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Estou, tia Cátia?

Maria João?

Olá.

És tu, querida?

Sou eu. Vamos atacar nas azevias?

Bora!

Vamos a isto.

Nas azevias e nas rabanadas.

Tia Cátia, ficaste conhecida pela tua participação no "MasterChef". Desde então, tens um programa no 24 Kitchen, "Segredos da Tia Cátia", onde ensinas muitas receitas de doces e não só, mas já lá vamos. É fácil resistir a tanta sugestão boa?

Olha, eu sou uma boquinha santa, como diz o ditado. Gosto de tudo. Aliás, não se pode ver pela imagem em anexo, mas pode-se pela voz perceber que eu sou uma mulher feliz e gosto muito de tudo. Olha, sou uma petisqueira, adoro comer e sou destas que vou estando a cozinhar e vou estando a provar tudo o que faço.

E quando chegas ao fim, ainda existe apetite e vontade de comer aquilo que cozinhaste?

Eu tenho uma capacidade de resiliência muito grande. Dá sempre espaço para mais um bocadinho.

Ótimo. E que sobremesas vão estar esta noite na tua mesa de Natal?

Olha, eu gosto imenso de ver uma mesa cheia e farta. E esta noite eu passo sempre com os meus sogros, com os meus cunhados e, portanto, a minha sogra, que é uma doceira maravilhosa, também tem a mesma ideia que eu. De maneira que eu levo uma série de coisas, ela faz uma série de coisas. Vou-te já dizer: as rabanadas da minha sogra não podem faltar, que são das melhores que eu já comi na minha vida. Depois ela faz sempre uns doces, faz sempre um quindim muito bom. Tu sabes que o quindim, apesar de ser um doce brasileiro, é inspirado nas nossas brisas de Leiria. A minha sogra faz, toda a vida fez e, portanto, é uma coisa que tem que ter sempre. Depois eu faço sempre uns bolos de amêndoa. Há uma coisa que eu faço todos os anos, que tem que ser sempre, que é a encharcada de ovos. É uma overdose de doces.

De açúcares. Lá dispara a glicemia. Tu és carinhosamente apelidada por tia Cátia. E quanto a sobrinhos, sem aspas e com aspas, são muitos a quem oferecer prendas nesta altura?

Olha, eu tenho muitos sobrinhos, porque eu tenho muitos sobrinhos que são sobrinhos de sangue. Depois tenho aqueles sobrinhos que são sobrinhos de filhos de amigos, filhos de primos e depois tenho outros milhares que eu não sei quantos são. Sabes que o coração de uma tia é um coração muito grande.

Gigante.

Sabes uma coisa curiosa? Olha, vou partilhar contigo. Quando o meu filho Manel nasceu, eu tinha 25 anos e quando ele veio para o pé de mim, eu até tive um sentimento um bocadinho estranho, porque pensei assim: "Eu sou tia desde os 10 anos. Portanto, eu tenho muitos sobrinhos desde sempre. Não me lembro de outra coisa senão ser tia". E ser mãe para mim foi uma novidade. E eu, na altura, lembro-me de ter pensado e ter até ficado um bocadinho angustiada e pensar: "Meu Deus, ou só gosto do meu filho como se fosse meu sobrinho, ou então eu sempre gostei dos meus sobrinhos como se fossem meus filhos".

Como se fossem filhos.

É uma sensação estranha.

Claro, na altura.

O sentimento cresce de outra forma, obviamente. Os meus filhos quando querem mais de mim tratam-me por tia Cátia.

Já perceberam, portanto, é o teu calcanhar de Aquiles.

Mesmo. Sabes que nós quando somos mães, às tantas desligamos o botão do "mãe". Já desligamos, não é?

Já reages mais ao tia.

Exato, o tia. É terrível, mas é verdade.

Cátia, e quando se trata de escolher os presentes, optas sempre por soluções ligadas à tua relação com a cozinha, com a culinária, ou são mais à medida e de acordo com os gostos de quem vai receber a prenda?

Nós somos quatro irmãos e somos muitos. E aqui há uns anos nós decidimos que éramos, de facto, muitos. Somos muitos. E então que cada um deveria dar os presentes aos seus filhos, só, na sua casa. Quando estivéssemos todos juntos na noite de Natal, como hoje vamos estar, seria só para partilharmos aquilo que nós temos de melhor, que é a nossa boa disposição, a nossa companhia. Cada um faz um prato especial que costuma fazer. E então optámos por darmos mais isso. Quem quiser dar um presente, dá aquilo que faz. Portanto, eu como faço comida, o que eu faço todos os anos é: faço umas compotas, faço uns patês, faço umas bolachinhas e, portanto, normalmente os meus presentes são sempre feitos por mim.

E uma coisa é certa, Cátia, pelo menos têm sempre grande utilidade.

Sim, porque comer come-se sempre.

Exatamente, lá está.

E sabes uma coisa? Eu sou da opinião que aquilo que mais valor tem é o tempo, é o teu tempo. Porque tu uma vez passado um dia já não podes voltar para trás, não o podes comprar, não podes fazer nada. Portanto, se tu perderes um dia ou gastares um dia da tua vida a fazer aqueles presentes para aquela pessoa, tu estás a dar aquilo que tu tens mais de ti.

Exatamente.

Independentemente daquilo que seja. Porque eu lembro que uma vez uma sobrinha minha deu-me um Um presente que eu adorei, que foi um vale de babysitting. Isto já foi há uns anos, portanto meus filhos eram mais pequeninos e ainda precisavam de babysitter. E ela deu-me um vale e disse: "Tia, aqui está um vale de duas noites de babysitting".

A alegria que foi.

Nem de facto tens de ir. Repara, tu podes dar. Tu podes dizer assim: "Ah, não tenho tempo para dar".

No fundo, ela estava a dar o tempo dela, não é? Como tu estavas a dizer.

O tempo dela, exactamente. E eu acho que isso é maravilhoso. Acho que durante o ano, sim, acho que devemos apoiar o comércio, devemos comprar coisas e devemos, obviamente, gastar de acordo com as nossas possibilidades. Mas há uma coisa que se puderes, deres o teu tempo, a tua energia, é maravilhoso.

Cátia, falavas aqui dos teus irmãos, tu és a mais nova de quatro. Ainda em miúda, a cozinha já era algo que te fascinava ou a paixão surgiu mais tarde, já em idade adulta?

Sempre. Como já te disse, nós somos quatro. Eu faço seis anos de diferença da minha irmã a seguir, oito do meu irmão e 10 da minha outra irmã. Portanto, eu sou a mais pequenina e se calhar por isso, e nós todos de uma forma natural, cada um tinha a sua atividade em casa. A minha irmã mais velha, porque era a mais velha, era aquela que destinava tudo. Depois a minha irmã Filipa, que é a outra a seguir a mim, era a das limpezas. Era a louca das limpezas. Davas-lhe um pano e uma esfregona, ela ficava possuída, limpava a casa toda, era maravilhosa. E eu, se calhar, porque sou a mais nova, também sempre adorei cozinha e portanto era aquela que fazia os bolinhos para os manos, era aquela que fazia o jantarinho, e que fazia os petisquinhos. O meu irmão, como bom rapazinho e menino na mão das bruxas que era e continua a ser.

Era o provável.

Desorganizava para a minha irmã mais velha organizar, sujava para a minha irmã limpar e comia o que eu fazia. Portanto, ainda hoje é o nosso menino, é o nosso protegido.

Existe alguma tradição de família que vocês não dispensem nesta altura do ano?

Há coisas que não mudam nunca. Por exemplo, a minha mãe agora, como já está com uma idade mais avançada, com mais conhecimento, nós já a poupamos de fazer tudo, sendo que a minha mãe é que fazia sempre o peru. Eu já acumulei essas funções da minha mãe, de preparar todo o jantar do dia 25, que é com os meus irmãos. Eu já acumulei essas funções, mas há coisas que nós não deixamos de pedir à minha mãe, até porque achamos que é importante que ela continue a fazer e até porque não sei se algum de nós sabe fazer tão bem como ela, que são os sonhos de abóbora.

Gosto tanto.

São maravilhosos. E umas ervilhas que a minha mãe faz, que se chamam ervilhas à francesa, que levam alface, levam uma série de coisas, mas que nós fazemos questão que seja a minha mãe a fazer. E portanto, independentemente de nós termos acumulado as funções e de ser eu a fazer o peru e o bacalhau e os doces todos, estas duas coisas não podem faltar. Mas há outras, por exemplo, o puré de castanhas não pode faltar na mesa, o puré de maçã, o bacalhau espiritual, porque cada um de nós tem a sua especialidade. A minha irmã Filipa faz o bacalhau espiritual.

Portanto, vocês no fundo completam-se, não é?

Sempre. Eu nesta altura já tenho mensagens dos meus irmãos a dizer: "Então, o que é que é preciso fazer?"

Exato. Tia Cátia, agora umas perguntinhas curtas sobre os teus gostos natalícios. Pode ser?

Pode, claro.

Rabanadas ou azevias?

Rabanadas.

Bolo rei ou rainha?

Bolo rainha.

Arroz doce ou aletria?

Arroz doce.

Presépio com musgo ou com alcatifa verde? Eu ri-me sempre nesta.

Com musgo.

E no presépio, alumínio ou espelho para fazer de água?

Alumínio.

Árvore de Natal verde ou branca?

Verde.

Bolas de todas as cores ou só de uma?

Todas as cores.

Pai Natal ou Menino Jesus?

Menino Jesus.

Meias ou bombons?

Meias.

"Sozinha em Casa" ou "Música no Coração"?

"Música no Coração".

Tia Cátia, estamos a terminar. Que palavras gostavas de deixar aos nossos ouvintes nesta véspera de Natal?

Acima de tudo, que aproveitem cada dia e cada consoada da melhor maneira possível, porque como te disse, cada dia é um dia e passando, já passou. Parece um place muito grande, mas a verdade é essa, é uma das minhas maneiras de ver a vida, é aproveitar o dia a dia da melhor maneira possível, pensando sempre que o que fizemos hoje, não vamos voltar a fazer. E portanto, aproveitar a família, aproveitar os amigos, aproveitar os momentos e às vezes, isto ao que parece, é parece um bocadinho tópico dizer estas coisas, ok, é tudo muito bonito, mas mesmo as alturas menos boas da nossa vida nos trazem alguns ensinamentos que nós de futuro vamos poder utilizar. Tirar o maior partido de tudo, mesmo das fases menos boas da nossa vida, porque isso faz-nos crescer e faz-nos ser melhores, seguramente.

Tia Cátia, obrigada por teres aceitado o nosso convite. Aconteça o que acontecer, feliz Natal e um grande beijinho.

Muito obrigada, minha querida. Adorei ter estado convosco. Um feliz e santo Natal para todos, cheio de coisas boas. Muito obrigada, um grande beijinho.

Beijinhos, tia Cátia.

Obrigada, Maria João, obrigada, querida.

Já a seguir, uma curiosidade de Natal. Sabe como nasceu a árvore de Natal? O pinheiro é a árvore de eleição. Faz parte das árvores que se mantêm verdes o ano inteiro e isso era visto na antiguidade como algo divino. O uso de árvores enfeitadas remonta à época da Roma Antiga, quando se decoravam estas árvores na altura do solstício de inverno, para honrar o deus Saturno e como forma de ter boas colheitas e afastar os males. Existem várias teorias sobre a origem da árvore de Natal moderna. A mais popular remonta ao século XV, no território que hoje é a Alemanha, onde as árvores eram decoradas com maçãs e nozes. Mais tarde, no século XIX, popularizaram-se no Reino Unido pela mão da Rainha Vitória e do Príncipe Albert. A rainha tinha ascendência germânica. Em Portugal, a primeira árvore de Natal de que há registo foi enfeitada por Dom Fernando II, no século XIX. Conhecido como o rei artista e também de origem germânica, trouxe para Sintra uma memória de infância ao decorar um pinheiro nórdico com cerca de metro e meio, para mostrar aos sete filhos. E a moda pegou. Eu sou das que se picava no pinheiro, sempre que me baixava para espreitar as prendas, mas nem isso me tirava o gosto de, ainda miúda, decorar a árvore de Natal. Bom, ainda hoje adoro decorar. Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia neste Natal com sabor. Beijinhos, abraços e boas festas.