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Nem tudo o que vai à rede é bola desta terça-feira, desta semana, na Rádio Observador, comigo, João Filipe Cruz, também com o editor de desporto do Observador, o Bruno Roseira, e com a jornalista da seção de desporto do Observador, a Mariana Fernandes. Na segunda parte do programa de hoje, vamos receber o triatleta Vasco Vilaça. Já está apurado para os Jogos Olímpicos de Paris e ficou muito perto de se sagrar campeão mundial este ano. Mas primeiro, como sempre, vamos aos destaques. Começamos contigo, Mariana. Vamos à figura, que multiplicamos por dois, porque temos duas esta semana: Lionel Messi e Aitana Bonmatí, que venceram ontem as respetivas Ballon d'Or.

Sim, foi uma gala, uma segunda-feira e uma Bola de Ouro que não trouxe surpresas para praticamente ninguém.

Não trouxe?

Não trouxe. Já todos sabíamos o que ia acontecer, fosse onde fosse. Não houve grandes novidades e só serviu para confirmar precisamente aquilo que já todos sabíamos. Lionel Messi conquistou a oitava Bola de Ouro da carreira, alargando um registro que já lhe pertencia e que o deixa agora com mais três do que Cristiano Ronaldo, que pela primeira vez em 20 anos não fazia parte deste lote de 30 finalistas.

Ficou no 800 e tal, não é?

Diz que sim. Se bem que não sei muito bem onde é que vão buscar esse número, mas parece que sim. Recordar também que Messi, no ano passado, também não tinha estado neste lote de 30 finalistas e este ano voltou a ganhar. E na categoria feminina, Aitana Bonmatí venceu a primeira Bola de Ouro da carreira, sucedendo à colega e também compatriota Alexia Putellas, que tinha sido eleita nos dois anos anteriores. No caso de Messi, fica claro que o Campeonato do Mundo teve um impacto crucial na escolha deste vencedor. 2023 foi campeão em França na época passada, é certo, mas Haaland ganhou tudo com o City. Premier League, Liga dos Campeões, Taça de Inglaterra, marcou mais gols do que qualquer outro na Europa e no mundo e mesmo assim ficou em segundo, muito por aquilo que Messi fez no Catar com a Argentina. Recordando ainda que Messi também se tornou o primeiro a ganhar a Bola de Ouro enquanto joga fora da Europa, numa clara alteração também de paradigma do futebol internacional.

A partir de agora é possível.

A partir de agora tornou-se possível. É certo que é sempre mais possível se falarmos-

Quando ganhar o Campeonato do Mundo.

Sim, mas é certo que é sempre mais possível se falarmos de Messi ou se falarmos de Cristiano Ronaldo, obviamente, independentemente do sítio onde estiverem a jogar. Mas começa a perceber-se que o futebol conforme o conhecemos está a mudar um pouco. No caso de Aitana, a escolha é ainda mais óbvia. Foi uma das melhores jogadoras de um Barcelona que também ganhou tudo, incluindo a Liga dos Campeões. Foi também a melhor jogadora do mundial que Espanha conquistou na Austrália e na Nova Zelândia, aproveitando também a cerimônia para deixar aqui uma espécie de statement, porque falou catalão e não espanhol no discurso de agradecimento. Pelo meio, e novamente sem grandes surpresas, Emiliano Martínez foi eleito o melhor guarda-redes, com um dos maiores pontos de relevância da cerimônia, porque teve direito a assobios da plateia majoritariamente francesa, com Didier Drogba, o apresentador, a ter de pedir respeito pelo guarda-redes do Aston Villa e da seleção argentina. Jude Bellingham recebeu o prêmio Kopa para melhor sub-21 e eu diria o primeiro degrau para ser o próximo vencedor em série da Bola de Ouro. Vinicius foi distinguido com o prêmio Sócrates pelo trabalho humanitário que faz no Brasil e Haaland com o prêmio Gerd Müller para melhor avançado, melhor goleador do ano, numa gala que obviamente também ainda incluiu naturais homenagens a Pelé, a Bobby Charlton e a Luís Suárez, três vencedores da Bola de Ouro, uns de forma honorária, outros mesmo vencedores, que morreram no último ano.

E Bruno, pelo meio também tivemos dois portugueses que estiveram na luta. Viram o nome sair.

O Rúben Dias costuma estar sempre na luta. Isso os avançados da United que o digam este fim de semana. Sim, tivemos aqui três pontos relevantes em termos nacionais. Um primeiro é o segundo ano consecutivo em que um jogador português termina à frente do Ronaldo, que neste caso nem sequer entra no top 30. Até são dois, é o Bernardo Silva em nono e o Rúben Dias em 30º, que ficaram à frente do Ronaldo. E isso não deixa de ser curioso, porque independentemente se gostar ou não de haver ou não guerra Ronaldo-Messi, Ronaldo é o melhor marcador no ano civil 2023, independentemente, e percebe-se isso até pelas declarações que um editor da France Football teve durante o fim de semana, que existe quase uma tentativa de minorizar aquilo que é a Liga Saudita, e em parte eu percebo, mas ainda assim não me parece que seja uma coisa tão minoritária para apagar este registro. Um segundo ponto que tem a ver com o facto de Bernardo Silva ter conseguido, apenas pela terceira vez desde 2007, que é quando o Ronaldo começa a aparecer mais na Bola de Ouro, entrar no top 10. Ou seja, até agora tinha existido Pepe em 2016, muito por força do Campeonato da Europa, o Bernardo Silva em 2019 e agora novamente o Bernardo Silva, sempre em nono lugar. E depois um outro ponto também relevante, apesar de não haver a mínima comparação com o de Jude Bellingham, mas é o quarto ano consecutivo em que Portugal está representado no top 10 do Prêmio Kopa. Primeiro foi o João Félix, depois o Nuno Mendes em dois anos consecutivos e agora o António Silva em oitavo. Em relação ao Messi, acrescento só uma questão, que é: acho imensa piada ver esta argumentação da importância do Campeonato do Mundo, quando em 2010 um senhor chamado Iniesta, que decidiu o Campeonato do Mundo, e um senhor chamado Xavi ficaram atrás de Messi, que era o seu companheiro de equipe do Barcelona. Portanto, agora, de repente, o Campeonato do Mundo é a coisa mais importante. Em 2010, pelos vistos, não era.

Vamos avançar, vamos para o número, Bruno, que é o três e é o número de pontos de vantagem do Sporting na liderança da Liga no final da nona jornada, que teve Benfica e Sporting Braga a escorregarem.

Sim, acaba por ser uma jornada favorável para o Sporting, até perspetivando já aquilo que será o derby com o Benfica daqui a duas semanas, e o próprio Rúben Amorim tinha falado nisso na conferência de antevisão deste jogo no Bessa. Não é propriamente um campo fácil para o Sporting em termos históricos. Esta foi apenas a 17ª vitória em 65 jogos. Agora, aproveitando aquilo que foi o empate do Benfica com o Casa Pia, o Sporting abre aqui uma vantagem de três pontos para o Benfica e para o Futebol Clube do Porto e consegue, por um lado, a melhor pontuação de sempre, desde que a vitória passou a valer três pontos em 1995, à nona jornada, ou seja, tem 25 em 27 pontos possíveis e, por outro, a maior diferença estando na liderança também nesse período. Com essa particularidade de não ter sido propriamente uma exibição muito famosa, mas mostrar que, apesar de tudo, o Sporting, ponto negativo, tem uma manta curta, mas ponto positivo, não está assim tão dependente de Océanas para ganhar. Aliás, o jogo de Océanas provavelmente deve ter sido um dos piores desde que chegou a Alvalade. O Futebol Clube do Porto, diria que entrou aqui numa espécie de velocidade cruzeiro em termos de estabilização, não só de exibições, mas também de resultados, embora as exibições também não sejam famosas, mas ainda assim, depois da goleada com o Antwerp, consegue também ganhar ao Vizela num jogo decidido na primeira parte. E depois temos aqui, de facto, o Benfica, que é a equipa que está a atravessar o período mais complicado. Teve a derrota com a Real Sociedad, zero pontos e zero gols na Liga dos Campeões à terceira jornada. Tem agora um empate em casa com o Casa Pia, com Trubinha a ser herói porque defendeu um penalty, mas depois a ser o vilão, porque facilitou e muito no gol do Larrazábal. Agora, bem mais do que estes dois pontos perdidos, eu diria que o Benfica tem aqui uma série de problemas para resolver, sobretudo alguns que me pareciam complicados de antever depois da última época. Ou seja, o Benfica perdeu por completo a ligação entre setores, criou problemas nas laterais, que era onde parecia ter encontrado soluções na última época. Em termos de jogo ofensivo, cria muito menos oportunidades do que é normal. Ainda não se percebeu sequer quem é o nove deste ano sem o Gonçalo Ramos. E depois uma outra questão que me parece que acaba por ser transversal, que é a equipa parece que perdeu a intensidade na maneira como aborda os jogos. E isso depois reflete-se não só na incapacidade de resolver cedo, mas também na incapacidade de poder materializar esse desgaste que vai sempre causando ou que ia sempre causando nos adversários mais tarde. Também por isso, diria que com o jogo da Taça da Liga agora e com o derby a aproximar-se, parece-me que o Benfica está na altura de começar a tentar dar a volta ou Schmidt poderá ter uma vida um pouco mais complicada na Luz.

Antes do Sporting, ainda vai ao País Basco.

Ainda vai ao País Basco, sim, com a Real Sociedad, que apesar de ter feito um jogo fantástico na Luz, é uma equipa, apesar de tudo, irregular. Agora na Liga dos Campeões aparece sempre a melhor versão. Mariana, isto ainda é muito cedo, mas olhando agora para baixo, também já estamos a conseguir descobrir quem é que vai lutar pela manutenção ou pelo menos quem está melhor posicionado, entre muitas aspas.

Sim, estamos ainda, obviamente, numa fase muito embrionária da temporada, acho que muita coisa ainda pode acontecer, mas eu acho que já começa a desenhar-se um bocadinho a luta pela manutenção entre o Estoril, Rio Ave, o Vizela, Desportivo de Chaves, o Arouca também está no meio nesta altura, mas eu acho que é expectável que o Arouca ainda consiga reagir e dar outra cara, principalmente depois de ter ficado em quinto lugar na época passada. Seria um tombo de todo o tamanho lutar pela manutenção esta temporada. E eu faço aqui um destaque negativo para o Estoril, que volta a ter claramente e vai ter uma época muito complicada, depois de também ter conseguido fugir à despromoção com quase uma ressurreição nas últimas jornadas do campeonato passado. O Estoril leva nesta altura sete derrotas, um empate e apenas uma vitória em nove jornadas. As coisas estão muito complicadas para a equipa da linha e eu acho que vai ser mais um ano difícil em que o Estoril vai procurar a todo o custo manter-se na Primeira Liga.

Mariana, não te cales, porque o marco é teu, ou melhor, é do Max Verstappen, porque bateu outro recorde, agora com um número de vitórias numa só temporada, que já lhe pertencia, e subiu às 16.

Sim, o Max Verstappen já é tricampeão mundial, o Charles Leclerc até vai conseguindo dar algumas alegrias à Ferrari com conquista de pole positions. Aconteceu nos Estados Unidos e aconteceu agora este fim de semana também no México. Mas a verdade é que a lógica do mundial de Fórmula 1 continua praticamente inalterada e completamente dominada pela superioridade da Red Bull e, neste caso, também do Max Verstappen. Neste grande prêmio do México, ele até arrancou de terceiro atrás dos dois Ferrari, mas começou muito bem, agarrou a liderança logo na primeira curva, uma primeira curva onde Sérgio Pérez quis dar-se a mostrar aos seus fãs e adeptos mexicanos e onde ficou também desde logo fora da corrida ao tentar ultrapassar Leclerc e Sainz de uma vez, bater no monogasque e, portanto, ir parar à gravilha para enorme desilusão dos fãs do país, que viram o seu ídolo ficar de fora ao fim de 14 segundos de grande prêmio. Foi um fim de semana acidentado, que até teve uma bandeira vermelha, portanto a corrida esteve interrompida devido ao despiste violento de Kevin Magnussen, mas Max Verstappen continua sem dar hipótese à concorrência, carimbou a 16ª vitória da temporada, este recorde absoluto e uma melhoria de um registro máximo que já lhe pertencia. É preciso também fazer sempre a ressalva de que este registro máximo acontece, ou estes registros máximos de Verstappen acontecem também com mundiais que nesta altura têm 20 e muitas corridas, algo que não acontecia nos anos 70, anos 80, anos 90. Portanto, é sempre um bocadinho ingrato comparar estes recordes. A verdade é que Max Verstappen leva aqui 16 vitórias num único ano Hamilton conseguiu ficar com o segundo lugar numa demonstração exímia do que é pilotar, ficando claro que nesta altura só lhe falta ter carro para continuar ou para voltar a lutar pelo título. E o Leclerc ainda conseguiu resgatar um pódio para a Ferrari num dia em que ainda se destacaram Lando Norris, que arrancou 17º e conseguiu acabar em quinto, e também o Daniel Ricciardo, que já tinha impressionado com o quarto lugar na qualificação e que conseguiu pontos para a AlphaTauri ao cruzar a meta em sétimo.

Deixa-me voltar atrás, porque, Bruno, estamos em vésperas do Dia de los Muertos, que é um dos feriados mais prestigiantes, ou mais concorridos do México. E o Sérgio Pérez em casa morreu na parada. Mais ou menos.

Sim.

É exatamente isso. Por culpa própria. Ou seja, mais uma vez aquilo que se percebe é o Sérgio Pérez tem consciência que tem um dos melhores carros, porque independentemente de poder não ser um carro tão bom como o de Verstappen, é um carro que sobretudo é fiável e voltou a fazer o mesmo erro que lhe tem custado vários pontos, que é arriscar logo na primeira curva, sabendo que poderia acontecer aquilo. Ou seja, o arranque do Sérgio Pérez é tão bom ou melhor do que o arranque do Verstappen, com uma diferença que é a maneira como ele se coloca, tentar fazer a curva por fora, que depois acaba por ser tocado pelo Leclerc e acaba ali a corrida. E aquilo que nós vemos agora é: faltam três corridas até o final, o Hamilton só está a 20 pontos, o possível sucessor de Pérez na Red Bull, o Ricciardo, começa a aparecer com resultados e aquilo que seria o fim de semana de redenção de Sérgio Pérez acaba por ser, se calhar, o fim de semana claramente Dia de los Muertos, porque nada parece correr bem.

Como a minha mãe dizia: "Tiveste mais olhos do que barriga."

Exatamente. Tal e qual.

Bruno, vamos à citação: "Sei de onde venho, mas não vou deixar que isso defina o que quero ser." Quem o diz é Siya Kolisi, o capitão dos Springboks, a equipe de rugby da África do Sul, que se sagrou campeã mundial este fim de semana pela quarta vez.

Sim, eu destaco como uma das grandes figuras, ou talvez a maior figura da África do Sul, não tanto por aquilo que ele fez em campo. Aliás, na final, até me parece que ele no limite podia também ter visto um cartão vermelho, ficou só no amarelo, mas sobretudo pela capacidade que ele tem de mobilizar não só a equipe, mas o próprio país e agora percebemos o próprio mundo. Aliás, ele vai às conferências de imprensa, ele chega e é aplaudido, ele acaba uma resposta e é aplaudido. Portanto, existe quase uma promoção de Kolisi, a grande figura desta equipe. Não foi uma final espetacular em muitos aspectos. Se não fosse aquele ensaio da Nova Zelândia, era muito parecida com a final de 95, onde só houve pontos em penalidades e acabou por ser decidido no prolongamento. O Handré Pollard, mais uma vez, voltou a fazer quatro em quatro de penalidades. Ele tem um dado estatístico interessante que é desde o jogo da fase grupos com Tonga, depois quartos com França, meias com a Inglaterra e final com a Nova Zelândia, em três penalidades, ele converteu as três e isso foi fundamental, tendo em conta que a África do Sul ganhou todos os jogos apenas por um. A expulsão, o cartão vermelho para Sam Cane logo no início do jogo acabou por condicionar muito a Nova Zelândia, que se calhar em condições normais teria mais condições para fazer mais ensaios e para ser superior à África do Sul. Ainda assim, quarta final, quarto título, equipe com mais títulos mundiais a partir de agora a África do Sul. O Kolisi é, a par do Richie McCaw, apenas o segundo jogador que consegue, enquanto capitão, levantar a taça em edições consecutivas no mundial, mas sobretudo aquilo que fica para mim é a capacidade que ele tem de deixar novamente uma palavra a um país que não vai resolver os problemas todos pela conquista deste campeonato do mundo de rugby, mas sobretudo tem aqui uma plataforma de esperança para poder começar a resolver alguns dos problemas que tem. E tendo estado já lá duas vezes e conhecendo algumas cidades da África do Sul, aquilo que eu acho que é, se calhar, a grande vitória em 2023 é perceber como bairros que não ligavam nenhuma a rugby e achavam que rugby era só uma coisa de brancos, hoje já saem à rua para celebrar. E isso também acaba por ser o legado que Nelson Mandela deixou, e Nelson Mandela está quase a fazer 10 anos da sua morte também.

Muito bem, a África do Sul novamente campeã mundial de rugby e antes do intervalo, vamos ao túnel. E acho que já estamos à espera de resposta para esta pergunta há algum tempo e se calhar esta pergunta já foi colocada muitas vezes, sem que resposta houvesse também várias vezes. Vai ou não André Villas-Boas avançar com uma candidatura à presidência do Futebol Clube do Porto em 2024, para o ano?

Aparentemente, há quem garanta que sim, que já está confirmado. As informações que nós temos é que pode ou não ir a 2024, mas pelo menos tem uma vantagem, que é ter tudo preparado se isso vier a acontecer para avançar. Ou seja, aquilo que aconteceu foi André Villas-Boas quis dar uma entrevista de fundo para se posicionar, vai agora esperar por aquilo que vai sair do Conselho Superior do Futebol do Porto, que pode passar as eleições de abril para junho, até em termos de estatutos, portanto, alterar os estatutos e mudar essa data. E entretanto, aquilo que ele vai fazer é uma continuidade daquilo que ele tem feito desde que saiu do Marcelo. Ou seja, foi fazendo alguma formação em áreas que não conhecia nem dominava tão bem, vai tendo algumas aparições públicas para nunca cair também no esquecimento, vai mantendo encontros com muitas pessoas ligadas ao Porto, não só ao clube, mas também cidade, e é um grupo de adeptos que já se começou a refletir um bocadinho naquilo que foi a candidatura de José Fernando Rio e que se mantém e que até tem aumentado, que elogia Pinto da Costa por aquilo que foi capaz de fazer em termos desportivos, mas considera que em termos financeiros o Futebol Clube do Porto tem uma viragem grande ou depois pode cair no risco de ser muito complicado reerguer-se. E é no meio deste jogo que André Villas-Boas vai também agora tentar perceber Como é que vão reagir os próprios adeptos do Futebol Clube do Porto e, sobretudo, como é a ligação com Pinto da Costa? E dois, quais são as condições que ele tem para poder avançar com possibilidades de ganhar? No meio disto tudo, há uma coisa que ele já ganhou e parece claro: em termos de posicionamento, a seguir a Pinto da Costa, é ele. E essa, para já, é a grande vitória de André Villas-Boas.

E ver vamos o que acontece em 2024 no universo do Dragão. Fazemos uma curta pausa no "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Na segunda parte conversamos com Vasco Vilaça, triatleta que já tem carimbo para os Jogos de Paris. Segunda parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Como prometido, já temos aqui conosco o nosso triatleta Vasco Vilaça. Vasco, obrigado por teres aceitado o nosso convite. Sê bem-vindo, é um gosto.

Muito obrigado pelo convite.

Está já garantida a tua presença nos Jogos Olímpicos, se tudo correr bem. Esperemos que estejas, de facto, em Paris, nas melhores condições no próximo ano. E vamos começar pelo Mundial de Triatlo este ano. Acabaste no quarto lugar, sendo que aquela última prova em Pontevedra até nos pareceu que tinhas condições para ganhar o título e até entraste no setor da corrida da última prova em primeiro. O que é que faltou?

Bem, começando aqui pelo primeiro ponto, a qualificação olímpica está a correr muito bem, mas só em maio do próximo ano é que vai fechar.

Está encaminhado.

Está encaminhado, está no bom caminho.

Já me estava a adiantar.

Exatamente, faltam uns meses. No triatlo, o Campeonato do Mundo são sete etapas durante o ano inteiro e é bastante difícil chegar à finalíssima, que é a última prova de todas, que é a mais importante, conta mais pontos, chegar lá numa posição de realmente lutar pelo título, porque entre tantas provas alguma correr mal é bastante fácil. E pela primeira vez eu estava nessa luta. Foi uma época espetacular, a minha melhor época de sempre. E realmente, quando cheguei à finalíssima, em terceiro lugar, ou seja, estava em terceiro lugar nessa última prova, tinha dois rapazes à minha frente que muito provavelmente seriam quem iam levar o título e eu sabia o que é que tinha que fazer. Já tinha estudado as diferentes táticas, o que é que era a melhor situação, o que é que era a pior situação e realmente o que eu queria. Queria estar num grupo à frente onde o primeiro e o segundo não lá estavam, o que foi exatamente o que aconteceu. Ou seja, estava a ter a prova dos meus sonhos e cheguei à corrida sozinho num grupo de atletas com quem eu consigo lutar na corrida, com quem provavelmente podia ter ganho, mas depois de uma noite passada com febre, a suar, sem dormir, foi realmente uma luta manter-me lá na frente tanto tempo e infelizmente, embora tenho estado muito perto, penso que a 5 km da meta eu era realmente o campeão do mundo naquele momento, naquela posição, mas foi dar tudo e foi nesse momento que depois, se calhar, já tinha 1h45 de prova, que a bolha rebentou e acabei por perder essa luta e ficar no quarto lugar.

Logo a seguir ganhaste a Taça do Mundo, em Roma. Foi um resultado importante, não só para esqueceres esse dia do quase em Pontevedra, como também para projetar já o ano de 2024.

Sim, exatamente. Foi uma das razões porque eu quis fazer Roma depois desta finalíssima. A época correu muito bem, mas acabar a última prova tão mal, depois deixa ali um sabor bastante mau da época e deixa algumas dúvidas de que se o trabalho está a ser bem feito, embora as coisas tinham corrido tão bem. E então ir a Roma e acabar a época com ouro. Eu já tinha tido quatro pódios nesta época, que foram excelentes, mas faltava-me ainda o ouro, por isso acabar ali e vencer a prova em Roma soube muito bem e deu uma motivação extra pro próximo ano, mas também confiança, principalmente no trabalho que tenho feito.

Em 2024, obrigatoriamente é um ano marcado pelos Jogos Olímpicos. Portugal tem alguma história já no triatlo também em termos de Jogos Olímpicos. A Vanessa foi medalha de prata e é uma das tuas referências. Aquilo que eu te perguntava era se 2024 está a ser planificado apenas e só olhando para os Jogos Olímpicos, ou se existem, além da qualificação olímpica, outros objetivos para ir alcançando durante o ano.

Sem dúvida que os Jogos, neste caso, sendo uma coisa que só acontece a cada quatro anos, é o mais importante, de longe, o mais importante. Cada Campeonato do Mundo, todos os anos, conta pontos que são mesmo pra esta qualificação. Ou seja, isso é o objetivo mais importante. Mas tal como neste ano, que estava a lutar pelo Campeonato do Mundo, o mesmo vai acontecer no próximo ano. Vamos ter as sete etapas. Essas etapas vão ser muito importantes no início também pela qualificação olímpica, que elas vão contar ainda pra qualificação até maio. A partir daí, vou me focar bastante nos Jogos. É sem dúvida o mais importante e acho que sou capaz de falhar ou não fazer uma das etapas do Campeonato do Mundo para meter aquele treino extra para estar realmente na minha melhor capacidade física nos Jogos. Depois de Paris, voltarei então a focar-me nas duas últimas etapas, que ainda vão haver depois dos Jogos, porque depois dos Jogos, claramente, voltar a lutar por um campeonato do mundo é algo que temos em mente.

Vasco, fizeste uma prova de reconhecimento do percurso em Paris, onde até conseguiste uma medalha de prata. Como é que foi esse teste? Pode aproximar-se do que vais encontrar nos Jogos, não tanto ao nível de percurso, mas sobretudo concorrência entre os melhores do triatlo. E serviu para perceber, por exemplo, como é que são as correntes do Sena, como é que é a estrada nos Campos Elísios, um dos pontos icônicos da cidade e que também fazem parte do percurso.

Foi uma experiência espetacular. Foi a primeira vez pra mim que estive tão perto De uma experiência que tinha a ver com os jogos. Não são os jogos, mas é uma prova, que nós chamamos o evento-teste, que conta para o Campeonato do Mundo. Esta era uma das etapas do Campeonato do Mundo, mas mais importante que isso, é no mesmo percurso dos jogos, à mesma hora dos jogos, com uma organização igual à organização dos jogos. Nós numa prova normal acabamos por estar bastante à vontade com os horários, nós temos que meter a bicicleta no parque de transição, os sapatos de corrida, mas o percurso está bastante aberto até a prova começar. Nos Jogos Olímpicos é muito mais levado a sério, há muitos procedimentos de segurança, tem que se chegar à prova muito tempo antes. Há muitas coisas diferentes e foi exatamente isto que fizemos, tal como vai ser no próximo ano. Foi tudo supostamente igualzinho ao que vai acontecer no próximo ano, para nós podermos adaptar a nossa prova, mas também para quem organiza a prova e o staff poder adaptar se alguma coisa não correu bem. Do meu lado, acabei a prova com uma prata.

Se for igual no próximo ano.

Era muito bonito, estava bastante bem. Era bastante bonito de acontecer, mas eu diria que foi algo que, para mim, mostrou bastante que o trabalho tem sido bastante bem feito, porque em Paris, a maior parte dos países, Portugal não faz isto, mas a maior parte dos países tem a qualificação olímpica nessa prova, sendo que quem faz uma boa prova lá é provavelmente quem se dá bem naquele percurso, naquelas condições. Então os melhores atletas estão lá todos, e estão lá todos nas suas melhores condições físicas para conseguir essa qualificação, porque se conseguem essa qualificação este ano já podem estar muito mais calmos e relaxados para o próximo ano. E não estar a tentar estar em topo de forma para a qualificação, mas sim apontar um topo de forma depois para os jogos no próximo ano. Para mim, muito especial foi nadar no Rio Sena. Se bem que quando falamos com as pessoas em Paris, toda gente nos chamou de malucos por irmos entrar para a água no Rio Sena, que as pessoas têm as suas dúvidas da qualidade da água, mas a nós disseram-nos que têm trabalhado muito para conseguir limpar a água do rio, que não só é bom para nós, mas também tem um impacto muito positivo no ambiente, neste caso em Paris, mas é um projeto bastante bonito de fazerem, seja como for, mesmo que não seja para os jogos, que mostra também um dos lados muito bonito dos jogos que tem um impacto muito positivo, não só nas pessoas, mas neste caso também no ambiente. Nadámos no Rio Sena, onde há uma corrente muito forte e uma das aprendizagens foi nadar com uma corrente tão forte. Nós partimos a favor da corrente, nós damos duas voltas, são 1.500 metros, e acho que tínhamos a primeira boia a uns 500 metros, uma coisa assim, depois voltávamos para trás, depois fazíamos uma segunda volta, que era uma distância diferente, e 500 metros demoram um bocado, muitas vezes, a chegar lá. Mas neste caso foi num instante. Chegou toda a gente ao mesmo tempo, porque não deu tempo para separar, porque toda a gente foi muito rápido com a corrente. E por causa disso, eu embrulhei-me um bocadinho a voltar. Tentei cortar caminho, tentar ir o caminho mais direto para sair da água e tentar ganhar uns lugares. O que é que aconteceu? As pessoas deram uma volta mais longa para fugir à corrente. Eu tentei ser o esperto, ir pelo caminho mais curto, mas levei com a corrente toda sozinho e acabei por isso, se calhar ainda perdi mais uns segundos. Mas são estas aprendizagens que são muito importantes para o próximo ano e é por isso que é bastante importante ir lá a Paris e fazer esta prova. Sem ser isso, é um lugar muito bonito. A ponte é uma ponte icónica, onde temos a parte de transição, onde a prova está focada. Passamos na bicicleta, nos Champs-Élysées, num empedrado um bocado complicado, era outra vez uma aprendizagem. Pedalar no empedrado é difícil porque a bicicleta salta por todos os lados. Eu lembro-me que tive um problema duas vezes durante a prova, a corrente saltou da bicicleta, perco totalmente o controle da bicicleta. E são estas coisas que se têm que aprender. Se calhar vou ter que adaptar como é que eu entro nas curvas, como é que saio nas curvas, quando é que começo a pedalar para a corrente, neste caso, não sair, se calhar adaptar mesmo as mudanças, falar com o mecânico para tentar adaptar isso. E depois na corrida, o percurso era muito parecido, mas voltávamos a correr também no empedrado, que é algo que nós normalmente não estamos habituados a fazer. E eu sei que saí da prova com bastante problema, com umas dores nos pés, porque os pés vão todos tortos na calçada. São essas coisas todas que aproveitamos para aprender, mas além disso, é um sítio muito bonito. Para mim, foi o sítio mais bonito em que eu alguma vez já competi.

Vasco, o gosto pelo triatlo e pelo duatlo também chega muito cedo. Como é que um miúdo com seis anos, onde só se quer andar de bicicleta, decide que quer começar a entrar em provas de duatlo, onde tem de correr e de andar de bicicleta também?

Eu comecei a fazer triatlo com seis anos, penso eu. Sem dúvida que a escolha não foi minha. Eu gostava muito de andar de bicicleta, gostava muito de correr. Nadar não era aquilo que eu queria fazer, mas foi a forma, neste caso, pelo impacto que a Vanessa teve na televisão e na rádio em Portugal, falava-se muito de triatlo, e foi a forma que os meus pais encontraram de me fazer interessado em aprender a nadar e de juntar as três coisas. Felizmente, tal como eu fui influenciado pela Vanessa, foram muitas crianças nessa altura e criou-se um grupo, neste caso, que eu comecei no Belenenses, que foi também o clube onde a Vanessa começou de início, que era muito conhecida por ter dos melhores atletas portugueses na altura. Juntei-me lá e eu com seis anos não estava sozinho. Eu juntei-me a um grupo que tinha, se calhar, mais 10, 15 crianças dos seis aos 10, e eu passava a ir aos treinos não para ir treinar, mas sim porque tinha lá os meus amigos e nós divertíamos muito e os treinos não eram treinos sérios, eram brincadeiras uns com os outros. E eu acho que é assim que muito rápido, penso eu, lembro que passado pouco tempo já nem queria estar com os meus amigos da escola, queria estar com os meus amigos do triatlo, porque divertíamos muito.

E como é que alguém que tinha medo de água consegue passar para a parte da natação? Porque sem isso não havia triatlo.

Exatamente. Nós começamos no duatlo, muitas vezes em Portugal, durante o inverno, as provas são duatlo, porque está muito frio para ir nadar E para crianças mais novas, não é só não saber nadar, mas depois o medo da água, que eu lembro-me que tinha sempre na minha cabeça, via uma coisa a boiar na água: "Aquilo é um crocodilo, aquilo é um tubarão." Os medos aparecem. Custou um bocadinho. Eu lembro-me que cheguei a algum ponto em que eu ia às provas de triatlo, mas depois recusava-me a nadar, a fazer a prova, e que os meus pais, numa prova qualquer, disseram: "Não te vamos levar à prova, é um triatlo, tu não queres fazer, não te vamos obrigar a fazer uma coisa que não queres." E que até fui eu que: "Não, levem-me, eu prometo, eu desta vez faço". E foi assim que a minha primeira foi no Cartaxo, uma prova que, como os escalões mais jovens, a natação era muito curta e a distância entre a entrada e a saída era a mesma distância que a nossa prova, que eram 50 metros, que era muito curta a natação. Então a água acabou por ser, em vez de nadarmos pra uma zona em que não tinha pé, que era o que eu tinha medo, de estar fora de controle, era pela margem. Então eu nadei o caminho todo, mas sabia que se precisasse parava e saía ou o que fosse. E foi assim que, a partir dessa prova, que pela primeira vez consegui nadar, vi que não havia problema nenhum, que nunca mais olhei para trás.

E em 2013, Vasco, há uma decisão radical: Suécia, com os pais. E como é que apareceu essa oportunidade e o que levou a família a mudar-se, tinhas apenas 14 anos, para um país tão diferente em termos de línguas, apesar de haver o inglês, presumo que não seja fácil e o tempo também não tem nada a ver com o que vocês ficaram.

Foi uma bela aventura. Nunca tinha visto neve. Penso que tinha, se calhar, nevado em Lisboa uma vez, que eu lembro-me que olhei pela janela quando era muito pequenino.

Também me lembro, era uma neve suja.

E perguntei: "Mãe, por que há tantos mosquitos na rua?" Porque a neve caía devagarinho, pensei que só pode ser mosquitos. "Não, aquilo é neve." "Nunca vi." Depois queria brincar, claro, mas quando caí no chão, já tinha desaparecido tudo. Então, realmente, em 2013, por decisões profissionais dos meus pais, acabaram por ir pra Suécia trabalhar. Eu fui com eles e embora na altura tenha sido um bocadinho complicado deixar os amigos aqui, deixar tudo que eu conhecia, eu estava bastante aberto a essa aventura. Gosto bastante de conhecer pessoas novas, de conhecer sítios novos, fazer amigos novos. E foi uma aventura enorme, que eu sempre fui muito mau a línguas e de repente fui obrigado a falar inglês, que eu lembro-me, uma língua que eu mal conseguia falar. Lembro-me na escola era das coisas que eu tinha mais dificuldade e dentro de uma, duas semanas já falava inglês com toda a gente, não tinha problema nenhum. E depois disso ainda fui aprender o sueco. E acho que essa mudança levou-me muito rapidamente a evoluir muito mais do que eu, se calhar, tinha feito no ambiente controlado, num ambiente em que eu estava confortável.

Como é que se treinava na Suécia entre tantas temperaturas negativas e os nevões e tudo isso? E se existe, sequer, tradição de triatlo na Suécia.

Na Suécia, sendo que há uma cultura de viking, a cultura de que eles vêm, existe triatlo, mas é um triatlo diferente, é o triatlo que nós chamamos de longa distância, é conhecido Iron Man, que o triatlo que eles têm não é aquele triatlo que eu faço, que é ser rápido, é ver quem é que ganha, é o triatlo de acabar aquela prova, que é uma prova especial, que é muito longa, que quem acaba é porque é forte, porque é viking. Então foi um bocadinho complicado encontrar um grupo de treino em que eu realmente me divertisse como me divertia em Portugal, porque eu não ia pro treino treinar, ia pro treino estar com os amigos. Demorou um pouco, demorou uns anos. Tive ali alguns momentos com alguma dificuldade em encontrar essa motivação, mas quando comecei o secundário, a escola secundária na Suécia, juntei-me a uma escola que eles chamam que é a Escola Secundária de Triatlo, que é do país inteiro. Há uma escola especial onde eles juntam todos os anos os melhores triatletas adolescentes que existem no país inteiro. E o secundário em si é uma escola normal, mas o nosso treinador trabalha como professor na escola, mas o trabalho dele na escola é ser nosso treinador e temos as condições todas, temos piscina, temos ginásio, temos acesso a tudo e mais alguma coisa que precisamos pra treinar, para além de termos os melhores atletas à nossa volta. Ou seja, acho que foi isso que, sem dúvida, que me ajudou muito em primeira, ganhar responsabilidade, porque eu tive que sair de casa pra ir pra lá. Em segundo, porque pela primeira vez estava com pessoas que não só gostavam de fazer triatlo, mas também queriam ter os melhores resultados possíveis e levaram-me a entender um bocadinho o lado mais sério do triatlo.

Portanto, nunca houve sequer a possibilidade de, um, acabar o triatlo ou dois, passar do triatlo pra outra modalidade qualquer.

Sem dúvida que apareceu. Nos primeiros dois anos, penso eu.

Na Suécia era o quê? Hockey no gelo para aí, não?

Sem dúvida. Acho que tinha sido uma boa escolha. Ou isso ou esqui, também se faz muito esqui. Snowboard. Há muitas escolhas. Já brinquei um bocadinho, mas já estou uns anos atrasado comparado a eles e não tinha grandes hipóteses.

Mas aos 14 isso chegou a ser uma hipótese, deixares o triatlo?

Não exatamente aos 14, mas lembro-me que no primeiro, segundo ano, antes de me juntar ao secundário, que eu nessa altura tinha 13 e eu entrei pro secundário aos 15, ou seja, tive ali dois anos que estava mais sozinho. E sem dúvida que perdi ali um bocadinho o interesse. Deixou de ter piada, deixou de ser algo que eu fazia só por gosto, passava a ser um bocadinho a obrigação. Eu lembro-me de ter ali algum momento em que pensei, e acho que falei com os meus pais, se calhar está na altura de deixar, já não tenho o gosto que tinha. E foi numa altura dessas que tive a oportunidade de fazer uma das competições internacionais, que me qualifiquei pela seleção e que realmente quando lá fui fora e voltei, voltei a ganhar esse gosto. E foi aí que eu também encontrei este grupo, esta escola secundária de triatlo, que me fez também olhar pra frente. "Espera mais um ano e posso me juntar ali." E eu vi-os numa prova, eles eram superdivertidos e tinham aquilo que eu Que eu me lembrava de Portugal, que eu me lembrava que gostava tanto em Portugal e por causa disso nunca quis deixar para além de que, sendo que eu faço triatlo desde os seis anos, não conheço muito bem uma vida sem triatlo.

Em 2017, campeão europeu, vice-campeão mundial de juniores, antes de ser vice-campeão mundial de seniores em 2020. O que estes resultados tiveram de impacto na carreira nessa fase, até porque apanhaste também a altura da pandemia?

Sem dúvida. Algo que para mim não foi diretamente negativo, porque em 2020 fui vice-campeão do mundo. Voltando um bocadinho atrás, em 2016 fui campeão da Europa de youth, de jovem, do escalão internacional mais novo que existe, que foi o meu primeiro passo para: "Afinal até sou bom, até gosto da competição. Isto é divertido. Estar aqui para ganhar, aprender a lidar com os nervos e essas coisas." Ganhei o gosto por isso também. Em 2017, dando o salto para júnior, ainda somos bastante novos, mas já são pessoas com 18, 19 anos, já são atletas, já têm muito mais treino, mais capacidade física. E voltei outra vez a lutar pelas medalhas. No Europeu consegui ganhar, vice-campeão do mundo e penso que isso sim foi um início de que: "Ok, se calhar eu quero ser atleta profissional, quero que isto seja o meu trabalho. Não só gosto muito, mas neste caso também era bastante bom, por isso funcionava bem."

Tu no ano passado tiveste também um susto numa praia da Califórnia. Foste mordido por uma foca enquanto estavas a treinar. Perguntava-te: um, se foi o maior susto que tiveste ao longo da carreira e se não trouxe de volta o medo de estar dentro de água que tinhas tido antes, na verdade, e que podia ter ressurgido aqui.

Muito boa pergunta.

E esta semana vi um vídeo de alguém a ser mordido por um leão-marinho também. Viste esse vídeo?

Eu agora sempre que sai alguma coisa na net enviam para mim.

"Olha, este não és tu?"

Não passava-se o mesmo. Foi um susto muito grande. Foi numa Super League. Além do Campeonato do Mundo e dos Jogos, existe uma empresa privada que criou uma liga, que eles chamam a Super Liga, que de certa forma pagam aos melhores triatletas do mundo para irem lá fazer uns formatos diferentes, mais curtos, uma coisa mais agressiva para ser mais engraçado para a televisão. E foi aí que uma das provas do ano passado foi em Malibu. No dia antes da prova, as pessoas iam todas nadar para a piscina, mas passo a vida a treinar na piscina. Estou em Malibu, quero ir para a água, quero ir para o mar, a praia de Malibu que é tão conhecida. Fui, não sozinho, mas fui com um grupo de amigos, de outros atletas que iam competir contra mim, mas vamos chamar-lhes amigos. E fomos para a praia. Uma das coisas muito especiais nesta prova são as ondas, que há muitas ondas. Eles ficaram todos nas ondas a aprender a entrar e a sair das ondas. Eu, felizmente, que cresci em Portugal, fiz muito isso cá nas praias e, de certa forma, sei lidar com as ondas, sei entrar na água com ondas, sair, porque pode-se ganhar muito tempo com isso. Eu entro para a água, tenho uma onda a bater em mim, sou puxado para trás, volto para a praia e no contrário também. Se eu estou a sair da água e consigo apanhar uma onda e surfar até à saída da água, pode-se ganhar bastante tempo. Mas pronto, isto quer dizer que toda a gente estava a brincar nas ondas, brincar, entre aspas, e eu decidi: "Eu vou nadar, eu quero dar umas braçadas". No ano antes desse, ou seja, há dois anos, houve umas imagens preocupadoras. Nós durante a prova tínhamos um drone por cima de nós e esse drone tinha uma imagem de uma sombra enorme de um tubarão ao nosso lado, porque há tubarões ali. Então eu sabia: "Ok, eu não quero me afastar muito da costa". Nadei uns 50, 100 metros fora da costa e depois estava só a nadar paralelo à praia. E fui para um lado e comecei a ver uma alfreca, duas alfrecas, três alfrecas. Quando dei por mim estava num bando de alfrecas enorme, a ser, não é mordido, mas picado por todo lado. "Calma lá, vou para o outro lado". Então comecei a nadar para o outro lado. Aqui já não deve haver nada. E vejo uma sombra a mexer-se debaixo da água. Isso foi um susto enorme. Sabendo o que existia ali, foi um susto muito grande. Eu lembro-me de parar, olho debaixo da água e é um leão-marinho. E eu: "Ok, isto é muito melhor do que um tubarão. E agora o que é que se vai passar?" Eu fiquei parado, não sabia muito bem o que é que havia de fazer, porque principalmente quando estamos na água, não consigo fugir. Somos mais lentos. Muito lentos. É um bocadinho uma aflição de que mesmo que eu tenha 100 metros de avanço, em 10 segundos eu mexi-me cinco metros e ela ou ele, não sei, não perguntei, já tinha vindo ter comigo. Seja como for, eu fiquei parado, tentei não fazer nada que fosse assustar e o leão-marinho veio devagarinho ter comigo e veio me cheirar, mesmo um cão, igualzinho a um cão. E tinha os bigodes, e os bigodes estavam a fazer cocegas na cara e tudo. E eu estava devagarinho a puxar o focinho um bocadinho para o lado, muito devagarinho, porque era um bocado assustador ter a cara tão grande com os dentes mesmo à minha frente.

Aquilo parecendo não é grande.

É maior que eu. E disseram que era um bebê e era maior que eu. E não pareceu nada de grave, mas estava bastante assustado, mas diria, dentro de controle. Tive o azar de que houve uma onda que nos bateu, uma onda que veio contra nós e mandou o leão-marinho contra mim. E foi aí que ele assustou-se muito e mordeu-me o braço. E a partir do momento que me mordeu o braço, começa a agitar e eu aí fico bastante assustado, porque está-me a atacar e eu dentro da água não tenho grande coisa que posso fazer. Não é nada que eu tivesse planeado, nunca tinha pensado nisso, mas só aconteceu. Tinha a boca no meu braço esquerdo, lembro-me de meter a mão direita entre o braço e a boca e abrir a boca, e quando consigo abrir um bocadinho, depois pego com a mão esquerda o outro lado da boca e ficam as minhas mãos dentro da boca do leão-marinho para tentar controlar, para não me morder em mais lado nenhum. Eu lembro-me que estávamos ali numa luta dele a tentar fechar a boca e eu a tentar abrir a boca, a mexer-se para todo lado. E no meio disso, sem saber, isto vim a saber depois, eu virei-o de barriga para cima. E tal como os tubarões, paralisam. E ficou muito calmo. E foi assim que eu consegui. Eu não sabia que estava paralisado, não percebi bem o que é que se tinha passado. Pensei: "Se calhar desistiu. Ganhei a luta." Mas não queria deixar largar, porque largava e ficava outra vez totalmente fora de controle. Ficava fora de controle na água. Então fui a nadar até à praia com o leão-marinho até conseguir sair da água.

Vasco Vilaça, o nosso convidado desta semana do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Muita sorte e sem a barriga virada para cima em Paris, quando lá chegares, que vais chegar. Muito obrigado, até uma próxima. Foi o episódio desta semana do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Voltamos para a próxima. Até lá.