aprender a lidar e ver o que é o melhor que cada pessoa tem.

E só para terminar, houve algum episódio ou alguma coisa no hostel que as pessoas não saibam imaginar? Às vezes penso: deve ter percevejos, às vezes, ou pode ter piolhos. Isso acontece, mesmo no melhor hostel do mundo.

Os percevejos não sabem se as malas são Louis Vuitton ou se é um Montech.

E isso vocês fazem desinfestações regulares.

Sim, regulares, desinfestações regulares e não regulares.

E não têm beliches de madeira e não deixam que os bichos entrem.

Tentamos. Já tivemos episódios desses, como todos os hotéis. Não acredito em alguém que me diga que não tiveram, mas tentamos sempre lidar com isso. Já deitei fora camas.

E agora é tudo ferro.

Agora é tudo ferro.

Giríssimo, mas tudo ferro. Não é camas de hospital, mas é camas de belíssimo hostel. Benedita, fazemos uma pausa para as notícias e voltamos já a seguir.

Muito bem. Obrigada.

Bem-vindos à segunda parte do Imperdíveis de hoje. Hoje estamos à conversa, aliás, eu estou à conversa e as pessoas que estão a ouvir, de certa forma, estão dentro da conversa, com a Benedita Pais Vasconcelos. Tem 63 anos, mãe de três filhos, avó de duas netas, mas aquilo que a traz aqui é o seu fabuloso instinto, a sua fabulosa demanda interior pela aventura espacial. Já falámos da sua experiência no espaço, a gravidade zero, Zero Gravity. Mas acima de tudo, já falámos também das ferramentas de gestão de um hostel. A Benedita é dona do melhor hostel português e do terceiro melhor hostel do mundo, o que é extraordinário. Há nove anos que está neste pódio e, portanto, os meus parabéns renovados. Gostava de falar de outras viagens que a Benedita fez. A Benedita foi ao Irão.

Fui ao Irão e deixo aqui dito para todas as pessoas que me ouvem, que é o povo mais fabuloso que eu conheci até hoje.

Em que sentido? Fabuloso do ponto de vista cultural, certamente.

Fabuloso do ponto de vista cultural, o próprio país tem um legado cultural extraordinário, mas o povo é tão acolhedor. Eu senti-me protegida por baixo dos braços deles, de tal maneira. Eles sorriem, mas sorriem sem ser falso. Eles ajudam, prontificam-se.

Um povo afável.

Muito afável, no contacto. Eles querem receber-nos e querem contactar connosco. Eu adorei o Irão como povo. Não foi, certamente, a viagem que eu mais adorei. A caminho vinha a pensar quais é que tinham sido as minhas viagens fantásticas, para além desta do espaço.

Quais é que foram?

Foram o meu encontro com o gorila Silverback. Eu fui ao Irão.

A Benedita é completamente passada por animais e sei que já esteve sozinha com gorilas e que havia umas macacas e uns gorilas que iam de mão dada consigo.

Não, isso são os chimpanzés.

Está a ver? Isto é de quem não percebe nada de animais e, portanto, é capaz de confundir gorilas com chimpanzés. Então vamos por partes. Primeiro os gorilas e depois os chimpanzés.

Estive na selva, no Uganda, a fazer um encounter, um encontro com os gorilas, e consegui levar a minha família toda para irmos ver os gorilas. Ao pé de nós, foram sete horas a caminhar numa floresta virgem, no meio de um mato, até que encontrámos a família dos 17 gorilas e tivemos uma hora com eles.

Foram todos os 17.

É, foi. Os 17 empregados e agora os 17...

Os 17 funcionários do hostel, os 17 gorilas.

Os 17 gorilas. Pois, agora também estava a pensar nisso.

Tem graça o número.

Foi extraordinário. Foi realmente uma qualquer coisa de extraordinário, aquele silêncio que se põe, porque os animais, como não falam, impõe-se um silêncio muito grande para podermos estar com eles. Isso foi ótimo.

E como é que vocês fazem para eles não se sentirem ameaçados?

Vamos com uns guardas. São pessoas que fazem esse contacto e que contactam esta família de gorilas diariamente e que os sabem acalmar através de sons. Por isso, não senti nada, é seguro.

E quando vocês chegam, qual é o comportamento que têm que adotar? Até onde é que podem ir?

Não podemos estar a menos de um metro de distância deles, não lhes podemos rir. E depois é tudo uma questão de bom senso. Não podemos dar uma gargalhada, não podemos fazer barulho, não podemos fazer gestos bruscos para eles não interpretarem isso como uma ameaça.

Mas rir para eles é uma ameaça?

Rir. É mostrar os dentes, porque eles quando mostram os dentes não é de sorrir, mas é de ameaçar.

De zanga.

Uhum.

Isso é extraordinário. É uma experiência-

Foi uma coisa que não tem descrição.

Foi em família, com o seu marido e seus filhos?

Não, o meu marido não quis ir, mas foi com os meus filhos, a minha irmã e a minha irmã. Fomos os cinco.

Maravilha. E em relação aos chimpanzés?

Chimpanzés. A caminho dos gorilas, tínhamos ido ver umas coisas com os chimpanzés. Eu voltei passados uns anos e fui fazer tratadora de chimpanzés na ilha, patrocinada pela Jane Goodall, em que ela alberga os chimpanzés que são recolhidos de maus tratos. E então estive a fazer tratadora dos chimpanzés. Aí, sim, com ela, uma das chimpanzés ao colo e às cavalitas.

E depois, quando anda com uma chimpanzé que se afeiçoou a si, há outras que têm ciúmes?

Não, aquilo houve um episódio muito giro em que eu deixei passar um chimpanzé à frente. Nessa altura, sim, com o meu marido, deixei passar o meu marido com um chimpanzé à frente e a Sarah, que era como se chamava essa chimpanzé, desceu do meu colo, pegou-me na mão, correu pra frente do outro, como quem diz: "Eu é que sou a líder, eu é que vou à frente". E fizemos essa experiência duas vezes.

Não brinca.

Não, eu é que vou à frente.

E sempre que passava pra trás, ou seja, estrategicamente passou pra trás pra ver se ela repetia a proeza.

E sempre descia do meu colo, dava-me a mão, puxava-me pra frente, tornava a subir pro meu colo e pronto. E continuávamos assim. Foi giríssimo. O encontro com os animais é qualquer coisa de extraordinário, que eles têm tanto pra nos ensinar.

Já falamos de cavalos, já falamos de gorilas, chimpanzés, que outros animais é que a encantam e com quem sente essa afinidade?

Com os cães, claro. Eu tenho dois cães que adoro. Mas tenho aqui uma experiência que gostava de contar, que foram 10 dias na Mongólia a cavalo, a dormir nas gers, que são as yurt deles, digamos assim, a dormir com os locais, a comer carneiro, a ver luta de iaques, e andávamos a cavalo, sempre de não é aldeia, porque aquilo é um conglomerado de duas, três cabanas, é uma família, que são os nômades, e nós andávamos de família em família. E foi aquilo que eu digo, foi uma experiência de não é um hotel de cinco estrelas, é um hotel de cinco milhões de estrelas, porque nós dormíamos quase ao relento e tomávamos banho no rio e cozinhávamos com lenha e não internet, não eletricidade, não água.

Não nada.

Não nothing. Só carneiro e batatas.

E céu.

E céu, milhões de estrelas, a Via Láctea como eu nunca tinha visto na minha vida.

Como se pudesse tocar.

Completamente. É uma sensação extraordinária. É só deitar-se naquela estepe, com as mãos atrás da cabeça e olhar pra aquelas estrelas e só ouvir o barulho dos animais ao fundo. Não há mais nada, por exemplo, não há os cri-cris, porque aquilo é tão frio que não há os cri-cris. Portanto, só se ouvia os iaques a lutar e as vacas.

E ouvem-se os chifres, ouvem-se os cornos.

Sim, ouve-se. É muito assustador, mas intrigador também. Foi uma experiência maravilhosa.

Como é que se chega à Mongólia? Que tipo de endurance é que é preciso ter? Primeiro, é preciso saber montar bem a cavalo. Depois, é preciso não ter medo da natureza e dos bichos.

Dos bichos, sim, porque aquilo dormíamos com os bichos à nossa volta.

Que tipo de bichos? Ali não há escorpiões.

Não, são iaques, que são uma coisa enorme, e nós à noite, se queríamos ir à casa de banho, era cá fora, que não havia casa de banho.

E pode vir um iaque também. E se aparecer, o que é que uma pessoa faz? Quais são as normas de segurança?

Pro iaque não há problema nenhum, eles não nos atacam. Nós não somos ameaças pra eles, portanto, eles não nos atacam. Portanto, é só basicamente encostar a mão e afastar. Se ele se afastar, com o peso que tem.

E o povo na Mongólia, e a relação humana, que é a sua aposta sempre. A sua relação com a natureza, aquilo que no fundo eu posso dizer com margem de erro só, a Bendita é uma espécie de criacionista. Toda a criação a fascina e a põe de joelhos ou em contemplação. Isso é muito bonito ouvir. Mas a natureza humana, a condição humana, a natureza, os animais são, de fato, o seu ar né.

É, a experiência com o povo local é o que eu gosto de uma viagem. Não é propriamente ver os monumentos, não é isso que me entusiasma, nem museus, nem nada, é a experiência com o povo local. E nós aqui na Mongólia tivemos, dormimos com eles. Cozinhamos com eles, aprendemos coisas com eles. Não havia comunicação linguística, porque eles não sabem nada de inglês. Ainda estão muito sob a influência russa.

Mas pra eles um sorriso é um sorriso.

Mas um sorriso é um sorriso, e eu consegui com uma, esta até não foi na Mongólia, foi na Geórgia. Nós fomos à Armênia também e consegui com uma armênia, sem falar uma palavra de inglês e eu sem falar uma palavra da língua, perceber que ela tinha oito netos, o mais velho tinha quatro anos, tinha três rapazes, cinco raparigas. É engraçado. E na Mongólia, o primeiro passeio a cavalo que eu fiz sozinha com a dona dos cavalos, porque eu era do grupo todo a que sabia montar melhor, então resolvi ir com ela, fomos buscar o gado. Fomos nessa viagem as duas, começamos por mostrar o que era um cavalo, o que era a cabeça, o que era um braço. Eu acho que acabamos nos palavrões.

Sim, é fatal. Isso também é age cross, ou seja, é todas as idades.

É em todas as idades, sim, todo mundo.

Todo mundo, exatamente. É uma inclinação humana.

Mas é isto que eu adoro nas viagens, é isto que eu adoro, esta comunicação com as pessoas.

Bendita, como já falamos aqui de várias viagens high cost, high level, e que tal falarmos aqui de viagens mais tangíveis pra pessoas comuns como eu, como se calhar alguns dos nossos ouvintes?

Eu não gosto de viajar por viajar. Eu tenho um projeto, eu também vou viajar pra mais perto. Eu, por exemplo, eu fiquei fascinada com o museu, não é o museu, agora falta-me a palavra, a homenagem ao soldado da Segunda Guerra Mundial em Washington. Fiquei completamente fascinada com isso. É uma homenagem extraordinária que eles fazem. Todos os cargos profissionais de um exército estão reproduzidos em bronze à escala natural, com todo o pormenor. É extraordinário. E eu soube que havia aquele exército dos guerreiros da China, e eu ainda não me propus ir à China, qualquer dia vou, mas ainda não me propus ir à China. Então, soube que havia em Londres uma exposição com esse tema, e então fui a Londres, meti-me no avião, fui a Londres ver essa exposição. Portanto, pra mim, viajar é ir com objetivo, não é só ir por ir.

Exato, e podendo, e tendo essa felicidade, que também nasce do dinheiro que ganha, portanto, a sua ferramenta de gestão. Exatamente, ou seja, trabalha bem e ganha bem e pode viajar também bem, isso é bom. Sobretudo, eu acho que dá a muitas pessoas também esta certeza de que a vida É um movimento perpétuo, a vida é pra frente, como dizia a Joana Carneiro, que há pouco tempo. O avô dela dizia isto: "A vida é sempre pra frente, é um movimento". E pra nós, que não temos a sua circunstância, faz-nos sonhar e faz-nos ficar próximos também.

É lutar por isso, é lutar mesmo por isso e ter um objetivo. Eu, às vezes, tenho esta viagem do espaço. Eu há 10 anos que estou a pensar nela. E há 10 anos digo: "Eu tenho que ir, eu tenho que ir, mas tenho que esperar".

No limite, podemos poupar durante anos pra fazer uma viagem, que é a viagem da nossa vida.

É uma questão de se lutar um bocadinho e ter objetivos, sobretudo ter objetivos pra lutar por eles.

E não quero que pareça, porque não é, não é essa a sua atitude, uma exibição de dizer as viagens que eu fiz, não. É as viagens que eu consigo fazer com o propósito.

Claro. Esta de Londres, fui numa low cost, cheguei lá, dormi num Airbnb e voltei. Não têm que ser viagens caras, têm que ser viagens que me tragam qualquer coisa. E a cultura do mundo é uma cultura que me entusiasma tanto e que me desperta tanta curiosidade. É por isso que eu vou pra longe.

E também certamente por ter esse fascínio é que depois consegue vir e nas suas ferramentas de gestão, consegue gerir o melhor hotel de Portugal e um dos três melhores do mundo.

Ajuda-me imenso, porque eu conheço a cultura, não só pelas viagens, mas junto um bocadinho com aquele curso que eu estou a fazer já há cinco anos.

Esse curso, também podemos falar um bocadinho desse curso.

Podemos falar um bocadinho desse curso. Mas as duas coisas juntas, o curso e as viagens, ajudam-me a perceber que as culturas são todas diferentes. Há sempre uma matriz comum cultural, diferente de país pra país. Há sempre uma razão pra se entender por que as pessoas são assim. Eu vou dar aqui um exemplo: um hóspede chinês, um viajante chinês, é uma pessoa muito egoísta e uma pessoa que não sabe partilhar. Eles não têm irmãos. Isto é o exemplo. E eu aprendo tanta coisa a viajar, que me faz entender, e eu passo essa mensagem ao staff. Eu passo a mensagem que os indianos não têm muita noção de privacidade, que os chineses são pessoas muito individualistas, por que há povos que reclamam mais do que outros, por que há povos que são mais introversores.

Sem os reduzir a uma expressão mínima, dá um traço comum.

Um traço comum de um povo.

Que permite ir ao encontro e não que os reduza ou que os cataloga.

Permite entendê-los.

É uma ferramenta de entendimento e de ir ao encontro.

É, e eu passo isso muito pro staff. Essa abertura às culturas diferentes, nós lidamos com culturas de todo o mundo.

Ó Benedita, o que não tolera nos outros?

A injustiça.

A injustiça. Uma pessoa que é tão tolerante e que é tão apostada em abrir às lógicas, às perspectivas dos outros, às culturas dos outros. A injustiça.

Falta de tolerância. Eu que não tolero aos outros é a palavra "eu acho", quando não lhe foram perguntadas o eu acho. As pessoas não têm que achar.

Explica lá isso melhor. É o achismo? Estamos a falar do achismo, toda a gente acha qualquer coisa.

Toda a gente acha qualquer coisa sobre uma determinada circunstância, sobre uma determinada situação, quase que a condenar. Eu acho que não deve ser assim.

É um acho julgamentoso.

Exatamente.

Quando há julgamento nesse achismo, não.

Não tolero. Não tolero porque eu nunca o faço. Eu acho que com isto também estou numa situação em que não deveria não tolerar, que eu tenho que tolerar.

Sim, mas somos humanos.

Digamos que é a situação com a qual mais dificilmente eu lido. É com a falta de tolerância que as pessoas têm com a evolução e com a diferença e com a maneira de pensar e de estar diferente.

Uma cabeça muito aberta, é um espírito muito livre. E o que mais gosta, mais admira, o que encanta nas pessoas?

Não sei. Eu não consigo dar uma definição do que me encanta. Eu acho que as pessoas, tem que haver uma química, porque eu tenho amigas, que se eu as definir como pessoas, se calhar, são o oposto daquilo que eu poderia definir que gosto das pessoas. Eu, no entanto, sou amiga delas e gosto delas.

Não tem que se identificar com elas.

Não tenho que me identificar com elas. Lá está, não têm que pensar da mesma maneira que eu, porque as pessoas pensam todas diferente.

Benedita, falou do curso, além de tudo aquilo que faz, de tudo que viaja, de tudo que gere, também está a estudar, está a fazer um curso extraordinário há cinco anos. Que curso é esse?

É um misto de ciência política internacional, história e liderança. É uma coisa que eu adoro fazer.

Quem é que dá esse curso?

Não sei se posso dizer.

Ah, tá bem. Mas é uma pessoa muito particularmente formada, dotada e capacitada.

Uma comunicadora extraordinária, uma pessoa que tem uma cultura enorme.

Por que que não se pode dizer? Porque tanto quando sai esse curso, está com listas de espera brutais e pra não as aumentar.

Exatamente.

Ou seja, o numerus clausus desse curso são pra 30 pessoas, ou menos?

Sim, são. Não, é um bocadinho mais, eu não tenho bem a certeza, também não investiguei muito quantas pessoas. Na minha ala, eu sei que somos 15.

Quinze privilegiados.

Privilegiados que nos aventuramos há cinco anos atrás ou há quatro anos atrás. Vamos entrar agora pro quinto ano. E o que é extraordinário é que são tudo pessoas, talvez haja uma ou duas pessoas mais novas. Sim, há duas pessoas mais novas que eu, mas já estamos todas numa faixa de idades bastante mais velhas e ninguém desistiu.

E têm que estudar, estudam?

Temos que ler, digamos assim, não é estudar como pra uma escola pra fazer testes.

Mas então fale-me só, não dizendo quem é a pessoa que está a dar o curso, que tipo de coisas é que estão a ler agora, o que estão a estudar?

Nós agora, este ano, vamos dar a história entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, mas começámos por dar a volta ao mundo, primeiro ano.

Primeiro ano, volta ao mundo.

Volta ao mundo. O segundo ano estivemos a falar sobre as grandes lideranças inseridas no contexto histórico. Portanto, dávamos o contexto histórico e o líder que estávamos a estudar. Golda Meir, dum Churchill, dum Sun Tzu.

Mandela.

Mandela, por acaso, não demos, mas pode ser que qualquer dia isso vá acontecer.

Isso no segundo ano, as grandes lideranças.

No terceiro ano demos os impérios Três impérios, o Russo. Este ano é que demos o Austro-Húngaro. Agora não consigo lembrar. Três grandes impérios. No quarto ano foram os Austro-Húngaros, os Habsburgos, digamos assim, que acabou no Império Austro-Húngaro. E este ano que começa vamos dar o período já século XX, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial ou até a Segunda Guerra Mundial.

Extraordinário. Então, no meio disto tudo, há os três filhos já crescidos, já fora de casa, e há duas netas, uma recém-nascida e outra com três anos. Como é a sua relação com as crianças, com o tempo que hoje em dia os avós trabalham, são altamente performativos. Aliás, o seu caso é paradigmático. Pergunto como é que consegue também calibrar este tempo.

Arranja-se. Esta minha filha não vive em Lisboa, vive no Alentejo e eu tento sempre, todas as semanas, ir de manhã. Saio às 7 h de casa, vou até lá, passo a manhã toda com as netas e depois almoço, venho a seguir e venho pro curso.

Mas a Benedita é uma avó do sim. Se a sua neta tem um dedo do pé magoado.

Eu estou lá.

Vai lá.

Eu quero construir uma relação de avó neta. Eu estou mesmo empenhada nisso, em construir uma relação muito grande com as minhas netas, não só o presente, mas é tentar dar-lhe um bocadinho daquilo que eu consegui e daquilo que eu sei e abrir-lhe essas experiências. De resto, a minha neta com três anos, todo dia me diz que quando tiver 10 anos vai nadar com os golfinhos comigo.

Vai nadar com os golfinhos e depois se calhar um dia vai voar.

Talvez.

Quer dizer, voar vai de certeza absoluta, no sentido metafórico, voa de certeza através das suas viagens.

As minhas viagens, tudo o que eu lhe vou contando e mostrando, e vou tentando mostrar o mundo, como o mundo é extraordinário e maravilhoso.

Mas olhando pra ela com três anos, ela tem uma relação boa com os animais?

Sim, ela não nasceu em África, mas com dois meses foi pra África, viveu no meio do mato, no meio de Moçambique, não havia nada, e os dois companheiros de brincadeira eram dois cães.

Ó Benedita, temos um minuto e meio. Gostava só de perguntar uma coisa, sem devassar a sua família, a sua filha, o seu genro e as suas netas. Mas contou há pouco tempo que essa sua neta vivia ao colo. Ou seja, a sua filha diz que uma gravidez não são nove meses, são 12. E que há três meses pra ter o bebê muito ao colo e muito próximo do que é a pele.

É a filosofia africana, é a maneira como os africanos lidam com os bebês. Quer dizer, eles estão nove meses dentro da barriga e não os podemos separar de um momento pro outro do nosso corpo. E então, os últimos três meses dessa gravidez de um ano, o bebê tem que estar ao colo, agarrado a nós, à frente, atrás, de lado, deitado, em pé, seja como for, mas é a maneira como eles estão tranquilos.

Enrolado nos panos.

Nos panos. Os africanos têm aqueles panos, agora no mundo ocidental há umas coisas um pouco mais sofisticadas.

E vê na sua neta que ela é mais tranquila.

É impressionante a tranquilidade dela. Porque não deixam chorar. As minhas netas nunca choram, porque mal começam a ficar irrequietas, vão pro colo.

Ou seja, não é não deixam chorar no sentido que às vezes é preciso chorar, é não deixam chorar no sentido de ficarem estressadas, portanto elas são tranquilizadas ao colo.

Sempre tranquilizadas ao colo. E se for preciso, trabalha-se com elas ao colo, agarradas por um pano. Os africanos fazem-no assim.

O que disse o senhor que ensinou a sua filha?

O Raimundo, que era o empregado da minha filha. A minha filha chegou lá, pôs o bebê com dois meses numa alcova e ele virou-se pra ela e diz: "Dona Margarida, esse bebê aí não pode dormir na cama, tem que dormir com a mãe".

Ao colo, enrolado nos panos.

Exatamente.

Muito bonito. Obrigada, Benedita. Foi uma conversa extraordinária. Viajámos imenso, ficamos todos com imensa vontade de viajar muito mais.

Vá lá, venham, eu vou.

Obrigada.

Índia.

Índia, ainda falta a Índia.

Índia com boi que já fiz.

Muito obrigada e muitos parabéns.

Obrigada a ela, Arinda.

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