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Não se fala de outra coisa. Foi ontem, mas é guardar os óculos do eclipse numa gaveta sem estragar e saber onde estão, porque vamos precisar deles. Às vezes guardamos as coisas e não sabemos onde estão.
A minha gaveta está sempre lá em casa.
Não guardo bem demais. Quando guardo bem demais, nunca sei onde guardei. "Vou guardar aqui."
Não pode ser. Eles têm que estar à mão, porque os próximos meses vão ser igualmente intensos. O Sol, a Terra e a Lua vão andar a brincar muitas vezes. Incrível. Nem sempre vamos precisar dos óculos, porque alguns fenômenos vão acontecer à noite com a Lua. Nem sempre será em Portugal, por isso, se lhe tomámos o gosto ontem, podemos coordenar as nossas férias para ir para sítios onde a visibilidade vai ser mais interessante. E isto é já no dia 28 de agosto.
Está já aí à porta.
Não falta nada. Não são precisos óculos para este. Desta vez, daqui a pouco, a Terra fica entre o Sol e a Lua e vai projetar a sombra da Terra sobre a Lua. O resultado é um eclipse parcial da Lua, que é bastante visível em Portugal. E o que é bom, para simplificar, a Lua poderá ficar vermelha.
Com aquela cor mais vermelha.
28 de agosto.
28 de agosto. E a NASA diz que a Europa vai ser uma das regiões de maior visibilidade. Por isso, é ficar atento nesse dia.
E esfregar as mãos. Estamos com muita sorte.
Boa notícia. Não é preciso óculos. Quem não conseguiu comprar os óculos. Sim, é noturno.
Mas é uma sexta-feira.
É uma sexta-feira.
Esperemos que seja de sexta para sábado e não de sábado para domingo.
E não de quinta para sexta.
Quem estiver de férias.
Claro, certas pessoas vão estar de férias no dia 26.
Eu percebi, ou então não percebi.
Depois, só vamos ter um fenômeno digno desse nome no dia 6 de fevereiro do próximo ano. O primeiro eclipse solar vai ser completamente diferente. A Lua volta a passar entre a Terra e o Sol. E vamos assistir a um fenômeno conhecido como um anel de fogo, em que vamos poder ver aquela zona de fronteira mais vermelha. No entanto, Portugal não vai estar num dos locais mais privilegiados. A Madeira e uma parte do Sul podem apanhar um bocadinho, mas em território português não vai ser preciso. E este é um dos casos em que os óculos nunca podem ser retirados. É um fenômeno que pode ser muito perigoso.
Porque a coroa de limite vai ser mais intensa.
Exatamente.
Isso também acontece porque ontem ouvi a explicação de um especialista. A Lua, nessa altura, em fevereiro, está mais longe da Terra e não tapa tanto. Quanto mais próxima estiver, mais capacidade tem para tapar o Sol. Não tapa tanto o Sol.
Fantástico. Vamos todos aprender muito com isto. Estamos a falar de 6 de fevereiro. Pouco depois, de 20 para 21 de fevereiro de 2027, vai acontecer um fenômeno muito interessante. O eclipse pode acontecer à frente do nosso nariz e nós podemos até não dar por ele. Chama-se um eclipse penumbral da Lua e a própria NASA diz que estes fenômenos são tão subtis que quem não souber o que está a acontecer pode nem se aperceber. Depois, já estamos no verão, 18 de julho, temos um quase eclipse. É uma extravagância astronômica que merece estar no calendário, precisamente por ser o oposto de todos os espetáculos que o rodeiam. A Lua passa extraordinariamente perto da extremidade da penumbra terrestre. É um encontro muito tangencial e por isso é assim.
Passa ali batendo.
Toque e foge.
Faz um toque e foge. Depois, dia 2 de agosto, já estamos quase a fazer aqui um ano no nosso calendário, temos outro eclipse total que passa mesmo ao lado de Portugal. A Lua volta a estar diretamente à frente do Sol. Desta vez, a geometria é mais favorável do que aquela de ontem. E podemos assistir a um eclipse durante seis minutos e 23 segundos. Só que não cá, no Egito.
Olhe! Que ideia.
É a tomar. Será um dos eclipses totais mais longos do século XXI.
Onde é que é esse, Carla?
Onde é que é?
Quando?
2 de agosto.
2027.
Já está até marcado férias.
2027.
Estou a ver viagens. Isto eu vou marcar voo para o Egito.
E-mail para os recursos humanos para reservar férias para essa semana.
Dá para escolher, dá para pensar nisso. A faixa da totalidade do eclipse começa no Atlântico, atravessa o Estreito de Gibraltar, acompanha o norte de África, passa pelo Egito, lá está onde teremos mais de seis minutos de eclipse, cruza o mar Vermelho e depois segue para a Arábia Saudita, Iémen, extremo nordeste da Somália, até terminar no Índico. Na Europa, a totalidade só vai ser visível em Espanha, Ceuta e Melilha, quase toda a província de Cádiz. Mas o Egito pode ser mais interessante.
Mais interessante.
Grande parte da província de Málaga e também os estreitos de Granada e Almeria. Portugal fica imediatamente a norte do espetáculo. Não vai ser tão incrível, mas aqui mesmo ao lado, para quem lhe tomou o gosto de ontem, os óculos arrumadinhos, sem riscos, podem fazer muita falta agora nos próximos dias.
Ponha naquela gaveta e depois ponha um lembrete no telemóvel a dizer: "Guardei os óculos na gaveta do armário".
Um lembrete para estas datas. Na véspera destas datas.
Imensos post-its.
Muito bem. Só para fechar o assunto, e os animais, como é que se comportaram? No Jardim Zoológico de Lisboa ficaram aparentemente indiferentes ao eclipse, mantiveram as rotinas e os comportamentos habituais. E por quê? Porque de facto o eclipse na zona de Lisboa não escureceu de uma forma que pudesse alterar comportamentos.
Houve uma grande mudança no tom da luz.
Os mais distraídos, os que não sabiam do eclipse, provavelmente acharam: "Está nublado agora. Porque é que ficou nublado?"
"Tenho que ir tirar a roupa do estendal."
"Está a chover."
Isso mesmo. Os especialistas diziam que podia haver alguns comportamentos alterados, animais diurnos que iam apaziguar, isto é, iam terminar antes da hora a sua atividade normal, diminuir a atividade, e os noturnos com o eclipse podiam começar a sua atividade. Mas a Lusa conta-nos que por volta das 19h30 no Zoológico de Lisboa, era possível ver uma leoa que parecia estar a preparar-se para ser fotografada. E outros dois, um macho e uma fêmea, mantiveram-se quietos. Foi possível ouvir até o leão a rugir tranquilamente. De resto, a maioria dos animais mantiveram a sua atividade. Não houve nervosismo.
Nem ninguém olhou a pensar: "Está na hora da caminha". "O dia está mais curto."
Exatamente, já começa a noite a ser mais cedo.