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O piso está dado para mais um Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola na Rádio Observador, como sempre com o Bruno Roseiro, a Mariana Fernandes e comigo, João Filipe Cruz. Na segunda parte do programa, vamos ouvir uma entrevista do Bruno Roseiro ao único candidato anunciado à presidência do Futebol Clube do Porto até agora, Nuno Lobo, em véspera de mais uma assembleia geral do clube. Vai falar-nos dos planos que tem, caso seja eleito, e também sobre o atual momento dos Dragões. De recordar que Nuno Lobo candidatou-se em 2020, tendo ficado em terceiro, com menos de 5% dos votos, atrás de José Fernando Rio e de Jorge Nuno Pinto da Costa. Deixamos essa conversa para a segunda parte do nosso programa, mas primeiro vamos aos destaques. E como os ventos que sopram mudança, nós também gostamos de variar e esta semana vamos começar pela citação. Bruno Roseiro, Bernardo Silva foi entrevistado no programa da RTP "Primeira Pessoa" e questionado sobre o salário e sobre o eventual regresso ao Benfica, o jogador do City garante que não será pelo salário que não volta à Luz.

Sim, eu gosto de destacar e quero pôr logo a abrir, porque me parece que o Bernardo tem de ser destacado também por aquilo que ele é extra jogador. Ou seja, é alguém diferenciado. Já há muito percebíamos isso, o Guardiola percebe isso, os companheiros percebem isso. É daquele tipo de jogadores que tem uma personalidade onde consegue ser líder sem levantar a voz e muitas vezes sem sequer falar. Consegue ser pelo exemplo, mesmo sendo daqueles jogadores que admite sem problemas que não vai ao ginásio, não gosta de ir ao ginásio, ou seja, não é daqueles que tem de ser. Consegue dosear muito bem as coisas. E em relação ao Benfica, eu destaco esta citação, primeiro por não ter qualquer problema em falar sobre essa situação e depois, pela sinceridade com que ele diz, logo até enquanto benfiquista, que não votou em Rui Costa, porque colava muito Rui Costa àquilo que tinha sido um passado do Benfica que ele não gostava, e claramente falava de Luís Filipe Vieira, mas ao mesmo tempo, e sendo ele também o seu ídolo, e mesmo não tendo votado nele, elogiou aquilo que foi este início de Rui Costa nesta nova era enquanto presidente. E só esse tipo de afirmações, sem qualquer problema, completamente descontraído, eu acho que valoriza muito e acho que é algo que até faz falta no futebol para jogadores que são assumidamente de um clube, como é o caso do Bernardo Silva, que, mais uma vez, mostrando todo o respeito pelos rivais, voltou a dizer que: "Futebol Clube do Porto e Sporting não, porque pra mim não faz sentido, no dia em que eu voltar a Portugal, é ao Benfica". Agora, questão: há muitos jogadores que têm aquele chavão do "eu gostava de acabar a carreira no Benfica" ou no Sporting ou no Futebol Clube do Porto. E até aqui o Bernardo Silva é diferente. Por quê? Ele fez agora uma renovação de contrato com o City até aos 32 anos, portanto, quando ele tiver 32 é quando acaba este contrato com o City. Ele, em termos de pessoas mais próximas, nunca escondeu que gostava de experimentar jogar no Barcelona, que sempre foi uma ambição de miúdo. As coisas acabaram por não correr da melhor forma e ele próprio não gostou da maneira como Laporta andou a fazer as cambalhotas do costume, do eu quero, não quero, volta pra trás, volta pra frente, tem dinheiro, afinal não tem dinheiro. As cambalhotas do costume também chegaram a Bernardo Silva, que a certa altura fechou essa porta, ponto final, e começou a negociar o contrato com o City. Agora, possa ele sair este verão para seja Barcelona, seja Paris Saint-Germain, que fique ele no City, é alguém que tem a vida toda montada para voltar mesmo ao Benfica. E isso é importante por quê? Porque o Bernardo Silva vai acabar por funcionar como uma bandeira, e o próprio Rui Costa já percebeu isso, daquilo que o Benfica gostava de ter em termos de jogadores da formação, que é símbolos que vão lá pra fora depois de serem lançados na primeira equipe, coisa que nem aconteceu com o Bernardo Silva, mas que depois querem ter essa quase retribuição de voltar à sua casa mãe. E isso é algo também importante em termos de estratégia a médio prazo desportiva do Benfica. E era também algo que Luís Filipe Vieira, antes de sair, estava a tentar criar ou recriar. E nós percebemos isso pela forma como ele tentou Gonçalo Guedes e tentou Renato Sanches. E portanto, eu diria que o Bernardo Silva, além da parte desportiva, que é uma parte importante, além da parte emotiva, digamos assim, de alguém que é do Benfica e que quer jogar pelo Benfica, há também aqui este ponto importante em termos de estratégia a médio prazo do Benfica, a nível de formação, que é ainda um ponto em que o Benfica tenta colocar-se como o primeiro, sabendo que o fato de haver um Sporting com Luís Figo e Ronaldo bolas de ouro, acaba por ser sempre também um contraponto complicado.

Mariana, não sei se viste a entrevista, mas tenho que perguntar, já sei que és fã do Bernardo Silva.

Acho que somos todos, não é?

Sim, temos que ser.

Seja por aquilo que faz dentro de campo ou por aquilo que diz fora dele, acho que somos todos fãs do Bernardo. E aquilo que eu destaco, tirando, obviamente, este lado um bocadinho mais desportivo, há uma frase do Bernardo que eu acho que muda um bocadinho o paradigma e explica tudo aquilo que ele é, que é quando ele conta a história quando era mais miúdo, lhe disseram que filho de doutor não dá jogador, e ele quis sempre mudar isso e mostrar que pode dar e de fato deu, e é o caso dele. E o Bernardo muda um bocadinho este paradigma, ou seja, que não é preciso ter aquela história normal e que tem todo o mérito, a história de Cristiano Ronaldo, a história do Gabriel Jesus, por exemplo, a história do menino que vem de um meio menos privilegiado e que foi salvo pelo futebol. Eu acho que a ideia de que alguém escolheu o futebol também é um exemplo pros miúdos. E o Bernardo, como sabemos, vem de um meio muito mais privilegiado do que a larga maioria dos jogadores de futebol e escolheu ser jogador de futebol. É a paixão dele, ele escolheu ser jogador de futebol, quando poderia, muito provavelmente, ter ido pra universidade, ter seguido outra carreira, milhares de carreiras que ele podia ter escolhido. E tinha, obviamente, essa almofada, pôde escolher o futebol, isso também é importante sublinhar, mas ele gosta de usar também essa bandeira. Ou seja, a ideia de que ele escolheu ser jogador de futebol e não era por ser filho de doutor que não poderia dar jogador.

E obrigado por ter escolhido ser jogador de futebol.

E só lhe falta a Bola de Ouro pra ser igual ao Kaká. Que foi o grande exemplo disso mesmo.

Vamos passar em frente. Vamos continuar com a Mariana, porque no nosso número desta semana, Mariana, temos o nove em 16, que é o número de equipes da Primeira Liga que seguem em frente na Taça de Portugal para os oitavos de final, sendo que apenas uma foi eliminada por uma formação de outro escalão. Falamos do Casa Pia, que caiu ante o Nacional nos pênaltis.

Sim, terminou a quarta eliminatória da Taça de Portugal. Porto, Benfica e Sporting passaram sem grandes dificuldades e esta é aquela eliminatória onde até normalmente surgem os chamados tombas gigantes. Surge antes dos oitavos-de-final, portanto, normalmente é onde algumas das principais equipes da Primeira Liga às vezes caem, tropeçam. Também estamos nesta fase de campeonato aqui no final da primeira volta, portanto, as coisas ficam um pouquinho mais complicadas. Mas a verdade é que esta temporada ficou ainda mais vincada a diferença coletiva e competitiva entre clubes do primeiro escalão e os clubes das divisões inferiores. Portanto, como dizias, da Primeira Liga, só o Casa Pia que caiu nesta quarta eliminatória contra a Nacional, na decisão por grandes penalidades, sendo que, e é preciso sublinhar isso, nas rondas anteriores já tinham sido afastados Moreirense, Rio Ave, Farense e Desportivo de Chaves, quatro equipes também.

Passaram todos menos uma.

Da Primeira Liga, exatamente. Nestas 16 equipes dos oitavos de final, sobraram então seis representantes da Segunda Liga, portanto Marítimo, Nacional, Penafiel, Santa Clara, Tondela e União de Leiria, e o sobrevivente Amarante, que eliminou o Paredes e que é a equipe do escalão mais baixo ainda em competição, já que está no Campeonato de Portugal, portanto o quarto escalão do futebol português. Esvazia-se muito esta lógica da festa da Taça. Portanto, destas seis, até da Segunda Liga, só o Penafiel é que está na segunda metade da tabela, até aí existe essa diferença. E até as equipes da Primeira Liga, que eu diria que podiam aqui causar uma surpresa ou que tinham esta competição, a Taça de Portugal, como um dos objetivos também da temporada, não necessariamente de a conquistar ou de chegar ao Jamor, mas de chegar longe. E aqui, por exemplo, o Famalicão, que o ano passado tinha ido às semifinais, ou o próprio Boavista, que está a ter uma temporada bastante competitiva, também caíram. O Famalicão contra o Benfica e o Boavista nos pênaltis contra o Arouca. Portanto, é uma competição que se esvazia um pouquinho na pluralidade que costuma ter, logo nesta quarta eliminatória, que tem aqui o Amarante como sobrevivente desta festa da Taça.

Bruno, só dois pontos importantes. Um, a maneira como os grandes não facilitaram em termos de equipe, coisa que também é normal, começar a rodar os jogadores, etc. Não houve isso, porque eles sabem a importância que é ter sempre esta almofada de conforto de continuar na Taça de Portugal e poder lutar por um título. Uma outra parte, neste caso, boa para nós que vemos, má para quem gere, que tem a ver com a competitividade, que os oitavos e muito provavelmente os quartos e as meias terão, em termos de calendário, com uma grande densidade de jogos. Ou seja, não é propriamente a melhor notícia poder haver entre oitavos e quartos, já jogos que tenham Futebol Clube do Porto, Benfica, Sporting, Braga, Guimarães, e eu acho que isso vai ser, para os clubes, um ponto complicado, para nós que vemos, um ponto bom.

Não há festa da Taça, mas a Taça vai ser-

Não, a festa houve.

Sim, exato, a festa houve.

O pessoal de Domiense, Montalegre, divertiu-se todo.

Exatamente, mas temos uns oitavos de final muito mais fortes, pelo menos em teoria.

Já só para a Champions.

Exatamente. Passamos para a figura, vamos para a MotoGP. É Pecco Bagnaia, que se sagrou bicampeão mundial numa altura em que também, Bruno Roseiro, sobram algumas dúvidas relativamente ao futuro do nosso Falcão.

Sim, esse acaba por ser o ponto até mais problemático em termos de decisão de campeonato. O Jorge Martin, com a vitória na corrida sprint, quase que abriu um pouco a expectativa do que é que poderia acontecer na corrida de domingo, porque só havia 14 pontos de diferença. E a verdade é que aquilo que nós temos visto, uma curva um, uma curva dois, uma trajetória mal calculada, uma travagem mais à frente e se Bagnaia caísse, Martin podia mesmo ser campeão. Foi ao contrário, ou seja, Martin queria tanto passar pra frente e pressionar Bagnaia, cometeu um primeiro erro, que desceu logo seis posições e depois teve uma travagem tardia que tocou no Marc Márquez e acabou também por sair de pista. Portanto, Bagnaia acabou por fazer imperar a lei do mais forte, mostrando aquilo que foi o seu grande segredo para o bicampeonato, que é a maneira como ele conseguiu ler todas as corridas e perceber todos os momentos para ir gerindo também a sua liderança e voltar a ser campeão. O MotoGP acaba também com uma confirmação, digamos assim, daquilo que já se tinha visto ano passado, que a Ducati está a anos-luz dos outros, ou seja, uma KTM, uma Aprilia, pode ter ali um, dois grandes prêmios, consegue grandes resultados e consegue, de fato, ficar à frente da Ducati, mas em termos de regularidade, não há sequer comparação. Portanto, quem tiver uma Ducati arrisca-se sempre a ganhar. E depois há esta questão de o comitê de seleção do MotoGP ter recusado a entrada e a inscrição da CryptoDATA RNF para 2024. Quer isto dizer que Miguel Oliveira não corre no mundial? Não, até porque o Miguel Oliveira e o Raul Fernandes têm contrato com a Aprilia. O que é que vai acontecer aqui? É que vai entrar uma nova equipe independente. Tem-se falado muito agora na questão deste milionário norte-americano, Justin Marks, que tem uma equipe do NASCAR, poder também ter uma equipe no MotoGP, sempre com motores da Aprilia, essa é uma condição. Portanto, não me parece que o futuro do Miguel Oliveira esteja condicionado em termos de continuidade. Aquilo que está a acontecer é que está a perder o tempo que os outros estão a ganhar. Aliás, ainda hoje, antes de ir para os estúdios, estava toda a gente a fazer testes em Valência, já a preparar a próxima temporada. E o Miguel Oliveira, além de estar a recuperar de uma lesão, tem também esta questão de não saber que moto é que vai ter para 2024. E tendo em conta a importância que 2024 tinha em termos de contexto de poder subir a equipe de fábrica da Aprilia em 2025, esta parte são más notícias. Agora vamos ver até que ponto é que será possível encurtar uma distância que já existe entre esta nova equipe e as restantes.

Dobramos as rodas, porque este fim de semana também teve figura na Fórmula 1, Mariana, Max Verstappen. Sim, que venceu o último grande prêmio da temporada em Abu Dhabi, portanto, consagrou ainda mais a conquista do tricampeonato mundial. Terminou o ano com 575 pontos, o máximo que alguma vez foi registrado, com mais de 200 pontos de diferença pro colega de equipe, o Sérgio Perez, que foi o segundo classificado. Lewis Hamilton acabou por conseguir resgatar o terceiro lugar geral para a Mercedes, isto numa semana em que se falou da possibilidade de ter pedido para ir para a Red Bull ou para a Ferrari, algo que ele também já disse que não foi bem assim que funcionou. Carlos Sainz foi mesmo o único piloto não Red Bull a ganhar uma corrida em 2023 em Cingapura, isto num ano onde o Verstappen bateu praticamente todos os recordes, incluindo ser o primeiro a liderar durante 1000 voltas e ganhar 10 vezes consecutivas. Tal como a Ducati está anos-luz de todos os outros no MotoGP, o que dizer da Red Bull na Fórmula 1?

E avancemos a toda a velocidade. Vamos até ao nosso marco desta semana, a vitória da Itália na Taça Davis frente à Austrália, com Jannik Sinner a confirmar o grande momento que atravessa, Mariana.

Sim, tínhamos dito na semana passada que o Jannik Sinner e o Novak Djokovic tinham discutido a final do ATP Finals para depois rumarem a Málaga para a Taça Davis, e a verdade é que aí as sortes inverteram-se. Portanto, a Itália eliminou a Sérvia ainda nas semifinais. O Sinner salvou três match points contra o Djokovic no encontro-chave nessas semifinais e vingou a derrota dos dias antes em Paris. E os italianos acabaram mesmo por derrotar a Austrália na final, para encerrar então a temporada com a conquista da Taça Davis. O Sinner tem 22 anos, está no quarto lugar do ranking e fecha aqui um 2023 de alto nível. Portanto, vencedor da Taça Davis, finalista do ATP Finals, o melhor ranking de sempre, o primeiro Masters 1000 no Canadá, primeira meia final de Grand Slam em Wimbledon e vitórias contra o Djokovic e o Medvedev. Ele está a provar que quando achávamos que o tênis ia tornar-se num tênis de Big 2 entre o Djokovic e Alcaraz, se calhar é um tênis Big 3 com Sinner à mistura.

E antes do intervalo, vamos pro nosso túnel. Bem, de propósito, temos um convidado na segunda parte, que é Nuno Lobo, o único candidato anunciado à presidência do Futebol Clube do Porto. E esta semana, Bruno, a pergunta que está à espera de resposta é: como é que vão os Dragões conseguir chegar a capitais próprios quase positivos ou positivos até ao próximo mês, que está por dias?

É fácil, é assinar contratos e vender coisas. Ou seja, aquilo que nós percebemos, Fernando Gomes, o administrador da SAD do Futebol Clube do Porto, deu duas entrevistas, uma ao JN, uma ao Jogo este fim de semana. São diferentes. No caso da entrevista ao JN, o Fernando Gomes fala, sobretudo, da questão do acordo que existe com a Legends em termos de exploração do espaço comercial do Estádio do Dragão. Ou seja, existe uma receita à cabeça e depois uma percentagem a dividir entre as duas partes a nível de proventos que daí resultem. E depois, na entrevista ao Jogo, fala de um peso pesado que ele não quer nomear, mas que aí sim poderá fazer a grande diferença. Há um nome que até antes de aparecer a Legends eu já tinha ouvido falar, que é a Sixth Street, que é um fundo de investimento com alguns dos antigos quadros da Goldman Sachs, que aos poucos tem vindo a estar ligado também ao futebol, também já entrar no Real Madrid, etc. Este fundo comprou uma parte da Legends. É um fundo que opera de uma maneira diferente. Muito provavelmente, este fundo vai entrar como acionista minoritário na Porto Comercial e, portanto, daí advém logo um dinheiro fresco que serve para atenuar esta questão dos capitais próprios negativos. Ainda assim, fica uma série de dúvidas. Há um artigo muito interessante do Sérgio Pereira no Mais Futebol que toca numa das partes, ou melhor, em duas das partes, que é, por um lado, o Futebol Clube do Porto tinha contratos com a Altice, onde parte desses espaços comerciais do Estádio do Dragão era suposto serem explorados pela Altice até 2028. O que é que vai acontecer em relação a isso? E depois, dois, que é a parte mais importante, que é: existe alguma possibilidade de a entrada de um sócio minoritário da Porto Comercial poder depois reverter para uma entrada na SAD do Futebol Clube do Porto? Essas são dúvidas que não foram respondidas e que esperamos nós até o final do ano sejam.

É isso mesmo. Vamos aproveitar para respirar, Nuno, nem tudo aqui vai à rede e bola. Na segunda parte, recebemos Nuno Lobo. Comprometido. Vamos ouvir agora a entrevista do editor de desporto do Observador, Bruno Roseiro, ao candidato anunciado à presidência do Futebol Clube do Porto, Nuno Lobo. Isto tudo em véspera de nova assembleia geral do clube.

Começava por lhe perguntar o seguinte: durante 40 anos, uma assembleia geral do Futebol Clube do Porto só era noticiada pela votação e pela aprovação dos relatórios e contas e dos orçamentos. Perguntava-lhe o que é que, na sua opinião, mudou para ter deixado de ser assim? Portanto, tendo em conta também todos os capítulos públicos que são conhecidos.

Antes de mais, agradecer o vosso convite. E relativamente à pergunta que me faz. Um passado com 40 anos de história, ou mais de 40 anos de história, acho que devido aos títulos que o Porto ganhou durante esse período, a contestação não foi muita. Penso que a principal razão será que nestes últimos 10, 12, 13 anos, as contas do Futebol Clube do Porto terem, ano após ano, e as entradas no fair play financeiro, terem servido de alerta para que esta situação que aconteceu na última assembleia geral, talvez foi o despoletar dessa situação em que

De 12 anos, 13 anos de contas negativas, e depois também a entrada massiva de adeptos sócios do Clube Porto a essa assembleia, porque queriam ver. E depois os pontos que estavam também em causa, talvez fosse a razão para que tivesse acontecido o que aconteceu, penso que era isso. Até à altura, as assembleias gerais, eu estive presente nalgumas, a partir de 2020, e não sei, éramos 100, 120 associados que estariam nessas assembleias. Isto foi o que eu vi naquela última assembleia geral, foi inacreditável.

A afluência foi nítida, claramente até o Dragão Arena era pequeno para o número de associados que estavam presentes. Mas perguntar-lhe não só como é que viu a questão dos incidentes que se passaram lá dentro e que foram também visíveis através dos vídeos que foram saindo, mas sobretudo uma questão que é: um, se alguém tiver culpa, a quem poderá ser colocada essa culpa? E dois, se concordou com o facto de não haver a segunda parte desta assembleia geral, neste caso, para a alteração de alguns pontos dos estatutos.

Sinceramente, eu acho que neste processo a culpa, penso que irá morrer solteira. Os focos de contestação, de problemas e de violência foram em vários sítios do pavilhão, por isso culpar quem? Ainda não apareceu. Acho que os processos estão a decorrer nas instâncias que têm que julgar esta situação. Eu penso que a culpa morrerá solteira. Já agora, repita a segunda pergunta, a segunda questão.

Se concordou com a decisão que acabou por sair do Conselho Superior de suspender essa segunda parte, basicamente deixar por agora a questão dos estatutos de parte.

Eu acho que a razão foi: a aberração era tão grande daqueles pontos. O próprio presidente disse na própria entrevista, coisas que eu não entendo, até referiu o nome de Miguel Brás da Cunha, do Conselho Superior. Sinceramente, ninguém entendeu, tanto é que o próprio presidente disse que, ao fim e ao cabo, não corroborava com nenhum daqueles pontos que iam ser discutidos em assembleia geral. O único ponto que eu subscrevia era o ponto relativamente a passar as eleições de abril para junho, porque o resto eu votaria 100% contra, porque não me revejo em nenhum daqueles pontos que iam ser discutidos. Isso é que foi estranho. E a assembleia, quando também eu disse, acho que o nosso presidente devia ter, na sua entrevista, começado com esse tal pedido de desculpas, que eu acho que não foi feito. E depois, ao primeiro sinal de escaramuça, essa assembleia nunca devia ter continuado. E depois o outro ponto, devia ter havido um bocado mais de respeito pelos sócios que continuavam cá fora, à espera das pulseirinhas para entrar no Dragão.

Também teve a oportunidade de ver aquilo que André Villas-Boas comentou de haver passagem de pulseiras a pessoas que não seriam, neste caso, associados do Futebol Clube do Porto?

Eu não vi essa situação, mas não há fumo sem fogo. Por isso eu propus e espero que isso aconteça na quarta-feira, estarei presente, que a entrada no pavilhão seja pela mostragem do nosso cartão de sócio, senão tiro a pulseira de outra pessoa.

Muitas vezes nas assembleias gerais, quando nós olhamos para aquilo que é a votação, seja de um orçamento, seja de um relatório e contas, muitas vezes é muito mais do que isso. Ou seja, as pessoas não estão detalhadamente a analisar o documento que está em causa.

Obviamente.

Simplesmente o seu sentido de voto, seja a favor, seja contra, também reflete um pouco uma espécie de um estado de espírito nessa altura. Considera que existem condições para, neste caso, este relatório e contas do exercício 22, 23, poder passar, apesar de voltar a dar prejuízo?

Eu acho que sim. Eu tenho que confiar, o presidente está em exercício, nas palavras de Pinto da Costa após aquela entrevista que ele deu na SIC, em que o Porto até dezembro, pelo menos, vamos debelar os capitais próprios negativos. Eu quero acreditar que sim. Eu sei que muito se falou no encaixe que nós vamos ter agora do Otávio no próximo exercício de 60 milhões de euros. E também, que ainda desconheço a fundo este processo da Legends, a empresa que vai fazer a exploração do Estádio do Dragão durante 15 anos. Acho que há uma entrada de capital logo ao assinar essa parceria. O adiantamento acho que será no total. Agora, não sei. Eu tenho que acreditar naquilo que o presidente disse, não tenho outras fontes que digam o contrário, que me possam dizer o contrário.

E em termos de timing, considera que este é o timing ideal? Tendo em conta a receita em causa, é uma receita que poderá ser feita agora, como poderia ser feita em junho, por exemplo, tendo em conta também o acordo que é feito e o facto de haver uma receita que será prolongada nos próximos anos. Concorda com o timing?

O timing tem que ser agora devido à situação em que o Porto está, que o Porto se encontra. É claro que as pessoas podem pensar, penso eu, depois vêm as eleições, imagine que até Pinto da Costa não ganha as eleições, que quem vier agora que feche a porta. É claro que os sócios são livres de pensar isso Mas eu acho que isto já devia ter sido feito antes. É claro que estes são processos morosos, como aquilo que eu defendi e continuo a defender, e o presidente pelos vistos até veio falar em nome dele na aprovação do estádio, quando foi proposto para Pinto da Costa e depois ele diz que não queria para ser Estádio do Dragão. Eu defendi em 2020 e penso que fui o primeiro candidato a defender o naming para o Estádio do Dragão, como o naming para o nosso pavilhão, porque como é sabido, o pavilhão teve durante anos e anos uma parceria com fundos da Caixa Geral de Depósitos e tanto é que aquilo durante muitos anos foi Dragão Caixa. E o Porto devia aproveitar essas parcerias que pelos vistos continuam a ser deixadas de lado. Seria mais uma fonte de rendimento, uma fonte de receita, como vemos nos grandes clubes europeus e basta citar-me só um, o exemplo do Bayern de Munique. Agora, se o Pinto da Costa não quer o naming no estádio, no pavilhão, isso é uma coisa que compete a ele e à direção que ele comanda.

Neste último jogo da Taça de Portugal com o Montalegre, onde o Futebol Clube do Porto ganhou sem grandes problemas. A certa altura, a claque dos Super Dragões, quando cantou o nome de Pinto da Costa, que é algo normal, ouviram-se também alguns assobios, que era algo, isso sim, que não era normal. Perguntava-lhe: como é que o Futebol Clube do Porto chegou a este ponto? Ou seja, de uma figura que era praticamente unânime e que agora foi perdendo um pouco essa unanimidade que existia em seu torno.

Eu acho que são quase 42 anos de exercício à frente de um clube, isso acontece. Acontecerá quem esteja tantos anos que começa a sofrer. As contas do Porto nunca equilibradas, os plantéis ano após ano também desequilibrados, sem termos dinheiro para investir na equipa, eu penso que serão sintoma e depois também tudo reflexo daquilo que vivemos na última assembleia geral. Acho que as grandes razões serão essas. Mas acho que os Super Dragões não são o culpado de tudo, acho que o Pinto da Costa não é o culpado de tudo, acho que há outras pessoas que rodeiam o presidente que também não podem sacudir a água do capote. Mas todas as situações fizeram com que o Pinto da Costa, neste último jogo da Taça de Portugal, fosse assobiado quando os Super Dragões entoaram o nome dele no estádio. Mas é um reflexo daquilo que o clube, sem dúvida, tem estado a passar. E são momentos difíceis que eu espero que sejam debelados rapidamente para o bom nome da instituição.

Quando fala nesse aspecto mais financeiro, perguntava-lhe: olhando para a atual realidade, e agora colocando de parte a questão desta operação que poderá haver com a Legends, perguntava-lhe se considera mais premente uma melhor racionalização de custos, porque apesar de tudo o Futebol Clube do Porto continua a ter o plantel em termos de massa salarial mais caro da liga portuguesa, ou se considera que é no potenciar de novas receitas que poderá estar um segredo para umas contas com outra dimensão que nesta altura não têm.

Todas as coisas que falou têm sentido. Nós não podemos assistir a um clube que, isto é claro, o presidente também falou nisso, nos valores que foram definidos pela comissão de vencimentos, mas prêmios de 280 mil não cabe na cabeça de ninguém. O que os nossos administradores auferem, já não falo nos ordenados, mas prêmios que o clube na situação que está. Se o Porto estivesse bem de finanças, tudo bem. Agora, o período de crise que atravessamos e ainda vamos dar prêmios chorudos a administradores? Não entendo. E também o Porto perdeu muito com jogadores, foi pioneiro nisso. Na saída de vários ativos a custo zero. As não renovações atempadamente, isso claro, também deu um desequilíbrio brutal nas contas e investimentos que fizemos no passado recente em jogadores que nada trouxeram de novo ao Futebol Clube do Porto. São vários os fatores para que hoje o resultado que tenhamos no Futebol Clube do Porto seja este. Uma direção, porque eu não entendo quando um clube que apresenta consecutivamente anos negativos, em qualquer empresa, quem estivesse à frente dessa empresa seria destituído. Não entendo como é que é possível que no Porto, ano após ano, e as caras continuam as mesmas, pelo menos no aspecto financeiro.

Nesta recente entrevista à SIC, o atual presidente referiu-se ao Nuno Lobo como o único candidato confirmado às próximas eleições, até inclusivamente em relação àquela questão da renovação do Sérgio Conceição. Aquilo que eu lhe perguntava era: depois dos cerca de 5% que teve no sufrágio de 2020, quais são os seus objetivos para 2024 e o que esses 5% representaram nos últimos quatro anos também para o Nuno Lobo, em termos do universo do Futebol Clube do Porto?

Vou ser franco. Nunca disse e não irei fazer agora, mas mais tarde irei dizer o que significaram para mim e para as pessoas que estiveram comigo neste projeto em 2020, e que a maior parte deles continua, o que significaram, o que significam as 5%. O que eu acho estranho é que quando alguém se candidata, reúne um número de assinaturas e depois depara-se que o número de assinaturas que tem são iguais, as assinaturas que tem representam os votos. Ou seja, que o meu projeto só as pessoas que subscreveram a minha lista é que votaram em mim. Mas isto deixarei para um futuro próximo. Agora, relativamente àquilo que eu pretendo para o Futebol Clube do Porto, assenta em dois pilares. É claro, eu tenho um programa, como fiz em 2020, com mais de 250 propostas a nível do vetor desportivo, económico, social do Futebol Clube do Porto. Eu referi há pouco tempo, falei no naming do estádio, falei também no smart stadium, que é uma das coisas que defendo. Eu defendo um scouting sério e assertivo no Futebol Clube do Porto. Não ver entrar, por exemplo, na nossa equipa B, caminhetas de jogadores. Não entendo. E o Porto tem que apostar fortemente no scouting e na nossa formação. Estamos a falar, por exemplo, na formação e vemos que o Porto, estes últimos jogadores que o Futebol Clube do Porto tem vendido, os nossos grandes ativos do Porto, vieram todos da formação. Agora, o Porto tem que apostar fortemente e continuamos à espera. Pinto da Costa prometeu uma academia.

Há aqui também um novo nome em comparação com 2020, que é André Villas-Boas. Perguntava-lhe, por um lado, como é que vê estas últimas declarações de André Villas-Boas e tudo aquilo que ele tem falado em relação a uma candidatura que poderá ou não ser já em 2024, mas que ele dá como certa em relação ao futuro no Futebol Clube do Porto, e também se já houve algum tipo de conversações entre pessoas que estejam dispostas a concorrer contra Pinto da Costa para tentar uniformizar uma única lista às eleições.

Respondendo já à segunda questão, ainda não houve nenhum contacto de ninguém. Falo por mim. Obviamente, estou a falar por mim. Não houve contacto de ninguém, por isso eu continuei a seguir e eu verei a minha candidatura até ao fim. Relativamente ao primeiro ponto sobre André Villas-Boas, como é que eu posso falar de André Villas-Boas? Fala-se, mas até agora, ao dia dois, a única coisa que vi, que ouço sobre Villas-Boas, é situações infelizes que aconteceram, os dois ataques à residência dele, mais nada. E depois Villas-Boas, é claro, comenta, vem para as redes sociais ou para a comunicação social falar que foi vítima desses ataques. Relativamente a propostas de Villas-Boas para o Futebol Clube do Porto, até agora não ouvi nenhuma. Falou que está a construir uma equipa, que está um programa. Eu já tenho a minha equipa quase feita. Estamos a falar do Futebol Clube do Porto, isto não pode ser de pé para mão. E também já tenho o meu programa quase pronto. Falta alinhavar alguns pontos, ainda para mais as eleições serão em abril, não em junho. Agora, enquanto Villas-Boas não se assumir como candidato, eu pouco posso dizer sobre Villas-Boas. Agora entendo, e acho muito bem que assim todos os portistas deviam pensar, sejam bem-vindos todos os candidatos. Eu não considero Villas-Boas se vier a candidatar como adversário ou Pinto da Costa como adversário. Os meus adversários são rivais do Futebol Clube do Porto. Por isso, tudo que venha em prol de novas ideias, novos programas, novos projetos, em prol do Futebol Clube do Porto, é isso que nós devemos. Devemos receber bem qualquer pessoa se candidate com projetos, com programas e tudo que venha a dignificar, engrandecer o nome do Futebol Clube do Porto. Por isso eu não tenho adversários, os meus adversários são os meus rivais.

Foi a entrevista a Nuno Lobo, candidato à presidência do Futebol Clube do Porto. Quanto a nós, o "Nem Tudo O Que Vai à Rede é Bola" está de regresso, como sempre, na Rádio Observador, para a semana. Até lá.