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Seja bem-vindo ao "Nem Tudo Que Vai à Rede Dizé Bola". Esta semana comigo, João Miguel Santos, e como é hábito, com o Bruno Roseiro, esta semana a partir da Web Summit em Lisboa, e também a Mariana Fernandes. Na segunda parte do programa, vamos receber Joaquim Sérgio Pina, presidente da Federação Portuguesa de Judo. Primeiro, vamos aos destaques. E Mariana, o teu destaque desta semana vai para Roger Schmidt. Por quê? Por que ele é a figura da semana?
Tínhamos falado do derby, tínhamos falado Roger Schmidt também, que eu acho que foi a figura da semana pelos piores e pelos melhores motivos, mas eu acho que principalmente porque começa a deixar claro que a ideia apaziguadora que achávamos que trazia o futebol português, se calhar, só era uma realidade quando as coisas corriam bem, quando o Benfica estava a ganhar. Mas recuando aqui um bocadinho ao início da semana, o Benfica até começou a semana passada a ser atropelado em Espanha pela Real Sociedad, num jogo que eu acho que só não ganhou contornos de escândalo porque os espanhóis tiraram o pé do acelerador no final da primeira parte. Já está fora da Liga dos Campeões, só com derrotas, com um gol marcado, e seguiu-se o Derby da Luz no domingo, onde o Sporting aparecia com mais três pontos, portanto, com a possibilidade de cavar uma vantagem de seis pontos na liderança isolada do campeonato. Depois também de uma vitória um bocadinho tímida e atabalhoada frente ao Rakov na Liga Europa. Não sei se a palavra é atípicos, mas foi dos derbys, se calhar, mais complexos dos últimos anos. O Benfica até começa melhor, cria várias oportunidades, tem uma bola no poste do Rafa. O Sporting responde com um grande gol de Gyökeres, que apesar da derrota, não deixa de ser o melhor em campo e eu acho que fica claro a forma como o avançado sueco nesta altura consegue gerir e protagonizar todo o jogo da equipe de Rúben Amorim. O Sporting fica com 10 no início da segunda parte, devido à expulsão de Gonçalo Inácio por acumulação de cartões amarelos, e o Benfica foi sempre incapaz de assumir por completo a superioridade numérica. Portanto, o Sporting fez o natural, a jogar fora, a ganhar com essa possibilidade de chegar aos seis pontos de vantagem, que foi: recuou linhas, fechou-se e tentou apenas atacar com transições rápidas, mas a verdade é que o Benfica teve sempre alguma incapacidade para criar oportunidades, mesmo estando a jogar em casa, mesmo estando a jogar com mais um. Di Maria, para além da participação no gol, mas sem ser aquele remate com uma grande defesa de Adán, é praticamente irrelevante durante todo o jogo e só sai aos 90 minutos, e a reviravolta só aparece mesmo no período dos descontos. E a partir dessa cereja no topo do bolo da exibição do João Neves, que para além também ter sido o melhor do Benfica, voltou a marcar o Sporting, e o médio português nesta altura tem dois gols na carreira, e os dois feitos ao Sporting. No fim, e pegando aqui por aquilo que dizíamos no início e por ter escolhido Roger Schmidt para esta figura.
Exato.
Mostrou que não só não sabe perder, como também não sabe ganhar. Portanto, tem ali aquele momento muito infeliz na conferência de imprensa, em que se atira a um jornalista da RTP de forma um bocadinho gratuita e um bocadinho injustificada. Foi já entretanto condenado pelo CNID, também pelo Sindicato dos Jornalistas. Em resumo, e tirando todo o sumo deste derby, eu acho que não é a vitória do Benfica que apaga o momento francamente mole ou apagado que a equipe está a viver, ainda que possa obviamente motivar por estar nesta altura na liderança do campeonato em igualdade pontual com o Sporting, e não é a derrota do Sporting que apaga o momento também positivo que eu acho que a equipe está a viver, como o próprio Rúben Amorim também sublinhou, ainda que obviamente possa doer e possa ferir aqui em termos de motivação.
Bruno Roseiro, tu escolheste o número seis como o número da semana. Que número é este? O que ele esconde?
Sim, é um número que basicamente resume aquilo que foi um fim de semana bom, mau e péssimo para Miguel Oliveira. Um fim de semana bom porque a sua situação para 2024 está completamente definida, ou seja, recusou a proposta da Honda, deixando até algumas críticas à falta de liderança que a marca japonesa terá demonstrado ao apresentar um contrato de apenas um ano que não teria grande projeção em termos de médio e longo prazo, que é algo que Miguel Oliveira gosta de ter assegurado. Um fim de semana que eu considero ser mau, porque me parece que a principal ideia que Miguel Oliveira tem, que é a breve prazo poder subir à equipe de fábrica da Aprilia para ter outras condições para lutar por resultados, não ganhou créditos este fim de semana. Ou seja, quando nós olhamos para aquilo que a equipe foi capaz de fazer, não me parece líquido que a aposta da Aprilia seja de uma forma convicta que Miguel Oliveira vá fazer mais um ano na RNF e depois super para a equipe de fábrica. E foi um fim de semana péssimo, porque pela sexta vez, Miguel Oliveira não termina uma corrida. E essa é uma nuance importante, porque quando Miguel Oliveira entra no MotoGP, vem do Moto2 para o MotoGP, Miguel Oliveira era o piloto mais fiável que existia entre todos os pilotos, e daí todas as equipes estarem sempre atentas às suas movimentações quando ele estava na KTM, porque sabiam que tinham ali um piloto que a moto podia estar melhor ou pior, consoante o circuito, mas que ele iria chegar ao fim e muito provavelmente iria ter pontos. E é isso que não está a acontecer esta temporada. Mais uma vez, devido a uma queda, Miguel Oliveira acabou por desistir. Muito provavelmente também não iria conquistar pontos, tendo em conta a posição que ocupava, mas ainda assim não deixa de ser um fim de semana péssimo, porque é a sexta vez que não consegue terminar uma corrida, que era algo que antigamente, pura e simplesmente não acontecia.
Muito bem. Vamos à citação do programa desta semana: "Estou de saco cheio mesmo." Abel Ferreira, depois da vitória do Palmeiras contra o Internacional, abrindo a porta à saída, apesar de estar à beira de voltar a ganhar o Brasileirão. Mariana, por que escolheste esta frase bem brasileira? Estou de saco cheio mesmo.
Sim, e não deixa de ser engraçado que é uma frase bem brasileira, numa conferência de imprensa dele, sublinhou e disse várias vezes: "Eu sou europeu, não sou brasileiro". E não deixa de ser engraçado, pois para explicar o que está a sentir, tenha usado essa expressão, que não é nada do português de Portugal, digamos assim. Portanto, resumindo isto tudo, o Palmeiras venceu até o Internacional por 3 x 0, reagiu bastante bem à derrota contra o Flamengo no Maracanã. Está agora na liderança do Brasileirão com mais dois pontos do que o Botafogo, que entretanto leva seis jogos seguidos sem ganhar, mas que também tem aqui menos um jogo. As contas estão muito em aberto e ainda está em terceiro lugar e a três pontos da liderança, o Red Bull Bragantino do Pedro Caixinha e também o Grêmio. As contas estão bastante em aberto, mas nesta altura o Palmeiras conta com esta vantagem e com o facto de seguir claramente numa fase mais positiva do que um Botafogo que está claramente em fase descendente. Ainda assim, e apesar de estar bem encaminhado para conquistar o Brasileirão pela segunda vez, o Abel volta a dar a ideia de que não está propriamente confortável e feliz no Brasil, não está propriamente confortável e feliz em São Paulo e teve este desabafo na conferência de imprensa, onde disse que são muitos jogos, muitas viagens, que todos os dias tem de decidir se vai a casa dormir com a família ou se fica no centro de treinos e que não é isso que quer para a própria vida. Ele já tinha deixado esta ideia da família, de achar que está a perder momentos da família e da vida familiar nos primeiros anos, principalmente no primeiro ano, quando não tinha a família com ele no Brasil. Entretanto, teve essa pequena conquista de ter a família consigo no Brasil, mas a verdade é que parece que não continua muito satisfeito com a forma como a própria vida ou o equilíbrio entre a vida pessoal e vida profissional está a acontecer. Nesta mesma conferência de imprensa, disse então que é europeu, não é brasileiro, isto numa forma de se atirar à comunicação social do país, diz que ali é tudo muito emocional e que está mais habituado a ser frio, que adquiriu essa capacidade também de ser frio, não só em Portugal, mas no tempo que passou no PAOK, na Grécia. E claro que já está a ser também criticado, com muitos jornalistas a dizerem que não volta para a Europa porque não tem clube à espera, com alguns a serem um pouco mais duros, a dizerem também que Abel na Europa não é ninguém. Não acredito que assim seja, até porque é preciso recordar que Abel, entretanto, neste período, conquistou não só o Brasileirão, mas duas Libertadores e que isso vale o que vale. Mas fica esta ideia de que mesmo num ano que provavelmente ou que está bem encaminhado para conquistar o Brasileirão, portanto, que em termos profissionais, mesmo que não tenha conseguido chegar tão longe na Libertadores como noutros anos, Abel Ferreira não parece estar bem ou não parece estar feliz com a sua vida pessoal e acho que isso em curto, médio prazo, vai acabar por ter influência no futuro também da carreira de Abel Ferreira no Brasil ou na saída do Brasil.
Bruno, queres dizer qualquer coisa?
Sim, queria dizer que embora o Palmeiras agora esteja na frente, não deixa de ser curioso também olhar para o caso do Botafogo, que eu imagino que se o Abel está de saco cheio, imagino o que é uma torcida que já não vê o Botafogo campeão há três décadas, ter 13 pontos de avanço e cada vez, todos os fins de semana, tem mais um insucesso. Perdeu 4 x 3 com o Palmeiras em casa, depois de ter estado a ganhar 3 x 0. Perdeu 4 x 3 com o Grêmio, depois de ter estado a ganhar 3 x 1. Agora conseguiu dar a volta com o Bragantino e voltou a consentir o empate nos descontos. Eu não sei mesmo quem é que está mais de saco cheio e por muitas queixas que o Abel possa ter, os adeptos do Botafogo, diria que estão bem mais de saco cheio, embora ainda possam ser campeões.
Muito bem. Vamos ao marco do programa desta semana. Portugal pode receber a cerimônia de abertura do Mundial 2030, Bruno.
Sim, isto é uma notícia importante a vários níveis. Ou seja, nesta altura aquilo que nós percebemos em relação à organização do Campeonato do Mundo 2030 é que está a ser jogado quase uma espécie de um puzzle. E quando uma peça fica fixa e quando tu não ganhas alguma coisa, automaticamente sabes que vais estar à frente na próxima decisão que seja tomada. E Portugal entrou um pouco nisto, ou seja, a FIFA decidiu que os jogos que vão ser realizados na América do Sul, portanto, no Uruguai, na Argentina e no Paraguai, vão ser realizados alguns dias antes da cerimônia de abertura e aquilo que vai existir no Uruguai, neste caso em Montevidéu, é uma espécie de cerimônia de comemoração do centenário do Campeonato do Mundo. Ou seja, entre Espanha, Portugal e Marrocos, ficará a cerimônia de abertura. Espanha está de fora da corrida, porque me parece cada vez mais claro que o Santiago Bernabéu vai receber a final do Campeonato do Mundo e, portanto, a cerimônia de abertura será ou para Portugal ou para Marrocos. E é aqui que Portugal fica sempre a ganhar numa situação de win-win. Por quê? Em condições normais, e apesar de haver a possibilidade de Portugal receber essa cerimônia de abertura, tudo aponta para que seja Marrocos a ficar com essa cerimônia, até pelo grande investimento que vão fazer com o novo estádio em Casablanca, na região de Ben Sliman, que é um estádio com capacidade para 113 mil pessoas, é o segundo maior estádio do mundo, só atrás daquele estádio de Pyongyang, na Coreia do Norte, que deve servir para imenso ter um estádio de 150 mil pessoas, mas a verdade é que eles têm e é o maior, e este será o segundo maior e o maior da África. Mas mesmo que Portugal perca a cerimônia de abertura para este novo estádio, automaticamente fica mais perto de garantir aquilo que é nesta altura a sua prioridade, que é uma das meias-finais ser no Estádio da Luz. E portanto, se Portugal já tinha mais ou menos a ideia de receber entre 13 a 15 jogos, que representa cerca de 15% daquilo que é o Campeonato do Mundo, esta notícia, qualquer que seja, seja para receber a cerimônia de abertura ou mesmo que não a receba, aproxima ainda mais essa possibilidade de receber no Estádio da Luz uma meia-final, o que é mais uma boa notícia para a federação e para a própria candidatura.
Muito bem. E a caminho do intervalo, vamos para o túnel. Vamos à pergunta à espera de resposta: podem existir, Bruno, consequências retiradas do que aconteceu na Assembleia Geral do Futebol Clube do Porto?
Sim, as consequências são óbvias. O Futebol Clube do Porto entrou numa nova era. Aquilo que nós temos visto, sobretudo depois daquela assembleia geral marcada pelas agressões e, sobretudo, mais do que as agressões, que é a fase mais visível, para a intimidação de qualquer pessoa que não fosse a favor de Pinto da Costa, que eu acho que é aquilo que está, nesta altura, no cerne da questão. Não mais a vida do Futebol Clube do Porto vai ser a mesma depois daquilo que aconteceu. Parece-me que haverá um particular cuidado para que todas as condições estejam reunidas para a próxima assembleia geral que se vai realizar no dia 20, que no fundo, é o seguimento desta mesma assembleia geral extraordinária para rever alguns pontos dos estatutos. Agora, aquilo que me parece é cada vez mais, até pela própria adesão que os sócios tiveram, que a hegemonia e a liderança de Pinto da Costa está em perigo. Não estou com isto a dizer que Pinto da Costa não poderá ir a eleições e não poderá ser, na mesma, o grande favorito a ganhar as eleições. Aquilo que me parece é que a adesão de quase 4000 pessoas para uma assembleia geral extraordinária, onde o único ponto era votar alterações de estatutos, mostra que está a haver uma viragem de paradigma no Futebol Clube do Porto, mostra que aquilo que se designava por minoria silenciosa, está a tornar-se cada vez mais uma maioria que tentam silenciar e isso depois poderá ter o seu impacto nas próximas eleições de 2024. Há uma certeza garantidamente que existe, que é, se é verdade que aquilo que André Vila Boas, aqui no Web Summit esta manhã, descreveu como guarda pretoriana, de tentar abafar tudo o que não seja Pinto da Costa, a única coisa que conseguiram fazer foi exatamente o contrário: é dar cada vez mais força e mais palco a uma minoria que se está a transformar, ou que se pode transformar, em maioria silenciosa, que nunca renega aquilo que Pinto da Costa fez pelo Futebol Clube do Porto, mas que considera que está na altura de haver uma viragem no clube. E por isso eu diria que aquilo que nós durante muitos anos assistimos, sobretudo no Sporting, mas também um pouco no Benfica, está a acontecer no Futebol Clube do Porto. E o mais caricato é, e por exemplo, ontem estava a pensar nisso, olhando para a redação do Observador, se calhar são poucas pessoas que se lembram de uma assembleia geral do Futebol Clube do Porto onde não fosse praticamente tudo unânime nas propostas que fossem apresentadas. Mas quatro décadas depois, esse paradigma parece-me que está a mudar e chegou para ficar.
Muito bem. Fica por aqui a primeira parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Na segunda parte vamos receber Joaquim Sérgio Pina, ele é o presidente da Federação Portuguesa de Judo. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola", para a conversa com Joaquim Sérgio Pina, presidente da Federação Portuguesa de Judo. Viva.
Viva, boa tarde.
Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Deixe-me começar por aqui. Portugal saiu dos Europeus de Judo de Montpellier com duas medalhas, a prata de Catarina Costa e o bronze de Patrícia Sampaio. Foi uma prestação que ficou abaixo daquilo que era esperado pela Federação?
Sabe que esta modalidade de judo, primeiro, tem muitas contingências, começa por um sorteio e começa pela particularidade de ocorrer a qualquer momento uma lesão. E da mesma forma que já houve campeonatos aonde fomos com as expectativas mais em baixo e houve melhores resultados, penso que neste Campeonato da Europa não se pode dizer que correu mal, correu bem. Teve a particularidade de uma lesão grave da Telma. Fomos disputar várias medalhas também. E, portanto, no cômputo geral, foi um Campeonato da Europa que não podemos dizer que foi mau, até pelo contrário.
O Jorge Fonseca cai no segundo combate dos menos 100 quilos, mantendo esta quase malapata com os europeus. Nunca conseguiu a medalha de ouro, ao contrário do que já aconteceu duas vezes em mundiais. Foi mais uma prova de que o Jorge ainda está a recuperar a confiança e o ritmo rumo aos Jogos Olímpicos, depois de um ano muito afetado por lesões.
O Jorge continua a ser afetado por essas lesões. De tal maneira que ele neste momento tem aquilo que vulgarmente a gente designa por um toque no joelho, o que eventualmente, a quase certeza, não vai permitir que ele participe em Tóquio, no Grande Slam. E portanto, mais uma vez, ele não estava nas melhores condições, mas são estas contingências. Tem estado debaixo de uma malapata de lesões atrás de lesões. Esperemos que este período não tão bom para ele termine e a preparação que ele tem e a dedicação que ele tem na sua vida como atleta seja motivo para que os resultados comecem a aparecer, o que eu estou convicto que sim, que vai acontecer.
Apesar de classificar estes Europeus como até positivos, de uma forma geral, queria perguntar-lhe se a maior desilusão foi mesmo aquela desqualificação da Rochelle Nunes, que acaba por ser eliminada aos 42 segundos do primeiro combate. Ela que tem duas medalhas em Europeus e que era, naturalmente, um dos nomes apontados a conquistar um pódio.
Só quem está no tapete e já viveu situações destas é que percebe. Por vezes são reações e posturas que no combate, sem querer, se me permite, a gente faz. E penso que foi aquilo que aconteceu com a Rochelle, porque dada a categoria da atleta de quem falamos, aquilo foi mesmo daqueles erros inconscientes, daqueles erros que acontecem e quem lá está sabe disso. Penso que a atleta não podemos criticar por isso, acho mesmo que não.
Como já abordou também, a Telma Monteiro sofre uma lesão grave no joelho logo no primeiro combate. Entretanto, o Benfica também já confirmou que terá de ser operada, portanto vai ter de cumprir uma recuperação longa, exigente, que pode chegar aqui aos seis meses. Aos 38 anos, com este obstáculo, a ideia de termos a Telma Monteiro nos Jogos Olímpicos de Paris ainda é uma visão realista ou começa a ser uma miragem um bocadinho mais alimentada pela esperança do que propriamente pelos factos?
Eu quero acreditar que não vai ser uma miragem, vai ser uma realidade. A lesão que a Telma teve é grave, tem uma extensão grave. Vai ser submetida esta semana já a uma cirurgia e vai ter uma recuperação longa. É óbvio que ela neste momento no ranking estará nos qualificados e vamos fazer força para que ainda consiga ser apurada para os Jogos de 24. Mas com certeza que vai ser um momento difícil de alguma expectativa, porque neste momento não há garantias de que a Telma poderá ser qualificada. Mas eu também creio numa coisa, se depender dela, eu tenho a certeza e a convicção plena que ela vai conseguir.
Tem falado com a Telma Monteiro?
Não tenho falado, tenho respeitado o isolamento que ela quer ter e que só quer falar, quer com a parte médica, quer com o treinador, e eu isso percebo e não posso levar a mal. Mas tenho-me informado sempre. Ainda falei com a fisioterapeuta, falei com a treinadora, com a Normita, e estou ao corrente daquilo que se passa. Quando as coisas acalmarem mais, com certeza que irei falar com a Telma. Mas sei e tenho a consciência plena da grande lesão. Sei também, dito pela fisio, que se a Telma não tivesse uma ligadura de contenção naquele joelho, então os danos eram muito bem maiores, dada a força com que o golpe foi feito. E neste momento tem uma lesão relativamente extensa em termos de ligamentos. Vai ter uma recuperação, mas eu estou convencido que se esta recuperação depender da força pessoal dela, eu não tenho dúvidas nenhumas que ela quanto antes está aí. Está aí depois nas competições, não tenho dúvidas disso. E farei toda a força e terei toda a vontade que ela participe, como é óbvio. Estamos a falar de uma atleta que irá participar nos sextos Jogos Olímpicos numa modalidade de desgaste como é o judo, o que seria um feito notável, como é óbvio.
Queria perguntar-lhe exatamente por aí. Ou seja, a ausência da Telma não é só desportiva, ou seja, a Telma não ir aos Jogos Olímpicos será também um golpe quase motivacional e pessoal para esta própria seleção de judo, que está habituada, obviamente, a ter na Telma Monteiro o seu papel, um papel quase crucial.
Sim, a Telma é aquilo que representa no judo nacional, como é óbvio. A Telma tem uma dedicação que toda a gente conhece e que houve aqui um período em que, quer queiramos, quer não, quando se falava de judo nacional, era quase uma equivalência falar no nome Telma Monteiro.
Claro.
Por outro lado, ainda bem que outros valores despontaram e outros valores já estão na calha para o futuro do judo nacional, mas todo um passado de uma atleta que é de referência não pode ser posto em causa. E a mim, neste momento, é óbvio que seria uma pena enorme não ver a Telma em Paris 2024. Isso confesso aqui que sim, teria muita pena disso.
O Joaquim foi eleito em abril e na sequência do processo de destituição de Jorge Fernandes, que esteve envolvido numa fase muito conturbada da modalidade em Portugal, uma fase também muito conturbada da própria federação. Perguntava-lhe se tem sido esse o principal obstáculo deste mandato, ou seja, deixar para trás essa fase menos boa, sendo que já integrava esta direção na condição de vice-presidente.
Sim, é óbvio que na sequência disso, houve aqui uma fase inicial de tentar voltar a ter paz, quer com as instituições que nos tutelam, quer dentro da modalidade. Essa foi a minha primeira preocupação, de tentar que as pessoas conseguissem se entender, conseguissem falar e conseguissem levar isto a bom porto. No entanto, tinha paralelamente uma mesma preocupação, que era para que os atletas que estavam envolvidos nos planos de preparação e de qualificação para os Jogos Olímpicos 2024 sofressem o mínimo de danos possível dentro da sua preparação. Até um dos grandes problemas teve a ver com parte destes atletas E depois, posto isto, há toda a gestão do calendário nacional e internacional que a Federação Portuguesa de Judo assumiu. E enquanto o dia tiver 24 horas, a gente tem que trabalhar e há dias em que as coisas correm bem, há outros dias que as coisas não correm tão bem. No entanto, também penso que quem já lida comigo, já trabalhou e com quem eu já falei, sente que houve uma mudança grande na forma de estar, na forma de tratar das coisas, e isso também me deixa algum contentamento e alguma motivação para que as coisas continuem. Mas essencialmente, nesta primeira fase, e ainda continua, há uma tentativa de apaziguar, de voltar a que as pessoas conversem, que as pessoas falem de judo e que a nível nacional se fale de judo, não porque o A está em guerra com o B, não porque houve este queixo, houve esta denúncia. Mas se quiser, nem que seja para falar de que o judo nacional, que os resultados não foram bons, ou que podiam ser melhores, ou que foram bons, mas que se fale de judo pelos resultados, pelos atletas, e não por estas vestiúnculas que não nos levam a lado nenhum.
Mas como é que estão as coisas agora? Ou seja, qual é a relação, neste momento, entre os atletas e a federação?
Eu penso que está uma relação normal. Não sinto que haja alguma animosidade entre os atletas e nós. Temos falado, temos tentado cumprir com aquilo que é o desejo deles e, portanto, não sinto que haja algum atrito. Pode normalmente, às vezes, eu também sinto, ainda alguns resquícios do passado, mas ainda nestas provas que houve dos campeonatos nacionais de seniores, de equipas, e este contacto que eu tenho tido com eles, não noto que haja grande animosidade por parte deles. Pelo menos, é esta a ideia com que eu tenho. É esta a ideia com que os contactos que eu tive durante este fim de semana no Campeonato Nacional de Equipas de Absolutos, não senti que houvesse alguma animosidade deles para com a minha pessoa.
Estas eleições de abril serviram apenas para eleger um novo presidente, ou seja, manteve-se a restante direção, os restantes órgãos sociais, e este mandato termina em 2024, depois dos Jogos Olímpicos de Paris. O Sérgio tenciona voltar a candidatar-se à presidência da Federação depois disso?
Em princípio, neste momento, serei um dos candidatos às eleições de 2024.
Um dos? Significa-
Um candidato. Desculpe, agora também não me-
Não se expressou bem.
Eu irei ser candidato em 2024. Pronto, para ser mais correto.
Com uma nova direção ou mantendo a atual direção?
Não, com ajustes que têm que ser feitos por limitações de mandatos, por alterações de funções, mas irei ser candidato a presidente da Federação Portuguesa de Judo para 24, 26.
Já tem uma prioridade estabelecida para esse possível mandato, 24, 26? Se ganhar as eleições, obviamente.
Se ganhar, claro, mas há toda esta preocupação que o judo se mantenha, se fizermos com resultados de relevo do ponto de vista internacional. E essencialmente, uma grande preocupação, porque voltamos a sentir isso, é que o judo tenha o seu sítio, tenha a sua casa onde possa treinar e possa trabalhar de uma forma melhor, e não naquelas instalações que temos dentro do Jamor. Aquelas que temos já foram melhoradas e os estágios e os treinos têm sido lá, mas com grande preocupação de termos umas instalações onde todos os estágios e os treinos da seleção nacional tenham melhores condições do que aquelas que têm hoje.
O Sérgio disse recentemente numa entrevista que este processo de destituição e depois o consequente momento eleitoral deixaram a federação com a corda na garganta, foi esta a expressão que usou, em termos financeiros. Perguntava-lhe, por um lado, como é que estão as coisas atualmente e se ficou ainda mais preocupado naquela altura da notícia do corte dos apoios da Santa Casa, que entretanto, como sabemos, foi revertido.
Pois, isso é uma grande incógnita que a gente tem. A gente sabe que foi revertido, não sabe é qual é o valor eventual dos apoios e se todas as federações irão ou não continuar com esses apoios. O grande problema quando assumi a presidência da federação tinha a ver com o fato de que os contratos-programa com o IPDJ não tinham sido feitos e a lei só permite o avanço de três duodécimos, e eles já tinham sido feitos. E portanto, houve aqui um período até junho, que foi um período grande de sufoco, até porque nós temos famílias, temos colaboradores que têm vencimentos e tínhamos que cumprir. E portanto, houve aqui um grande sufoco, se me permite. Diga.
Diga, ia falar sobre outro momento.
Estava a dizer que neste momento, depois da assembleia-geral e as contas serem aprovadas Até que as contas demoraram praticamente o triplo do tempo a serem revistas e aprovadas pelo revisor oficial de contas. Depois percebi por quê. Porque ia haver uma transição entre um presidente e outro e, portanto, elas tinham que ser analisadas até ao pormenor. E é óbvio, sem esta aprovação do relatório e contas, não se podia assinar o contrato do programa. Mas a partir que as coisas foram regularizadas, é óbvio, com aquele constrangimento financeiro que penso qualquer federação sente, nós temos conseguido levar o barco a bom porto.
A Santa Casa, Joaquim Sérgio Pina, é o patrocinador principal da Federação Portuguesa de Judo. Qual é o valor do apoio anual?
O valor do apoio dos Jogos Santa Casa era de 30 mil €.
90 mil?
Não, 30.
30 mil?
30 mil.
Isso representa que porcentagem do total do orçamento da federação?
É muito pouco. Acho que vai que é 2%. 1% ou 2%. Mas é daqueles valores que nós quando pouco temos, qualquer migalha nos faz falta. Nós temos mantido e temos mostrado sempre que temos feito aquilo que estava acordado. Em provas continua a haver toda a publicidade aos Jogos Santa Casa. Isso não foi pelo fato de termos sabido que eventualmente não ia haver esse apoio, que retirámos toda a publicidade aos Jogos Santa Casa e continuaremos, pelo menos até o final do ano, tendo a esperança de que o mais rapidamente possível se saiba como é que este apoio irá ser feito.
Muito bem. Joaquim Sérgio Pina, agradeço-lhe a disponibilidade para estar conosco no "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola".
De nada, eu é que agradeço. Muito obrigado pelo convite.
Quanto aos nossos ouvintes, podem ouvir o programa em podcast e também em observador.pt. Até para a semana.