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Começa agora mais um Jet Lag com a Filomena Martins. Bom dia, Filomena.

Bom dia.

Hoje fomos para um sítio quentinho?

Ainda não. Vamos, aliás, para um sítio bem frio. Vamos começar em Sochi, na Rússia, são mais três horas. Porque com esta exclusão da Rússia dos Jogos Olímpicos e do Mundial de Futebol por causa do escândalo de doping, eu fui rever o documentário "Ícarus", está na Netflix. E este documentário é fabuloso e o médico que esteve por trás do esquema fraudulento, ganhado pelo Kremlin, revela como tudo era feito e vale a pena ser visto. Vale mesmo a pena.

Com grande detalhe, de facto, não é? E coragem da parte dele também. Vi, sim, senhor. Já havia algum tempo, quando ele foi colocado na Netflix. Sim.

E vale a pena ver outra vez. E conto todos os pormenores. Para quem não viu, eu queria contar alguns pormenores de como aquilo era feito e de como aquilo tinha, não muito requinte, mas alguns detalhes bem interessantes para contar. Certo?

Sem dúvida. Com alguma química à mistura, obviamente. Conhecimentos técnicos, tem que ser.

É verdade. E indo rapidamente e resumidamente ao que aconteceu, o médico foi o garganta funda. O seu cúmplice, de alguma forma, o autor do documentário, este Grigory Rodchenkov, era o médico chefe do laboratório dos Jogos Olímpicos de Inverno 2014, os de Sochi. Os atletas russos ganharam 33 medalhas, mais do que qualquer outro país. Nenhum acusou doping. O segredo estava nesse laboratório que fazia as análises, ou melhor, no quarto do lado. O laboratório ficava no quarto 124, onde o médico chefe se fechava à noite. Mas ao lado, no quarto 125, é que estava o segredo, porque os funcionários russos tinham aberto um buraco na parede, tapado por uma estante falsa, e por esse buraco, entre os dois quartos, passavam centenas de amostras de urina. O médico trocava as verdadeiras dos atletas por outras completamente limpas e recolhidas meses antes. Primeiro, uma atleta revoltou-se contra o sistema e contou tudo à Agência Mundial Antidopagem, desde a troca de frascos ao nome desse médico. Depois a atleta e o marido fugiram, nunca mais se soube deles. E então o Putin ameaçou o médico com aquela frase de que receberia o castigo absoluto se fosse culpado.

E por castigo absoluto entende-se ameaça de morte, mesmo?

Eu entenderia, e eu acho que ele também entendeu.

Não era deixar de comer o pudim no fim de jantar, seguramente.

Eu acho que podia não ser. E acho que ele ainda não está a salvo. E eu acho que ele acha isso. O que assustou também mais o médico foi ver o seu assistente morrer com um infarto fulminante, sem ter qualquer sintoma e ser um daqueles rapazes fortes e saudáveis. Mas pronto. Ele contatou, naquela altura, o seu cúmplice, que desde 2012 o ajudava no esquema. Como isto é tudo muito resumido, vale a pena ver o documentário. Como ele tinha um visto dos Estados Unidos, conseguiu fugir. Ele levou três malas de documentos e um diário. Foram o material que serviu para este documentário, para este "Ícarus". Ele achava que também nunca mais seria encontrado, mas a verdade é que o FBI o encontrou, descobriu e pediu lhe para depor. Ele percebeu que se o FBI o encontrava, os serviços russos também haviam de o encontrar. Agora anda sempre com dois guarda-costas e um colete antibalas. Até porque já garanti que a Rússia continua a fazer batota, não com ele, mas com outros. Portanto, a coisa pode acabar como aqueles Skripal ou como alguma coisa do gênero.

É, de vez em quando há umas pessoas daquelas, de zonas que têm uns azares na vida, não é?

É, acabam bolado. Mas pronto, fica a sugestão para verem o "Ícarus".

Para este fim de semana.

E vale a pena mesmo ver, porque contou ele depois tudo, quase na primeira pessoa, como é que fazia as coisas.

E Filomena, da Rússia, vamos para?

Piacenza, Itália.

Itália, parece-me tão bem, sim.

E Piacenza é um belo sítio para visitar, recomendo eu. Mas porque foi resolvido o mistério de um dos quadros mais procurados da história. Uma pintura do Klimt, roubada há 22 anos e nove meses, precisamente. Chama-se Retrato de uma Dama, foi pintado pelo pintor austríaco em 1917. É roubado em 97, de uma galeria da cidade, quando ia ser transportado para uma exposição. Vale mais ou menos 44 milhões de euros. Uma coisa assim pequenina.

E nunca se soube nada, nunca houve pistas, nunca se percebeu o que é que aconteceu.

Olha, não faltaram foi teorias. Dizia-se, aliás, que era um dos roubos mais bem-sucedidos do mundo da arte. A moldura foi encontrada na claraboia do teto da galeria, mas a tela nunca tinha sido encontrada. Primeiro pensou-se que tinham sido os ladrões acrobatas que tinham entrado e saído pela tal claraboia. Os guardas também foram investigados, mas nunca foram encontradas provas. Um famoso ladrão de arte chegou a dizer que tinha sido ele, mas veio a provar-se que era mentira, nada disso. Falou-se em rituais satânicos, não percebo por quê. O quadro é de uma dama, realmente, que se dizia, aliás, que tinha sido uma das namoradas do Klimt. Outra das pistas falsas, e esta é a mais engraçada, envolveu o mesmo ex-primeiro-ministro italiano, o Bettino Craxi. Disse que ele tinha levado este quadro quando fugiu para Tunes, para Tunísia, para escapar à justiça italiana. Chegou a ser interceptada uma encomenda para ele, pensando que estava lá o quadro, mas não estava.

Já agora, ele estava sob acusação de corrupção, se não me engano, o Craxi.

Claro, e fugiu e isolou-se deles na Tunísia, foi para Tunes. Mas não levou o quadro, não tinha sido ele.

Nada disto era a verdade, era a explicação? Como é que o quadro foi encontrado, afinal?

De uma forma muito simples. Durante a limpeza dos jardins da galeria, este fim de semana, ao retirarem a hera que tinha crescido na parede, os jardineiros descobriram um buraco com um saco de lixo, abriram o saco de lixo e lá dentro estava a tela tão procurada.

Tão perto, não é?

Nunca saiu da galeria. A polícia acha que os ladrões a deixaram ali para mais tarde a ir buscar. Mas como o roubo ganhou uma midiatização muito grande, foi notícia em todo o mundo, nunca o fizeram por medo, então nunca lá foram.

Tiveram medo de voltar ao local do crime.

E o que fazer depois com a tela?

E depois vendiam como? Esse quadro não é exatamente um quadro qualquer. Mas a verdade é que não foram lá nesses 22 anos. Eu diria que nos primeiros 10 poderiam não ter ido. Agora, dos outros 12... Mas não foram nunca mais e o quadro esteve lá esse tempo todo na galeria. Portanto, ficou sem a moldura, ficou a moldura na claraboia.

Filomena, já estamos na Europa, onde é que terminamos este jet lag?

Acabamos cá. A gente também tem histórias boas, acabamos em Portugal. Vocês já ouviram falar do padre motard sexy de Valença?

Sim, já vi a história dele contada por aí várias vezes.

Pois, sobretudo quando a população de Caminha se voltou para a diocese do Castelo por ele ser transferido, toda a gente contestou. Pois este padre juntou agora mais um dote aos muitos que já parece ter: a representação. Ele entra num vídeo musical vestido de anjo e a fazer de cupido de arco e flecha.

É assim mesmo. É um padre com sentido de humor. Pelo menos isso.

Eu sei que vocês quererão ver o vídeo.

Muito apropriado, seguramente.

Recomendas o vídeo?

Só vos dou o link no fim. No entanto, este Ricardo Esteves, assim se chama o padre de cinco freguesias de Valença, entra no videoclube de um grupo chamado Intenso, que interpreta, neste caso, a famosa canção Pretty Woman. Os Intenso dizem tocar e cantar rock, pop, country, folk, desde 1960 até ao presente. São, por exemplo, muito conhecidos pelos hits. Eu não sabia quem eram. Ele, o padre, ao longo de quase três minutos, tenta juntar um casal como cupido, mas há muitas peripécias pelo meio. Para já, porque aparece um diabo para atrapalhar. E isto faz com que haja encontros e desencontros. Depois há poções de amor trocadas, que acabam mesmo por dar numa paixão gay. De tal forma que o jovem que o padre cupido quer ajudar acaba a fugir de um homem que o diabo fez que se apaixonasse por ele, imaginem. Tem todos os ingredientes para dar errado.

Tem todos os ingredientes para a Igreja ter adorado. Há reações?

Que eu saiba, não. Este vídeo só tem dois dias. Portanto, vamos esperar, que a Igreja costuma demorar a reagir. Se calhar, ainda não chegou ao YouTube para ver isto. Só sei que o padre tem o papel principal. Ele aparece mesmo numa grande cena, num plano fechado, a piscar o olho, e depois mergulha numa piscina para salvar o tal jovem que quer ajudar e sai de lá com ele nos braços, tipo jovem T-shirt molhada e para o lado oposto.

Não sei se quero ver o vídeo, confesso. Vamos ter de ver.

Como é que isto se faz uma busca? Padre motard sexy? Videoclipe e vamos lá dar.

Não, vou te dizer. Vais ao YouTube, põe Intenso, Pretty Woman.

Intenso, Pretty Woman. É fácil.

É fácil. É só assim.

Filomena, e é com Pretty Woman que fechamos este jet lag. Já estamos a ver por baixo.

Não sei se a Sofia pôs o Pretty Woman verdadeiro ou se pôs o dos Intenso. Não sei qual o que ela pôs.

Pôs o original.

Não é tão bom.

Eu estou à procura do vídeo.

A Carla já está aqui à procura do vídeo.

Intenso. Depois fazem os comentários no fim. Depois dizem-me quando chegar.

É assim que fechamos o Jet Lag de hoje. Até já, Filomena. Obrigada.

Até já.

Amanhã, nova edição, aqui na sua Rádio Observador.