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Bem-vindo ao "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola", da Rádio Observador. Esta semana comigo, João Filipe Cruz, como sempre com o Bruno Roseira e com a Mariana Fernandes. Na segunda parte do programa vamos receber Miguel Praia, antigo motociclista, que nos vai ajudar a perceber este final de época precoce de Miguel Oliveira, o nosso Falcão no Mundial de MotoGP. Mas primeiro, e como sempre, vamos aos destaques. A figura não é nova nestas nossas andanças, mas é mesmo uma figura, por isso é que é repetente. Novak Djokovic, que depois de três Grand Slams, ganhou também este ano o ATP Finals e vai agora jogar a Taça Davis.
Sim, é uma figura nossa recorrente, como dizias. Até a trouxemos aqui há pouco tempo quando ganhou o Masters de Paris, mas torna-se quase impossível não falar de Novak Djokovic em 2023 e até numa altura em que já não temos Roger Federer para falar. Também estamos quase a ficar sem Rafa Nadal e Djokovic parece que continua cá e continua a ganhar praticamente tudo. Ou seja, depois de um ano em que ganhou o Open da Austrália, ganhou Roland-Garros, ganhou o US Open e só perdeu Wimbledon na final com o Carlos Alcaraz, chegou ao ATP Finals aparentemente cansado. Parecia sem o ritmo dos últimos meses ou até o ritmo do Masters de Paris, portanto precisou de três sets para vencer o Holger Rune, depois perdeu com o Jannik Sinner, voltou a precisar de três sets para ultrapassar o Hurkacz, sendo que nesta fase de grupos do ATP Finals nem dependia dele próprio para seguir em frente, portanto poderia ter ficado pelo caminho se o Rune tivesse vencido o Sinner na última jornada da fase de grupos. Não aconteceu, o Sinner ganhou, portanto o Djokovic passou às meias-finais e os astros alinharam-se mesmo para que ele lá estivesse e para que ativasse aqui quase um autêntico business mode que lhe permitiu anular Alcaraz em dois sets, num jogo que esteve sempre completamente controlado, e carimbar a sétima vitória no ATP Finals, ao derrotar o Sinner na final, novamente em dois sets e sem qualquer hipótese para o tenista italiano. Vai agora seguir para a Taça Davis, portanto ainda não terminou a temporada aqui. Vai seguir para a Taça Davis em Málaga, representar a equipa da Sérvia, sendo que ele apontou essa Taça Davis e a reconquista da Taça Davis, porque já a venceu, mas numa fase ainda um bocadinho embrionária da carreira, quando não era propriamente ainda a grande figura. Ele já tinha estabelecido esta Taça Davis como prioridade para 2023, portanto ainda tem uma das suas prioridades para conquistar num ano em que de facto só faltou aquele bocadinho em Wimbledon.
E se calhar já está a pensar no próximo ano, com Jogos Olímpicos e com 37 anos. É um dos segredos dele. Ele agora queria ganhar a Taça Davis, mas já está a olhar para 2024, tentar ganhar os quatro Grand Slams e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Foi uma coisa que não conseguiu em 2021, embora estivesse muito bem encaminhado para isso. Sobretudo os jornais espanhóis fizeram uma listagem dos 15 recordes que ele já bateu para tentar mostrar que ele é o melhor de todos os tempos. Eu recuso-me a entrar nessa luta, até porque para mim não é, mas eu acho que aquilo que faz a maior diferença é a interpretação de papéis no jogo e pelo jogo. O que isso significa? Um, e sobretudo quando nós olhamos para o momento do Carlos Alcaraz, e eu estive a ver os jogos todos agora durante esta semana, aquilo que nós percebemos é: em 90 e muitos por cento dos jogos, um Alcaraz menos bom arrisca-se a perder, um Sinner menos bom arrisca-se a perder, um Djokovic menos bom arrisca-se a ganhar em três sets na maioria das vezes. Eu diria que esta vitória começa a partir do momento em que ele perde o jogo na fase de grupos com o Sinner. Por quê? Porque as coisas não estavam a correr bem. Djokovic, como sempre, recorreu à sua famosa arma, que é aproveitar a animosidade com o público para andar a fazer sinais na orelha e a fingir que os assobios era música para ele, etc. E no dia a seguir, e foi o próprio Ivanisevic que reconheceu, desapareceu por completo do radar, ou seja, nem os treinadores sabiam onde é que ele andava, e foi aí exatamente que ele começou a ganhar.
A se recompor.
E eu diria que a questão de idade, de facto, ainda é um posto, mas é este know-how também que ele foi ganhando com o tempo que faz com que esteja muito acima dos outros e até mesmo o melhor Alcaraz nesta altura será complicado ganhar o Djokovic. Continua a ser uma das nossas figuras de proa, o Novak Djokovic, no "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Passamos para o Marco. Tivemos pausa para seleções. Portugal conseguiu o que nunca tinha conseguido, fechar a qualificação com 10 vitórias em 10 jogos, mas este período também foi madrasto para os clubes e deu razão a muita gente que não é particular fã da pausa para as seleções, porque está aí, ele existe, o vírus FIFA.
Eu já falo do vírus FIFA. Bola este fim de semana, não, tive mais ténis.
Portugal cumpriu os dois últimos jogos da qualificação com esta convocatória que teve algum corta e cola e uma costura, porque com muitas lesões, até devido depois a questões pessoais como o nascimento do filho do Diogo Dalot, mas acabou por conseguir aquele que era o principal objetivo deste duplo compromisso. Portanto, ganhar ao Liechtenstein, ganhar à Islândia, não sofrer golos e terminar a qualificação para o Euro 2024 com 10 vitórias em 10 jogos, algo que nunca tinha acontecido e que só outras sete seleções tinham alcançado, incluindo, e há essa curiosidade, a Bélgica, também com o Roberto Martínez na qualificação para o Euro 2020. Os números são autoexplicativos, 36 gols marcados, um número que também é um recorde e que supera os 35 da qualificação para o Mundial 2006. Dez vitórias em 10 jornadas e apenas dois gols sofridos, ambos contra a Eslováquia. Ainda assim, existe sempre esta sombra que eu acho que não podemos esquecer, de que este grupo era manifestamente acessível para Portugal. Ainda assim, também já vimos Portugal complicar muito as coisas com grupos manifestamente acessíveis. Aconteceu, por exemplo, na última qualificação para o Campeonato do Mundo, em que Portugal perde aquele último jogo com a Sérvia, é certo que é a Sérvia, mas perde aquele último jogo e tem de ir ao playoff. Já vimos Portugal complicar muito as coisas com grupos acessíveis. Não deixa ter sido uma lufada de ar fresco estas 10 vitórias em 10 jogos. Acho que essa é a grande tarefa de Roberto Martínez a partir de agora, mostrar que Portugal também consegue estes resultados e também consegue fazer as mesmas exibições.
10, 10, 30. 10, 10, 30 é super redondo.
É bonitinho. Por agora e com este primeiro lugar do grupo, sendo que esta qualificação só termina hoje, os jogos de todos os grupos só terminam hoje, Portugal, que está garantidamente no pote um do sorteio do próximo dia 2 de dezembro, já sabe que evita os tubarões, Alemanha, França, Espanha, Bélgica, Inglaterra, sendo que depois existe sempre esta particularidade de ainda poder apanhar, por exemplo, Países Baixos ou Itália, que não vão estar neste pote um e que podem calhar a Portugal neste sorteio. Mas claro que não apanhar desde logo a Alemanha anfitriã, uma França, uma Espanha, uma Inglaterra, ajuda muito, pelo menos a deixar bem encaminhado, nem que seja o apuramento a partir da fase de grupos e depois a partir daí é o mata-mata, como dizia o outro senhor.
Itália que aquele apuramento ficou um bocadinho esquisito. Mas o Mudryk, aquela bola na área nos descontos, chama-lhe mais do que isso. Há um pênalti claríssimo já nos descontos, que podia ter dado a vitória à Ucrânia.
Mas esse é outro tipo de vírus.
Sim, este é mais complicado, mas ainda assim a Ucrânia ainda terá a possibilidade, através do playoff, de ir a esta fase final. Eu diria que, nestes últimos dois jogos não estive particularmente atento, mas em termos globais, aquilo que eu digo é: quando nós falamos em tubarões que vamos evitar por estarmos no pote um, à exceção da França, não vejo nenhuma seleção que eu possa olhar e pense: "Isto era mais complicado para nós numa fase adiante". Ou seja, a Alemanha é uma caricatura daquilo que costuma ser e não foi com o Nagelsmann que melhorou muito.
Já há algum tempo.
Exatamente. A Inglaterra é mais do mesmo. Para mim, é a seleção com mais opções só ao nível da França, mas que em termos históricos já sabe o que costuma acontecer. A Espanha está a melhorar ligeiramente, a Bélgica eu diria que está a decrescer ligeiramente, porque não fez a tal renovação e uma equipa com De Bruyne ou sem De Bruyne há de ser sempre uma coisa diferente. Agora, aquilo que nós vemos é, à exceção da Noruega, pelo fato de ter Haaland, e a Suécia e Gales, por ter alguma tradição, sobretudo Gales, uma tradição um bocadinho mais recente, todas as seleções que teoricamente deveriam ser apuradas, estão apuradas ou estão no playoff de qualificação. E aquilo que sobra é este número dos 20 jogadores lesionados entre as principais ligas europeias só nesta paragem, alguns problemas mais graves, como o Gavi. A nível de lesão, é o tipo de lesão que tu não consegues evitar, quando chega ao ligamento do joelho. Eventualmente, aquilo que poderia ter sido evitado era a utilização dele num jogo onde a Espanha estava a lutar pelo primeiro lugar, mas também não era por ter um Gavi ou sem Gavi que poderiam ou não ganhar à Geórgia. E aquilo que sobra, sobretudo, é perceber uma coisa: quando foi o período pós-Covid, a FIFA e a UEFA falaram muito de um, dois anos de adaptação em termos de calendário para recuperar aquilo que tinha sido perdido durante a paragem. E aquilo que nós vemos é um bocadinho como os preços no supermercado, ou seja, os preços sobem e depois quando nós achamos que é só um período ou dois anos, vamos ver e depois mete-se o IVA zero, mas os preços nunca voltam a descer e a densidade competitiva é um bocadinho isto, ou seja, ou se começa a dar a volta ou este número dos 20 jogadores lesionados vai tendencialmente começar a crescer.
É o vírus FIFA que está aí e revelou-se particularmente forte nesta pausa para as seleções. Vamos continuar no futebol, vamos para a citação. É de Frederico Varandas, o presidente do Sporting, sobre os últimos dias no Futebol Clube do Porto. Disse o presidente leonino que após 40 anos acordaram para a vida. Sim, o presidente do Sporting foi questionado sobre a última semana do Futebol Clube do Porto, com esta assembleia geral que começou interrompida, depois acabou cancelada, pelo meio caiu a revisão estatutária, que era o grande objetivo desta assembleia geral. E voltou a deixar claro, isto o presidente do Sporting, o que acha sobre a liderança do Futebol Clube do Porto e o que acha de forma muito particular sobre a liderança de Jorge Nuno Pinto da Costa do Futebol Clube do Porto. Eu acho que a coisa mais importante que Frederico Varandas acaba por dizer é esta questão da guarda pretoriana, que já tinha sido a expressão utilizada por André Villas-Boas na Web Summit para abordar o assunto. E ele diz que esta guarda pretoriana foi alimentada por alguém durante muito tempo e esse alguém utilizou-a para fazer este tipo de coisas contra quem estava fora. Portanto, esta ótica, que nós sabemos que o Porto sempre utilizou muito esta frase do "nós contra o mundo", portanto, nós unidos cá dentro contra o mundo lá fora. Só que agora isto aconteceu internamente, portanto, a partir do momento em que existe uma oposição clara e relevante dentro de casa, aquilo que Frederico Varandas quer dizer é que esta guarda pretoriana continua a estar às ordens das mesmas pessoas, só que agora dentro de casa, contra quem também está contra estas mesmas pessoas. Estas eleições do Futebol Clube do Porto ainda não têm candidatos oficiais. Eu acho que é óbvio que será uma disputa entre Pinto da Costa e Villas-Boas, ainda que ninguém tenha avançado de forma oficial. E estes tais 40 anos que Varandas tanto fala, não é a primeira vez que usa esta expressão, quase para vincar que de facto são 40 anos de Pinto da Costa à frente do Futebol Clube do Porto, correm o risco que nunca correram ao longo dessas quatro décadas, que é a queda de um regime que ainda tem cabeça. Todos nós achamos que este regime só iria cair quando também essa cabeça caísse. Acho que estamos a aproximar-se de um cenário, aconteça ou não aconteça, nunca esteve tão em risco este regime de Pinto da Costa cair, ainda com Pinto da Costa à frente dele.
E Bruno, em Alvalade, foi bem recebida esta frase de Varandas sobre o Porto?
Sim, é engraçado como esta frase acabou por provocar uma série de reações. Em termos internos do Sporting, nem toda a gente concordou com esta frase, não pelo conteúdo em si, mas pelo fato de ter sido proferida numa altura em que se considerava que o Futebol Clube do Porto está a viver um momento como já não vivia há quatro décadas. E como tal, o melhor é sempre deixar passar e não abordar esse ponto. No Futebol Clube do Porto, foi curioso também uma série de grupos que estão constituídos também já a pensar nas eleições, começaram a comentar esta frase, mas na ótica de: "Se calhar este senhor, que nós há um ou dois ou três anos criticávamos, aquilo que ele diz faz algum sentido." E isto para enquadrar num contexto também muito importante, que é a última reunião depois da Assembleia Geral, a última reunião do Conselho Superior, que mostrou que de facto o paradigma em termos internos mudou. Ou seja, Pinto da Costa provavelmente até pode ganhar as próximas eleições, continua a ser o presidente, continua a ser para todas aquelas pessoas o melhor presidente sempre do futebol português, mas com uma nuance: é que já começa a ser avaliado como os outros presidentes. E isto parece que não, pode ser o gatilho que vai fazer a diferença para as próximas semanas, que eu prevejo que sejam muito tensas e férteis em notícias em termos do universo Futebol Clube do Porto.
Avançamos para o nosso número desta semana, 5.17 são os minutos que Neemias Queta fez pelos Boston Celtics na sua estreia em jogos oficiais da NBA esta temporada.
Sim, isto é só para assinalar. Estreou-se a primeira vez, tinha estado lesionado no pé. Boston ganhou, apesar de agora ter perdido com o Charlotte, continua a ser a melhor equipa da fase regular e aquilo que nós percebemos cada vez mais é os Maine Celtics, a equipa que joga na G League, vai agora voltar e portanto o Neemias vai começar a ter minutos de jogo. Os Celtics continuam a adotar a postura de só jogar com um big man de início, que é o Porziņģis, mas o Porziņģis tem sido muito fustigado por lesões. O Al Horford também já não faz os 82 jogos da temporada regular. O Luke Kornet, toda a gente olha uns para os outros e não percebe muito bem o que ele anda a fazer. Portanto, eu continuo a achar que o Neemias tem ali margem para aos poucos começar a sedimentar um lugar na equipa dos Boston, ou pelo menos ter mais minutos de utilização. Antes da segunda parte, vamos num tirinho até ao tunel.
E a pergunta à espera de resposta esta semana é: depois do Rio Ave, há mais clubes da Primeira Liga na iminência de passar para as mãos, em parte ou na totalidade, de um investidor?
Há, e um deles seria o Futebol Clube do Porto, se não fosse toda esta tensão, em parte, neste caso, mas era algo cada vez mais estudado. Nós nesta altura, em termos de Primeira e Segunda Liga, divisões profissionais, mais de metade dos clubes já estão nas mãos de investidores, ou seja, seja em termos totais, seja em termos parciais. O Rio Ave é o último exemplo com a compra do Marinákis, que é também presidente ou proprietário do Olympiacos e do Nottingham Forest. O Rio Ave eu diria que é um exemplo de um clube que estava estável, deste visão, começa a ter alguns problemas, tem um passivo superior a 3 milhões de euros, tem problemas com a conta corrente, torna-se quase apetecível para um investidor entrar e os sócios aprovam com mais de 80%. Convém não esquecer isso. Temos vários exemplos já na Primeira Liga, Guimarães, Boavista, Portimonense, etc. O Sporting Braga também com mais de 20% do QSI do Paris Saint-Germain. E agora parece-me que é inevitável, mais tarde ou mais cedo, o Futebol Clube do Porto e o Sporting abrirem o seu capital social, não totalmente, mas parcialmente. E o próprio Benfica, que tinha um projeto com Luís Filipe Vieira, muito parecido com o projeto do Bayern, ou seja, de vender a três grandes marcas uma parte pequena do capital social, diria que nesta altura e a breve, médio prazo, será um cenário que estará em cima da mesa para todos.
Fica por aqui a primeira parte do "Nem tudo o que vai à rede é bola". Daqui a pouco recebemos o Miguel Praia para nos falar de MotoGP. Bem-vindo à segunda parte do "Nem tudo o que vai à rede é bola" da Rádio Observador. Como prometido, já aqui temos o pentacampeão mundial de motociclismo, Miguel Praia. Muito boa tarde. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Olá, bom dia. Antes de mais, obrigado.
Vamos então falar de MotoGP. Estivemos agora no Qatar, a penúltima prova do Campeonato do Mundo, com o Miguel Oliveira mais uma vez a desistir. Caiu, sofreu uma fratura no ombro, vai afastá-lo da prova de Valência. Miguel, acaba por ser uma imagem que fica como principal resumo daquilo que foi o ano 2023, um azar?
Sim, completamente. Estou totalmente de acordo. Este resultado no Qatar acaba por ser o espelho daquilo que foi a época do Miguel. Uma época Cheia de azares, que começou, como todos nós sabemos, muito mal em Portugal, quando o Miguel acaba por surpreender por se tornar supercompetitivo com uma moto que para ele era uma novidade. Dizer também que pra equipe era uma novidade aquela moto, o que faz com que toda a adaptação do Miguel e da própria equipe a toda esta nova ferramenta acabaria sempre por trazer alguma dificuldade à crescida do princípio do campeonato, mas a partir daí, o campeonato do Miguel foi uma sucessão de azares, tanto em Portimão, como depois também em Jerez. E isto acabou por ser o reflexo da época do Miguel. E já é difícil conseguir fazer uma performance a este nível com a nossa máxima capacidade física, estando quase sempre tocado, porque o Miguel estava a recuperar uma após outra lesão proveniente dessas quedas e toques que acabaram por assolar o seu percurso durante o ano. O Miguel acabou quase sempre por estar tocado e fisicamente minimizado também, o que naturalmente não ajudou durante este ano.
Esta lesão que o Miguel sofre no Catar pode afetar também aquilo que são os testes que acontecem sempre em Valência, que as equipes realizam no final do campeonato do mundo, para além de ter terminado a temporada de forma precoce. Esta ausência dos testes é também um ponto que pode atrasar tudo aquilo que será, obviamente, uma tentativa de redenção em 2024, de novo com a RNF Aprilia?
Não creio, até porque depende um bocadinho do programa de testes. Há testes que são apenas uma confirmação pra testar determinado material. Acredito que a equipe do Miguel, sendo uma equipe satélite, não será a principal equipe que tem como missão de testar as principais novidades, porque isso cabe naturalmente à equipe principal. Eu já faturei exatamente a mesma omoplata, do mesmo modo também e em duas semanas, através de recurso à nova tecnologia, nomeadamente câmara hiperbárica, pra acelerar a cicatrização óssea. Ainda não falei com o Miguel, mas acredito que o Miguel em duas, três semanas, consiga estar apto, mas de fato vai falhar aqui logo o teste e uma oportunidade de poder iniciar a pré-época, que inicia logo após o final da última corrida. Mas, tal igual como eu disse, não acho que isto seja um problema, até porque o Miguel também já nos habituou a que se consegue adaptar rapidamente a uma nova moto. Aliás, aqui em Portimão, a sua performance com todo este novo equipamento e poucas voltas que fez durante o inverno com esta nova moto e novidades, acabaram por provar isso mesmo. Por isso, acho que isso seja uma dificuldade e o Miguel tem agora todo o inverno pra se pôr bem fisicamente, que é o seu principal objetivo.
Há dois momentos que nós aqui já falamos no início da temporada, o primeiro no Algarve com o Marc Márquez, o segundo em Jerez com o Fabio Quartararo. Aquilo que eu pergunto é: até pelo momento da época em que aconteceram aqueles acidentes, que são quase balroamentos, digamos assim. Isso acabou por condicionar depois o resto da época, não só a nível de resultados, mas também a própria forma como o Miguel abordava as primeiras curvas, fosse na corrida sprint, fosse na corrida domingo?
Que acabou por condicionar, não tenho dúvidas nenhumas que acabou. Mas acabou por condicionar, não porque mentalmente o Miguel tenha depois de enfrentar as próximas corridas com receio de toques, porque isso é algo que os pilotos têm que abstrair completamente e no dia que não o conseguem fazer, acabam por desistir e abandonar a carreira. Agora, tal igual como eu falei, fisicamente acabou por afetar muito o Miguel, justamente aqui a lesão em Portimão, que foi uma lesão complicada. Aquela de Jerez também acabou por lesionar o ombro, foi também complicada e hoje em dia, conduzir um protótipo de MotoGP deverá ser tão exigente fisicamente que todas estas mazelas acabaram por condicionar o à vontade do Miguel e a performance do Miguel, mas devido à sua limitação física. Não que o Miguel tivesse qualquer tipo de receio que isso volte a acontecer.
Isto não é tanto na perspectiva de receio, é mais procurar linhas que o deixasse um bocadinho mais salvaguardado pra não ficar com o resto da corrida condicionada por estes toques que havia na primeira curva.
É uma boa questão, mas lá está, isto tem muito a ver com a posição de qualificação, e aí o Miguel ter tentado também focar um bocadinho a sua estratégia mais na qualificação, porque de fato, quem vai à frente escolhe a linha, ou seja, tem essa vantagem. Quem está na segunda metade do pelotão, está muito mais refém a estas variações de linhas, que foi o que acabou por acontecer ali na segunda curva em Jerez, lá a fronteira, que o Miguel acaba por ser totalmente, e aqui também em Portimão, ao fim e ao cabo, acaba por levar. Apesar de serem casos diferentes, enquanto que em Jerez o Miguel foi fruto de desvios e diferentes trajetórias por estar completamente engolido pelo pelotão, e isto é uma consequência de arrancar tão atrás que se fica à mercê de estar envolvido com três ou quatro motos na chegada à mesma curva. O que aconteceu em Portimão foi um erro, ou seja, um excesso de Márquez, que estava a tentar basicamente manter-se na ponta da corrida, enquanto que do ponto de vista de performance de moto, o ano depois acabou por provar que Márquez não tinha equipamento pra estar ali e ele queria, através do exagero, através sempre de passar pra lá deste limite São situações diferentes, mas isso tem tudo a ver com a posição de onde se arranca e quem arranca na segunda metade do pelotão está totalmente engolido e depois alguém que se desvie pra esquerda e pra direita acaba por ser dificílimo de evitar.
Miguel Praia, apesar de todos os azares do nosso Falcão, o Miguel Oliveira chegou à San Marino, tem cinco top 10, incluindo aquele quarto lugar em Silverstone ou o quinto nas Américas e na Catalunha, mas a partir daí não o vimos mais nos 10 primeiros. Na opinião ou na análise de um pentacampeão do mundo, o que se passou?
Atenção que eu não sou pentacampeão do mundo, eu gostava muito de o ser.
Então tenho aqui a informação errada.
Não. Adorava ser, mas não sou. Mas, de qualquer maneira, como piloto que fiz sete temporadas no Campeonato Mundo de Superbikes e Supersport, sinto-me com alguma à vontade pra responder à sua questão. Na verdade, é difícil, o próprio Miguel e a própria marca também, porque o Miguel acaba por ser o concretizador de toda uma estratégia e todo um trabalho que é feito de desenvolvimento perante a equipa. O que acontece é que a moto do Miguel, que é uma moto 2023, aliás, é uma moto 2022, assim é que é. O Miguel começa muito bem a época porque toda aquela moto estava bem afinada, era uma moto que estava capacitada pra iniciar a época e aqueles resultados iniciais do Miguel, especialmente em Portimão, porque depois ele fica minimizado fisicamente e não consegue desenvolver, mas a moto estava numa boa performance naquela fase. A partir daí, todos os fabricantes começam cada um a desenvolver um pouco mais as suas motos, com motos atuais, com motos do próprio ano, 2023, e na minha opinião, e aquilo que foi público, é que depois o Miguel e o package do Miguel, ou seja, e quando eu digo package estou a falar obviamente da moto e das diferentes estratégias que envolvem a afinação de uma moto, portanto a moto é muito mais do que simples moto, são as diferentes estratégias que as equipes podem, naturalmente, escolher pra abordar o fim de semana, começam a ficar desatualizadas na segunda metade da época. Isso faz com que o Miguel tivesse ferramentas muito mais desatualizadas do que a primeira parte da época e quanto a mim, este foi o principal fator pra que a segunda metade da época, que são também circuitos que normalmente não se visitam tanto e não há tanta informação. E quando eu digo informação é base de afinações pra que as equipes e os pilotos possam desenvolver e preparar melhor o fim de semana. E a partir do momento que a época foi passando pra segunda metade, aquilo que o Miguel tinha em mãos era um pacote que estava, na minha opinião, desatualizado e isso fez com que o Miguel não conseguisse manter o nível da primeira parte da época.
Esta reta final de temporada fica também muito marcada pelas notícias que davam conta de um possível interesse da Honda, na sequência da saída do Marc Márquez, que acaba por cair por terra, com o Miguel até a falar de uma espécie de falta de liderança aqui da equipe por aquilo que estava a oferecer. Perguntava-lhe, por um lado, se esta eventual ida pra Honda era uma boa hipótese pro Miguel e, por outro lado, se a Honda está mesmo numa crise face a tudo aquilo que já foi, tudo aquilo que já conquistou.
Sim, que a Honda está em crise, isso é factual. Tirando Marc Márquez, não há nenhum piloto que consiga colocar a Honda no top cinco com alguma regularidade e mesmo Márquez faz com recurso a muito exagero e muitos erros. Basta ver que a sequência de pilotos que tem passado no construtor japonês tem sido a mais variada desde o pós-Pedrosa, veio o Jorge Lorenzo, veio o Joan Mir, veio o Pol Espargaró, e foram pilotos que, tirando Pol Espargaró, tanto o Joan Mir como o Jorge Lorenzo ganharam títulos com outros fabricantes e ganharam corridas com outros fabricantes e com a Honda tiveram anos-luz. Portanto, eu acho que a Honda, como um construtor japonês que é, que tem uma mentalidade completamente diferente dos europeus, acaba por pagar um bocadinho a lentidão na reação pós-pandemia, que é tão importante, e os europeus acho que nesse aspecto conseguiram se modernizar muito mais numa segunda fase do campeonato pós-pandemia, em que as corridas e o próprio número de corridas e a estratégia de desenvolvimento mudou radicalmente e quem se adaptou melhor foram claramente os fabricantes europeus que neste momento dominam e conseguiram inverter esta tendência. Portanto, na minha opinião, eu fico feliz que o Miguel não tenha ido, porque se o próprio Marc Márquez, que é um piloto que conhece como nunca e nunca correu em outra marca na categoria rainha que não a Honda, e se ele próprio não acredita naquele projeto, eu diria que qualquer outro piloto vai ter muitas dificuldades pra conseguir ser competitivo com a Honda. Portanto, nesse aspecto, eu fico muito feliz que o Miguel tenha tomado essa decisão.
Perante tudo aquilo que nós falamos, que balanço é que se pode fazer neste primeiro ano de Miguel Oliveira na RNF e que perspectivas de desenvolvimento é que existem para 2024, tendo em conta que, como falamos há pouco, na primeira metade da temporada, sem que o pacote da moto estivesse tão utilizado, muitas vezes o Miguel foi superior às motos da equipe de fábrica, nomeadamente do Aleix Espargaró e do Viñales.
Correto, é isso mesmo. Em jeito de balanço, eu acho que podemos dividir isto em duas partes. Há uma primeira parte e uma parte inicial em que o Miguel, de fato Acaba por fazer uma excelente adaptação. E como eu falei aqui há bocadinho, eu acho que as pessoas não têm noção que a própria equipa do Miguel estava a receber uma moto completamente nova, porque era uma equipa que estava habituada a trabalhar com Yamahas, que são motos completamente diferentes, como seria de esperar, e esta dificuldade acresceu muito àquilo que o Miguel teve que se adaptar e acho que nesta primeira parte do campeonato o Miguel, obviamente, com muitos altos e baixos, em função daquilo que nós já aqui falamos, devido às ausências, devido às lesões, devido a alguns problemas, mas a segunda metade é completamente apagada em função da dificuldade da equipa. A equipa teve várias dificuldades para receber mais atualizações da própria Aprilia, porque a Aprilia e o modelo 2023 é um modelo que é completamente diferente de 2022, no sentido em que há determinadas atualizações que não seria possível aplicar na moto da RNF, o que fez com que o próprio Miguel e a sua equipa, igual o Fernández também, ficassem muito limitados à segunda metade do ano, que foi uma segunda metade muito mais apagada. Aquilo que nós gostaríamos era que a equipa RNF recebesse equipamentos do próprio ano, porque faz toda a diferença, especialmente na segunda metade da temporada. E se havia, de certa forma, alguma dúvida sobre a capacidade de adaptação do Miguel, essa dúvida ficou totalmente respondida na primeira parte da época. Eu sei que o Miguel vai ter que ficar um bocadinho refém daquilo que é a estratégia da própria permanência ou não do Aleix Espargaró. O Viñales, aparentemente, está de pé de igual também nesta estrutura, apesar do Aleix ainda continuar a ser o piloto Aprilia melhor colocado no campeonato, na sexta posição. O próprio Viñales acabou por ficar também, de certa forma, um bocadinho refém de altos e baixos no campeonato. Aliás, Viñales está em oitavo, com uma prova ainda por disputar. Está apenas a seis pontos do próprio Aleix Espargaró, mas eu creio que estes dois pilotos vão continuar por mais uma época. E o Miguel, acho que faz bem esperar por mais uma época com este conjunto, porque pode-se abrir aqui uma porta para 2025 do Miguel integrar na equipa oficial. E eu acho que isso aí seria um belo lugar pro Miguel, porque a estrutura oficial, de facto, dá garantias completamente diferentes desta estrutura que o Miguel está no momento.
Miguel Praia, vamos ter agora a decisão em Valência do Mundial. Temos o Pecco Bagnaia a chegar com um avanço mais confortável depois do Catar face ao Jorge Martin, que se queixou do rendimento dos pneus pra justificar também a décima posição depois da vitória no sprint. Já podemos falar de um bicampeonato semi resolvido ou ainda é cedo?
Eu acho que sim. Até porque tem sido dificílimo ver Pecco Bagnaia fora dos cinco primeiros. Por isso eu ficaria muito surpreendido se Pecco Bagnaia, com toda a experiência da sua estrutura e também devido ao seu background, que estamos a falar de um piloto que cresceu nas raízes e debaixo dos braços de Valentino Rossi, que é dos pilotos mais experientes do planeta e também daqueles que têm mais campeonatos, e saber lidar com esta pressão de chegar ao fim das épocas e consolidar-se como vencedor. Eu acho que vamos ter um Bagnaia que vai claramente garantir o título, vai tentar garantir o título na corrida de sprint e eventualmente depois fará a corrida de domingo de uma forma muito mais tranquila. Mas pra dizer o quê? Neste momento, aquilo que nós temos visto é um campeonato monopolizado por estes dois pilotos, especialmente na segunda metade do campeonato. E eu diria que mesmo com algum risco por parte de Bagnaia, eu diria que ele tem o campeonato de ganho e só o pode perder no caso de contrair uma lesão ou uma queda num treino cronometrado ou numa sexta, porque essas coisas podem acontecer. Aliás, é muito fácil se magoar no motociclismo, como temos verificado com outros pilotos, mas, mais uma vez, acho que o Pecco Bagnaia estará totalmente preparado pra saber o que vai ter que fazer no sábado, determinados pontos para garantir o campeonato no sábado ou domingo, caso não consiga no sábado, e toda a sua estratégia e poupança, ao fim e ao cabo, de risco, vai fazer com que ele leve o campeonato. Pra mim, não há qualquer dúvida sobre isso.
E Miguel Praia, ficamos por aqui nesta conversa. Foi mais uma vez um gosto enorme recebê-lo no "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola" e até uma próxima. Obrigado. Fica por aqui o nosso programa desta semana. Obrigado nós. Voltamos pra próxima semana com mais desporto daqui a pouco. Este episódio fica disponível em todas as plataformas e em observador.pt.