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Na Rádio Observador já sabemos que nem tudo que vai à rede é bola. A edição desta semana é comigo, Miguel Cordaria, e também com Bruno Roseira, editor de desporto do Observador. No programa de hoje vamos conversar com Tomás Appleton, capitão da seleção portuguesa de rugby, seleção que nos encheu a todos de orgulho. A equipe saiu do Mundial de rugby, mas de cabeça erguida, um empate frente à Geórgia, uma vitória frente às Fiji e um par de ótimas exibições. É para ouvir na segunda parte. Primeiro, vamos aos destaques. Começamos. Bruno, boa tarde, com a figura.
Obrigatoriamente, a seleção de rugby. Havia aqui várias figuras, inclusivamente até o próprio Hazard, que decidiu agora aos 32 anos que estava na altura de ir beber umas cervejas. Deve ser a primeira vez que ele vai fazer isto. Agora nos últimos tempos do Real Madrid, garantidamente que não estava a fazer nada disso. Viramos para esta seleção de rugby, que acaba por ter a chave perfeita para um final feliz. Ou seja, quando nós olhamos para aquilo que foi o jogo, que até foi num domingo, num fim de semana marcado pelo jogo do Sporting à mesma hora, e o Futebol Clube do Porto também tinha jogado, ou seja, havia ali uma série de acontecimentos à mesma hora, mas nem por isso milhares de portugueses deixaram de seguir este jogo. E com tudo escrito quase por antecipação, ou seja, o fato de o Chico Fernandes ter feito um ensaio e acaba por ser uma das figuras, se calhar, mais acarinhadas desta seleção, até por ser também o mais velho. O Rodrigo Marta fazer aquele ensaio, ele há muitos jogos que estava à procura deste ensaio e conseguiu fazer o ensaio exatamente na altura certa. O Samuel Marques, que faz a conversão, que dá a vitória de Portugal contra Fiji, depois daquele início de Campeonato do Mundo, onde consegue aquele pontapé bater no poste, não é uma coisa propriamente muito normal no rugby contra Gales e ainda havia essa imagem. O Jerónimo Portela, que é um dos mais novos e que é filho também de um antigo lobo de 2007, a agarrar na bola depois do minuto 80 e atirar a bola sabe-se lá para onde, quase para confirmar a festa. Tudo aquilo parecia que estava escrito, parecia destino. Foi a melhor saída também do Patrice Lagisquet de selecionador nacional, um trabalho fabuloso também que ele foi fazendo. Uma despedida também em grande para o Mike Tadger, que também é outro daqueles elementos que nós vamos ficar. E Portugal, nesta altura, quando nós olhamos para o rugby, consegue a sua melhor participação de sempre, ou seja, ganhou a Fiji, empatou com a Geórgia num jogo que em condições normais até poderia ter ganho, ou seja, acaba por sofrer o ensaio do empate a um, dois minutos do final e até por erros próprios, e já podia até ter feito mais ensaios, porque a segunda parte foi demolidora. A derrota com Gales, Portugal não consegue ganhar o ponto extra defensivo em cima do minuto 80, só aí é que Gales consegue fazer o quarto ensaio. Há também o jogo da Austrália, que acaba por ter um resultado que não mostra propriamente aquilo que se passou em campo.
Até porque houve aquela expulsão quando Portugal estava em vantagem.
Sim, foi aqueles 10 minutos com o cartão amarelo do Betencourt. A Austrália faz três ensaios e praticamente resolve o jogo, porque quando nós olhamos para os outros 70 minutos, a Austrália, essa superpotência que até acabou por ser eliminada, não foi assim tão melhor do que Portugal. E portanto, quando nós partíamos para este campeonato no mundo, um bocadinho com aquela ambição de "vamos ver se conseguimos uma vitória com a Geórgia e isso já era quase o nosso campeonato do mundo, etc". A verdade é que saímos com seis pontos, saímos com a percepção que se calhar até poderíamos ter ido um bocadinho mais além, não digo puramente para os quartos-final, mas pelo menos com Gales e com a Austrália e com a Geórgia também, Portugal poderia ter conseguido um bocadinho mais. E agora a questão é perceber o que é que se vai fazer com todo este legado que se ganhou, ou seja, como é que se consegue capitalizar tudo aquilo que se ganhou em França. Ponto um, todas as federações pedem sempre o mesmo, mais dinheiro, mais investimento, melhor utilização de recursos. Agora, existe aqui também outra perspectiva, que é como capitalizar isto em termos humanos, ou seja, como é que se consegue agarrar nesta nova geração de miúdos. E eu tenho um em casa com sete anos e eu consegui perceber, ele começou a ver um jogo de rugby e como há um balão daqueles que ele joga, que é um bocadinho mais oval, cinco minutos depois já estava a fazer isso na sala. Ou seja, é tentar perceber como é que esta nova geração de miúdos consegue olhar para estes lobos e aquilo que conseguiram e aumentar o número de praticantes e também a competitividade que existe. Os próprios jogadores, como é que conseguem abrir portas lá fora, porque apesar de tudo, no rugby, por mais que isto seja complicado de explicar, jogar lá fora em termos de experiência e em termos de capacidade enquanto jogador, faz com que os jogadores subam o seu rendimento, ou seja, o campeonato nacional ainda não será propriamente a melhor coisa para isso. E depois também, como é que Portugal consegue capitalizar algo que no mundo do rugby não deixou de criar grande impacto, que é todos os jogos tinham praticamente lotação Quase toda portuguesa. Não digo toda porque-
Ser em França ajuda, não é?
O facto de ser em França também ajuda, mas percebeu-se que Portugal, não sendo aquela grande potência do rugby, tinha sempre o estádio do seu lado, levou muita gente, conseguiu impressionar muitas seleções que não conseguiam identificar tanta capacidade no jogo de Portugal. E agora é perceber o que é que se faz com este capital. Eu diria que não é só uma questão de agarrar em dinheiro e atirar para cima. Não acho que as coisas se resolvam assim. Acho que as coisas se resolvem com projetos sustentados, sobretudo, que consigam captar estas novas gerações para o rugby, para termos mais quantidade e melhor qualidade também de jogadores. Em relação ao mundial, e para sintetizar, é tudo muito simples. Os quartos-final vão ter duas finais antecipadas. De um lado, no sábado, Irlanda-Nova Zelândia, provavelmente quem sair daqui o vencedor vai à final. No domingo, França-África do Sul, provavelmente quem sair daqui vai à final. Estou sobretudo curioso com o França-África do Sul, porque normalmente os franceses a coisa corre mal quando começam a encher muito o balão e parece-me que o balão está demasiado cheio contra aquela que é nesta altura a campeã do mundo.
Vamos então à citação e a citação é a seguinte: "Só votaram 4% dos sócios elegíveis e desses 4%, 70% demonstraram que era a favor da mudança. Não foi suficiente, mas este assunto será revisitado." A frase é de Frederico Varandas, presidente do Sporting, depois do chumbo da proposta de introdução nos estatutos de voto eletrónico à distância.
Sim, a primeira situação daquilo que percebemos durante o fim de semana, este chumbo acabou por apanhar um bocadinho de surpresa as próprias pessoas do Sporting. Ou seja, não só à luz daquilo que tinham sido os resultados das últimas assembleias gerais, que não têm nada a ver com as assembleias gerais no início do primeiro mandato de Frederico Varandas, mas também pelo facto de ser um jogo de núcleos, ou seja, lá vêm os autocarros, vão ver o jogo, aproveitam, param no pavilhão e votam. Não se pode propriamente falar em caciquismo, como existe nos partidos políticos, porque havia um jogo de futebol, apesar de tudo, para disfarçar, mas a verdade é que até por aí e por norma, os núcleos votam a favor e neste caso, esta medida até poderia ser benéfica para os núcleos. Em 2019, 2020, a questão do e-voting já tinha sido levantada, não chegou a ser propriamente sufragada. Agora foi colocada a votação com uma nova nomenclatura, mas foi chumbada porque não conseguiu os 35%. Muito provavelmente, a direção do Sporting vai tentar novamente levar esta proposta a uma assembleia geral para tentar passar. Continuo a achar que quando a proposta chegar, e sobretudo depois dos 70%, eu diria que Frederico Varandas tem de olhar para os outros 10, 15%, que é a diferença entre o número de votos nesta proposta e o número de votos nas outras propostas, nomeadamente o relatório e contas e naquela venda do imóvel em Benavente e da própria Porta 7 para Cristiano Ronaldo. Parece-me que são esses 10% de diferença, é que Frederico Varandas tem de olhar e não tanto os 70% que votaram a favor, porque esses 10% acaba por ser um bocadinho a massa crítica de alguém que se desloca a uma assembleia geral para votar e diz: "Estes pontos, eu sou a favor, este ponto eu sou contra." Isso mostra massa crítica e mostra que também existem desvantagens no meio desta proposta, que muito provavelmente iremos falar nos próximos meses dela, porque muito provavelmente será também novamente sufragada.
Temos que acelerar um pouco e por causa disso vamos ao número, neste caso o três. E por falar em acelerar, vamos falar do número de títulos consecutivos de Verstappen num Grande Prêmio do Qatar, Grande Prêmio que esteve em destaque por outras razões.
Sim, este é fácil acelerar, porque o Verstappen, a única surpresa do fim de semana, além da conquista do campeonato, que era uma questão de tempo, de números e de matemática, foi o Piastri ter ganho a corrida sprint. Foi assim, de repente, a única novidade em tudo o resto. O Verstappen, já campeão, porque sagrou-se campeão nessa corrida sprint, ganhou também o Grande Prêmio do Qatar, a cinco corridas do final. É diametralmente oposto o cenário que nós vemos hoje com aquilo que víamos em 2021, ou seja, em Abu Dhabi, Verstappen consegue ser campeão depois daquela paragem, ainda hoje muito polêmica e com a Mercedes a protestar, etc. Hoje anda a passear-se por completo, ou seja, em 17 corridas ganha 14 e faz 16 pódios. Acho que contra isto não é preciso falar muito. É o melhor piloto, tem o melhor carro. Há muito que o foco de tensão está no top três, ou seja, se alguém consegue tirar Sérgio Pérez do segundo lugar, e Sérgio Pérez começa a ter os dias um bocadinho contados na Red Bull, e entre Alonso, Hamilton, eventualmente Sainz e Leclerc, quem é que consegue ficar também no pódio da geral. Agora, ainda assim, para mim, a grande nota do Qatar acaba por ser a realização de uma corrida em Lusail em outubro. Eu estive lá o ano passado durante o Campeonato do Mundo. O Campeonato do Mundo foi final de novembro, dezembro. Percebi o calor que ali estava. Explicaram que um mês antes estava muito pior. E quando eu leio as descrições dos pilotos que vomitaram no carro, que já não se aguentavam mais, que quando saíram do carro já tinham queimaduras, consigo perceber por completo que é um autêntico disparate fazer um Grande Prêmio do Qatar em outubro e acho que essa é a maior ilação que a FIA tem tirado este fim de semana.
Vamos ao Marco. Duas horas e 35 segundos. Novo recorde da maratona foi batido pelo queniano Calvin Kiptum, em Chicago.
Sim, a cidade do vento, que curiosamente praticamente não teve vento, ou seja, isso também ajudou este novo recorde da maratona. E não deixa de ser curioso, nós há cinco anos falássemos aqui na capacidade que alguém teria de correr uma maratona em duas horas, diríamos que era impossível É impossível. Quando percebemos o passo que é preciso ter e o ritmo que é preciso ter pra fazer 42,195 km em duas horas, é qualquer coisa quase não atingível pelos humanos. Afinal, é atingível, caiu por 35 segundos nesta nova marca que pertencia ao Kipchoge. O Kelvin Kiptum tem uma curiosidade, que é apenas a terceira maratona que faz e só tem 23 anos. Normalmente nós olhamos para os maratonistas, ainda à luz do Carlos Lopes, com 30 e muitos anos, que já fizeram o meio fundo, já fizeram o fundo, já passaram da pista pra estrada e depois começaram a fazer as maratonas. Neste caso em específico, é exatamente o contrário. Ele desde miúdo que viu outros corredores quenianos a treinar nas montanhas e também ia descalço atrás deles depois de cuidar das ovelhas e das cabras que tinha perto da sua casa. Agora, o mais curioso aqui são outros dois pontos, sem esquecer a história do grande herói, que é sempre o Kelvin Kiptum. Ponto um: a guerra Nike, Adidas, Puma, à procura dos, não posso dizer tênis, as melhores sapatilhas, o melhor calçado para fazer a maratona. Neste caso foi a Nike que ganhou, porque a Adidas tinha ganho há duas semanas quando a Tigst Assefa bateu o recorde da maratona feminina. E um outro ponto que é perceber o tempo em Chicago, de fato, estava bom, mas as lebres falharam nos quilômetros iniciais, o que atrasou bastante o ritmo do Kiptum. E quando nós percebemos que se as lebres não tivessem falhado, muito provavelmente ele não teria perdido ali 35 segundos. A questão de se correr uma maratona em menos de duas horas, eu acho que é uma questão de um ano, dois, e estaremos cá a falar nisso.
Muito bem, temos ainda cerca de minuto e meio. Vamos seguir pro túnel. Para este túnel temos uma pergunta que está à espera de resposta: os e-sports vão entrar nos Jogos Olímpicos como uma modalidade? E se sim, Bruno, quando?
Isto pode parecer uma coisa um bocadinho fora, mas era uma coisa que me estava um bocado a assustar, porque me parecia que podia ser já em 2028 a entrada dos e-sports como uma modalidade olímpica.
Jogada em todo o mundo é.
É jogada em todo o mundo. Eu estou a aceitar várias coisas em termos de Jogos Olímpicos, que é a competição que eu mais gosto. Estou mesmo já a aceitar as coisas todas e até já convivo bem com o fato de o breaking ser uma das modalidades em Paris. Já estou feliz. Eu acho que o e-sports é passar aquela barreira entre a atividade física e o estar sentado com o comando, com todo o respeito de quem gosta. E eu, quando preciso descontrair, também faço o mesmo. Quando nós olhamos para as modalidades colocadas no programa de Los Angeles, percebemos o breaking vai sair, vai em Paris e vai sair em 2028. Temos aqui outras modalidades que também não deixam muito a desejar. O flag football, não sei se tu conheces, é uma espécie de futebol americano, mas um bocadinho mais light, pelos vistos. O softball, o cricket, o squash, o lacrosse, que também nos Estados Unidos tem uma grande pegada. Há muita gente a praticar. Em Portugal, se calhar teríamos dificuldade a encontrar o número suficiente pra fazer uma equipe, que eu por acaso também não sei quantos é que são agora assim de cabeça. Mas aquilo que se percebe é: estas modalidades entroncam numa perspectiva mais global de é preciso captar as novas gerações para aquilo que são os Jogos Olímpicos. E é nesse sentido que os e-sports cada vez mais se vão aproximar. Não vai ser em 2028, porque não está no programa de modalidades experimentais. Parece-me cada vez mais natural, até pela abertura que o Comitê Olímpico Internacional tem mostrado, que em 2032 ou 2036 os e-sports comecem a entrar, porque a grande prioridade, até se calhar mais do que a parte desportiva, é captar novos públicos e as novas gerações. E é aí que os e-sports acabam por ter o seu peso.
Vamos ver o que o futuro nos dá em relação a isso. Fica por aqui a primeira parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola". Na segunda parte, vamos falar de rugby com o capitão da Seleção Nacional. Está aberta a segunda parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola". Nos próximos minutos, vamos conversar com Tomás Appleton, capitão da seleção portuguesa de rugby. Tomás, muito boa tarde. Obrigado por se juntar a nós. Bem-vindo à Rádio Observador e parabéns por essa prestação.
Olá, muito boa tarde. Muito obrigado.
Hoje é dia de regresso, mas é dia também ainda de falar deste trabalho que esta seleção conseguiu fazer. E queria começar precisamente por aí. Que impacto é que tem esta vitória frente a Fiji, a primeira de sempre da nossa seleção num campeonato do mundo, já depois desse empate frente à Geórgia e a coroar, de certa forma, esta que foi a melhor participação de sempre de Portugal e desses bons jogos já com Gales e Áustria. Que impacto é que teve esta vitória?
Eu acho que enquanto equipe, esta vitória tem um impacto brutal. A verdade é que nós arrancámos para este jogo muito confiantes e sabendo que queríamos ir buscar uma vitória neste jogo, mas a verdade é que acho que isto foi, como disse, o culminar aqui de uma excelente participação neste mundial. Tivemos aqui algumas dificuldades contra Gales e contra Austrália, mas acho que acabamos da melhor maneira contra as Fiji. Em relação ao impacto que isto vai ter O que nós queremos é que isto venha a construir muito da nova base do rugby em Portugal. Nós sabemos que isso vai ser um trabalho longo e o boom que, se calhar, não houve em 2007, quando Portugal já tinha participado no mundial, vai haver um novo boom agora, mas temos de aproveitar isso da melhor maneira, apesar de só vir a trazer frutos, se calhar, em alguns anos, nós queremos aproveitar esse embalo e agora pôr Portugal sempre presente em grandes palcos.
Olhando agora ainda para este jogo com Fiji, além de ser o último jogo do mundial, era também um encontro especial, porque era o último do selecionador Patrice Lagisquet, era também o último de alguns jogadores mais experientes. Perguntava se o fato de haver todos estes fatores também em jogo acabou quase por ser uma força extra para travar aquele que era o maior poderio de Fiji, que era o seu poderio físico, para depois, através do virtuosismo, também conseguir fazer os ensaios como aconteceram, sobretudo na segunda parte.
Claro, sim, sem dúvida. Eu acho que quando nós olhamos para este mundial, mas a verdade é que isto é um processo de quatro anos. Isto foram os últimos quatro anos de muito trabalho, muitos sacrifícios e nós encarámos muito isto. Obviamente que alguns jogadores iam deixar de jogar, o Patrice ia deixar de ser nosso treinador, e nós encarámos isto, se calhar, um bocadinho à maneira portuguesa de ser a nossa última hipótese de fazer história, a nossa última hipótese de agarrar a oportunidade. Portanto, sem dúvida que foi uma força extra para conseguirmos ganhar este jogo.
Portugal, em paralelo com esta vitória de Fiji, acaba também com uma seleção que consegue seis pontos, que consegue bater Fiji, que apesar de tudo está nos quartos de final e consegue eliminar a Austrália, e também como uma seleção que em todos os jogos tinha as bancadas sempre cheias e conseguia-se ouvir o hino, conseguia-se ouvir o apoio a Portugal e também com milhares e milhares de pessoas a acompanhar no próprio país. Aquilo que eu perguntava era se vocês aí na concentração tiveram noção do impacto que as vossas exibições e tudo aquilo que faziam em campo estava a ter também no país.
Eu acho que nós temos muita noção do que se passa aqui no estádio, mas a verdade é que nós já estamos há uns meses em França e eu acho que estamos aqui um bocadinho nesta bolha e temos pouca noção do que vai ser o rugby a partir de agora. Não temos ideia. Eu acho que hoje, quando chegarmos a Portugal, vamos ter, se calhar, uma boa noção do que construímos, do que fizemos, mas acho que era difícil ter a noção do que se passa realmente. Temos tido imenso apoio, a comunidade luso-francesa é enorme cá e o apoio tem sido fundamental. Milhares e milhares de portugueses a voarem de Portugal para nos vir apoiar, mas eu acho que o verdadeiro impacto ainda nos vamos aperceber disso mais à frente.
Há aqui uma frase que eu também retive a seguir ao jogo com a Austrália, que vem no jogo, também no seguimento daquele empate com a Geórgia, que é: "Nós já não nos contentamos com as vitórias morais, nós queremos mais". Perguntava se o facto de, mesmo sendo a melhor participação de sempre num campeonato do mundo de rugby, se esta acaba por ser a grande vitória, ou seja, os jogadores pela primeira vez terminarem e a dizer: "Não, nós não estamos contentes por termos conseguido fazer o jogo que fizemos com a Austrália, nós não estamos contentes porque queríamos mais também com Gales, e nós podemos competir com as melhores seleções do mundo".
Claro, eu acho que isso tem muito a ver com o ADN desta equipa. A ambição tem esta grande vantagem, mas também é um problema, que a ambição está constantemente a crescer e nós queremos sempre mais. Nós já nos tínhamos batido mesmo antes do mundial, nós já tínhamos feito jogos contra algumas seleções de tier one e top 10, e também foram jogos sempre muito renhidos, e nós sempre tivemos aquela ideia na cabeça de nós somos capazes, e nós vamos ter essa capacidade de ganhar um jogo, não sabemos quando é que vai aparecer. Falámos muito a seguir ao jogo com a Austrália e mesmo a seguir ao jogo contra a Geórgia, que vai haver um dia que isto vai ter de cair para o nosso lado, e a verdade é que isso aconteceu contra as Fiji. Mas uma das coisas que nós nos propusemos antes sequer do mundial começar foi todos os jogos que nós entrarmos, vamos entrar pra competir, vamos entrar pra ganhar. O resultado logo sai no fim, mas vamos sempre entrar pra dar tudo.
Surgiram, eu queria falar aqui de uma história que retirámos deste último jogo contra as Fiji. O selecionador da seleção de Fiji a passar pelo balneário de Portugal, deixar algumas lembranças. Isto não é comum ver em qualquer desporto. Como é que foi a vossa reação a esse momento? E se isto também mostra um pouco uma mudança de paradigma naquilo que é a maneira como as outras seleções veem também Portugal, porque a nossa seleção foi recebendo vários elogios da forma como se estavam a bater nesta competição.
Eu acho que obviamente que ser reconhecido é sempre uma coisa brutal e perceberem que o trabalho que nós andamos a fazer é valorizado, é sempre uma coisa que nós ficamos contentes com isso. O que fez o treinador das Fiji, obviamente que foi incrível, sabendo que é uma equipa que vai passar aos quartos de final, uma equipa com tanta história no rugby, que já tem construído tanta coisa ao longo do tempo. Ficamos, sem dúvida, muito contentes que tenham feito isso, mas a verdade é que o rugby acaba por ser um bocadinho isto, o rugby é um desporto um bocadinho diferente. Eu sou suspeito também para dizer isto, mas a verdade é que os valores do rugby acho que apontam para isso, e obviamente que ficamos contentes, mas não é nada de surpreendente ou que ficamos absolutamente chocados. É um bocadinho os valores do rugby a seguirem a sua ordem natural. E depois o que eu acho aqui é que em relação à maneira como as outras seleções e o resto do mundo têm encarado Portugal, eu acho que Portugal tinha de deixar de ser aquela equipa que vai marcar presença. Nós já vínhamos do Dubai, depois de termos conseguido o apuramento Naquele famoso jogo contra os Estados Unidos, no Dubai. Nós viemos dessa viagem a dizer: "Nós não vamos ao mundial só para cantar o hino, nós vamos para marcar presença, vamos para competir, vamos para ganhar". E acho que no final do dia conseguimos dar uma excelente amostra disso mesmo.
Olhando ainda para este mundial, mas a pensar também ou projetar já 2027 na Austrália, perguntava: como é que é possível seleções como Portugal, como o Uruguai, que apesar de tudo, também nos primeiros jogos teve uma boa prestação, como o Japão confirmou aquilo que tinha feito no último mundial, como é que estas seleções conseguem cada vez mais aproximarem-se dos principais pesos pesados da modalidade no atual modelo, ou seja, sem jogarem tantas vezes como se calhar gostariam. Como é que o Tomás consegue ver essa aproximação? Acha que os quadros competitivos, em termos internacionais, por exemplo, podiam ser reformulados para seleções como Portugal jogar mais vezes contra Gales, contra a Austrália e chegar a este campeonato do mundo e ser mais fácil para nós encarar o jogo?
Claro, eu acho que isso vai ser o caminho natural das coisas. Se o rugby quer ter este crescimento mundial, se o rugby se quer começar a expandir para estas seleções ditas mais pequenas e não ficar só fechado naquela bolha das seleções mais fortes, eu acho que o caminho é esse mesmo. Isto só para lhe dar um exemplo, nós nos últimos quatro anos fizemos um jogo contra uma equipa de top 10. E é difícil de repente chegarmos a um mundial e estarmos a jogar contra a Austrália e contra Gales e as nossas janelas de jogos internacionais não serem contra equipas suficientemente competitivas. Eu sei que muitas vezes existe uma discrepância grande entre as equipas que nós chamamos tier one e tier two, mas a verdade é que se não se tentar passar por cima disso e não se tentar equilibrar os pratos da balança, vai ser muito complicado. Portanto, eu revejo muito. No que disse, revejo que a nova reestruturação das janelas internacionais vai ter de existir e isso vai ser um dos caminhos para seleções como Portugal, como o Uruguai, como o Chile, como a Geórgia, como o Japão, para que cheguem mais longe. Vai ter de passar por aí, sem dúvida.
Olhando agora também para aquilo que vão ser os quartos de final, Portugal agora já vai estar só a apreciar aquilo que também é o rugby. Fala-se muito em duas finais antecipadas logo nos quartos-final: Irlanda-Nova Zelândia, França-África do Sul. O Tomás consegue identificar alguém que seja mais favorito a ganhar este campeonato do mundo? É desta que a França vai conseguir?
Eu acho que a França tem uma grande vantagem, que é o facto de estar a jogar em casa. Acho que, por outro lado, tiveram uma quebra grande quando o Antoine Dupont fez uma fratura do malar e isso pode ter trazido aqui algumas preocupações, mas neste momento diz-se que ele vai estar bem para jogar os quartos-final. Mas vamos ver. Mas sim, sem dúvida, a França é uma das favoritas. Eu acredito também que a Irlanda, neste momento número um no ranking mundial, joga o melhor rugby deste mundial, de longe. Mas, por outro lado, também temos uma África do Sul, atual campeã do mundo, numa excelente forma. A Nova Zelândia não começou bem, mas agora acabou a fase de grupos de uma forma brilhante. E eu, para ser sincero, acho que vão haver duas finais antecipadas e claramente um dos lados destes quartos-final é claramente mais forte do que o outro. Infelizmente, vão ficar algumas equipas muito boas pelo caminho, mas eu diria que este lado onde está a Irlanda, a África do Sul e França, acho que claramente é o lado mais forte.
Tomás, já falamos aqui muito do mundial, também da seleção, do coletivo. Falando aqui um pouco do Tomás, passou um ano em Inglaterra antes de voltar ao CDUL, que foi sempre o seu clube. Ainda esteve uns meses na Nova Zelândia. Existe um pouco a perceção de que em algumas modalidades para dar o salto é preciso ir lá para fora? Também é assim no rugby? Este mundial abre portas e o que é que tira também dessa que foi a sua experiência? Do que é que pode sair dessa análise quanto ao rugby?
Eu acho que o caminho, neste momento, e infelizmente ou felizmente, o caminho para qualquer jogador profissional em Portugal ou para qualquer jogador português que ambicione ser jogador profissional vai passar pelo estrangeiro. Infelizmente, Portugal ainda não tem uma estrutura suficientemente grande, suficientemente profissional, para conseguir jogar rugby ao mais alto nível e para se conseguir ser profissional de rugby. Mas acho que o caminho vai passar por aí, vai passar muito por lançar jogadores lá para fora. Nós começámos a fazer isto nos últimos anos, lançámos bastantes jogadores, principalmente nos últimos três, quatro anos, lançámos muitos jogadores para os campeonatos franceses. Mas ao mesmo tempo, acho que não pode haver só esse foco nos jogadores a desenvolverem-se nos estrangeiros. Acho que vai ter de haver um foco brutal no desenvolvimento do rugby português, numa melhoria do campeonato nacional e vai ter de ser este equilíbrio que vai continuar a trazer e a alimentar jogadores para as seleções nacionais, porque se Portugal continuar dependente só de jogadores nos campeonatos estrangeiros, vai sempre ter aqui algumas limitações. Portanto, eu acho que tem de ser uma coisa equilibrada no desenvolvimento, tanto em Portugal, como em jogadores no estrangeiro. Depois, falando se calhar um bocadinho mais de mim, eu tive a minha experiência profissional. Ainda bem que a fiz, mas entretanto, mais uma vez, eu neste momento sou jogador amador. Na altura, era jogador profissional, mas tive que parar a faculdade a meio para ir jogar para Inglaterra e são aqui precisos alguns sacrifícios para uma pessoa pensar numa carreira profissional. Acho que agora este mundial vai voltar a abrir N portas. Acho que todos os jogadores da seleção vão ter portas abertas para jogar rugby profissional. Falando dos que ainda não o jogam, vamos também desenvolver aqui uma franquia Profissional em Portugal, que já existia, mas agora vai ter um ênfase ainda maior, que são os Lusitanos. Mas acho que o caminho do rugby é este.
O Tomás, tal como muitos jogadores da seleção, chega ao rugby também por influência familiar, neste caso, do irmão mais velho. Temos também o Storti, que não era bem família, mas o Jerónimo era muito amigo dele e também o convenceu. Mas no caso do Tomás, não se pode dizer que propriamente tenha sido um amor à primeira vista, porque a primeira experiência não correu bem. Aquilo que eu perguntava era: o que mudou durante seis meses para dar uma segunda oportunidade ao rugby, que entretanto acabou por tornar-se aquilo que é hoje para o Tomás?
Eu acho que cativar miúdos num desporto complexo, como é o rugby, e num desporto que tem alguns contactos físicos, muitas vezes não é fácil. E acho que o meu primeiro impacto pode não ter sido a coisa mais positiva sempre, mas eu acho que depois também fui percebendo, especialmente pelo meu irmão, que ele gostava tanto daquilo e aquilo fazia tanto sentido para ele, que para mim não fazia sentido nenhum não dar uma segunda oportunidade. E a verdade é que dei essa segunda oportunidade e o rugby tem vindo a moldar-me para a vida e hoje em dia não sei o que eu era de mim, se não tivesse o rugby na minha vida.
Mas entre este percurso ligado ao rugby, também licenciou-se em Medicina Dentária, há um mestrado em Espanha, continua depois a fazer pós-graduações na área e está a fazer mais um curso de Medicina, mais esta atividade toda no rugby, participações em mundiais. Como é que se concilia tudo isto?
Eu acho que às vezes pergunto também isso a mim mesmo. Mas eu acho que é tentar fazer uma boa gestão, especialmente uma muito boa gestão de tempo. Obviamente que tirei a minha licenciatura, fiz todo o meu percurso académico, mas, por outro lado, também tenho a sorte de, no trabalho, conseguir ter alguma gestão de horário e marcação de consultas, cirurgias, etc., que me permitem jogar rugby ao mais alto nível. A verdade é que nós nos últimos quatro meses estivemos 100% focados no rugby, para a preparação deste mundial. Mas a verdade é que ao longo dos anos isto não foi uma coisa que tenha caído toda de repente na minha vida. Eu jogo rugby desde os seis anos e estou na alta competição há 14. Desde os 16 anos que eu comecei a integrar as seleções jovens, etc., e todas as academias. E fui fazendo o meu percurso sempre tudo muito certinho, entre escola e o rugby, depois na altura da faculdade, entre o rugby e depois foi uma coisa que foi crescendo, e eu fui tentando gerir tudo da melhor maneira e acho que o resultado, no fim do dia, foi positivo.
O Tomás já disse em outras entrevistas que gostaria de ir até ao mundial de 2027, depois gostaria de ser centenário pela seleção, que é também algo emblemático e só há dois exemplos em Portugal, que depois quase que tirava dois, três anos para compensar a família também por todo o tempo que entretanto não consegue estar em casa. Pergunto-lhe, dentro deste contexto, o que é que espera do mundial 2027 para sair em grande? O que é que era um bom resultado para Portugal?
Essa é uma pergunta que não é fácil, mas eu acho que Portugal tem de aprender a ser ambicioso. Acho que Portugal tem de aprender a querer mais e obviamente que saímos super orgulhosos desta prestação, mas nós pensámos também muito nisto em relação a 2007. Portanto, nós o que podemos querer daqui para frente vai ser mais e se conseguirmos um resultado tão bom neste mundial, eu acho que passar aos quartos-de-final seria mesmo uma ambição ideal para 2027.
E é essa ambição que queremos. Tomás Appleton, muito obrigado por ter estado connosco aqui neste "Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola". Desejo uma boa viagem, também um bom momento de regresso. Esperemos que seja um momento emblemático também o momento de regresso logo ao final do dia. Tomás Appleton, capitão da seleção portuguesa de rugby. Termina assim este "Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola". Daqui a pouco já pode ser ouvido em podcast em observador.pt.