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Seja bem-vindo, nem tudo que vai à rede é bola. Hoje comigo, João Miguel Santos, e com o editor de desporto do Observador, o Bruno Roseiro. Na segunda parte do programa de hoje recebemos José Fernando Rio, antigo candidato à presidência do Futebol Clube do Porto, mas primeiro vamos aos destaques. E Bruno, vamos começar com um marco, a qualificação de Portugal para o Campeonato da Europa de 2024, próximo ano, aquele que é o oitavo Europeu e a 13ª fase final de uma grande competição consecutiva numa série que começou em 2000.

E que até podia ser maior, mas já lá vamos. Diria que foi uma qualificação natural. Acho que a única surpresa perante a cadência de resultados que a seleção tem conseguido, acaba por ser os dois gols sofridos com a Eslováquia. Ou seja, quando nós olhamos para toda a caminhada em oito jogos, Portugal só sofreu gols nesse jogo com a Eslováquia, que carimbou o apuramento para o Campeonato da Europa. É a qualificação mais rápida para uma fase final, é a qualificação para o oitavo Europeu consecutivo e para a 13ª fase final. E é aqui que entra, só não é mais porque, e a minha memória nunca será curta, porque na qualificação para o Mundial 98, houve um senhor chamado Marc Batta, que conseguiu expulsar Rui Costa quando ele estava a ser substituído, uma coisa meio inenarrável, mas que aconteceu. Portanto, o que faria com que esta série fosse ainda maior do que é hoje. Agora, olhando também para aquilo que Portugal tem feito, diria que mais do que as oito vitórias em oito jogos, e pode-se falar na questão da dificuldade que os adversários colocam ou não, eu não gosto de colocar as coisas por aí. E por quê? Porque prefiro olhar para o número de gols que Portugal marca. Em oito jogos, Portugal tem 32 gols e não se pode dizer que tenha sido aquela coisa de dar 15 a 0 ao Liechtenstein e companhia. Não é fácil, frente a este Luxemburgo, ganhar 6 a 0 e 9 a 0. Não é fácil. Assim como não é fácil num jogo onde a Bósnia está obrigada a pontuar para ter ainda alguma esperança de poder chegar a um Campeonato da Europa, entrar na Bósnia num ambiente complicado, mas não tão agressivo como se esperava, quando nós recuamos àquele jogo de acesso ao playoff, que valia tudo, menos tirar olhos, não tinha nada a ver. Ou seja, percebe-se que é um ambiente muito efervescente, mas nada de passar limites. E Portugal, em 45 minutos, chega aos 5 x 0, que até podiam ser mais, e consegue estabelecer mais um registro histórico, que é: nunca Portugal tinha conseguido uma vantagem de cinco gols apenas na primeira parte. Portanto, quando nós olhamos para isto, há pouco para acrescentar. Diria que aquilo que mais fica nesta altura daquilo que é hoje a seleção, são duas marcas, duas impressões digitais desta equipa. O primeiro: consegue manter sempre a mesma identidade de jogo, qualquer que seja o sistema tático, ou seja, os jogadores estão completamente à vontade para jogar em qualquer sistema tático, porque percebem bem aquilo que a equipa quer, aquilo que a equipa precisa e aquilo que eles também podem dar à equipa. E isso acaba por ser um dos méritos de Roberto Martínez. E depois um outro, que acaba por ser sempre uma discussão que toda a gente gosta de ter muito, que é Portugal é melhor com Ronaldo ou sem Ronaldo. Cada vez mais, Portugal é melhor, ponto final. Ou seja, no caso de Ronaldo, percebe-se que a equipa não joga pior com Ronaldo, antes pelo contrário, Ronaldo continua a marcar gols, continua feliz. E vemos Bruno Fernandes a render cada vez mais, João Félix a render cada vez mais. E isso acaba por ser também outro dos pontos altos desta passagem ainda curta de Roberto Martínez pela seleção. Deixa-me só também acrescentar que quando se olha para o registro do atual selecionador português, em termos de qualificações para Campeonatos do Mundo ou Campeonatos da Europa, e indo buscar também os números da Bélgica, desde 2018, ele em 36 jogos de apuramento, ganha 33, empata três. E se olharmos só para fases de qualificação do Campeonato da Europa, em 18 jogos, tem 18 vitórias. E acho que esses números dizem muito o que isso depois poderá valer em termos de fase final. Quer queiramos, quer não, não podemos entrar com o discurso do: "Somos uma equipa que está entre os favoritos, mas não somos": não, Portugal vai ser uma equipa, provavelmente uma das mais favoritas a par de França e de Espanha, e jogará o Campeonato da Europa para ganhar, não vale a pena estar com outro tipo de conversa.

Vamos ver. Como se costuma dizer, entrada de leão, saída de sendeiro.

Não, eu acho que esta geração já está-

Teus pés bem assentes na terra.

Não, e precisava de mudar, precisava de abrir uma nova era, abrir um novo ciclo e abriu da melhor maneira e, portanto, agora é só deixar as coisas continuarem.

Muito bem, vamos ao número. É o número um, por quê?

É o número um porque havia muita curiosidade para perceber o que os quartos de final do Campeonato do Mundo de rugby poderiam trazer em termos de continente. Ou seja, porque quando nós olhávamos, havia quase que um duelo entre Europa e resto do mundo, ainda para mais numa fase onde se percebe a grande diferença que existe entre o que é a fase de grupos e o que é a fase a eliminar. Quando nós olhamos para os jogos que vimos este fim de semana, e é certo que também não houve muito futebol durante o fim de semana, mas claramente o rugby está a ganhar de longe ao futebol, porque estão a ser espetáculos do melhor que se pode ter desta modalidade. E a grande conclusão que se tira é A Europa foi cilindrada e só não foi 100% cilindrada porque por acaso a Inglaterra, a 10 minutos do final, estava empatada com Fiji, a quem Portugal ganhou, e conseguiu depois, com o Owen Farrell a destacar-se, o apuramento para as meias-finais. Porque em tudo o resto, o que é que nós tivemos? Tivemos a Argentina num jogo muito equilibrado com Gales, nem sempre bem jogado, mas muito intenso e com muita entrega, e com a Argentina nos últimos 10, 15 minutos a conseguir passar para a frente e uma placagem, não sei se tu viste, de um jogador argentino, o Matías Morini, sobre o Rhys Amitt, que seria o ensaio quase decisivo para Gales, ele consegue evitar in extremis. Se não viste, recomendo vivamente, porque é do melhor. E sobretudo, a perceção com que eu mais fiquei foi, além da maneira como a Argentina ganhou com muito coração, com muita entrega, foi olhar para as bancadas e reviver um bocadinho aquilo que eu vi no Qatar durante o Campeonato do Mundo de Futebol. Parece que nesta altura, independentemente da competição, há qualquer coisa quase a abençoar qualquer conquista da Argentina e eu faço ideia a festa que não terá sido nos bairros de Buenos Aires por esta vitória. Já estás a ver agora?

Estou a ver a imagem. Incrível.

Pronto. Vamos passar à parte do que é ser placado. Eu faço ideia do que deve ser isto, mas a capacidade que é preciso ter e a crença que é preciso ter para conseguir lá chegar e evitar este ensaio, que acaba por ser o momento determinante desse jogo, antes do ensaio decisivo, que acaba por surgir pelo Nicolás Sánchez, mas num roubo de bola, quando Gales já estava mais a jogar com o coração do que propriamente com a cabeça. Depois tivemos as duas finais antecipadas, que para mim foram os dois melhores jogos, de longe, como era esperado. E mais uma vez, o resto do mundo ganhou a Europa. A Irlanda, que é número um do ranking, que já não perdia há uma série de jogos, que aparecia como a principal favorita para grande parte das pessoas, acaba por perder frente à Nova Zelândia, que faz o seu melhor jogo no Campeonato do Mundo, exatamente nos quartos de final. Foi um jogo fabuloso. Eu fiquei com a clara perceção que a Irlanda, provavelmente em termos coletivos, até consegue ser melhor, mas de facto a Nova Zelândia, naquele jogo em específico e durante aqueles 80 minutos, conseguiu passar por cima e ganhou bem. E depois a África do Sul com a França, que acaba por ser a maior frustração de todas, porque os franceses estavam a pôr as fichas todas na conquista do Campeonato do Mundo. E mais uma vez, faz lembrar uma história, se calhar, talvez em 2016, com uma bola redonda, em vez de ser uma bola oval, de receber uma grande competição e depois quando chega a hora da verdade, as coisas acabam por não correr da melhor forma.

A expressão melão faz mais sentido agora.

Sim, bastante. E com uma curiosidade, que é nós que criticamos muito a nossa maneira de ser e de pensar, não deixa de ser engraçado, quer o "Le Monde", quer o "Le Figaro", quando estão a analisar o jogo, o que é que vão buscar? Os sete erros de arbitragem que podiam ter feito a diferença. Portanto, nós afinal não somos assim tão diferentes em relação aos outros quando perdem. A verdade é que a África do Sul mostrou que tem mesmo estofo de campeão.

Ganhou a França 29-28.

29-28, foi mesmo até ao limite. Temos agora nas meias-finais Nova Zelândia-Argentina, África do Sul-Inglaterra. Acho que as surpresas ficaram por aqui e aposto numa final igual à de 95, África do Sul-Nova Zelândia, que é para mim o grande momento, ou um dos grandes momentos da história do desporto, que é uma final que foi muito mais do que isso. Ganha pela África do Sul no prolongamento, mas foi muito mais do que isso e ainda hoje, a primeira vez que fui à África do Sul, foi no Mundial de 2010, as pessoas se recordam muito dessa final. E curiosamente, na altura até falei com o capitão Steve Pienaar, que era o capitão da África do Sul dessa seleção, que é o Matt Damon no "Invictus".

No filme de Steven Spielberg, não é?

Acho que não.

Mas é um filme onde retrata essa grande final, não é?

Sim, retrata e o Matt Damon é o Pienaar. E de facto é qualquer coisa que ainda hoje consegue marcar a própria África do Sul e parece-me que a final vai tender a ir lá parar outra vez.

Muito bem. Clint Eastwood com Morgan Freeman e Matt Damon. Três grandes monstros do cinema. Olha, vamos à citação: "Estou a gostar da forma como está a melhorar diariamente, fez por merecer todas as oportunidades e ter mais minutos". A frase é de Joe Mazzulla, treinador dos Boston Celtics, a falar sobre os progressos do nosso Neemias Queta na equipa. Por que escolheste esta citação, Bruno?

Escolhi porque está a ser ainda melhor do que as melhores expectativas que eu poderia ter em relação a esta passagem do Neemias para Boston. Eu não sei se recordas, ele foi dispensado pelos Sacramento Kings. Acabou por haver ali aquele período que era um pouco um impasse, ou seja, não se sabia se ele continuava na NBA, se vinha para a Europa, se o facto de vir para a Europa seria sempre dar um passo atrás. E aquilo que está a acontecer é: assinou um contrato two-way com os Boston Celtics, ou seja, pode jogar também na G League pelos Maine Celtics e representar a equipa principal. E aquilo que se viu nos dois jogos de pré-temporada onde ele participou é um Neemias cada vez melhor, cada vez mais à vontade a jogar fora do cesto, cada vez mais dominador nas tabelas. A estreia dele foi no Madison Square Garden com os New York, mas no segundo jogo com Philadelphia, em menos de oito minutos faz 10 pontos com 100% de eficácia, ganha três ressaltos, faz duas assistências. E aquilo que se percebe é, que é a coisa mais importante nesta altura Comparando o registo do Neemias com o Luke Kornet e com o Wenyen Gabriel, que são os dois jogadores mais altos de posição cinco contra quem ele vai competir, ele está claramente na frente e isso é a melhor notícia que se pode ter numa altura em que ele está ainda a tentar afirmar-se nos Celtics e numa cidade que eu acho que tem tudo para correr bem, até pela forte presença portuguesa que existe em Boston.

Muito bem, vamos à figura. Nicolò Fagioli, médio da Juventus, que foi o primeiro nome do novo escândalo que abala o futebol italiano em torno de apostas ilegais de jogadores. Por que esta figura?

Sim, o fato de ser uma figura nem sempre tem de ser pelas melhores razões, mas eu acho que é um caso que nós devemos seguir, não só pela questão de ser mais um escândalo em Itália, porque isso acaba por ser mais um, mas é por todas as características que este caso tem, até para nós começarmos a fazer um bocado esta reflexão por que isto acontece. Recuando um bocadinho e fazendo um resumo, o Nicolò Fagioli foi o primeiro jogador conhecido, de uma investigação que a Procuradoria de Turim está a levar a cabo em relação a jogadores que faziam apostas. Basicamente, havia um grupo do WhatsApp e depois eles tinham uma aplicação à parte, que não é uma aplicação legal como aquelas que existem nas casas de apostas legais. Circulavam ali muitos milhares de euros. Se fosse numa casa de apostas normal, os sinais de alarme iam logo soar, porque era demasiado dinheiro que estava ali envolvido. Entretanto, ficou-se também a saber que o Zaniolo e o Tonali, que são jogadores da seleção, também estavam no mesmo esquema e inclusivamente deixaram a seleção para irem prestar declarações no âmbito desse caso. Entretanto, também ficou conhecido o Zalewski, da Roma, que é um jogador polaco, que também estaria aqui nisto. Mas isto tudo para dizer que eu acho que ainda há muito para saber sobre este caso, há muito para perceber quem é que está sobretudo, quem é o cabecilha, digamos assim, que é o responsável por juntar este grupo e por haver estas apostas, mas sobretudo algo que eu registei numa entrevista que apareceu ontem no "As", numa empresa que segue este tipo de casos, que é o problema de jovens jogadores e ludopatia. Porque são jogadores que recebem muito dinheiro, que têm muito tempo livre, que muitas vezes não têm o enquadramento e o contexto necessários para perceber aquilo que devem ou não fazer, que têm uma vontade enorme de adrenalina, que são hipercompetitivos e que acabam por ter quase características tipo para se começarem a tornar quase viciados no jogo e nas apostas ilegais. O que aqui tem de ilegal é que os jogadores profissionais em Itália não podem fazer apostas em competições que sejam organizadas pela federação, pela UEFA e pela FIFA, que pelos vistos fazem. E um ponto já aqui importante, pelo menos o Sandro Tonali, quando foi prestar declarações, já admitiu que tinha um problema e que provavelmente vai precisar de terapia. Acho que devíamos olhar um bocadinho para este caso, não pelo caso em si, mas para perceber como é que se pode evitar, porque isto pode acontecer em Itália, em Portugal ou em qualquer parte do mundo.

Muito bem, e a caminho do intervalo, passamos pelo túnel. Há uma pergunta à espera de resposta: o futuro de Miguel Oliveira no MotoGP vai continuar a passar pela RNF Aprilia ou há margem para mudar, Bruno?

Parece haver alguma margem para mudar, embora os contratos não sejam propriamente propícios a isso. O Miguel Oliveira, que já ia ser um grande destaque na Indonésia porque ganhou a corrida do ano passado, admitiu que a Honda fez uma sondagem em relação à sua situação para poder substituir o Marc Márquez na equipe principal. O Marc Márquez, entretanto, já foi confirmado na Gresini, onde vai estar com o Alex, e aquilo que se percebe nesta altura, existem três cenários possíveis para Miguel Oliveira em 2024, sempre no MotoGP, e isso não está colocado em causa. Cenário um: existe um acordo entre a Honda e a Aprilia que diz que o contrato dele não tem qualquer cláusula de saída, como tinha, por exemplo, o de Rins, que vai para a Yamaha, e Miguel Oliveira substitui o Marc Márquez de forma direta na equipe principal da Honda. Hipótese dois: Maverick Viñales, que está na equipe principal da Aprilia, vai para a Honda e Miguel Oliveira poderia subir à equipe de fábrica da Aprilia. Ou hipótese três: a Honda aposta numa outra solução, nomeadamente em Pedro Acosta, e acaba por ficar na RNF Aprilia. Uma coisa é certa, independentemente dos resultados não serem tão bons, Miguel Oliveira continua a ser um dos pilotos mais desejados no MotoGP e isso, por si só, é uma boa notícia.

Muito bem, fica por aqui a primeira parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Na segunda parte, vamos receber o antigo candidato à presidência do Futebol Clube do Porto, José Fernando Rio. Segunda parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Vamos conversar com José Fernando Rio, antigo candidato à presidência do Futebol Clube do Porto, que obteve 26,4% dos votos nas últimas eleições de 2020. José Fernando Rio, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Seja bem-vindo à Rádio Observador.

Obrigado pelo convite. Eu é que agradeço. É um prazer.

Começo por lhe perguntar como é que analisa o atual momento do Futebol Clube do Porto numa semana marcada pela apresentação do relatório e contas do exercício 2022/23, e que terminou com um prejuízo de quase 50 milhões de euros.

É verdade. Na vertente financeira, as coisas não estão a correr muito bem ao Porto. Estas contas, este prejuízo já era esperado, uma vez que o doutor Fernando Gomes Depois de anunciar que precisava de vender ou de realizar cerca de 70 milhões em mais-valias, veio dizer que, afinal, não seria preciso realizar isso até o fim do exercício e que se tivessem receitas até janeiro, até o fim de dezembro, estaria tudo bem. Agora, estas contas claramente que, para além do impacto que têm na atualidade do Porto, são contas que comprometem ainda mais o futuro do Porto. Não nos podemos esquecer que o Porto está numa situação de falência técnica já há vários anos e essa situação nunca mais é revertida. Tem um passivo que eu diria que neste momento é quase incontrolável, um passivo de mais de 500 milhões de euros é praticamente incontrolável e implica, só em juros, atirar pela janela fora mais de 20 milhões de euros por ano. Portanto, eu acho que estas contas não são surpreendentes. Infelizmente, continuam a acontecer. Nos últimos anos temos tido mais vezes prejuízos do que lucros e, acima de tudo, ressalta que o modelo de gestão desta SAD está esgotado. Os números provam. Esta administração não tem nem capacidade e, acima de tudo, acho que nem sequer tem vontade para mudar o seu modelo de gestão e deixar de empurrar um bocado os problemas com a barriga e começar a pensar no futuro.

Deixe-me acrescentar aqui uma das ideias que Fernando Gomes fez questão de frisar na apresentação destes resultados do relatório e contas, passava muito pela questão de não haver perigo com a questão do fair play financeiro, apesar de ser o terceiro maior prejuízo de sempre da SAD. Também concorda com essa análise? Ou seja, acha que o fair play financeiro, a breve e médio prazo, continua sem estar em risco?

Sempre que há prejuízo, o fair play financeiro está em risco. Agora, eu quero acreditar que o doutor Fernando Gomes conheça as linhas com que se cose. E se ele diz que os números que interessam são os números que o Porto irá apresentar até o final do ano civil, e não o exercício 22/23, eu quero acreditar que ele tenha uma solução na manga para que não haja esse impacto, que seria muito negativo, porque o Porto já viveu vários anos sob a alçada financeira da UEFA e teve dificuldade em inscrever jogadores, em contratar jogadores, portanto em reforçar a competitividade da sua equipa de futebol. Poderia ter tido ainda melhores prestações na Liga dos Campeões, mas teve esse garrote que o impediu de agir em liberdade. E eu acho que seria muito mau e seria um grande passo atrás se isso voltasse a acontecer. Mas a verdade é que, também nas palavras do doutor Fernando Gomes, o Porto andou a jogar pôquer. O presidente optou por arriscar não vender o Otávio por 40 milhões ainda dentro do exercício anterior e esperar mais uns meses e vendê-lo por 60 milhões.

Já vamos ter a oportunidade de falar do Otávio, deixe-me só perguntar-lhe sobre a questão do fair play financeiro. Portanto, Fernando Gomes, administrador, diz que não se coloca essa questão para já. Na sua opinião, quando é que o Porto vai deixar de cumprir o fair play financeiro?

O Porto vai deixar de cumprir o fair play financeiro, como a gestão é de risco, é quando a sorte não estiver do lado do Porto, quando o Porto não conseguir um apuramento direito para a Liga dos Campeões, quando o Porto não conseguir vender os jogadores que pretendia vender ou quando o Porto já não tiver mais receitas para antecipar. Nesse momento, como a administração apenas baseia o seu modelo de negócio nestes três fatores, que são fatores que não controla, pelo menos totalmente, nesse caso, o risco é maior de o Porto incumprir com a UEFA e voltar a estar sob a sua alçada.

Olhando aqui para a questão do Otávio, portanto, isto é um encaixe que não entrou até 30 de junho, foi feito nos últimos dias do mercado, já entra no primeiro semestre de 23/24. Agora, gostava de lhe perguntar num âmbito um pouco mais geral, se olhando para aquilo que são as contas do Futebol Clube do Porto, comparando este exercício 22/23 com o passado 21/22, se considera que existe algum tipo de problema estrutural no Futebol Clube do Porto, que não consegue sair desta necessidade quase obrigatória de vender jogadores, ou se acha que isto é um problema geral de todos os clubes portugueses.

Não, eu acho que os clubes portugueses, obviamente, devido à sua dimensão e capacidade financeira, estão obrigados a vender jogadores e a dependerem da participação na Liga dos Campeões. Mas para além disso, existe toda uma panóplia de armas que os gestores competentes, ainda por cima com os salários que estes têm, deviam ter a capacidade de resolver, de antecipar, de ter a criatividade, de arranjar soluções que não comprometam o futuro do Futebol Clube do Porto e que não façam o resultado depender de fatores que não controlam totalmente. Agora, é por isso que eu digo, este modelo de gestão da SAD está totalmente esgotado. Hoje em dia levantou-se a possibilidade de o Porto ceder a exploração comercial do Estádio do Dragão a uma empresa norte-americana, creio eu. Esta medida já devia ter sido feita ou tentada há 10 anos, quer dizer, há meia dúzia de anos, pelo menos Agora já parece que é um bocadinho em desespero. Eu acho bem que haja esta saída, só não entendo é porque demoraram tanto tempo. Mas atenção, porque mesmo com esta concessão da exploração comercial do Estádio do Dragão, com as receitas que podem entrar, há aqui um risco, que é o Porto. Em princípio, será um contrato a longo prazo, mas há aqui o risco desta administração cair na tentação de mais uma vez antecipar essa receita e comprometer mais uma vez o futuro do Porto. Receitas que iriam entrar todos os anos, por exemplo, ao longo de 10 anos, esta administração é o Zé Hélio Vieira em antecipar as receitas, como fez com as receitas da MEO na televisão. Eu julgo que já antecipou quase 100% dessa receita. Portanto, eu acho que o problema está nas pessoas que estão à frente da SAD do Futebol do Porto. Acho que deram muito ao Porto, deram muitas alegrias, também houve sucessos financeiros no passado, mas nos últimos anos o caminho é negativo. E os sócios do Porto e os simpatizantes têm que se lembrar que sem contas saudáveis, sem contas equilibradas, não é possível reforçar a competitividade da equipa. E nós vemos todos os anos alguns dos melhores jogadores saírem a custo zero. Isso também não é boa gestão. Vemos que o Porto vende pior do que os outros clubes. Eu acho que neste momento há a ideia de que o Benfica é o clube que melhor consegue vender em Portugal e mesmo o Sporting já tem obtido receitas interessantes nesse capítulo. E o Porto é que era o rei das compras e das vendas. O Porto durante décadas foi o rei do mercado e portanto até essa qualidade que tinham acabaram por perder.

Encontra explicação para isso?

Eu acho que há um acomodamento e há uma perda efetiva de poder no mercado. Eu acho que o Porto esteve afastado de Jorge Mendes durante muitos anos e acho que isso trouxe consequências muito negativas para o Porto. E acho que a debilidade financeira do Porto, com estes prejuízos consecutivos e com este passivo acumulado de mais de 500 milhões de euros, também dificultam a posição negocial do Porto. E, portanto, mais uma vez, é este acomodamento ou capacidade da SAD de responder aos problemas de uma forma que defenda os interesses do Porto como eles já foram defendidos no passado. Como eu já disse, o Porto já foi o rei das transferências a nível europeu, nem sequer era a nível só do futebol português. A nível europeu, o Porto era conhecido pela equipa que melhor comprava e que melhor vendia. E isso já é uma coisa do passado.

Acha que, por exemplo, as saídas a custo zero que têm existido, Brahim, Marega, Uribe, nesta altura existe a situação do Taremi, são também um reflexo das dificuldades financeiras que o Futebol Clube do Porto tem para conseguir renovar contratos e aguentar os jogadores para depois fazer mais-valias financeiras com eles?

Claro que há aqui um novo paradigma também por parte dos jogadores de futebol, que muitas vezes forçam essas situações. Mas a realidade é que o Porto tem tido mais jogadores a sair a custo zero do que os outros clubes, pelo menos os outros clubes portugueses. E é deles que eu quero comparar. Portanto, há aqui um problema qualquer de gestão e eu acho que tem a ver com o poder financeiro do Porto. Obviamente que na altura o Herrera pedia seis ou oito milhões para renovar com o Futebol do Porto. Mas eu pergunto: é melhor dar seis a oito milhões por um jogador que já se conhece o valor ou deixar o jogador sair a custo zero e depois ir arriscar 10, 12, 14 milhões num jogador que pode ou não dar? Por acaso, até o Uribe, desportivamente, acabou por ser um bom substituto do Herrera, mas mais uma vez, financeiramente, não, porque o Uribe também acabou por sair a custo zero. Portanto, eu acho que há aqui uma incapacidade da SAD e há falta de capacidade financeira para que estes jogadores importantes possam renovar e continuar no clube, reforçando a competitividade da equipa.

Falou também há pouco da questão dos prémios para os administradores. Portanto, aquilo que está no relatório e contas são 2 milhões de euros fixos, mais 1,6 milhões de euros variáveis. Foi também isto que levou posteriormente a SAD do Futebol Clube do Porto a fazer um comunicado onde explicava que isso era relativo ao rendimento de 21/22, ou seja, quando o Futebol Clube do Porto foi campeão, entrou na Liga dos Campeões e deu lucro, ou seja, cumprindo os três requisitos. Perguntar se ficou convencido com as explicações que foram dadas nesse comunicado posterior à apresentação do relatório e contas.

Não, esse foi o mau momento da SAD. Os administradores do Porto ficaram muito mal nessa fotografia, quando se soube que os administradores do Porto receberam esse prémio e depois mais tarde vieram com uma explicação que eu acho que ela, em si, tem toda a lógica e é isso que eu defendo. Tem que haver sucesso desportivo e sucesso financeiro ao mesmo tempo para que a SAD possa ser premiada pela sua gestão. Mas não é isso que acontece, porque nós já tivemos anos de prejuízo e o Porto campeão e os gestores receberam prémio e já tivemos também ao contrário, anos em que o Porto não foi campeão, mas como houve sucesso financeiro, os administradores também receberam o prémio. Portanto, a explicação que eles deram devia ser a verdadeira, devia ser aquela que realmente impera e imperava, e espero que venha a imperar a partir de agora, pelo menos, uma vez que assumiram isso Publicamente, uma vez que assumiram que os critérios são esses, então a partir de agora esses critérios têm que ser cumpridos, mas não eram. Não era assim que o prêmio era decidido. Mas ainda bem que esta situação e que a força da opinião pública do universo portista forçou a administração a vir arranjar uma desculpa e a arranjar uma solução que eu espero que agora seja aplicada todos os anos. Tem que haver sucesso desportivo, sucesso financeiro, para que haja prêmios. Quando falta um desses fatores, obviamente, que a SAD não pode ver a sua gestão premiada.

Olhando aqui agora para a vertente desportiva, desde 2020, quando foram as últimas eleições, o Futebol Clube do Porto ganhou dois campeonatos, Taças de Portugal, Supertaças, a primeira Taça da Liga, que era aquele troféu que fugia sempre. Esteve sempre na Liga dos Campeões. Há agora também a notícia de que a academia é um projeto que já está a ser lançado, ou seja, no sentido de o arquiteto Manuel Salgado já estar a desenhar e já existe um financiamento garantido. Perguntar-lhe, à luz de todos estes dados, pode fazer-se uma avaliação positiva naquilo que foram os últimos três anos de Pinto da Costa?

Repare, eu acho que estruturalmente nada mudou e, portanto, como estruturalmente nada mudou, a minha avaliação é negativa. E mais, eu acho que todos reconhecem, sócios, adeptos, simpatizantes ou apenas mero ambientamente do futebol ou pessoas que se interessam pelo fenômeno, reconhecem que o principal obreiro de todas essas vitórias que acabou de citar, de campeonatos, taças, supertaças, boas presenças na Liga dos Campeões, o grande obreiro é o Sérgio Conceição. As pessoas quando olham para os últimos anos, não só para os últimos três, mas sobretudo para os últimos seis, sete anos, e veem o sucesso desportivo do Porto, não financeiro, mas veem o sucesso desportivo do Porto, associam logo a Sérgio Conceição, à sua capacidade de liderança, à sua competitividade, à sua inovação, à forma profunda como ele estuda o adversário, a maneira como prepara os jogos, também a capacidade que ele tem de transformar jogadores que vêm de equipes médias do nosso campeonato e transformá-los em jogadores que servem os interesses do Porto. E, portanto, o grande obreiro de tudo isto é o Sérgio Conceição e a sua equipa técnica, já não é Pinto da Costa. Eu acho que as pessoas dantes, quando o Porto tinha sucesso, olhavam e viam Pinto da Costa, o grande vencedor. É verdade. Hoje em dia, nos últimos anos, não é assim. As pessoas olham para o sucesso desportivo que existiu e veem o rosto de Sérgio Conceição. Eu sei que o Sérgio Conceição é muito criticado, principalmente por quem não é portista, e eu percebo que possa ser.

E também por alguns portistas, como aconteceu com Rui Moreira, por exemplo.

Sim, mas isso são outros fatores que o levaram a falar disso. Eu acho que o doutor Rui Moreira já há muito tempo que não gosta do Sérgio Conceição, também acha que o Sérgio Conceição, possivelmente, virá a ser presidente do Porto e, portanto, há aí uma série de fatores que podem ter levado. E claro que o Sérgio Conceição não é unânime, ninguém é unânime. E portanto, o doutor Rui Moreira tem todo o direito de achar o que acha do Sérgio Conceição. Mas se fizer uma sondagem, digamos assim, ao universo portista, eu estou convencido que pelo menos 90% dos adeptos do Porto reconhecem que o mérito das conquistas se deve muito a Sérgio Conceição e à sua vontade indômita. É uma força que ele tem, que nasceu com ela, que a trabalha, claro, de vencer. A palavra derrota ou quase empate não existe para Sérgio Conceição. Só a vitória existe. E é para isso que ele treina os seus jogadores todas as semanas, para que depois, aos domingos e às quartas-feiras, a equipa seja vitoriosa. Portanto, o rosto do sucesso do Porto nos últimos anos é Sérgio Conceição.

Olhando agora aqui também para aquilo que poderão ser as eleições em 2024.

Desculpe. Você também perguntou pela academia. Eu não sei se esse financiamento está garantido ou não. Eu sei é que a academia é um tema que aparece quando estamos em campanha eleitoral. E, portanto, se já apareceu este tema, é porque o presidente do Porto já está em campanha eleitoral e com certeza que será candidato, porque a academia falou-se nas eleições de 2016 e prometeu-se para dali a quatro anos a academia. Quatro anos passaram e nada aconteceu. Chegamos às eleições de 2020 e já não se prometia a academia do Porto, mas tinha-se a cidade do foco do Porto, e até agora, três anos depois, também pouco aconteceu. Surgiram agora umas notícias, e já houve liberações da Câmara, da Maia também, é verdade, mas vamos ver se este projeto, que eu acho que é essencial para o futuro do Porto, vamos ver se avança ou não.

Mas olhando exatamente agora nesse contexto também eleitoral, temos agora aqui um novo nome que apareceu de 2020, que é André Vila Boas, que já mostrou pelo menos a vontade de avançar com uma candidatura, seja em 2024, seja no futuro. Aquilo que eu lhe perguntava é: um, como é que vê esta hipótese de André Vila Boas poder ser candidato? E dois, o que é que o próprio José Fernando Rio irá fazer com os 27% que conseguiu em 2020? Pretende também avançar com uma nova candidatura? Acha que ainda não é o timing ideal para decidir?

Olha, eu tenho, em relação a isso, eu posso lhe dizer que tenho uma equipa, como já tinha, e agora reforçada há três anos. Tenho um projeto Por aquilo que eu já fui dizendo aqui nesta conversa consigo, acho que se mantém atual, quer em termos de modelo de gestão, quer em termos de modelo desportivo. Eu acho que nada de estrutural mudou nos últimos anos e, portanto, o meu projeto mantém-se, na minha perspectiva, obviamente com um ou outro acerto, mantém-se quase 100% atual. Agora, há questões pessoais, há questões de oportunidade também para anunciar essa candidatura, mas em tempo oportuno eu direi qualquer coisa sobre esse assunto. Em relação à questão André Villas-Boas, eu acho que o André Villas-Boas é muito bem-vindo a esta luta pelo futuro do soccer do Porto. O que me fez ir a eleições há três anos atrás foi tentar mostrar às pessoas que há alternativas, que o Porto não é só o Pinto da Costa e a sua equipa. Há mais gente, há gente que pensa de maneira diferente, que tem novas ideias. Portanto, a chegada de Villas-Boas, com todo o peso mediático que tem, obviamente, reconheço esse peso mediático do André Villas-Boas, um treinador campeão, um vencedor, uma personalidade forte, obviamente, conhecida dentro do universo desportista, reconhecida por todo o universo desportista português, reconhecido também lá fora. É uma figura de peso e que eu vejo com muito agrado. Ele ainda não entrou nesta luta, mas pelo menos já pôs as unhas de fora, digamos assim. E eu acho que isso é importante, porque o que está aqui em questão é o futuro do Porto. Os sócios do Porto têm que perceber que o futuro do Porto está em perigo. O Porto, pela sua debilidade financeira, pode ter em causa a sua grandeza futura ou pode ter em causa dominar, como domina hoje em dia, a SAD. O Porto hoje em dia tem 70% da SAD. A qualquer altura, pode ser obrigado a vender uma parte dessa fatia, ou se não quiser vender, vai ter que diminuir a sua grandeza. Portanto, os sócios têm que estar atentos a esta situação, porque não interessa só o dia de hoje, há que pensar no dia de amanhã.

Muito bem, José Fernando Rio, não temos mais tempo. Obrigado por ter aceitado o nosso convite e por se ter juntado aqui na Rádio Observador a este "Nem tudo o que vai à rede é bola", que termina aqui. Pode ser ouvido daqui a instantes em podcast e também em observador.pt.