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Bem-vindo a mais uma edição do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola" na Rádio Observador, comigo, João Filipe Cruz, com o editor de desporto, o Bruno Roseiro, e com a jornalista da seção de desporto, Mariana Fernandes. Mais à frente no programa de hoje vamos receber Fernando Mendes, antigo internacional português, um dos únicos oito jogadores a representar os três grandes e talvez uma das pessoas mais indicadas para nos ajudar a olhar para esta fase do campeonato e sobretudo para o que aí vem, e vem aí o derby de Lisboa no Estádio da Luz. Uma conversa para mais tarde, porque primeiro vamos aos destaques. E a figura, Mariana Fernandes, é Novak Djokovic.
Sim, que se tornou um pouco este fim de semana a figura do tênis em 2023. A temporada mais midiática do tênis já terminou com a conclusão do US Open, portanto, o fim do ciclo dos Grand Slam, mas a verdade é que ainda temos tanto as ATP Finals e a Taça Davis, e tivemos essencialmente o Masters 1000 de Paris, um dos torneios mais importantes do ano para lá desses quatro Grand Slam. Novak Djokovic, que voltou aos cortes mês e meio depois, dois meses depois também de ganhar o US Open, venceu Grigor Dimitrov na final, já tinha deixado o Rublev e o Holger Rune para trás e tornou-se o primeiro de sempre a ganhar 40 Masters 1000, sendo que já era também o tenista com mais Masters 1000 no currículo e é também agora o único a ganhar em Paris em sete ocasiões. No discurso de vitória, aproveitou para deixar uma farpa a Rafa Nadal, que numa entrevista à Movistar tinha dito que Djokovic conquistou todos os recordes que conquistou por frustração, por querer ser sempre melhor do que os outros, e que ele próprio nunca organizou a carreira com o objetivo de quebrar recordes e sempre teve uma ambição saudável. Esta entrevista do Nadal, para mim, à parte isto tudo e à parte estas bocas para o Djokovic, tem como principal notícia o facto dele não dar como garantido que vai voltar em 2024, como tinha dito na altura em que se lesionou depois do Open da Austrália, e dizia que ia parar este ano e que depois em 2024 iria voltar para aquele que seria o último ano da carreira. Ele não dá isso como garantido, portanto, ainda não é garantido que voltemos a ver Nadal e que Nadal ainda faça esse último ano. E no discurso de vitória, Djokovic então aproveitou para responder, manteve esta linha do costume, disse que continua à procura de bater todos os recordes possíveis e alcançáveis, e que é por isso que muitas pessoas não gostam dele, por manter sempre essa ambição ao mais alto nível e sem nunca a esconder. Djokovic já percebeu que neste momento está sozinho. Já não há Nadal como havia, já não há de todo Roger Federer. Carlos Alcaraz acaba por ter uma segunda metade de 2023 muito abaixo daquilo que já tinha mostrado. E nesta altura, Djokovic, no momento em que está e a ganhar Masters 1000 e US Open desta maneira, pode dizer isto.
O frustrado Djokovic, quem me dera ter a frustração dele. E do outro lado, no quadro feminino, Bruno Roseiro, há também um destaque.
Sim, há um destaque e sobretudo uma surpresa, porque quando nós olhamos para a maneira como a Iga Świątek fez o último ano, este ano de 2023, a seguir ao Roland-Garros, ou seja, ganhou pela terceira vez na terra batida em Paris, nada apontava para que terminasse assim. Ou seja, parecia que no feminino, que nunca houve uma figura como houve Djokovic e como está agora a aparecer o Alcaraz, ou seja, não havia aparentemente nenhuma figura dominadora, e de repente aparece Aryna Sabalenka melhor do que nunca, a chegar a número um, a deixar Iga Świątek já numa posição secundária, e chegamos a este WTA Finals. E tudo muda. Ou seja, a Świątek consegue fazer numa final com a Jessica Pegula 11 jogos seguidos a ganhar. A final praticamente não teve história. Conseguiu ganhar a todas as adversárias diretas, nomeadamente a Sabalenka, num jogo onde ganhou e ganhou bem. Não foi propriamente um jogo com grande história também. E aquilo que mostra é que em 2024 há muitos nomes que podem aparecer e a Sabalenka continua, a Coco Gauff também ganhou o seu primeiro US Open, mas a Świątek mostra que apesar de não ter passado uma fase boa, muito provavelmente acaba como número um agora e vai continuar como a mais séria candidata a ganhar esse domínio que no setor masculino é de Djokovic e depois existe um sucessor chamado Alcaraz.
E se calhar dava-lhe jeito ter a frustração de Djokovic. Estou sempre batendo na mesma tecla, mas de facto, quem me dera. Passamos à frente. O nosso número é o número um, Bruno Roseiro, que é o número de títulos conquistados na Taça dos Libertadores pelo Fluminense, que este fim de semana venceu o Boca no Maracanã.
Grande.
Quem me dera ter estado lá.
Sim, tinhas de ir com capacete.
Aquele vídeo daquela criança que admite ter vendido a PlayStation, o pai vendeu a moto. O discurso daquele miúdo é...
Mas sabes que é a coisa mais normal. Aliás, agora fazer aqui só um parêntesis muito rápido. Por exemplo, no Mundial 2018, para entrar no centro de estádios na Argentina, precisavas ter não só a acreditação da FIFA, mas naquele caso específico era uma acreditação especial, que era a própria Associação de Futebol da Argentina que dava. E mais de metade dos jornalistas que lá estavam, eram jornalistas que não tinham sequer acreditação FIFA, ou seja, não podiam ir aos jogos, mas tinham vendido o carro, a casa, essas coisas todas, só para poderem ir à Rússia e poderem estar a fazer a cobertura dos treinos e das conferências da Argentina. Isto é o futebol na Argentina e às vezes nós esquecemos um pouquinho disso. É um mundo à parte. Neste caso, acho que chocaram dois mundos complicados, porque o Fluminense jogava em casa no Rio. Eu diria que se eu fosse um adepto visitante, gostaria de ter aquele palco, porque passávamos os dois ou três dias em Copacabana, à vontade, a curtir. Houve aqueles arrastões que depois a polícia teve de tratar, houve essas confusões todas. Houve até inclusivamente a ameaça de haver um jogo à porta fechada. O jogo correu, e bem, à porta aberta. Acho que foi um espetáculo fantástico, até porque os adeptos do Boca, até a perder, nunca deixam de incentivar a equipe. E os do Fluminense foi um pouco diferente, porque a partir do momento em que o Advíncula faz o empate, houve quase aquele receio de Será que mais uma vez nós estamos tão próximos e vamos perder? Mas no prolongamento, o gol do Kennedy, eu diria que acaba por dar alguma justiça. É sobretudo um prêmio para duas figuras que eu destaco do Fluminense, ou três. Um, o Cano, 35 anos, é um ponta de lança fantástico. É pena ele não ter estado mais tempo na Europa, porque de fato é um jogador com muita qualidade. O Marcelo, porque é quase uma história de encantar. O jogador que sai do Fluminense, que sempre foi Fluminense, que faz uma carreira brutal no Real Madrid, que sai como o jogador com mais títulos naquele que é o clube com mais títulos no mundo também.
E continua a ter um ímã para os títulos.
Sim, e repara, ele passa pelo Olympiacos, salvo erro. Quando ele volta ao Fluminense, aquilo que ele diz é: "Eu vim para o Fluminense porque ainda tenho o sonho de ganhar a Libertadores". Ou seja, ele faz, ele diz e as coisas acontecem. Mais uma vez aconteceu. Percebe-se que fisicamente, nem ele, nem o Cavani, que eram os dois protagonistas, já não é bem a mesma coisa, mas ainda assim, muita qualidade. E depois uma outra figura que é o Fernando Diniz, que é um treinador que rompeu com o paradigma por completo daquilo que era o treinador brasileiro. Ou seja, quando nós vemos o Fluminense jogar, goste-se ou não, e é uma equipa que tão depressa pode ganhar 5 x 0, como se arrisca a perder 3, 4 x 0, mas é porque tem uma ideia colocada pelo Fernando Diniz, uma ideia de jogo. Há quem goste, há quem não goste. Já se percebe também que ele é um treinador que gera amores e ódios. Eu pessoalmente gosto, porque é uma coisa diferente no futebol brasileiro, e o futebol brasileiro taticamente precisa de coisas diferentes, porque o talento está lá sempre. E também ele fica premiado num ano em que foi colocado de forma interina na seleção. E é também curioso, o Boca perde a possibilidade de empatar com o Independiente com sete títulos na Libertadores e o Fluminense torna-se a 11ª equipe do Brasil a ganhar a Libertadores.
São sete consecutivas, não são?
Sim, com essa curiosidade.
Não, o River no meio.
O River com o Boca, até.
O River com o Boca, exatamente.
Em Madri. Teve que ser em Madri, porque na Argentina aquilo não estava fácil. E a novidade aqui até acaba por ser o facto de haver um vencedor e não ser um treinador português, porque tínhamos tido no Flamengo Jorge Jesus e depois duas seguidas do Abel, que eu não sei se a Mariana quer falar, mas do nada, e quando ninguém dava nada por isso, o Palmeiras arrisca-se a ser campeão. E se calhar, se não for o Palmeiras, vai ser outro treinador português chamado Pedro Caixinha.
Sim, e a verdade é que parece que nos esquecemos um bocadinho da questão do Palmeiras e de Abel devido à Libertadores, ou seja, devido ao facto do Palmeiras não ter chegado tão longe como tinha chegado, obviamente, nos dois últimos anos. A verdade é que o Palmeiras, como o Bruno dizia, arrisca-se a ser campeão, e aqui é um risco bastante positivo. Mas arrisca-se a ser campeão e Abel Ferreira continua a ter o condão de, com todas as discussões, com tudo aquilo que também já teve de superar, com todas as conferências de imprensa um bocadinho mais emotivas, ter esta capacidade de continuar e de se manter. E eu acho que o fato de se manter ao comando do Palmeiras também é de notar, porque estamos a falar, obviamente, do futebol brasileiro, onde o primeiro a cair é sempre o treinador, com muita facilidade. E o fato de se manter há tanto tempo com estas Libertadores e de estar ainda na luta pelo campeonato e de estar em boa posição para conquistar esse campeonato, apesar de não ter conseguido chegar ao sucesso que já tinha alcançado na Libertadores, também diz muito de um caráter de um treinador português, que mesmo quando está mais esquecido ou parece que nos esquecemos dele e que ainda lá está, consegue estar perto de ser campeão novamente.
E tem uma característica, tanto o Abel como o Fernando Diniz usam fato-treino nos jogos. Isso é cada vez mais raro. À antiga. E foi assim que celebrou aquele, deixa-me dizer, provavelmente um dos jogos de 2023, que é estar a perder 3 x 0 ao intervalo e virar um jogo para 4 x 3 em casa do líder, que eu acho que isto vai entrar numa depressão total. O Dexter pode dizer que é roubo, que é corrupção, que é não sei o quê, mas aquilo está ali numa espiral muito complicada.
E aí dá jeito não ter calças de gangue ou calças que nos prendam os movimentos. Passamos para a citação, é de Sérgio Conceição. Depois da derrota do Futebol Clube do Porto frente ao Estoril, na passada sexta-feira, o técnico portista disse: "Há pessoas que também têm de assumir responsabilidades". O que isso significa, Mariana?
Isto pode significar muita coisa, mas à partida só significa uma, por muito que Sérgio Conceição já tenha dito que não. Ora, voltando aqui um bocadinho atrás, o Futebol Clube do Porto perdeu com o Estoril no Dragão, portanto ficou a três pontos do Benfica e a seis do Sporting, depois das vitórias de cada um deles. E Sérgio Conceição atirou este aparente recado para dentro depois da derrota, depois de um jogo em que os Dragões fizeram 19 remates, apenas seis deles à baliza, e não conseguiram marcar nenhum gol. O recado à partida parece ter sido para Nelson Puga, o chefe do departamento clínico do Futebol Clube do Porto, numa altura em que Sérgio Conceição não conta com Galeno, Wendell, Zaidu, Ivan Jaime, Gabriel Veron e Marcano por lesão, há já vários jogos. A questão do Marcano, como sabemos, é uma coisa diferente, é uma lesão prolongada.
E não é a primeira vez que há aqui atrito entre estes dois departamentos.
Sim, não é a primeira vez que existem pistas para esta rota de colisão. Até já esta temporada, Sérgio Conceição tinha dito aos jornalistas para perguntarem a Nelson Puga o que se tinha passado com Pepe, numa altura em que o internacional português foi dado como inapto na véspera do jogo contra o Gil Vicente. É uma antipatia que já dura há mais de um ano, que terá tido como principal origem a saída do departamento clínico de Paulo Araújo, o chamado Doutor Milagres, no final da época 2021/2022, algo que desagradou a Sérgio Conceição e que alegadamente foi também uma decisão que terá tido muita influência de Nelson Puga, esta saída de Paulo Araújo, que entretanto também em entrevistas recentes já vai dizer que os jogadores queriam que ele ficasse, Sérgio Conceição queria que ele ficasse, portanto, a decisão só poderia ter sido de uma pessoa e essa pessoa é Nelson Puga. Sérgio Conceição, entretanto, na antevisão do jogo de hoje contra o Antwerp para a Liga dos Campeões, já disse que o recado não foi exclusivamente para o médico do clube, que tem exigência máxima com todos os departamentos, mas a verdade é que a relação entre a equipa técnica e a equipa médica do Futebol Clube do Porto não anda a atravessar uma boa fase e eu acho que isso começa a ter influência na equipa, nem que seja a quem Sérgio Conceição também atribui responsabilidade em dia de derrota, como foi o caso na sexta-feira contra o Estoril.
Neste caso, a equipa técnica e o departamento médico, mas Bruno É uma fase complicada, não é só por aí também. Eu acho que é uma fase complicada, primeiro porque Sérgio Conceição volta a visar uma parte em específico em termos internos, depois de já ter visado em anos anteriores as claques, a estrutura que não defendia, e com razão, a SAD pela maneira como não conseguia segurar alguns jogadores que ele necessitava e depois não conseguia colmatar essas lacunas da melhor forma. Eu diria que Sérgio Conceição já está a disparar para muito lado, mas este é um contexto especial do Futebol Clube do Porto. Ou seja, os resultados desportivos cada vez mais vão ter peso naquilo que é o quotidiano do universo Futebol Clube do Porto e todas as movimentações e a possibilidade de André Villas-Boas avançar com uma candidatura. E eu diria que, mais do que nunca, os resultados desportivos do Futebol Clube do Porto vão ter de aparecer. Caso contrário, veremos mais do que nunca algo que não é normal, que é uma agitação no universo Futebol Clube do Porto. E eu acho que isso se começa a sentir até pelo que se ouviu das bancadas do Dragão após a derrota com o Estoril.
Passamos à frente neste nosso "Nem tudo que vai à rede é bola" para o Marco e o Marco, Bruno Roseiro, são as duas medalhas de Portugal nos Europeus de judo, a prata de Catarina Costa e o bronze de Patrícia Sampaio.
Sim, eu destaco essas medalhas, sobretudo porque são indicadores importantes depois de uma fase mais atribulada que a Federação de Judo e a própria modalidade acabou por atravessar, que depois houve várias queixas de atletas olímpicos. Houve também a questão das eleições, que não se sabia se iriam existir, se não iam existir, quem é que podia ser candidato ou não. E agora estes resultados, depois de só ter havido uma medalha no último Campeonato da Europa, curiosamente também da Catarina Costa, e também uma prata contra a mesma adversária francesa final. E depois nos Mundiais, só ter havido também uma medalha, neste caso de bronze, da Bárbara Timo. É importante haver a prata de Catarina Costa e o bronze de Patrícia Sampaio. A própria Bárbara Timo também não ficou longe de ganhar uma medalha, ou seja, entrou na zona de repescagens e ficou em quinto. E aquilo que se vê é que paulatinamente a modalidade começa a estabilizar, os resultados estão a começar a aparecer e isto numa fase de rampa olímpica. Aquilo que nós vemos é quando colocávamos em dúvida a capacidade que esta modalidade poderia ter de voltar a ganhar medalhas, como aconteceu em 2016 com a Telma ou em 2020 com o Jorge Fonseca. Vemos que não só a Catarina Costa como a Patrícia Sampaio, que se conseguir prolongar este momento que leva, se calhar até é a mais favorita de todas a poder ganhar uma medalha olímpica. Mas depois temos também uma Bárbara Timo, uma Rochelle e o próprio Jorge Fonseca, que poderão surpreender e que poderão também chegar a essa medalha. Em contraponto, veremos até que ponto é que este problema físico da Telma Monteiro, que fez com que desistisse logo no primeiro combate, poderá ou não deixar marcas, não ao nível daquilo que poderá fazer nos Jogos Olímpicos, mas o tempo de recuperação, que depois também vai ter muita influência naquilo que será a sua preparação.
Deixa-me só acrescentar também um destaque deste fim de semana, que não é propriamente notícia porque ninguém ganhou, mas Max Verstappen ganhou o Grande Prêmio do Brasil. Isto também já não é propriamente novidade, num Grande Prêmio do Brasil em que a grande novidade ou grande notícia foram as últimas duas voltas com um despique, digamos assim, que já não se via há muito tempo entre Sérgio Pérez e Fernando Alonso pelo terceiro lugar. Fernando Alonso ganhou, ficou 53 milésimos à frente do piloto mexicano da Red Bull. É uma coisa que já não se vê muito ultimamente, devido às grandes distâncias que nesta altura existem entre Red Bull e McLaren para todos os outros. Mas para quem gosta de Fórmula 1, foi um dia bonito, nem que seja porque não vimos assim tanto Max Verstappen e estivemos ocupados com outras coisas.
E por isso é que foi importante teres metido aqui entre os judos para precisamente pontuares aquilo que não se vê muito e que ainda acontece na Fórmula 1, onde o campeão esse já não tem surpresa. Vamos passar a correr para o nosso túnel. Como sempre, temos uma pergunta à espera de resposta e a desta semana é: o que é que Rúben Amorim quis de fato dizer depois daquele jogo com o Farense? Será mesmo o último ano em Alvalade?
Pode ser, pode não ser. Ele já clarificou esta situação. Portanto, vamos colocar isto em três pontos de uma maneira muito basilar. Um, Rúben Amorim não vai sair até o final da temporada. Dois, Rúben Amorim, no final da época, vai conversar com a SAD para perceber se existe possibilidade de haver um novo ciclo, se faz sentido continuar, se faz sentido sair. Três, parece-me cada vez mais óbvio, quando ele diz é a aposta do tudo ou nada, é o grande objetivo de Rúben Amorim é ser campeão, é mostrar que o Sporting é um clube talhado para todos os anos lutar por títulos e que não se pode resignar ao fato de não ganhar títulos, mas caso consiga novamente ser campeão, parece-me que será também o seu último ano. Não por algum capricho, não por algum esgotamento, mas é porque é um final de ciclo e neste caso seria o melhor final de ciclo possível.
E há um próximo acontecimento muito próximo. Esta semana já o dérbi em Lisboa, que pode contribuir ou não para o futuro de Rúben Amorim no Estádio de Alvalade. Fazemos uma pequena pausa no "Nem tudo que vai à rede é bola". Já a seguir estamos à conversa com Fernando Mendes. Bem-vindos de volta ao "Nem tudo o que vai à rede é golo" da Rádio Observador. Já está pronto para falar conosco o Fernando Mendes, antigo internacional português, representou Porto, Benfica e Sporting. É talvez, como dissemos no início, a pessoa mais indicada para prever ou para antever o derby desta semana entre Benfica e Sporting, as duas equipes de Lisboa que estão separadas por três pontos. Só houve oito jogadores que representaram os três maiores clubes portugueses e um deles vai falar já conosco. Fernando Mendes, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui a falar conosco do derby e do futebol português também. E deixe-me começar por lhe perguntar: o Sporting e o Benfica voltam a encontrar-se num jogo de campeonato, os dois na frente, algo que não tinha acontecido nas épocas passadas, nas épocas mais recentes. Existe um favoritismo, um favorito para este jogo? Ou um cenário de empate até pode ser positivo pro Sporting, tendo em conta que assim os Leões mantinham a liderança.
Bom dia. São jogos diferentes. A motivação é diferente. Agora, vamos lá ver, o Sporting atravessa um bom momento, não um momento de euforia desmedida, que se sabe que isso não existe ali, mas são sempre jogos complicados. Se nós virmos e estarmos atentos, neste momento, em termos exibicionais, o Sporting está melhor. Isso aí é evidente, mas é um facto que o Benfica, apesar de não ter tido boas exibições em termos de jogo jogado, está a três pontos do Sporting. A realidade é essa. Favoritismo. Eu dou sempre favoritismo nestes jogos à equipe que joga em casa, tem o apoio do seu público, tem a motivação de ganhar este jogo e colar-se ao Sporting. Fica no primeiro lugar. O Benfica pode acabar a próxima jornada em primeiro lugar. São jogos com uma carga emocional imensa. Se olhar em termos exibicionais, neste momento, parece-me que o Sporting está melhor, mas são sempre jogos muito complicados e acredito que os jogadores do Benfica e toda aquela estrutura não quer que o Sporting se afaste mais em termos pontuais. Respondendo à pergunta, mais uma vez, parece-me que um resultado positivo ali é sempre ganhar. É lógico que o Sporting tem condições para isso, mas não perdendo, mantém a mesma diferença pontual em relação a um candidato ao título.
O Benfica, no que toca ao campeonato, perdeu logo na primeira jornada com o Boavista no Bessa, depois empata com o Casa Pia e de resto, só tem vitórias. A imagem da má campanha na fase de grupos da Liga dos Campeões também chega à forma como olhamos para o campeonato e há aqui quase uma contaminação ou de fato existe uma quebra de rendimento em relação àquilo que vimos do Benfica na última época?
Vamos lá ver, são coisas totalmente diferentes. Para jogar no Campeonato Português, não é preciso a equipe ou o Benfica, ou o Sporting, ou o Futebol Clube do Porto, ou mesmo o Sporting Braga, jogar muito para ganhar a grande maioria dos jogos. E mesmo este ano, as coisas estão um pouco mais complicadas. Se nós virmos os resultados dos três grandes e o próprio Braga também, mas tirando aquele jogo, salvo erro, do Benfica que venceu o Guimarães por 5x0, mas logo aquela condicionante, uma expulsão e um autogol, os resultados têm sido muito nivelados. Quando chega à Liga dos Campeões, as coisas tocam de outra maneira, são equipes diferentes, são andamentos diferentes e algumas fragilidades que as nossas equipes possam ter, que têm, que é evidente que as têm, aí nesse tipo de jogos ficam a nu. Os jogadores adversários têm qualidade e as deficiências das equipes vêm ao de cima nesse tipo de jogos. Fazendo uma boa campanha na Liga dos Campeões ou na Liga Europa, ou o que quer que seja, é lógico que é motivante para as equipes e é sempre melhor as equipes ganharem para encarar os próximos jogos. E é sempre melhor trabalhar sobre vitórias do que trabalhar sobre derrotas. O Benfica tem um objetivo, como tem o Sporting, como tem o Futebol Clube do Porto, que é ser campeão nacional, porque as coisas na próxima temporada vão ser diferentes. A realidade é que em termos de Liga dos Campeões, as coisas não estão nada fáceis. É mesmo quase impossível, acho eu, o Benfica passar à fase seguinte. Mas em termos de calendário nacional, está a três pontos do Sporting.
Fernando, o que acha que tem falhado mais neste Benfica? Ou seja, quando nós olhamos para a floresta, digamos assim, e não especificamente para algumas árvores, temos, por um lado, alguma falta de adaptação e de rendimento das caras novas, à exceção de Di María. Temos também opções de Roger Schmidt que têm sido contestadas. Temos também alguns jogadores que se calhar eram peças fundamentais na última época e que não estão no mesmo rendimento. O que valoriza mais para que o Benfica não esteja a render tanto como na última época?
Repara, às vezes, se nós olharmos para o Benfica na temporada que passou, jogava bem. Há que reconhecer isso. O plantel contava ali, e se nós nos recordarmos, era sempre a mesma equipe que jogava. Praticamente, tirando os últimos quatro, cinco jogos Do campeonato, quando as coisas começaram a complicar-se um pouco.
Foi quando o Neves foi lançado também.
Quando o Neves foi lançado e as coisas estabilizaram um pouco, praticamente foram sempre os mesmos jogadores a atuar. Às vezes os treinadores têm essa dificuldade. Quanto mais jogadores de qualidade um plantel tem, mais dificuldade. Ou ele quer metê-los todos a jogar em vários jogos, em várias competições. E eu volto a dizer, a época passada o Benfica andou praticamente, quer Taça da Liga, quer Taça de Portugal, quer Campeonato Nacional, quer Liga dos Campeões, praticamente com os mesmos jogadores. E este ano, tendo mais material, pensa que se calhar esses jogadores que vieram ou que o plantel ter mais vasto e ter jogadores com mais qualidade, vão ter o mesmo rendimento. E isso não está a acontecer. Vão ganhando os jogos, claro, porque têm qualidade individual melhor do que a grande maioria das equipas do nosso campeonato. E depois é aquela situação de nunca jogar a mesma equipa. Adaptações que eu não consigo entender, sinceramente, e eu fui profissional de futebol, não as consigo entender. E consigo entendê-las em termos pontuais. Por exemplo, não consigo entender que o Benfica tenha dois laterais esquerdos e anda a jogar o Werner praticamente na esquerda. Não consigo entender como é que o João Neves, um jogador com aquela propensão para a transição que tem tido, anda a jogar agora a lateral direito. E as coisas têm sido diferentes. E a capacidade que o Benfica tem tido de buscar jogadores como Di María, o próprio Rafa, a própria saída do Gonçalo Ramos, que é muito importante nesta equipa. Foi muito importante nesta equipa, que era o primeiro jogador a defender, era o primeiro jogador a pressionar e condicionava um pouco. Um pouco não, muito os adversários. Este ano, isto não está a acontecer e está a acontecer outra coisa que normalmente, tirando raras exceções, está a acontecer no Benfica. Praticamente todos os jogadores que vieram esta temporada, tirando Di María, a espaço, mas também não se pode pedir ao Di María. Eu acho que quando o Benfica contratou o Di María, não contratou um jogador pra andar a correr atrás de ninguém ou pra andar a fazer pressão, porque ele não tem essa capacidade. Nunca a teve? Nunca a teve, não. A partir de uma certa altura, deixou de a ter. Tem outras qualidades, consegue resolver jogos. Agora, algumas apostas no mercado, até o momento, não parece que tenham sido nada aproveitosas para o Benfica, e apostas caras.
Fernando Mendes, e voltando um bocadinho atrás nesta sua última resposta, houve até agora uma alteração de sistema no Benfica. Adotou uma linha de três centrais com o Morato e um esquema tático que é um bocadinho semelhante ao que o Sporting usa, mas que depois tem ali umas dinâmicas diferentes. É por aqui, Fernando, que o Benfica consegue melhorar o rendimento e ao mesmo tempo superar essa lacuna que também já apontou? Os laterais esquerdos que não pegam e Ortmans que é obrigado a assumir a posição?
Vamos lá ver. Eu gosto de jogar desta maneira, porque quando subi à primeira equipa do Sporting, com o treinador Manuel José, era assim que nós jogávamos. Para jogar desta maneira, tem que ser trabalhado. Isto não pode ser um clicar de dedo e começa-se a jogar nesta maneira. Tem que ser um sistema. E se nós vimos o Sporting, desde que o Rúben Amorim chegou ao Sporting, tem jogado desta maneira e nem sempre as coisas correm bem. Agora, para ter jogar desta maneira, eu acho que fica uma equipa mais segura em termos defensivos e melhor em termos ofensivos. Como é que eu te explicar isso? Fica sempre os três centrais mais um trinco. Chega. Quatro, cinco jogadores, chega. E acaba por ter sempre os laterais a desequilibrar muitas das vezes o jogo para a equipa adversária. Agora, uma coisa é ter os laterais ou tê-los com capacidade ofensiva para isso. Acho eu, não quer dizer que não é certo, como deu certo agora com o Chaves, as coisas acontecem. Não que a qualidade de jogo tenha sido brilhante, mas deu para controlar perfeitamente o jogo. Mas para jogar dessa maneira, tem que ter dois laterais bastante ofensivos e com grande andamento. E não parece, apesar de eles terem andamento, estão adaptados àquela posição, que é o caso do Ortmans e o João Neves. Eu gosto das equipas a jogarem com três centrais. Não é de um dia para o outro, tem que ser muito trabalhado para as coisas darem certo.
Olhando agora para o Sporting, o que é que mudou essencialmente em relação à última época? É mesmo este avançado Gyökeres que faz muita diferença? É o facto de agora existir um médio importante, o Ulman, ao lado de um Morita que parece também estar cada vez melhor? Ou é a própria dinâmica da equipa de uma forma geral?
A equipa está a trabalhar, a jogar nessa maneira já há muito tempo. É lógico, vindo os jogadores e o Sporting parece que até o momento os jogadores que vieram, tirando o Fresneda, que ainda não se sabe muito bem o que possa, apesar das pessoas acreditarem que pode dar um bom reforço. Os dois jogadores que vieram para o Sporting, que era o ponta de lança, que era o médio, vieram acrescentar algo que o Sporting precisava. Era de um ponta de lança para jogar outro tipo de jogo, que o Sporting era aquele jogo mais trabalhado. E apesar de nós vermos a época passada, o Sporting não ganha nada, foi uma época desastrosa, e tem jogos, ou teve jogos, ou muitos dos jogos que a passar pelo Sporting não conseguiu vencer, fez jogos excelentes A criar oportunidades atrás de oportunidades, aproveitadas oportunidades. É a motivação. Repara, jogadores que vêm acrescentar, jogadores que estão a pegar. Aqui é aquilo que eu disse um pouco em relação ao que acontece, por exemplo, com o Benfica ou está a acontecer em termos de Liga dos Campeões. É muito melhor trabalhar sobre vitórias do que sobre derrotas. O Sporting vê-se que é uma equipa com ex-jogadores que encaixaram até o momento na perfeição. E as vitórias vêm dar isso. São bons reforços. Até o momento têm mostrado claramente que são jogadores que podem ou que estão a fazer a diferença.
Há aqui também um momento importante, se calhar até da época toda, que é aquela conferência do Rúben Amorim a seguir ao jogo com o Farense, onde deixou algumas dúvidas no ar em relação ao futuro e depois explicou que para ele tudo depende dos resultados e sobretudo colocou a pressão de ser uma época do tudo ou nada. Ou seja, depois da última época sem títulos, ele não quer que o Sporting seja um clube, entre aspas, habituado a terminar a época sem títulos e achar que isso é normal e quer que seja essa época do tudo ou nada. Esta pressão que ele está a colocar, não só no seu próprio trabalho, mas também na equipa, poderá ser benéfica? Ou seja, o Sporting nesta altura já está preparado outra vez para lidar com este tipo de pressão?
Vamos lá ver. O Sporting, como se sabe, e felizmente para os sportinguistas e felizmente para mim, foi um clube tentado afastar dos títulos durante muitos anos. A exigência que o Rúben Amorim trouxe ao clube está à vista, tirando a época passada que não conseguiu vencer nada, está à vista. Eu acho que ele nesse aspecto tem toda a razão. Os treinadores vivem de resultado. Quem representa um clube com esta dimensão tem que ser exigente. Tem que se ganhar, tem que se lutar para ganhar, tem que se fazer tudo para ganhar. Quando não se ganha, a responsabilidade normalmente é sempre do treinador, que é a grande figura da equipa, é o cérebro da equipa. Não vejo que seja algum mal-estar ou que as pessoas: "Ele agora parece que está a dizer que se vai embora". É a realidade. Quando não se ganha, as coisas sobram sempre para alguém, normalmente sobra para o treinador. Está a ser honesto e acho que está a ser um profissional exemplar, que senão, quando não se ganha, alguma coisa tem que ser esclarecido, tem que ser falado para tentar resolver as coisas no futuro, que sejam melhores. É um bom treinador, é um excelente treinador, mas os sportinguistas também têm que ter consciência que há de haver um dia que ele irá à vida dele e eu espero que não vá tão cedo, mas se for, espero que vá para um clube que lhe dê condições para desenvolver o trabalho de excelência que tem estado a fazer.
E Fernando Mendes, em paralelo com o Sporting e Benfica e desviando-nos um bocadinho do derby, há também um Futebol Clube do Porto claramente abaixo das últimas épocas, quase como se a reinvenção mais uma vez da equipa de Sérgio Conceição não esteja a funcionar da mesma maneira, pelo menos. Até pelo contexto que se está a viver no clube, estamos a aproximar-nos de umas eleições em que Pinto da Costa pode ter uma oposição mais de peso. Como é que vê a campanha dos Dragões e as hipóteses do Futebol Clube do Porto nesta liga?
O Futebol Clube do Porto nunca é a desprezar. Isso aí não. Porque o Sérgio, e tem-se visto ao longo destes seis anos, salvo erro, seis, sete que ele está à frente da equipa, consegue sempre transformar aquela equipa numa equipa extremamente competitiva e consegue sempre transformar alguns daqueles jogadores que, na minha opinião, ao longo destes seis anos que o Sérgio esteve, na minha opinião, não tinham qualidade ou não tinham a qualidade suficiente para ser jogadores do Futebol Clube do Porto. E ele conseguiu transformar esses jogadores em grandes jogadores e com resultados bastante positivos. Está a existir, pelo menos como me parece de fora e acho que é notório, muita confusão no Futebol Clube do Porto. Não era normal. Não era normal isso acontecer. Era um clube, e eu passei por lá, extremamente fechado. Não se sabia nada, não havia ataques pessoais a ninguém e as coisas desenrolavam-se e rolavam de uma maneira extraordinária. O trabalho do Sérgio é isto. Quando as coisas não estão bem, ele consegue. E está a seis pontos. Estamos na décima jornada. Acredito sinceramente que o Futebol Clube do Porto vai ser um adversário extremamente complicado ainda até ao fim neste campeonato.
O Fernando esteve cinco anos no Sporting, depois da formação, depois passou mais três no Benfica. Existiu algum derby que o tenha marcado um bocadinho mais, sendo que esteve tanto na vitória por 7-1, como na derrota por 5-0 quando estava no Sporting?
Em termos de recordações, esse do 7-1, apesar de, como praticamente diz agora o Rúben Amorim: "Tínhamos grande equipa, ganhámos 7-1, mas não ganhámos nada." Fiquei feliz. Acho que é um derby marcante, que se calhar tão cedo isso não irá acontecer. E o Manuel Fernandes fez quatro golos nesse jogo. Eu também era miudinho também na altura. Também era um gaiato. E esse dos 5-0 para a Taça de Portugal também, que se calhar se durasse mais um bocadinho, também ia aos sete. São jogos que quando corre bem, tudo corre bem. À mínima coisa corre mal, tudo corre mal. São derbys marcantes, claramente. E tive outro não pelo Sporting também, fomos ganhar pelo Futebol Clube do Porto também 5-0 ao Estádio da Luz para a Supertaça. São sempre jogos para carga emocional que têm, pelos resultados volumosos que tiveram, ficam sempre na nossa memória.
Fernando Mendes, muito obrigado por nos ter ajudado a lançar o derby que aí vem. Também para analisar o momento, não só de Sporting e Benfica, como de Futebol Clube do Porto, três clubes que o Fernando Mendes bem conhece. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite.
Obrigado eu.
O "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola" desta semana fica por aqui. Voltamos para a semana.