Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Não sei se gostam de dormir quando andam de avião. Eu não consigo.
Não é gostar, é conseguir ou não conseguir.
Eu não consigo.
Não consigo.
Não consigo desligar. Eu tenho sido daquelas pessoas que mal entra o avião, ainda não levantou voo, já estão a dormir.
Nas viagens mais curtas, nem dá tempo, mas nas mais longas.
Então e se forem os pilotos a fazer uma sesta? Peço-vos bem.
Desde que o piloto automático não adormecesse.
Não pensem que há só um ou outro que o faz, que esta é uma exceção. O Sindicato Alemão de Pilotos de Aviação fez um inquérito a mais de 900 pilotos nas últimas semanas e 93% deles admitiu ter feito umas sestas durante os voos nos últimos meses. Claro que alertou que a pesquisa não era representativa, mas reparem nos números: 12% tiravam uma soneca em todos os voos, 44% faziam-no regularmente, 33% tiravam uma soneca ocasionalmente, 3% só teriam feito uma única sesta nos últimos meses e 7% perderam a conta, a frequência com que passavam pelas brasas. A vice-presidente deste sindicato, que representa 10 mil pilotos, e não só, trabalhadores de cabine, estagiários, diz que dormitar há muito que se tornou quase uma norma nas cabines alemãs. As sestas curtinhas sempre foram permitidas, mas nem todos o faziam porque simplesmente não precisavam. Por que há então mais gente a fazê-lo? Porque falta pessoal, há mais pressão operacional. Tudo isto piorou a situação dos pilotos, principalmente durante estes meses de verão, em que o número de voos sobe significativamente. Para sossegar quem vai hoje voar numa companhia alemã, o sindicato definiu que estas sestas são fases de descanso controladas durante a fase do voo, por isso, está tudo sob controle, não há perigo do avião cair ou alguma coisa do gênero, só porque o piloto decidiu dormir uma sestinha.
Às vezes é melhor dormir.
São controladas. Pois, exatamente.
Todos nós sabemos que às vezes 10 minutos ajudam a ganhar depois muito mais.
Eu não consigo. Fico cheia de dor de cabeça. Adorava ser aquelas pessoas que dormem uma horinha e acordam o power nap.
Há umas sestas que são horríveis.
Eu consigo, fico com dor de cabeça, mas deve ser da velhice também.
Não, eu acho que as sestas mais longas provocam esses efeitos. Não é só as dores de cabeça.
Eu não encontrei a duração certa.
É acordares e sentires completamente fora.
Sim, totalmente. Já é de manhã, mas não é de manhã, porque nós acordamos é de noite e, portanto, sei que não é de manhã.
Mas uma sestinha de 20 minutos.
Tu fazes?
Às vezes faço. Quando são mais longas, de facto, fico nesse estado catatônico.
É a tua idade. Vocês estão muito acabados.
Sim, Carla.
És uma jovem, fizeste ontem 44.
Foi. Não, isso é para o ano. Bom, do avião para os comboios, esta história não tem graça nenhuma, mas se passaram ontem, e acho que todos nós olhámos para isso, 40 anos sobre o maior desastre ferroviário do país, em Alcafache, foi a 11 de setembro de 1985. O interessante quando se leem as reportagens sobre esse dia e os dias que se seguiram, era como o país era tão diferente em termos tecnológicos e em termos de recursos. Tudo era muito diferente. Não se sabe, 40 anos depois, ao certo quantas pessoas é que morreram, porque não havia, por exemplo, uma lista de passageiros. Não se sabia quantas pessoas seguiam nos dois comboios que chegaram e os processos de identificação eram também completamente diferentes e muito menores. Estamos a falar num comboio, no serviço regional, estariam entre 30 a 40 passageiros. Não se sabe mais. No Sud Express, o número era maior, mas também era incerto, seriam entre 200 a 350 passageiros. O que aconteceu foi que os restos mortais foram confundidos com os destroços. Enfim, é quase macabro falar da forma como tudo isto aconteceu. O número oficial que foi a julgamento, porque houve funcionários da CP que foram a julgamento, o número que foi tido em conta na altura do julgamento foi 49, mas o balanço mais ou menos consensual aponta para 150 mortos. Como é que eles se identificaram? Na altura, só era possível através de impressões digitais. Ora, quando falamos de corpos carbonizados ou mutilados, isso ficou impossível. Para além disso, a identificação com impressões digitais só era possível através da base de dados civil do país. Isto significa que só funcionava para pessoas com nacionalidade portuguesa. Ora, muitos dos passageiros eram imigrantes e alguns deles até podiam já ter filhos nascidos em França e que por isso não faziam parte da base de dados portuguesa. Interessante, e disso eu não me recordo, apesar de já ser gente na altura do acidente, este julgamento do desastre de Moimenta-Alcafache resultou na absolvição dos funcionários do Tribunal de Mangualde, porque concluiu que houve uma falha humana, mas que não foi possível provar a autoria específica. O que foi mais dramático neste acidente é que os funcionários das estações sabiam que ia acontecer, sabiam que ia haver uma colisão, mas como os comboios estavam em circulação, não havia comunicações com as máquinas. Não havia, e por isso não havia nada a fazer a não ser esperar pela tragédia, o que é completamente tenebroso e coloca, de facto, este país, este Portugal, muito distante daquilo que é hoje em dia. Eles começaram a ver uma coluna de fumo a erguer-se na zona de Alcafache, e foi aí que perceberam que tinham chocado. Eram 18h37 quando isto aconteceu.
Eu do julgamento não me lembro, era miúdo. Lembro-me perfeitamente do acidente, dos dias seguintes, de muito que se falou e de como o nome de Alcafache ficou sempre associado a uma ideia de terror e de tragédia. A impressão causada no espírito de uma criança, eu tinha sete anos na altura, era essa. Alcafache era sinônimo de algo terrível. Ainda ontem passaram uma reportagem, creio que na TVI, sobre o acidente e falaram com o senhor que perdeu o pai e a irmã no acidente, mas os corpos nunca foram encontrados, nunca foram recuperados. E também isso para as famílias é doloroso, para além da perda, a impossibilidade de fazerem o luto, de fazerem um enterro que lhes trouxesse também esse fechar, esse encerrar daquela dor, isso também teve um grande impacto em muitas famílias. Não foi uma ou duas, foram muitas famílias.
Em muitas. Ontem em reportagens, há pessoas, familiares das vítimas, ou elas próprias vítimas, que ainda choram, ainda se emocionam 40 anos depois a falar deste acidente.
Houve uma coisa positiva, apesar do número de mortos, que foi de facto a alteração depois aos sistemas de segurança, porque aquilo resulta de um problema do próprio sistema.