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Na Rádio Observador, nem tudo o que vai à rede é bola. Mais uma edição deste programa de desporto com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e também comigo, Miguel Cordeiro. Na segunda parte deste programa, vamos receber Bruno Coelho, jogador de futsal, de seleção e do Benfica. É para ouvir na segunda parte. Primeiro, como sempre, vamos aos destaques. Começamos com a figura Gyökeres, avançado sueco que continua em grande no Sporting, Bruno Roseiro.

Sim, e mais uma vez a mostrar que o caro também pode sair barato, sobretudo no Sporting, que é normalmente um clube que tem muitos exemplos de barato que sai caro, neste caso é o caro que sai barato. E continua a provar que sendo um dos maiores investimentos da temporada, é também o melhor jogador do campeonato. Desta vez, com o Gil Vicente, e perante a possibilidade do Sporting poder voltar à liderança isolada, marcou dois gols, teve mais dois gols anulados, leva 15 gols e cinco assistências em 17 jogos. Há 10 anos que não havia um jogador do Sporting a chegar tão rápido aos 15 gols, sendo que Fredy Montero acabou por ser, sobretudo essa época em específico, se calhar sem tanta continuidade de gols, mas ainda assim com esse registo. É o segundo melhor marcador do campeonato, só atrás do Banza. E diria que, tão ou mais importante do que os gols, Gyökeres está a cumprir a 100% os três pressupostos pelos quais foi contratado. Pressuposto um: o Sporting mostrar ao mercado e dar um sinal ao mercado que consegue ter uma posição de força independentemente de não ter os meios de outros clubes. Ou seja, apesar de haver outros jogadores referenciados, e um deles é o Ueda, que eu tive de ir agora ver os números, porque ele é japonês, acabou por ir para o Feyenoord e as coisas não estão a correr bem, mas era a alternativa ao Gyökeres. Mas desde cedo se percebeu que o Sporting, em relação ao Coventry e às negociações com o Gyökeres, seria plano A, plano A e plano A, que é uma coisa que nós não estamos muito habituados. Ou seja, vai se baixando um pouquinho a fasquia até se chegar ao jogador. O Sporting teve esse mérito, foi o plano A, plano A, plano A. Custou 20 milhões, pode custar mais quatro. Foi, sobretudo, um bom investimento, como se percebe agora. Depois, um segundo ponto que tem a ver com a metamorfose do jogo do Sporting, ou seja, aquilo que Gyökeres oferece a Rúben Amorim e ao jogo coletivo do Sporting, transformou a equipe, provavelmente, naquela que é a melhor versão do Rúben Amorim. Ou seja, ele consegue esticar o jogo, consegue jogar consoante as necessidades da equipe, tem uma primeira zona de pressão que é muito importante. Mais uma vez, agora no jogo com o Gil Vicente, acaba o jogo com 23 sprints, ou seja, muitas vezes, até mesmo quando não marca, provoca um desgaste e provoca uma incerteza na defesa contrária, que depois acaba por beneficiar outros companheiros. Neste caso, sobretudo o Edwards, que a partir do momento em que passa um pouco mais pro meio quanto ao Gil Vicente, também melhora substancialmente. E depois um terceiro ponto, que é também fundamental, que é a necessidade que havia de entregar aos adeptos uma referência, um ídolo. Era isso que o Sporting não tinha. Muitas vezes falava-se na questão do Sporting não ter avançados, mas além de não ter avançados, não tinha propriamente estas referências, estes ídolos, este tipo de jogadores que consegue apaziguar aquela impaciência normal de um resultado que não está a sair, porque se sabe que ele está lá. E há muito tempo que o Sporting não tinha isto, Gyökeres consegue oferecer isto e tudo mais. E há também aqui um pormenor de bastidores que é curioso. O fato de a Suécia não ter sido apurada pro Campeonato da Europa, acabou por acalmar, de certa forma, os administradores da SAD, porque pensaram que não tinham o risco de Gyökeres poder ser vendido no verão. Agora, tudo aquilo que ele tem feito até aqui está quase a diminuir esse efeito de não ir ao Campeonato da Europa e, portanto, se ele continuar assim, muito provavelmente, será alvo de muita cobiça até o final da época.

Bom investimento para o Sporting. Gyökeres já com grandes números neste arranque de temporada. Seguimos para a citação, continuamos a falar de gols. A citação é a seguinte: "O gol foi um alívio depois de tudo o que vivi durante o verão". Mariana Fernandes, estamos a falar de João Félix.

Claro. Falou-se muito sobre este reencontro do João Félix com o Atlético de Madrid, principalmente tendo em conta que ainda pertence ao próprio Atlético de Madrid, portanto, está apenas emprestado ao Barcelona. E a verdade é que quis o destino, ou neste caso, quis João Félix, que o desfecho do jogo fosse mesmo o mais irônico, e foi precisamente a ironia que depois o Barcelona usou nas redes sociais para destacar este gol da vitória do Barcelona, que João Félix marcou ainda na primeira parte do jogo contra o Atlético. O presidente do Atlético, Enrique Cerezo, tinha dito que esperava que Félix não festejasse se marcasse, mas eu acho que ele acabou por não conseguir resistir àquele impulso de marcar o gol e saltar pra cima do painel publicitário, sendo que eu acho, pelo menos de quem estava a ver o jogo, que ele se arrepende de imediato. Não necessariamente de ter festejado, até porque depois volta a fazer aquele gesto de encolher os ombros, manda aquele beijinho pras bancadas. Portanto, ele queria claramente, obviamente, deixar a sua marca, mas eu acho que ele se arrepende daquele festejo de forma imediata. Ele salta muito rápido para o chão, não quis propriamente prolongar aquilo, mas a verdade é que não conseguiu resistir ao impulso de forma Um bocadinho compreensível e ele próprio depois explica isto com esta frase, com este desabafo, a ideia de que só mesmo as pessoas mais próximas, só mesmo os amigos, a família, é que tiveram noção daquilo por que passou durante o verão. Portanto, não querer ficar no Atlético, saber que não tinha hipótese de continuar no Chelsea depois de ter estado lá emprestado, não encontrar destino dentro das Big Five, porque a verdade é que tinha mercado fora das principais ligas, mas queria continuar nas principais ligas e acabar emprestado ao Barcelona, quase em pacote com João Cancelo no último dia do mercado, depois de ter andado semanas a treinar à parte e completamente afastado dos trabalhos da equipa de Diego Simeone. Ele tem o futuro completamente em aberto, portanto sabemos que ainda não é certo se vai ficar no Barcelona, se volta ao Atlético de Madrid, se volta ao Atlético de Madrid para ser novamente emprestado e seguir para outras paragens. Mas a verdade é que eu acho que espanta aqui alguns fantasmas com este gol e também não me parece que tenha sido por este festejo que tenha criado ainda mais animosidade num Atlético que, ou neste caso, numa massa adepta do Atlético, que na verdade também já não vai muito à bola com João Félix desde há um ano, a um ano e meio, e principalmente depois de tudo o que aconteceu no verão, depois daquelas declarações a dizer que o grande sonho era jogar no Barcelona. Acho que foi só a machadada final e a ironia, como destacou o Barcelona.

E foi a grande figura desse encontro entre Barcelona e Atlético de Madrid este fim de semana. Passamos para o número, neste caso 53%. Estamos aqui a falar do valor com que foi aprovado o relatório de contas do Futebol Clube do Porto, Bruno.

Sim, que foi uma noite de vitórias totais ou parciais. Ou seja, uma vitória total para o Futebol Clube do Porto. Por um lado, pela maneira como tudo decorreu de uma forma muito mais pacífica, sem ter nada a ver com aquilo que se passara no dia 13 de novembro e, por outro, por mesmo não tendo aquela enchente que teve no dia 13 de mais de 3 mil pessoas, houve até quem falasse 5 mil, 900 pessoas para votar num relatório e contas no universo Futebol Clube do Porto e nos últimos 40 anos é uma coisa muito inusitada e, portanto, também por aí é importante, e até pela própria participação dos associados na Assembleia Geral durante os discursos. Depois, uma outra vitória total que passou completamente ao lado quase da Assembleia Geral e que várias pessoas que estiveram nessa reunião magna destacaram, que foi Sérgio Conceição, cada vez mais uma figura que mesmo perante o início de uma pré-campanha eleitoral, é o nome que as pessoas não esquecem, porque sabem que foi Sérgio Conceição que resgatou o Futebol Clube do Porto depois do maior jejum sem títulos do Futebol Clube do Porto na era Pinto da Costa. E depois duas vitórias parciais. Por um lado, para Pinto da Costa, pela maneira como ele conseguiu puxar para si a Assembleia Geral na parte final, quando faz o discurso, e pela maneira como ele, pela primeira vez, decidiu ir a jogo com Vilas-Boas. Ainda há pouco mais de uma semana dizia que não queria fazer nenhum comentário. Nesta altura, parece que Pinto da Costa aparece publicamente só para falar contra Vilas-Boas, portanto, decidiu ir a jogo. E depois, por outro lado, porque conseguiu aprovar as contas e apesar de tudo, não sendo propriamente a mesma coisa do que uma eleição, mas não deixa de ser um triunfo importante. Mas paralelamente, uma vitória parcial de André Vilas-Boas, porque conseguiu encontrar o modo certo daquilo que terá de ser o seu caminho até às eleições. Nunca visar diretamente Pinto da Costa, colocar sempre o ônus nas pessoas que estão à volta de Pinto da Costa e que eu diria que são o calcanhar daquilo que é a situação financeira do Futebol Clube do Porto, que será aliviada nas próximas semanas com o acordo com a Legends, que será anunciado e que será aumentado, além daquilo que já se conhece em termos públicos. E no meio disto tudo surge os 24% e daí esta vitória parcial também de Vilas-Boas. Não deixa de ser anormal, mas ao mesmo lado sintomático, haver 24% de sócios a ir pela abstenção em relação ao relatório e contas. Ou seja, aquilo que nós temos é um Futebol Clube do Porto muito mais dividido comparando com aquilo que foi nos últimos 40 anos e com uma massa adepta, e sendo este um relatório e contas e não uma eleição, que admite uma viragem de ciclo. E é perante estes 24%, além da porcentagem também de pessoas que votaram contra, é nestes 24% que André Vilas-Boas vai trabalhar, sendo que o sucesso ou não da equipa de futebol também irá pesar muito naquilo que será o resultado eleitoral, tendo em conta que as eleições são em abril.

Seguimos para o Marco e falamos de futsal. Portugal volta a contar com duas equipas na final four da Liga dos Campeões Futsal. Vamos falar isto na segunda parte com o Bruno Coelho também, mas estamos na terceira época consecutiva em que isto acontece, Mariana.

Sim, Benfica e Sporting estão ambos na final four da Liga dos Campeões Futsal pelo terceiro ano seguido, algo que nunca tinha acontecido e que continua a vincar a qualidade do futsal português e também o patamar elevado em que as duas equipas estão a nível europeu, algo que se estende obviamente a Espanha, já que as outras duas equipas são espanholas, o Barcelona e o Palma, parecendo cada vez mais que existe sempre esta dicotomia da Península Ibérica entre Portugal e Espanha, sempre que se chega às decisões, pelo menos no que toca a clubes das grandes competições. Em termos gerais, esta será a quarta vez que Benfica e Sporting marcam presença na mesma final four, sendo que nunca se defrontaram e que existe esta particularidade de o Benfica ter sempre caído nas meias-finais e de o Sporting ter perdido sempre na final, quando coexistiram ambos na mesma final four da Liga dos Campeões. Volta a abrir-se também a porta à possibilidade de uma final totalmente portuguesa, uma esperança que tem vindo a ser alimentada principalmente nestes últimos três anos, em que Benfica e Sporting estiveram ambos na final four da Liga dos Campeões Sendo que do outro lado, e nesta Final Four, estão sempre o todo-poderoso Barcelona, onde sabemos que jogam os portugueses André Coelho e Eric, e o campeão europeu Palma, que foi a grande surpresa do ano passado a jogar em casa e a vencer o Sporting na final. O Benfica persegue o segundo título depois ter conquistado a Liga dos Campeões em 2010, o Sporting persegue o terceiro, depois de ter sido campeão europeu em 2019 e 2021 e ter perdido as duas últimas finais precisamente para Barcelona e para Palma, portanto, reencontra aqui esses dois carrascos também.

Continua essa rivalidade também entre Portugal e Espanha no que toca ao futsal. Nesta primeira parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola", tempo ainda para o túnel. E vamos falar do Europeu de futebol que se realiza no próximo verão. Temos uma pergunta à espera de resposta. Bruno Rosário, o sorteio da fase final do Campeonato da Europa foi bom, foi mau, foi perigoso para Portugal?

Foi tudo isso. Aliás, hoje não é propriamente um túnel normal, mas acho que é importante falarmos deste sorteio do Campeonato da Europa, porque fiquei com a sensação de que toda a gente olhou satisfeita para aquilo que tinha calhado em sorte a Portugal, e faz sentido, mas ninguém olhou com muita atenção para aquele quadro que está ainda por preencher, que é na fase eliminada. O que isto significa? Em termos de grupo, no pote dois haveria adversários eventualmente mais acessíveis, porque a Turquia cresceu com o Montella. Tem também a questão de receber o Europeu de 2032, portanto, vai haver muito provavelmente um maior investimento no futebol, mas nesta altura Portugal parte claramente como favorito. A República Checa, só mesmo para os saudosistas que se lembram do gol do Poborsky em 96, é que poderá haver, de certa forma, algum equilíbrio, que não existe. A República Checa não tem nada a ver com aquilo que já foi. E depois haverá ainda o vencedor do playoff, que poderá trazer a Grécia para uma possível vingança, mas há também a Geórgia, o Luxemburgo ou o Cazaquistão, que são equipes que mudam o estilo de jogo, não mudam o favoritismo de Portugal. Ou seja, Portugal assumidamente é o claro favorito para acabar em primeiro. E depois tem uma outra vantagem: o fato de calhar no grupo F e de fechar a primeira jornada da fase dos grupos, faz com que possa haver aqueles habituais deslizes que acontecem nessas grandes competições e que servem também de alerta para as outras equipes. Ou seja, eu não sou muito daquela ideia do: era bom estarmos no grupo B, porque depois ficamos muito ansiosos e nunca mais entramos em campo.

Eu, por acaso, quando vi o sorteio, tive a mesma percepção. É bom jogarmos no fim, porque primeiro temos mais tempo de preparação, nem que seja mais um ou dois dias, e depois porque de fato vemos todas as outras seleções a jogar e percebemos como é que está a ser o Europeu.

Como é que está, e até a ordem dos jogos e o fato de se jogar com o vencedor no playoff a acabar o grupo, faz com que eventuais ou potenciais surpresas que essa seleção possa apresentar, já estejam devidamente descortinadas com os dois primeiros jogos. Portanto, essa parte foi toda boa. Há aqui só um pequenino pormenor, que é: caso Portugal tenha algum deslize e acabe em segundo do grupo, e até poderia acabar em terceiro, mas neste caso em segundo, vai cruzar com o vencedor do grupo D, e o vencedor do grupo D chama-se França. E até na pior das hipóteses e no pior cenário, mesmo acabando em primeiro do grupo, pode cruzar com o terceiro classificado do grupo B, que é o grupo da morte com Espanha, Croácia e Itália. Portanto, essa parte que está ainda por preencher não foi propriamente a melhor para Portugal. E fazendo essa matemática, que é sempre uma coisa engraçada de se fazer, que é quem é que se apura em primeiro, em segundo, em terceiro. A Inglaterra, que não tem propriamente um grupo fácil, porque apanha com Dinamarca, que jogou na última meia final do Europeu, Sérvia, que é sempre uma seleção complicada, e Eslovénia. Quando nós olhamos para o caminho, se a Inglaterra acabar em primeiro, o grupo C, muito provavelmente vai ter um caminho relativamente tranquilo até às meias-finais. E, portanto, muitas vezes convém olhar não só para aquilo que são os grupos, mas também para aquilo que poderão ser os cruzamentos, para perceber que aquilo que é bom também pode ser perigoso.

E nós sabemos como isso é importante, porque no Europeu de 2016 foi muito importante para Portugal esse percurso depois dos grupos.

No Europeu de 2016 percebemos na fase de grupos que se passássemos, qualquer coisa que aparecesse pela frente-

De empate em empate.

Sim, iria sempre chegar.

Termina aqui esta primeira parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola". Na segunda parte falamos com o jogador de futsal Bruno Coelho. Estamos de regresso para a segunda parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola". Vamos conversar com Bruno Coelho, jogador de futsal, longo histórico na Seleção Nacional e no Benfica. Já ganhou praticamente tudo o que há para ganhar. É uma entrevista conduzida pela Mariana Fernandes e pelo Bruno Rosário.

Começava por lhe perguntar: o Benfica alcançou pela terceira vez consecutiva a Final Four da Liga dos Campeões de futsal, que foi uma coisa que nunca tinha conseguido na sua história. Pergunto-lhe qual foi a importância desse feito para o Benfica e para o próprio grupo, até pelo tipo de viagem que obrigou a comitiva a fazer até ao Kosovo.

Sim, a viagem é sempre aquela parte que é a mais difícil, mas felizmente correu tudo bem. Felizmente estávamos preparados

Para a competição. Claro que foi importante e é importante para o clube estar cada vez mais presente na final four da Liga dos Campeões. Isso demonstra como temos vindo a crescer. Sabemos perfeitamente que os últimos anos, em relação a títulos, não tem sido muito bom, apesar de termos ganho a Taça de Portugal, a Taça da Liga, temos ganho recentemente a Supertaça. E o clube, como o Benfica, vive de ganhar títulos e de estar sempre presente nas fases finais das competições.

O Benfica começa esta ronda de elite com uma vitória frente ao Doboveg, com aquele golo a oito segundos do final de um jogo que na segunda parte até parecia estar controlado. Perguntava-lhe como é que a equipa trabalhou desse jogo para o do Kairat, que à partida iria decidir quem seria o apurado para a final four da Liga dos Campeões.

Sim, foi um jogo um bocado complicado, porque eles são mais fortes fisicamente do que nós. E nós entrámos tão fortes e tão agressivos e intensos na segunda parte. Isso derivou ali o empate e eles equilibraram o jogo dessa forma. E felizmente conseguimos arranjar forma de conseguir aquele golo. Como eu disse anteriormente, a equipa está melhor preparada para este tipo de situações, está mais consistente e acredita mais no trabalho que é feito. Sabemos perfeitamente os nossos objetivos, sabíamos perfeitamente o que queríamos. Sabíamos perfeitamente, como você disse, que possivelmente o jogo com o Kairat poderia decidir e definir o vencedor do grupo. E assim foi, nós à segunda jornada já beneficiámos do empate do Pristina com o Doboveg e ficámos logo apurados para a ronda de elite. Mas esta equipa está melhor preparada para este tipo de situações.

Nos últimos quatro anos, o Benfica tinha jogado três vezes com o Kairat, sempre jogos muito equilibrados, decididos pela margem mínima, pelo prolongamento. O Kairat também é um potencial e crónico candidato a ir à final four da Liga dos Campeões. Pergunto, neste caso em específico, o que é que fez a diferença, tendo em conta que é sempre um jogo também decidido pelos detalhes?

Sim, com certeza. São jogos muito equilibrados, muita qualidade. O Kairat também tem muitos brasileiros, alguns naturalizados cazaques, tem muita qualidade. Já ganhou a Liga dos Campeões também e o nosso crescimento enquanto equipa tem sido bastante notório.

Nos últimos dois anos, o Benfica acaba por perder nas meias-finais contra equipas espanholas, primeiro contra o Barcelona, depois contra o Palma. Não se conhecendo ainda o sorteio e tendo em conta o que aconteceu nesta ronda de elite, será possível ter pela primeira vez uma final com as duas melhores equipas portuguesas, como nunca aconteceu?

Sim, acho que é possível. Isso vai depender um bocado do sorteio e se demonstrar a qualidade e capacidade que as equipas portuguesas têm tido de chegar a estas fases finais desta competição. Para nós, enquanto atletas e amantes da modalidade, e enquanto portugueses, seria o topo, seria o melhor que podia acontecer a Portugal. Sabemos da qualidade das equipas espanholas, sabemos perfeitamente a qualidade que tem o Barcelona e o Palma. O Palma é o atual campeão da Europa e temos que estar preparados para isso.

Olhando aqui para aquilo que se está a passar na Liga dos Campeões do futsal e sobretudo na questão da final four, já não é nem a primeira nem a segunda vez que chegamos à fase decisiva e temos equipas portuguesas e equipas espanholas. Ou seja, começa já, de certa forma, quase a parecer um bocadinho aquilo que acontece no hóquei em patins, onde quando chega às decisões, só está Portugal e Espanha. Isto em contraponto com o crescimento de muitas seleções europeias que tinham pouca tradição no futsal, mas que agora começam a ser mais competitivas. Perguntava-lhe o que considera que falta para haver outras equipas também nesta decisão e se o atual formato também poderia ser mudado nesse sentido de abrir um bocadinho mais o leque?

Sim, acho que se houvesse outro formato, era possível que houvesse mais equipas. Mas lá está. Isto tem sido o crescimento também do que é a nossa seleção. Nós somos os atuais campeões do mundo, campeões da Europa e ganhámos a Finalíssima. Isto também é demonstrativo do nosso crescimento enquanto seleção, enquanto formação, e acho que se calhar falta alguns países apostarem nessa formação. Eu posso falar particularmente, por exemplo, de Itália. Itália está a sofrer um bocado por causa disso, por causa da formação. Eu, como estive em Itália, a formação não é tão forte como é, por exemplo, em Portugal, em que hoje já conseguimos fazer estágios de seleções de sub-13. Isto para os miúdos, para os mais novos, é muito importante, porque depois quem ganha com isto será a seleção principal, porque chegam aos seniores, chegam à equipa principal, melhor preparados Se calhar, há países que não apostam tanto nesse sentido e sofrem um bocado sobre isso.

A Liga Portuguesa também está a acompanhar esse crescimento, ou seja, sendo que estamos a caminhar para um futuro onde daqui a uns anos, se calhar num futuro mais a médio e longo prazo, não existe tanto ou de forma tão vincada esta dualidade Benfica-Sporting na luta por títulos?

Sim, e é como eu digo muitas vezes, isto é bom para a modalidade. O Braga está a reforçar-se bem também, está a preparar-se muito bem também. Tem ótimos jogadores portugueses e estrangeiros e tem feito excelentes campanhas. O ano passado foi até à semifinal do campeonato. Este ano, se não me engano, só empatou com o Sporting e perdeu agora com o Caxinas. Tem feito um campeonato muito bom também. E é bom para a nossa modalidade. As outras equipas também estão bem preparadas, estão cada vez mais e melhor preparadas para as adversidades. Não sei se a redução de equipas na liga é benéfico, torna a liga, se calhar, mais competitiva, e acho que estamos num crescimento que é notório para todos.

Olhando agora para aquilo que tem sido a época do Benfica até o momento, começou com uma vitória na Supertaça, depois houve aquelas duas derrotas no campeonato com Caxinas e Sporting. Vemos também aqui uma série de resultados que acabam por ser surpreendentes, ou seja, o Benfica tão depressa consegue goleadas como conseguiu, por exemplo, com o Belenense ou com o Candoso, mas ao mesmo tempo tem jogos, se calhar, teoricamente mais fáceis, mas que terminam pela margem mínima, como aconteceu com o Ferreira do Zêzere. Perguntava-lhe que análise é que se pode fazer à temporada do Benfica até ao momento.

É como lhe digo. A equipa está melhor preparada, está mais consistente. Esses resultados demonstraram alguma inconsistência da nossa parte, mas temos vindo a crescer, a trabalhar sobre isso e acho que os últimos jogos, incluindo Liga dos Campeões, Main Round e agora Ronda Elite, que se não me engano, não quero estar a mentir, acho que são os últimos 10 jogos, incluindo Main Round, Ronda Elite e os últimos jogos da Liga Placard, têm sido demonstrativos. Se formos analisar bem, marcamos mais gols, sofremos menos gols, temos mais vitórias consecutivas. Se não me engano, temos 10 ou 11 vitórias consecutivas.

Nessa altura são 10. Estava aqui a contar rapidamente, são 10.

São 10. Incluindo com todas as competições, são 10 vitórias consecutivas. Isto demonstra o crescimento da equipa, a maturidade que a equipa está a ter e a consistência. Como você disse, por vez temos um resultado mais dilatado, outros mais equilibrados. Isso também quer dizer um bocado do pragmatismo que esta equipa tem e vai tendo ao longo do crescimento. Estamos a defender cada vez melhor, somos mais consistentes na defesa, a segurar o resultado. Claro que nem sempre é possível ganhar por muitos. Nós queremos a vitória, queremos ganhar. Sabemos bem os nossos objetivos, sabemos bem para o que estamos e para o que vamos. Isso é que é o mais importante.

Na época passada, o Benfica acaba por vencer o Sporting na Taça da Liga, também na Taça de Portugal, e por quebrar aquela que estava a ser uma hegemonia sem precedentes do Sporting ao nível da modalidade e também contra o Benfica nas principais decisões. Qual é que foi a importância de quebrar essa hegemonia, ou seja, de vencer o Sporting nas duas competições e de conseguir finalmente chegar onde não tinham chegado durante tanto tempo?

Sim, foi como eu disse no início. Foi muito tempo, se eu não me engano, foram três anos sem ganhar um título e havia esse problema de não ganhar ao Sporting. Eu acho que nos preocupamos tanto em ganhar ao Sporting que nos esquecemos se calhar um bocado de fazer o essencial e o que é importante, que é competir, que é jogar, que é fazer aquilo que nós mais gostamos. Nós isso fomos conseguindo ultrapassar. Claro que quando não se ganha durante muito tempo com uma equipa, parece um fantasma e quando as coisas correm menos bem no jogo, parece que isso dá a volta à cabeça, mas tivemos que trabalhar nesse sentido e emocionalmente conseguimos ser mais fortes e felizmente, como você disse, ganhamos a Taça da Liga e a Taça de Portugal e conseguimos dar a volta a isso.

Olhando agora aqui um bocadinho também para o trajeto do Bruno, fez nove anos no Benfica, que por coincidência começaram na temporada seguinte à conquista da Liga dos Campeões por parte do Benfica em 2010, mas depois decide pela primeira vez arriscar uma experiência no estrangeiro, primeiro no ACCS de França, depois no Nápoles de Itália. Perguntava-lhe como é que foi essa realidade lá fora, depois de tantos anos na nossa liga portuguesa, e por que decidiu depois voltar ao Benfica?

Não foi fácil, não foi nada fácil, porque eu sou uma pessoa que gosta muito da minha zona de conforto, de contar com aquilo que é certo. Mas enquanto pessoa e enquanto atleta profissional, acho que foi o melhor que me aconteceu. Cresci muito, aprendi muito e tornou-me mais forte. A minha experiência, até para ajudar os mais novos hoje É muito maior e muito melhor. Como eu disse, no ACCS não foi fácil, porque também foi em altura de Covid e tinha ido sozinho para França. Não foi fácil, até por estar longe da família, poder viajar menos vezes.

Olhando aqui também um bocadinho para a seleção nacional, a verdade é que Portugal consegue ganhar dois Europeus, um Mundial e a Finalíssima de forma consecutiva, ao mesmo tempo que ia lançando novos valores numa equipa que também já estava bastante consolidada e alguns desses novos valores também vindos da formação do Benfica. O Bruno já falou um bocadinho sobre esta renovação e sobre a questão da formação, mas queria perguntar como é que vê esta renovação de geração na seleção e qual é que é a chave para que seja feita sem que a seleção perca esta série de vitórias consecutivas.

Tem sido fantástico. Isto é trabalho da federação, sem dúvida alguma. Isto é um trabalho excelente que a federação tem vindo a fazer. Não nos podemos esquecer que o Mister Jorge Braz e a sua equipa técnica estão, não me quero enganar, mas estão à frente da seleção desde 2009, 2010. São muitos anos, está tudo muito bem esquematizado, tudo bem trabalhado. A formação tem sido cada vez melhor. Temos tido uma base na seleção principal, em que se mexe pouco, em que os jogadores têm sido muito consistentes. Os clubes têm ajudado muito a nossa seleção, por termos cada vez mais jovens, mais jogadores disponíveis para a seleção. E é como eu digo, quem ganha com isto tudo é a nossa seleção, são os clubes, somos nós, que estamos cada vez mais fortes.

Olhando aqui para a carreira do Bruno também, vemos que já conquistou basicamente todos os títulos, seja a nível de Benfica, seja a nível de seleção, já ganhou tudo o que havia para ganhar. Aos 36 anos, o que é que ainda lhe falta fazer no futsal que ainda não fez?

Essa é uma boa questão. Eu já me estava aqui a rir para o telemóvel. Falta-me uma Liga dos Campeões. Aos 36 anos, acho que ganhar a Liga dos Campeões pelo Benfica, para a minha carreira, seria a cereja no topo do bolo. Para além de ganhar a Liga dos Campeões, poder ganhá-la no clube que eu amo, que eu gosto, no clube do meu coração, seria fantástico. Ando há muito tempo atrás desta competição, eu e não só, eu e os meus colegas, o Benfica também, que tem, como nós já falámos aqui nesta entrevista, ido a vários Final Four e não consegue ganhar, também anda atrás desta competição há muito tempo. Acho que seria a cereja no topo do bolo.

Vincou aí a questão dos 36 anos. Aos 36 anos ainda vai ter ritmo para os mais novos durante quanto tempo?

Isso vai depender um bocado de mim, da forma como me preparo e aceito o desafio. Eu também sou o primeiro a dizer que se não me sentir capaz, levanto a mão e digo: "Olhe, não consigo mais, está na hora e chega". Mas aqui é que está o giro engraçado disto, que é os miúdos puxam por nós, pelos mais velhos, obrigam-nos a correr mais e nós obrigamos os miúdos a correr ainda mais. E acho que para eles terem as referências como eu, como o João Matos, como o Anilton Pani. Acho que é bom, acho que é importante, acho que é giro. Eles poderem olhar para nós e pensarem que podem ser melhores do que nós, que é para isso que eles trabalham e acho que é bastante importante.

Bruno Coelho, muito obrigado pela disponibilidade para estar conosco neste "Nem tudo o que vai à rede é bola". Chegamos ao fim deste episódio. Pode ouvir o programa em podcast, em observador.pt e em todas as plataformas de podcast. Até para a semana.