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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar pra alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast, são conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos mais uma vez aqui ao nosso espaço de conversas: Isto Não é Mais um Podcast, um podcast sobre o financiamento europeu pra cultura, pra criatividade e pras artes. Aqui estamos para o nosso terceiro episódio da temporada três. Hoje tenho comigo a Carla Costa, artista, que nos vem falar do seu projeto de mobilidade na Eslovénia, uma residência artística aprovada na iniciativa Culture Moves Europe, na parte da mobilidade individual. Bem-vinda, Carla. Muito obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Obrigada, Francisco, pelo convite. É um gosto estar aqui.

Antes de arrancar com a nossa conversa, talvez explicar que o Culture Moves Europe é uma iniciativa do Europa Criativa e que permite mobilidade de duas maneiras: ou recebermos em residência artistas, e isto é mais virado para as organizações e pra as associações culturais, ou então outra vertente, que é a mobilidade individual, que permite a pessoas como tu, foi isso que tu fizeste, irem em mobilidade num projeto pessoal. Se calhar, vamos ao que interessa e começava por te perguntar: explica-me o que foste fazer à Eslovénia.

A Eslovénia foi uma viagem que tem já um ano, foi realizada em setembro de 2023, e o meu projeto basicamente pretendeu unir natureza, arte e pessoas através de uma experiência site specific, que recorreu à criatividade e ao mindfulness para ser implementada. Foi um projeto que teve lugar durante duas semanas, numa galeria chamada Pozidarija KAC, em Kostanjevica na Križu.

Estou impressionadíssimo com o teu esloveno.

Eu não. Teria vergonha se algum esloveno me ouvisse. Assumido o embaraço, dizer realmente que é um sítio maravilhoso, muito bonito. Foi um privilégio estar nesta cidade, que é uma das mais antigas da Eslovénia e que foi construída numa ilha, portanto, podes imaginar o cenário idílico. E foi implementado, como estava a dizer, neste museu, que é um museu que está instalado num antigo mosteiro, também muito impressionante. É um dos maiores da Eslovénia, não só em termos de espaço, mas também em termos de coleção de arte. Eu fui motivada nesta criação de experiência, neste lugar, não pelo museu em si, mas pelo Parque das Esculturas Forma Viva, que existe ao redor do museu e que foi um parque criado em 1961, chama-se Forma Viva, e que desde então tem sido ampliado continuamente. Ele é forma viva, não só precisamente porque está sempre a crescer, atualmente existem mais de 100 esculturas de artistas de todo o mundo, como pelo material em que as esculturas são feitas, que neste caso é o carvalho, uma árvore local. Assumir também a perenidade, a efemeridade da obra ou a própria transformação e evolução, porque também há uma manutenção das próprias esculturas, mas algumas, efetivamente, ficam pelo caminho, encontram a sua morte como parte desse ciclo natural e artístico. E eu tinha estado, um ano antes da mobilidade, como visitante, fui conhecer a Eslovénia, que adorei, e quando estive neste local, realmente fiquei muito impressionada pela sua beleza e pelo potencial que este parque tinha para ser ativado numa relação mais próxima, mais íntima com o visitante. E essa ideia ficou dormente, adormecida, e foi o catalisador para depois efetivamente avançar com esta ideia e este projeto junto do museu.

Boa. Impressionante. Eu tenho um particular apreço pela Eslovénia também. O meu percurso profissional está muito ligado a coisas que eu já fiz na Eslovénia, portanto, percebo o que me estás a dizer em relação àquele país e àquele espaço de acolhimento que é a Eslovénia. Isso eu percebo bem. Gostava agora que me explicasses um pouco mais sobre o processo de elaboração da candidatura. Como é que tudo isto aconteceu? Interessa-me particularmente saber como é que chegaste a esta oportunidade, como é que soubeste que isto existia e como é que chegaste à entidade que te recebeu. Já sabemos que foste primeiro passear e depois é que se seguiu a parte profissional, mas no fundo, saber como é que te lançaste na escrita deste projeto.

Eu tive conhecimento através das redes sociais. Eu sigo a página da Europa Criativa. Reparei num post a dar conta desta iniciativa e de uma sessão de esclarecimento. E fiquei muito cativada, aliciada por saber um bocadinho mais, de perceber qual era o potencial de desenvolver alguma coisa. E fui a essa sessão de esclarecimento online, que foi muito bem conduzida, e daí fui pensar no projeto. Este foi o pontapé de saída. Qual é que foi o termo?

Como é que a entidade te acolheu e como é que rapidamente te deu as informações necessárias para continuares?

Esta ideia ficou a germinar, como eu te estava a dizer, e eu conhecia uma pessoa que tinha uma ligação a um museu, que tive a oportunidade de conhecer no âmbito de um outro projeto europeu, de visitas guiadas com migrantes com storytelling, e ficou a conexão. E eu sabendo, efetivamente, que ela tinha esta relação com esta entidade, abordei-a nesse sentido, se ela poderia criar uma ponte, porque eu tinha uma ideia. Basicamente, o que aconteceu foi uma sincronicidade maravilhosa, porque o museu estava efetivamente empenhado em desenvolver uma proposta dentro desta linha, de criar estas experiências mais íntimas, mais imersivas com os seus visitantes, recorrendo precisamente não só à criatividade, mas muito ao mindfulness. Eu denominei isto de slow art. Basicamente, o objetivo era efetivamente aqui não só investir mais na permanência, no diálogo com a obra, mas também na qualidade da relação que se mantém com a obra. Eles ficaram muito entusiasmados e daí até fazer efetivamente os próximos passos foi muito rápido.

Eu estou mesmo contente que me estejas a dizer isso, porque acho que é tão inspirador para quem nos ouve sentir a tua experiência. O que é que achas que foi mais difícil? O processo de candidatura ou chegar a um país novo, trabalhar com outras pessoas? O que é que para ti foi mais difícil? Sendo que para nós, para a nossa conversa, o processo de candidatura assusta imensas pessoas. Mas eu quero desmistificar isso também.

Começando pela ideia, eu estava te a dizer que realmente eu tinha este bichinho dentro de mim, esta vontade de fazer algo naquele lugar. Só que esta não foi a minha primeira ideia.

Pois, às vezes acontece.

Eu tinha estado pouco tempo antes no Museu de Migração em Paris. Estive lá num congresso, à apresentação de uns resultados de um projeto de arte participativa em que estive envolvida, e conheci uma pessoa lá de Glasgow. Houve uma boa conexão entre nós e eu senti: "Olha, aqui está uma entidade com a qual eventualmente no futuro eu gostaria de colaborar". Mas a verdade é que quando eu a abordei com esta intenção de implementar o projeto da Europa Criativa, do Culture Moves Europe, ela disse: "Olha, o timing realmente não é o oportuno". E então, cocei as minhas barbas, que não as tenho, mas assim a pensar: "O que é que eu então poderei fazer?" E foi quase muito automático pensar na Eslovénia. Eu fui tão feliz na Eslovénia e para além de ter sido tão feliz, ser um lugar que me fala tanto ao coração, mas realmente havia já esta identificação de um potencial, por parte daquele parque de esculturas magnífico, que pensei: "É mesmo isto". Então dizer o quê? Dizer que por vezes é não desistir à primeira nega. Neste caso, eu tinha uma ideia, estava muito orientada para ir para Glasgow e de repente isso não se confirmou. E portanto foi aceitar. OK, não desistas, porque existem outras entidades, existem outras opções. E daí canalizei realmente a minha atenção e o meu esforço para-

E o escrever da candidatura, o tipo de informações que são pedidas.

O escrever da candidatura. Olha, não há coisa mais simples. Honestamente, para este projeto, muito intuitivo, muito fácil, rápido. No meu caso, aquilo que eu sugiro, e isto é mesmo essencial, é ter uma ideia já definida e confiar nessa ideia, ponto número um. Ponto número dois, que é essencial para fazer este projeto, é ter realmente um parceiro europeu que está disponível a fazer o acolhimento do projeto. E neste caso, é fundamental ter uma carta convite, estabelecer esse primeiro contacto, e após chegar-se a bons termos, haver realmente uma carta que oficializa este convite para desenvolver este trabalho. Eu consegui ter essa carta, já tinha a carta e foi rever o meu portfólio, o meu currículo, ter já isso tudo bem oleado, bem montado, porque depois daí para passar para o formulário online, que é onde se desenvolve toda a candidatura, é muito rápido. Eu passei meia manhã, basicamente a fazer o preenchimento, porque já tinha feito este trabalho de raiz, que já estava organizado. Dizer também que há um manual bastante elucidativo que acompanha todas as fases do preenchimento do formulário e que para mim foi um aliado na construção também da candidatura. Eu tendo dúvidas, muitas vezes consultei esse amigo.

É para isso que eles servem.

É para isso que eles servem. E principalmente quando estão também bem montados e que são de fácil compreensão. E foi assim basicamente que montei numa manhã, como te estava a dizer, a minha candidatura. Foi relativamente fácil. Eu fiz esta submissão e passado dois meses já tinha o feedback, que felizmente foi positivo. E passado pouco tempo dessa confirmação, foi a assinatura do contrato, de um grant agreement, com a entidade que estava responsável pelo envio da pessoa para fazer a mobilidade, que neste caso foi o Gothe. E pronto, foi basicamente este o processo.

Muito bem. Fico contente de te ouvir. Dois temas quentes. Primeiro, o tema do report, que é sempre um pouco assustador também, as pessoas reagem que têm que escrever um relatório. Queria saber um bocadinho sobre isso. E depois outro tema quente: o dinheiro. Se chegou. Talvez começando pelo report, o que é que tiveste que fazer a seguir?

Sim, mas dizer-te só para criar aqui a ponte, para não ficar aqui um vazio entre o Grant Agreement e o report, falar um bocadinho ainda mais em detalhe só da experiência, para teres uma ideia de como é que foi depois o flow. A minha primeira semana, primeiro, fui muito bem recebida.

Que bom.

Foram-me buscar ao aeroporto, senti muito o respeito, a dignidade, o reconhecimento do trabalho das pessoas que estavam no museu a equipa estar muito disposta, muito disponível a acompanhar-me, a esclarecer todas as minhas questões, porque a primeira semana foi mesmo sobre isso, foi chegar ao território. E chegando ao território, foi muito falar com os curadores, falar com os profissionais que trabalham nesta galeria, na Posadar. Foi fazer muito trabalho de terreno, porque eu estava a abraçar um projeto ambicioso. Estamos a falar de um parque com 100 esculturas e eu não iria trabalhar com todas, tinha que criar algum tipo de relação para entender também qual é que era a minha proposta final. E depois, foi também muita investigação, de ir aos arquivos. Esta foi muito uma semana de beber, de absorver tudo, para cultivar a minha criatividade, a minha inspiração, na segunda semana. A segunda semana foi um trabalho de desenvolvimento da ideia. E a ideia foi basicamente escolher. Acabei por fazer um percurso participativo, em cinco estações, com cinco esculturas, e cada escultura representava um sentido. E a ideia era efetivamente criar esse espaço de escuta, de presença, em que houvesse realmente um envolvimento ativo por parte do participante. E em linhas gerais, foi isto, uma experiência que foi da escrita criativa ao movimento sensível, passando também pela poesia. Houve aqui várias nuances para tentar realmente criar estes diálogos. Finda a experiência, nós temos um mês para fazer o report final. É um report também relativamente simples de fazer. Basicamente, em que é que consiste? Consiste no preenchimento de um formulário online. Temos até um mês para fazer o seu preenchimento. E neste formulário é fazer um pouco o overview do que é que foi a experiência, quais é que foram os objetivos, se o impacto foi cumprido. E para além desta reflexão sobre o que é que foi esta criação, haver também a necessidade de provas, evidências de que, naturalmente, a ação decorreu. Portanto, enviar fotografias, enviar flyers, comunicação, divulgação, no âmbito daquilo que foi a proposta. Para além disto, muito importante, e é a parte mais chata, mas que não custa nada, que é recolher todos os recibos. Para termos o reembolso do dinheiro e o nosso per diem assegurado, precisamos de guardar as faturas dos voos, do alojamento, refeições, também, apesar de ser opcional, eles não exigem, mas fundamental realmente são estas duas coisas: assegurar os voos, as deslocações e a prova do alojamento. E basicamente é isto. Mais uma vez, meio-dia. E é uma coisa que está feita.

E o grant, o financiamento que obtiveste chegou-te confortavelmente para estares lá?

Tive que fazer alguma manobra.

Gerir bem.

Tive que gerir bem. E falavas desse assunto quente, de como é que foi esta parte de receber o apoio. Então dizer o quê? Isto está dividido em duas fases. Nós recebemos o apoio, 75% antes da mobilidade, e no meu caso veio certinho. Antes da mobilidade eu já tinha 75% da bolsa. E depois os últimos 25% acontecem após a submissão do report. E aqui é que a coisa correu um bocadinho, como é que eu poderei nomear isto? Não tão bem. Não tão bem, porque demorei cerca de mais ou menos quatro meses a receber estes últimos 25% da bolsa e tive também dificuldade em ter apoio por parte dos operadores que davam assistência neste processo. Basicamente, também enviei um e-mail na altura para a Europa Criativa, nomeadamente para este projeto em particular, o Culture Moves Europe, e colocava a questão de: "Já passou um mês, conseguem fazer previsão de quando é que se recebe o último montante?" E demorou, imagina, um mês a ter uma resposta.

Mas por inércia?

Não foi por inércia.

Ou achas que tinhas alguma coisa irregular no processo ou apenas demorou?

Aquilo que eles disseram foi que estavam realmente com um grande fluxo. Era um grande fluxo. Portanto, havia muitas pessoas em mobilidade e havia muitos reports em avaliação. E portanto, eles pediram, efetivamente, a nossa compreensão por não estarem a ser tão céleres como seria o ideal, mas que as circunstâncias eram estas e que estavam a fazer o melhor que conseguiam. Mas a verdade é que acabei por receber e que correu depois tudo bem.

Muito bem. Ainda bem. Às vezes essas coisas acontecem e eu, como tenho ouvido, ouço muitas coisas boas, felizmente, mas também ouço algumas críticas. Também gostava de saber como é que tinha sido no teu caso. Falando de resultados, e já me falaste no resultado artístico, que certamente foi muito interessante para a instituição que te acolheu e para quem vai visitar e passar pela tua obra. Mas pondo isso um bocadinho de lado, o que é que sentiste que ganhaste pessoalmente com este projeto? Aptência para entrar noutras candidaturas, uma força interior?

Força interior, eu gosto disso. Ganhei muita força interior com aquelas montanhas, com aquele verde. Muita gratidão por estar num sítio que, honestamente, é um paraíso na Terra. Não há turismo de massas, respira-se bom ar. As pessoas, há algo que me impressionou e que eu também trago, que tem a ver com uma produtividade que respeitam o ritmo são. Lá a vida está organizada de uma maneira que a mim me emociona, que é as pessoas não vivem só para o trabalho. As pessoas também vivem para as suas vidas, que são feitas de muitas outras coisas. E basicamente, pessoas que preferem entrar mais cedo, mas às 14h, 15h já estão livres e vão buscar os filhos à escola, estão a passear os seus cães, estão a conversar com os amigos nos cafés. E isso também me permitiu ter este lugar de observadora perante mim própria, de como é que eu giro o meu tempo. E de como é tão essencial também para a criatividade ter tempo, ter boas ideias. Então trago isso, trago, naturalmente, experiência, porque foi a minha primeira relação com o museu e com o museu desta dimensão. Portanto, é uma experiência, é um currículo, é uma aprendizagem estar a beber de todo aquele know-how que aquelas pessoas que estão lá possuem. E eu própria, estar a trabalhar com algo muito site specific e, portanto, é mesmo aprender hands-on, no momento. Depois trago memórias, trago inspiração, como não vir inspirada, com tudo aquilo que eu acabei de dizer há pouco. E também com os momentos em que eu tive para também descansar. Os meus fins de semana eram fins de semana em que eu aproveitei também para conhecer, também para aproveitar. Tão importante a fruição.

Claro. E estes projetos servem para isso também, não servem só para fazer qualquer coisa, servem também para integrar pessoas, para conhecer países, para alargar aquilo que nós sabemos sobre o espaço europeu, sobre o projeto europeu. Isso é muito importante.

Vou te dar um exemplo de uma coisa que foi muito memorável para mim. Eu, num dos fins de semana, fui a um retiro num mosteiro, muito também em linha, também fazia parte do meu projeto. Eu tinha esta vertente de mindfulness que me interessa cada vez mais aprofundar, porque tem a ver com essa qualidade de atenção que damos às coisas. A Simone Weil diz, e é, para mim, uma frase mantra: "A atenção é uma das formas mais puras de generosidade". E efetivamente, quando nós damos atenção, recolhemos algo, temos um retorno. Damos e recebemos numa relação recíproca. E então, efetivamente, fui, também como trabalho de campo, a um mosteiro de budismo, passar um fim de semana de meditação, de imersão naquele local idílico, de estar em prática em comunidade, que para mim também é um valor essencial. São estas coisas que depois alimentam a inspiração também para projetos futuros.

Claro, exatamente.

E para a vida.

E para a vida. Sim, tens toda a razão. Sim, que as coisas não são caixas tanques, misturam-se muito. Sabes que eu quando te convidei, quando eu imaginei quem é que eu queria no meu podcast para falar de uma dinâmica de artistas, porque há muito esta coisa: "O Europa Criativa não é para os artistas, é para as organizações ou é para as instituições". E depois, de repente, vimos grandes projetos aprovados em universidades com não sei quantos milhões de euros. E isso, de certa maneira, eu sinto que afasta os artistas, porque acham que não é para eles. Eu digo sempre, não há arte sem artistas. Mesmo os grandes projetos só se fazem depois recorrendo aos artistas no terreno que fazem as coisas. Mas eu quando te ouvi no GUT uma vez, eu disse assim: "Eu acho que gostava de ter a Carla no meu podcast."

Cá estou.

Justamente por isso, por seres inspiradora e porque provares preto no branco, sem nenhuma dúvida, de que de facto, o Europa Criativa, em particular o Culture Moves Europe, é para os artistas. E é isso que eu quero transmitir, sobretudo. Achas que fazeres este projeto já te abriu outras portas para entrares noutras iniciativas europeias e explorar outro tipo de financiamento? Já foste convidada para fazer mais algum projeto por uma das instituições com quem te cruzaste?

Fui convidada por ti. Para estar neste podcast. O que me deixa muito contente, porque foi uma partilha no Gota, como estavas a dizer, e no final abordaste-me. Porque parece que passou alguma coisa. Isso deixa-me extremamente satisfeita. Em termos de oportunidades que isto pudesse ter aberto, não houve esse desenvolvimento. No caso do museu, ficou uma porta aberta.

Eu acho que tu hás de vir para a Eslovénia em breve, mas isso sou eu.

Quem sabe? Ficou uma porta aberta, mas ainda sem grandes certezas. Não há um horizonte definido para nenhum projeto ou iniciativa. Mas eu também estou num ano, devo-te confessar, de muito balanço. Há alturas na vida em que nós nos confrontamos com a vida que temos. E que é essencial fazer uma retrospetiva. E este foi um ano que eu escolhi muito e que a vida escolheu também, nessa sincronia natural de sermos parte uma da outra, de estar um pouco nessa ponderação, nessa avaliação, de entender o que foi, de entender onde estou para ter essa clareza para onde é que eu quero ir. Ativamente também não busquei novos projetos, de linhas de financiamento, porque estou efetivamente nessa fase de incubação, charneira, de estar em contato realmente com o meu potencial, os meus sonhos, e ter, felizmente, esta sorte ou privilégio de ter este tempo também para poder abraçar isso com esta totalidade.

Sim, tempo é um enorme privilégio sempre. Estamos a terminar e eu gostaria de te colocar mais uma pergunta, que na verdade são duas, mas que podemos fazer assim uma coisa mais global. Um dos objetivos deste podcast é dar a conhecer o financiamento europeu, através de projetos que já foram aprovados. O que tu achas que falta fazer para que esta mensagem passe mais ainda?

Já existem efetivamente linhas de financiamento para artistas, pessoas individuais. Temos a Gulbenkian, a GDA, a DG Artas, mas a verdade é que, por comparação com outras linhas de financiamento disponíveis para entidades coletivas, a proporção não é igual. Com isto estou a dizer que existem menos oportunidades, menos opções para quem se quer candidatar a título pessoal. Essa é uma questão, que eu acho que pode estar em cima da mesa, de criar mais oportunidades, outras linhas de apoio, de financiamento, mas também sempre o trabalho da comunicação nunca acaba, em nada. É esta necessidade de continuar a disseminar. Redes sociais, canais muito diversos, onde se possam chegar efetivamente às pessoas, sessões de esclarecimento, sim, mais. E diria que é por aqui.

Sim, concordo contigo. Última questão. Com base nesta experiência maravilhosa que tu tiveste, eu acho que posso classificar como maravilhosa, pelo menos olhando para o teu sorriso.

Podes.

O que é que dirias a um colega artista que está com hesitações no que diz respeito a concorrer ou não ao Culture Moves Europe?

Ó colega, não hesites, porque se acreditas na tua ideia, aplica-te nela, investe a tua energia naquilo que importa, porque há sempre alguém que pode fazer a ponte contigo. Não tens necessariamente que estar sozinho. Nem antes, nem durante, nem após o processo. Eu diria que é muito um caminho de abraçar a nossa vontade, o nosso potencial e não desistir. E fazer as escolhas certas.

Carla, muito obrigado pela conversa. Acho que foi muito interessante. Gostei muito de ter-te aqui e tenho a certeza que estamos a ajudar muitas pessoas.

Francisco, posso ser um bocadinho disruptiva e fazer aqui uma sugestão?

Claro que sim.

Gostava de oferecer um poema.

Força.

Um poema que foi precisamente trabalhado no contexto da residência, não é um poema qualquer, mas assim como eu o usei neste percurso participativo lá, gostava muito de oferecê-lo também ao nosso ouvinte.

Eu não vejo maneira melhor de acabar o nosso programa.

É um poema da Wisława Szymborska e chama-se "Distração". É assim: "Ontem portei-me mal no cosmos. Vivi o tempo sem perguntas, sem surpresa. Desempenhei tarefas diárias como se apenas isso fosse necessário. Inspirar, expirar, pé direito, esquerdo, obrigações, sem questionar como chegar lá e voltar. O mundo pode ter sido encarado como uma confusão, mas consumi-o apenas para uso diário, sem porquês, nem para quês. E por que raio na Terra assim é? E por que são precisas tantas peças em movimento? Eu era como um prego, um prego encalhado até meio da parede, ou comparação que não consegui encontrar. Uma mudança após a outra, mesmo no intervalo estreito de um piscar de olhos. O pão de ontem foi cortado de outra forma, por uma mão um dia mais nova, uma mesa mais nova, nuvens como nunca e chuva como nunca, uma vez que, afinal, caiu em gotas diferentes. O mundo girou no seu eixo, mas num espaço abandonado para sempre. Isto demorou umas boas 24 horas, 1440 minutos de oportunidade, 86.400 segundos para reflexão. O savoir-faire, o savoir-vivre cósmico pode permanecer em silêncio sobre os nossos assuntos. Ainda assim, faz algumas exigências. Atenção ocasional, um ou dois pensamentos de Pascal e um envolvimento maravilhado num jogo com regras desconhecidas."

Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da formação e desenvolvimento. Estamos juntos, no mesmo palco.