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Já sabes, está na hora do programa de desporto da Rádio Observador, o "Nem tudo o que vai à rede é bola", comigo, João Filipe Cruz, mas também com o Bruno Roseira e com a Mariana Fernandes. Na segunda parte, vamos falar com o capitão da equipa de hóquei do Futebol Clube do Porto, que este fim de semana quebrou o jejum de mais de 30 anos e voltou a conquistar a Taça Continental. Guardamos o Gonçalo Alves para essa segunda parte. Para já, vamos aos destaques. E a figura, Mariana, começamos por ti esta semana, é Simone Biles.

Tem de ser, acho eu. E espero eu que daqui a menos de um ano, quando estivermos a falar dos Jogos Olímpicos, também seja a nossa figura várias vezes. Quando a Simone Biles anuncia que vai voltar à competição no final de julho, nas últimas semanas de julho, a grande dúvida era: "Ok, certo, vai voltar, mas como é que vai voltar? De que maneira que vai voltar? Para quê ou para que é que vai voltar?" Eu acho que ela começa a mostrar cada vez mais que voltou para continuar a fazer aquilo a que nos habituou desde que começou a brilhar ou brilhou um bocadinho mais alto nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Ela volta à competição no US Classic no início de agosto, foi depois campeã nacional pela oitava vez, portanto, quebrou aquele registo que existia desde 1933, tornou-se a primeira de sempre a ser campeã nacional nos Estados Unidos pela oitava vez, e voltou às competições internacionais pela primeira vez desde Tóquio, desde os Jogos de Tóquio, nos Mundiais que estão atualmente a decorrer em Antuérpia, na Bélgica, e aproveitou desde logo as eliminatórias, ainda nem sequer chegámos à fase das finais, para voltar a fazer história. Fez um duplo Yurchenko no cavalo. Isto para nós significa muito pouco, mas é tido e interpretado como uma das manobras e um dos saltos mais complicados da ginástica. Nunca tinha sido feito por uma mulher numa competição internacional. Ela própria já tinha conseguido fazer este duplo Yurchenko, tanto em 2021 como nestes nacionais de agora de agosto, mas nunca o tinha feito numa competição internacional. Nunca nenhuma mulher tinha feito este salto numa competição internacional, o que significa que a partir de agora este duplo Yurchenko chama-se Biles II, portanto, leva o nome dela e é já o quinto elemento com o nome da ginasta norte-americana. Sabes que és boa quando têm de mudar- Quando a história muda por tua causa. Exatamente. As finais por equipas são na quarta-feira, as finais individuais começam quinta, prolongam-se depois para sexta, sendo que Simone Biles terminou as eliminatórias do all-around no primeiro lugar e com a pontuação mais alta do atual ciclo olímpico, sendo quase mais do que provável que até ao final da semana se torne campeã mundial pela sexta vez, algo que também será um recorde a acontecer. Pelo meio, deu uma entrevista ao site do Comitê Olímpico Internacional, onde deixou praticamente claro, sem deixar, que vai estar nos Jogos Olímpicos de Paris, porque ela explica o porquê de ter decidido voltar depois de quase dois anos sem competir. Diz que voltou porque não quer estar daqui a 10 anos a ver imagens destes Jogos ou destes Mundiais e arrepender-se de não ter lá estado. Ora, se ela diz isto, se está nestes Mundiais, eu acho que a correr tudo bem e se continuarmos assim, teremos Simone Biles em Paris. E houve muitas dúvidas, mas provavelmente foi a melhor coisa que ela fez, a pausa para tratar da saúde mental.

Sim, diria que as duas principais ilações que se tiraram: um, muitas vezes parar é o segredo para conseguir ir mais longe. Foi isso que aconteceu com ela. Foi isso que não aconteceu, por exemplo, com o Caleb Dressel, que forçou e continuou a ir a mundiais e a certa altura percebeu no meio dos mundiais que o melhor teria sido parar. E uma segunda nota que, para mim, se calhar tem tanto ou mais destaque do que estes feitos, que é pela primeira vez está-se a falar da ginástica norte-americana apenas e só pelos resultados. E isto, olhando para aquilo que aconteceu nos últimos mundiais e sobretudo nos Jogos Olímpicos, diria que é uma das principais vitórias. As coisas não se apagam, mas o fato de se conseguir olhar para aquilo que as ginastas estão a fazer, nomeadamente a Simone Biles, apenas e só numa lógica desportiva, acho que é um progresso grande que, por exemplo, a seleção espanhola de futebol feminino não conseguiu ter depois de ganhar o Campeonato do Mundo. Passamos para o nosso número e esta semana é o dois, porque, Bruno, é o número de vitórias que o Benfica já tem, clássicos esta temporada, especificamente frente ao Futebol Clube do Porto. Já tinha ganho a Supertaça e na jornada sete abriu com uma vitória sobre os Dragões uma vez mais. Sim, que era o jogo mais esperado da última jornada. Diria que se calhar não foi um jogo assim com tanta qualidade como se poderia esperar. No final, também diria que não vai ter grande impacto naquilo que poderá ser o campeonato daqui para a frente, até porque havia ali uma série de surpresas, nomeadamente no Futebol Clube do Porto, com a entrada do Romário Baró, que não se conseguiu perceber até que ponto é que poderia ou não ter resultado a partir do momento em que o Fábio Cardoso é expulso e ele tem de sair para entrar o Zé Pedro. Provavelmente era mais lógico sair o André Franco para fazer o papel do Otávio. Não, para mim, a grande surpresa foi o Evan Ndicka não sair do banco, porque cada vez mais parece que com características diferentes do Otávio, Evan Ndicka vai ser o Otávio. Ou seja, acho que no início olhou-se muito para a melhor versão do Futebol Clube do Porto à luz do André Franco, pela posição que ocupava, sem se ter atenção àquilo que Evan Ndicka pode dar ao jogo do Futebol Clube do Porto. Eu diria que esta nova reinvenção do jogo do Futebol Clube do Porto vai passar muito à volta do Evan Ndicka e não tanto do André Franco. O Benfica acaba por, mais uma vez, tal como aconteceu na Supertaça, ser superior a partir da segunda parte, ou seja, até ao intervalo, a superioridade numérica acabou por não ser propriamente algo que favorecesse muito a equipa do Benfica. Di María voltou a marcar. Eu diria que é engraçado quando nós olhamos para as capas, Schmidt é um génio porque pôs David Neres e Di María ao mesmo tempo, porque é Neres que faz a assistência. Já tinha sido provocado, entre aspas, pelos adeptos na Champions, pelas perguntas dos jornalistas. Eu sou sincero, se havia jogo onde eu acho que o Benfica poderia ter a ganhar em ter o Neres a sair do banco e não como titular, era este. E aquilo que aconteceu foi Roger Schmidt quase ceder a uma pressão que já estava a existir desde o início da época e também quase premiar o David Neres pela exibição que tinha tido em Portimão, embora eu diria que estes são os jogos onde não é necessário ou obrigatoriamente o Benfica jogar com Neres e Di María ao mesmo tempo, até porque Neres sair do banco pode fazer uma diferença que se calhar como titular Não poderá fazer. No meio disto tudo, quem acabou por favorecer foi o Sporting, que passou para a liderança isolada do campeonato. Curiosamente, naquela que foi a exibição menos conseguida, porque não é normal um candidato ao título estar a ganhar 2-0 e ter mais um jogador em campo e mesmo assim deixar-se empatar. Independentemente de terem sido gols de livre direto, porque o próprio Zé Luís, quando o resultado está 2-2, também pode fazer o 3-2 para o Farense. A questão do Adán, diria que é cada vez mais para menos. Já aqui falámos, o Sporting obrigatoriamente tem duas questões para mais tarde rever. Uma é a sucessão de Coates, a outra é a sucessão de Adán. A vitória acaba por aparecer num penalti também muito contestado sobre o Marcus Edwards. E depois aconteceu aquilo que já começa a ser infelizmente comum, que é uma vaga de comunicados e depois começa com o Futebol Clube do Porto, depois o Benfica também fala das queixas do Futebol Clube do Porto em relação à arbitragem no clássico e depois também toca no Sporting e depois andamos assim. E eu diria que no meio disto tudo aquilo que sobra, caso existissem ainda dúvidas, são três certezas: um, a liga vai ser discutida até à última, porque de facto quem ficar de fora dos dois primeiros lugares vai ter um problema sério daqui pra frente. Basta olhar para aquilo que é nesta altura o ranking de Portugal a nível de UEFA. O segundo ponto é qualquer jogo até ao final está em aberto e isso acontece seja pelos gols até aos 90 minutos, seja porque equipas como o Farense, mesmo com menos um, conseguem recuperar de uma desvantagem de dois gols. E depois, infelizmente, uma terceira certeza, a arbitragem vai estar muito mais em foco do que nas outras temporadas. E eu diria que nem mesmo a chegada do VAR consegue retirar aquela subjetividade que nós, na nossa cultura muito tipicamente portuguesa, gostamos muito de explorar e infelizmente vamos ter muitos comunicados ainda pela frente.

E ainda só estamos na sétima jornada. Mas Mariana, dentro de campo, estrelas a cintilar.

Sim, muito rápido e aproveitar que são dois jogadores portugueses, o que também quer dizer que alguma coisa deve estar a correr bem. Acho que são boas notícias pro futuro da seleção nacional, se a seleção nacional assim o pretender. João Neves no clássico, com a idade que tem, acabou de fazer 19 anos na semana passada, creio eu. Com a idade que tem, ser o melhor em campo, a forma como assume a equipe e como é cada vez mais importante, principalmente nos últimos minutos dos jogos, ou seja, quando o Benfica tem de segurar vantagens mínimas, João Neves parece que cresce mais um metro e torna-se o dono do meio-campo do Benfica por completo. E depois Pedro Gonçalves, no jogo do Sporting, começou a jogar à frente, recuou quando Rúben Amorim quis fazer alterações e lançar Paulinho, vai pro meio-campo, marcou um gol, sofreu também um penalti, ou deu a criação do penalti, digamos assim, ofereceu os dois penaltis a Zé Diogo. Era ele que pega na bola e depois dá ao avançado sueco. E voltou a mostrar que apesar de Jokers, apesar de Paulinho, apesar de Ullman, Pedro Gonçalves continua a ser, pra mim, o motor deste Sporting de Rúben Amorim.

E vamos também nós continuar a arrancar pra citação que esta semana pertence a Pedro Pitêncuro, internacional de rugby. Falou depois da derrota 34-14 com a Austrália e disse: "Sinceramente, estou um bocado farto de vitórias morais".

Sim, esta derrota contra a Austrália deixou Portugal matematicamente afastado do Campeonato Mundial de Rugby, apesar de ainda faltar este jogo contra Fiji, mas a verdade é que nem o facto de ter perdido por poucos, poucos com muitas aspas, contra os australianos, de ter começado a ganhar ou de ter feito dois ensaios contra uma potência mundial, deixou a seleção nacional satisfeita e eu acho que isso só pode ser, obviamente, um bom sinal. Portugal perdeu com a Austrália mais nos detalhes e mais na eficácia do que propriamente no embate das duas forças. E o Pedro Pitêncuro também diz isso. Ou seja, enquanto ele esteve de fora devido a um cartão amarelo, a Austrália fez três ensaios. Nos dois cartões amarelos australianos, Portugal não fez nenhum. Portanto, essa eficácia, essa facilidade, digamos assim, com que a Austrália conseguiu aproveitar a superioridade numérica pra fazer três ensaios, acabou por balançar, obviamente, o jogo pro lado da Austrália. A seleção nacional contenta-se cada vez menos com resultados que não são maus, como os empates com o da Geórgia, ou derrotas curtas, digamos assim, ou magras como esta contra a Austrália. E isso é o melhor que se pode tirar deste Campeonato do Mundo, onde Portugal mostrou aquilo que tínhamos também antecipado, aquilo que já era expectável. Era muito difícil superar este grupo, mas também seria sempre muito difícil superar Portugal. E acho que essa foi a melhor imagem que uma equipe, mais uma vez batendo sempre na mesma tecla, que não é profissional, inteiramente profissional, que estava apenas na segunda participação no Campeonato do Mundo. Acho que é a melhor imagem que poderia ter deixado.

E agora, a última jornada, Bruno.

Temos este ponto positivo que é Portugal ainda pode ter uma palavra a dizer, não em termos de qualificação, mas em termos de equipas que serão qualificadas, porque Fiji aquilo que fez hoje... Aliás, Fiji, pouco depois do intervalo, a surpresa estava iminente. Portanto, o facto de Fiji ter ganho a Austrália acabou por ficar um bocadinho esbatido com aquilo que fez com a Geórgia. Portanto, não se consegue perceber muito bem que Fiji é que poderá haver. Ainda assim, esta última jornada tem sobretudo um grande jogo que é o Argentina e Japão. Aí, sim, será a segunda vaga do grupo, pelo menos para os quartos-final. O França e Itália e Irlanda e Escócia também pode mexer nas contas, mas parece-me que é mais ou menos matemático quem ganhará. A França de um lado, a Irlanda do outro e a África do Sul provavelmente a jogar nos quartos-final com a França, que será o jogo cartaz, digamos assim, na fase eliminatória.

Vamos ao nosso marco, que também vai marcar a nossa segunda parte: a conquista da Taça Continental de Hóquei em Patins por parte do Porto, o fim de um jejum de 36 anos após a última vitória e uns meses depois de ganhar a Champions.

Sim, e curiosamente depois do início de época, que não foi propriamente o melhor, com a derrota do Futebol Clube do Porto que o Sporting tomar nos quartos-final de Elite Cup. É, digamos assim, um torneio de pré-temporada, mas é sempre um bom barômetro para perceber como é que estão as equipas. Não correu da melhor forma, mas ainda assim o Futebol Clube do Porto nesta Taça Continental acaba por confirmar quase o porquê de ter tanto destaque na última Gala dos Dragões de Ouro a par do voleibol feminino, com o Xave Malhã e com o Ricardo Ares a ganharem prêmios, porque consegue pela segunda vez na história e 36 anos depois, ganhar esta Taça Continental. Passou nas meias-finais o Braga por 6-1. No jogo que o Vouzela tem ali cerca de dois minutos em que parece ter o jogo controlado e permite o empate, mas consegue depois, logo de seguida, nos minutos finais, ganhar por 5-3. E agora segue-se o arranque do campeonato, sendo que me parece que este campeonato será ainda mais discutido do que foram os últimos, porque o Futebol Clube do Porto, teoricamente, está mais forte. O regresso de Hélder Nunes é inevitável e o próprio Édo Lamas também vai acrescentar muito à equipe. O Benfica mantém a base, o Sporting está num processo de rejuvenescimento, mas tem condições e tem alicerces também para poder lutar pelo título. E depois há Oliverense, Barcelos, Tomar, Valongo, portanto, são tudo equipas que podem tornar este campeonato mais imprevisível e ainda mais interessante do que foram os últimos.

E antes de conversarmos com o capitão do Futebol Clube do Porto, vamos ainda muito rápido ao teu anual.

Mais uma pergunta à espera de resposta: a alteração dos estatutos do Sporting com a introdução do voto eletrónico vai passar e, mais do que isso, é pacífico?

Primeira resposta: em princípio, sim, diria que tendencialmente irá passar, até porque nesta altura a forma de votar nas assembleias gerais do Sporting é quase como se fosse uma assembleia eleitoral, ou seja, uma pessoa pode passar por lá, votar e vir embora e nem sequer tem de ouvir as argumentações a favor ou contra aquela proposta. Portanto, é quase como se fossem eleições e por serem dia de jogo, isso faz com que, num contexto de bons resultados no futebol, por norma, essas coisas acabam por passar. Agora, dois pontos importantes: primeiro, são necessários 75% dos votos, segundo, é um assunto que não é tão linear como um orçamento e um relatório e contas. E diria que independentemente qualquer que seja o resultado, é algo que tendencialmente poderá dividir ainda mais o clube. Por quê? Sendo uma coisa boa, ou seja, é óbvio que descentralizar o voto é sempre uma coisa boa, temos prós e temos contras. Ou seja, temos nos prós o facto de serem votações muito mais democráticas, o facto de sócios do Sporting que não sejam da zona de Lisboa, da área metropolitana de Lisboa, mas que queiram votar, não tenham de se deslocar obrigatoriamente a Alvalade e por isso também a amostra e o número total de votantes será muito maior do que é normal, a não ser nas eleições, quando as mais concorridas tiveram mais de 20 mil pessoas. Ainda assim, depois tem aqui uns contras, que é o número de pessoas que vão votar em coisas que muitas vezes nem sabem bem o que estão a votar entre orçamento e relatório e contas, vai aumentar. E tendencialmente, haverá também muita perceção de se a bola estiver a entrar é bom, se a bola não estiver a entrar é mau. E eu diria que não é assim que se votam as coisas, ou seja, porque as coisas têm de ser votadas por aquilo que elas são. E depois, há aqui um sério risco de haver uma política de caciquismo dentro de um clube. Ou seja, o Sporting apesar de tudo, passou fases onde parecia mais um partido político do que propriamente um clube com futebol e modalidades. Mas ainda assim, esta questão do caciquismo e a possibilidade de haver um candidato, por exemplo, na altura das eleições, de começar a arregimentar pessoas só para irem votar, acho que é algo que pode acontecer, não é bom e sobretudo, uma dúvida que eu tenho que é: não consigo perceber qual é nesta altura a maturidade democrática em termos de universo de sócios do Sporting, depois daquilo que aconteceu em 2018. Isso só o tempo poderá explicar.

E ficamos também com essa dúvida. Já a seguir vamos para a segunda parte de Stick Nas Mãos e Patins nos Pés. Entrevistamos Gonçalo Alves, o capitão do Futebol Clube do Porto. Estamos de volta à segunda parte do Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola. Como prometido, já aqui temos o capitão do Futebol Clube do Porto, da equipa de hóquei do Futebol Clube do Porto. Gonçalo Alves, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar, para já, por dar-lhe os parabéns. O Futebol Clube do Porto voltou a ganhar a Taça Continental 36 anos depois, naquela que é a segunda vez que o clube conquista este troféu. Qual é que é ou qual foi a importância desta vitória, até por ser conseguida uns meses depois de terem quebrado outro longo jejum sem vitórias na final da Liga dos Campeões?

Boa tarde, já agradeci o convite da vossa parte e claro que é motivo de muito orgulho e de muita satisfação podermos voltar a conquistar a Taça Continental para o Futebol Clube do Porto. É verdade que vencemos a Liga dos Campeões há pouco tempo e que também quebrámos um grande jejum de anos sem Liga dos Campeões. E acho que este é o caminho, é o caminho do trabalho que nós temos vindo a conseguir fazer. Em poucos anos, alguns dos jogadores desta equipa conquistaram tudo o que havia para conquistar dentro de Portugal e fora de Portugal. E acho que isso é de louvar o trabalho que temos vindo a fazer durante estes dias e durante estas épocas.

A época tinha começado com o Futebol Clube do Porto a perder com o Sporting logo nos quartos da Elite Cup, tal como tinha acontecido no ano passado nas meias-finais da Taça. Pergunto se essa derrota mexeu com o grupo ou o facto de ainda estarmos numa altura de pré-temporada foi sobretudo mais um teste do que propriamente algo que o Futebol Clube do Porto quisesse vencer.

Não, claro, o Futebol Clube do Porto quando entra em qualquer competição, seja no hóquei, seja em qualquer outra modalidade, é para vencer. E então, claro que perder com o Tomar nos quartos-final da Elite Cup mexeu e fez bem esperar em mexer para vermos as coisas de outra maneira, para vermos o que é que tínhamos que melhorar, o que é que tínhamos que fazer para as coisas nos correrem bem. E acho que foi isso. Fizemos umas boas semanas de treino até chegarmos à Continental e acho que na Continental fomos superiores aos nossos adversários e conseguimos a conquista.

O campeonato começa esta semana com jogo fora, frente ao Famalicense, mas em outubro, só neste mês de outubro, o Porto tem jogos contra o Benfica, o Valongo e o Sporting. Qual é que é a importância deste início de campeonato, tendo em conta até as contas, pelo primeiro lugar da fase regular, com a importância que se tem visto que depois essas contas também têm no playoff?

Sim, é muito importante começarmos já bem na quinta-feira. Não podemos pensar no Benfica nem no Sporting, que é mais para frente. Temos que pensar já mesmo na quinta-feira e depois no jogo do domingo. Vão ser jogos muito complicados. É um mês de outubro com bastantes jogos e vamos ter que nos preparar bem. É importante fazermos o máximo de pontos até o final da fase regular para termos o fator casa para a parte dos playoffs. No ano passado isso viu-se que com o quarto lugar não tivemos o fator casa e é sempre importante termos o Com a torcida casa para nós, com os nossos adeptos, com o nosso pavilhão. Acho que é, sem dúvida, uma fortaleza para nós e temos que pensar jogo a jogo e conquistar os três pontos em cada partida.

Gonçalo, por falar em fortaleza, tem sido nas últimas duas temporadas o Futebol Clube do Porto. Teve apenas uma derrota em 44 jogos. É aí que está a principal força da equipe, como se viu até, por exemplo, no título de 2022?

Sim, eu acho que sim. Acho que nós em casa somos muito fortes e é isso que temos que continuar a fazer. Temos que, em casa, impor o nosso jogo, impor o nosso ritmo e mostrar que estamos na luta para qualquer título, para qualquer jogo. Acho que o Dragão Arena faz com que seja um ambiente incrível e quando está cheio é espetacular e acho que isso nos ajuda em muito a conseguir estarmos na frente de todos os jogos.

Este ano, olhando para o plantel do Futebol Clube do Porto, tivemos a saída do Reinaldo para o Tricine, a primeira vez que ele vai passar por Itália, também o Xavi para o Barcelona e o Thiago para o Liceu. Entretanto, chegaram o Édo Lamas do Benfica, o Hélder e o Leonar também voltaram ao Futebol Clube do Porto e no meio de tudo isso temos, pela primeira vez, o Gonçalo como capitão. Perguntava, um: como é que está a ser interpretado também esse papel, que acaba por ser novo, embora fosse sempre um dos capitães, e depois se era também um objetivo, desde que voltou ao Futebol Clube do Porto, um dia poder ser capitão.

O trabalho de capitão nesse momento tem sido muito fácil. É fácil estar com este grupo de jogadores e todos nos damos muito bem, então é muito mais fácil de gerir qualquer problema que apareça. E acho que é um trabalho que se tem vindo a desenvolver durante vários anos e que agora tenho a cena da braçadeira no braço. Acho que não é pela braçadeira, mas pelo que representamos para o Futebol Clube do Porto, tanto eu, como o Rafa, como o Hélder, o Sérgio Malias. Todos teríamos um papel muito importante na equipe, então temos que pensar para frente e tentar que a equipe vá o máximo para frente possível. Em relação à sua segunda pergunta, claro que quando estamos num clube como o Futebol Clube do Porto e depois de ter passado aqui a formação e ter a minha nona época agora, não é que tenha sido um objetivo ser capitão, mas claro que aceitei com muito orgulho e que é muito satisfatório para mim, que é um reconhecer do meu trabalho e que, sem dúvida, é uma confiança por parte da direção, do treinador e da minha equipe, em que eu ganhei a braçadeira de capitão.

O Futebol Clube do Porto conquista a Liga dos Campeões, conquista agora a Continental. Perguntava-lhe, no meio disto, quais são os objetivos para esta temporada e depois também como é que sentiram o apoio de toda a estrutura, a começar pelo próprio presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa, depois de uma temporada em que chegaram precisamente a esse título europeu, que já quase parecia uma maldição que existia no clube, ou seja, o facto de o Porto há tanto tempo não conseguir chegar a este europeu.

Sim, acho que agora o objetivo é jogo a jogo no campeonato, é fazermos o máximo de pontos, porque nós queremos ser campeões nacionais. Queremos estar na luta por todos os títulos e a próxima competição será a Taça Intercontinental, em princípio, e esse será o próximo objetivo, o próximo título que queremos levantar. E vamos fazer tudo para estar na máxima força para o conseguir. E em relação ao campeonato e à Taça dos Campeões, o mesmo. Vamos tentar ao máximo vencer os títulos, porque é para isso que nós vamos jogar, os objetivos é vencer o maior número de títulos possível esta época. Em relação ao ano passado da Liga dos Campeões, claro que temos um grande apoio e toda a gente ficou muito satisfeita no clube, porque 33 anos depois, são muitos anos e são muitas voltas pelo caminho do Futebol Clube do Porto e acho que não se podia estar mais satisfeito depois de voltarmos a ganhar.

E por falar em muitos anos, Gonçalo, já é uma carreira vasta que o Gonçalo tem. Começou no Porto, foi depois para o Famalicense, mas teve também, e permita-nos, um papel muito relevante no ressurgimento do hóquei em patins no Sporting. Na altura, ainda era uma modalidade não oficial e jogava ainda na Casa do Gaiato e depois em São João da Talha. O que guarda, o que recorda desses tempos e hoje, se me permite, como é que são os regressos a Alvalade, onde ainda tem, apesar de tudo, algumas pessoas que o viram também crescer do hóquei e até sair para Oliveira e depois para o Porto?

Sim, eu sei que faço parte também de uma história bonita no Sporting, que consegui junto dos meus colegas na altura voltarmos a erguer o Sporting e pô-lo na primeira divisão. E acho que isso é o que fica, as memórias que ficam para mim como jogador e como pessoa que fui sempre muito bem tratado em Lisboa, no Sporting. E acho que isso também foi o que eu disse quando cheguei ao Sporting, aprendi a gostar do clube quando, mesmo não sendo do clube, aprendi a gostar do Sporting e na altura fazia de tudo para vencer qualquer jogo e qualquer título pelo clube. E no momento em que chego a Alvalade, em Lisboa, tem pessoas que claro que me cumprimentam como antigamente. Como é óbvio, mas claro que jogo pelo Futebol Clube do Porto e com o Sporting é uma rivalidade. É normal que haja outro tipo de abordagem, mas faz parte do jogo. Acho que faz parte do jogo e faz parte das rivalidades entre clubes, desde que seja até a um certo ponto, faz sempre bem até.

O Gonçalo é também sobrinho de um dos maiores hoquistas portugueses de sempre, o Paulo Alves, que era um dos pontos máximos daquela geração de ouro dos anos 90. Perguntava se o tio do Gonçalo era a sua principal referência e também se já falaram alguma vez quem é que é o melhor na meia distância, porque o Paulo Alves também marcava muitos gols de meia distância.

Sim, acho que ele era um grande referente para mim, como outros jogadores. Acho que sempre tentei ver os jogos de hóquei dos seniores. Tentava sempre saber um bocadinho de cada um e do melhor que eles faziam, porque a verdade é que eu nunca tive essa sorte de poder, na formação, ver os seniores a jogar, porque quando eu via seniores era eu e os nossos players no sport. Portanto, eu nunca tive essa sorte de poder ver os seniores a treinar e de ter os meus referentes a treinar perto de mim. Por isso, sempre que podia, via o máximo de cada um e o que faziam de melhor. Em relação a quem é melhor a meia distância, é difícil. Os tempos são outros, o hóquei é completamente diferente do que nós jogamos agora, do que o meu tio jogava. Acho que somos dois grandes jogadores. Ele foi muitas vezes considerado o melhor do mundo, por isso não posso dizer que ele não tenha sido um grande jogador e os títulos e a carreira que ele fez está no patamar de elite.

O Gonçalo normalmente é dos melhores marcadores ou mesmo o melhor marcador nas competições em que entra, não só pelos gols que faz em ataque organizado, em transições, mas também pela eficácia nas bolas paradas. É mais fácil ou é menos difícil para o Gonçalo marcar um livre direto ou um pênalti?

Mais fácil um pênalti do que um livre direto. Um livre direto tem a distância para o arremate. Antigamente, com a regra do jogador decidir quando rematava, era diferente. Acho que nós tínhamos muito mais vantagem perante os guarda-redes do que agora ao alvo. Mas acho que o pênalti, mesmo assim, continua a ser uma bola parada que pode ser muito mais eficaz para o jogador do que para o guarda-redes.

Gonçalo Alves tem apenas 30 anos e apesar disso, já ganhou tudo o que havia para ganhar. Entre esses títulos estão oito competições internacionais, três campeonatos da Primeira Divisão de Hóquei em Patins, quatro taças. Enfim, já ganhou tudo o que havia para ganhar, tanto no clube como na Seleção Nacional. A pergunta eu creio que não vai ser nova, mas que motivação tem um jogador que aos 30 anos já ganhou tudo? Quais são os objetivos que ainda persegue?

É voltar a ganhar tudo novamente. Se puder tudo novamente vezes dois ou vezes três, adorava. É por isso que eu me levanto todos os dias e vou treinar e tenho a paixão pelo hóquei, a alegria de continuar a treinar. E acho que isso é o que me motiva. Enquanto eu tiver alegria e paixão por esta modalidade, eu vou fazer de tudo para tentar vencer o máximo número de títulos possível. Por isso acho que o grande objetivo é voltar a revalidar todos os títulos que conquistamos e que podemos voltar a conquistar.

O hóquei tem esta particularidade, como acontece também no futsal ou no andebol, de a Seleção Nacional depois congregar muitos jogadores do Benfica, do Sporting e também do Porto. Como é que é depois ir à Seleção Nacional e encontrar esses rivais, esses jogadores, neste caso do Benfica e do Sporting, com quem depois no campeonato se tem jogos tão acesos e tão intensos como acontecem?

É assim, nós na Seleção nos conhecemos há muitos anos. Eu já vou à Seleção há 10 anos, outros jogadores há 11, nove, oito. Ou seja, já nos conhecemos muito bem. E antes de irmos à Seleção, já éramos amigos fora do contexto de Seleção. Por isso é natural e mais fácil que as coisas corram bem ou que estejamos mais perto de vencer, porque os jogos que temos entre clubes vão ser sempre quentinhos e vão ser sempre duros, porque cada um quer ganhar, quer os seus títulos. Portanto, é normal, mas quando chegamos ao contexto de Seleção, acho que todos remamos para o mesmo lado e tudo corre pelo melhor e não há os atritos de clubes.

Olhando também para a modalidade em si, vemos um Campeonato Português que é cada vez mais competitivo, ou seja, além de Futebol Clube do Porto, Benfica e Sporting, há Barcelos, Oliveirense, Tomar, Avelar e Longo. Há, sobretudo, grande paixão em todos os pavilhões, Turquel, etc. Portanto, continua a ser uma modalidade com muita tradição em Portugal, mas continua, em termos internacionais, a não conseguir dar o salto. Ou seja, nós olhamos aqui um bocadinho para o espectro do hóquei, temos Portugal, Espanha, Argentina, Itália e uma França cada vez melhor. Pergunto que alternativas existem para poder haver um hóquei mais global e cada vez mais países a serem mais competitivos para, por exemplo, o Campeonato do Mundo ter outra emoção?

É verdade, é um ponto crítico da nossa modalidade. É muito complicado, porque o hóquei em patins não se joga em tantos países como outras modalidades. É um desporto que não é barato, é um desporto que é caro, que o material não é barato e que muito dificilmente conseguirá passar muito mais do que isto. Nós tentámos tudo, tentámos fazer as coisas todas que podíamos, de divulgação, de tudo e mais alguma coisa. Só que as grandes potências mundiais do desporto, como Estados Unidos, a China, não têm grandes seleções de hóquei em patins. Têm outros desportos, mas não têm grande seleção de hóquei em patins. Então é normal que não haja tanta afluência ao hóquei em patins.

Muito obrigado, uma vez mais, pela sua disponibilidade. Parabéns por 30 anos e 30 títulos. É muita coisa no hóquei. E vemo-nos numa próxima. Termina agora este episódio desta semana do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Estivemos à conversa com um homem que ganhou tudo no hóquei, Gonçalo Alves, o capitão do Futebol Clube do Porto. Para a semana há mais e daqui a pouco pode ouvir este episódio em podcast e em observador.pt.