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Temos mais uma polêmica a envolver opiniões sobre Israel. É verdade. Agora coube ao cabe Andrea Bocelli, o famoso tenor italiano que tem dois concertos marcados pra Indonésia, um amanhã e o outro no dia três. Em princípio, ele vai mesmo atuar, mas com muita polêmica por causa do apoio que ele tem manifestado a Israel. Apoio antigo, nomeadamente um concerto, o mais recente em 2022, em Tel Aviv, e também uma campanha de angariação de fundos para as Forças de Defesa de Israel em 2010. O que aconteceu? O Conselho Indonésio dos Ulemas, que é a mais alta autoridade religiosa do país, esteve reunida e opôs-se claramente à realização destes dois espetáculos. Pediram mesmo que fossem cancelados, porque dizem que vão contra os valores que o país defende e muito claramente dizem: "O governo deve agir de forma coerente e unida na rejeição de qualquer tipo de atividade que envolva figuras que apoiem o sionismo". E dizem mais: "Os sionistas são imperialistas, assassinos sádicos e destruidores da soberania e da humanidade, e não se deve dar espaço a financiar assassinos dos habitantes de Gaza e da Palestina". Para termos aqui algum contexto, a Indonésia é o país de maioria muçulmana mais populoso do mundo, tem sido uma das vozes mais ativas em defesa dos direitos dos palestinianos contra Israel. Aliás, não tem relações diplomáticas com Israel e a opinião deste conselho é muito importante no país. Ora, esta entidade reuniu-se com o Ministério do Turismo, e estamos aqui a falar, de facto, da importância turística que este evento poderá ter. Eles reuniram-se para tentar chegar a um consenso. O governo deu a entender que ia alinhar com a posição dos religiosos, mas a verdade é que os concertos devem mesmo acontecer. A promotora de Andrea Bocelli diz que a decisão de manter estes espetáculos foi tomada em conjunto com o governo e dizem que há aqui uma mensagem de paz que os concertos querem trazer. Querem também angariar fundos para ajudar crianças que vivem em contexto de guerra, nomeadamente as afetadas pelo conflito em Gaza. É mais um caso, se nos recordarmos, nós ainda não há muito tempo tivemos uma situação equiparável com o espetáculo de Jerry Seinfeld, que aconteceu ontem.
Foi ontem.
Ah, pois, ninguém deu por nada. Foi muito polêmico antes, mas depois ninguém deu por nada. Vamos ver. O concerto de Andrea Bocelli. O primeiro é já amanhã, outro na próxima semana, na Indonésia, com polêmica.
Muito bem. Olha, vamos olhar aqui para o acidente ferroviário em Espanha. À medida que o tempo passa, vão sendo conhecidos detalhes daquilo que terá acontecido, mas também começamos a olhar para algumas das vítimas. Estamos com cerca de 70 vítimas mortais.
Sim, 79 é o número oficial.
79, oficial. Vamos conhecendo alguns nomes e histórias que estão por trás desse número. Um deles é o do maquinista do comboio que embateu. Ele ali ao comando do comboio de alta velocidade, tentou evitar ainda o pior. Os dados mostram que foi puxado o travão de emergência, tentativa de reduzir a velocidade no limite do tempo, mas o impacto era inevitável. O gesto terá atenuado a tragédia, terá salvado, eventualmente, algumas vidas, além daquelas que se perderam e, no entanto, perdeu a sua. Ele chamava-se António Acedo Menezes, tinha 36 anos, era maquinista. Tinha também uma paixão grande pela fotografia, era um militante dos comboios e morreu no mesmo lugar onde sempre viveu as suas grandes paixões ao comando dos carrils. Ele nasceu em 90, na região de Madrid, onde cresceu. E para ele, o mundo dos comboios nunca foi uma profissão qualquer, foi uma herança de família. O pai trabalhava como maquinista da Renfe, que é a empresa pública espanhola de ferrovia. O avô já era eletricista nessa mesma empresa ferroviária. E António cresceu, de facto, entre viagens, entre carrils, entre estações. No fundo, seguindo as pisadas também do pai e do avô. Em 2012, ele decidiu honrar então essa tradição familiar, fez a formação técnica necessária, mudou-se para Barcelona, começou a conduzir comboios de passageiros, no fundo, a realizar um sonho de pequeno. No entanto, o seu olhar ia muito além do painel de controle dos comboios e dos carrils que estavam à sua frente. Desde pequeno que sentia o fascínio por velhas fotografias e negativos que havia por lá guardados em casa. Em 2010, entrou para uma escola de arte e mais tarde decidiu estudar História e Geografia na cabine de condução. No fundo, ele foi unindo a profissão à criação artística. Com câmera fotográfica na mão, começou a registrar o cotidiano das viagens de comboio que ele fazia. Criou projetos marcantes como a vida de maquinista e paisagens a partir do comboio. Olhava para as linhas, para as plataformas, para o horizonte, sempre com a atenção, com o olho treinado do fotógrafo.
Claro.
E na sua página pessoal deixou uma frase escrita que resumia toda a sua visão. Diz ele que a beleza é passageira, passageira no comboio. Para ele, a arte era precisamente essa, capturar aquele instante fugaz através da janela, antes dessa paisagem desaparecer para sempre. Ele olhava para as pessoas, para a sociedade, tinha um forte sentido de cidadania também, era um militante ativo do Partido de Esquerda Espanhola. Aproveitou o conhecimento do dia a dia para ajudar a escrever o programa do partido para o setor de transportes, que ele conhecia bem, pelo menos nesta parte da ferrovia. Conhecia bem também as carências deste setor. Alertava muitas vezes para a falta de financiamento, para a falta de manutenção, para o abandono, se quisermos, de algumas infraestruturas públicas. E os seus colegas, companheiros, lembram agora um homem que dizem que era excepcional, bom, amável, prudente, profundamente generoso. E neste acidente, ele reagiu, os dados indicam isso, de facto, com a coragem de quem tenta travar ali a tragédia que ele próprio percebeu nos últimos segundos de vida, tentando a travagem que foi impossível. Um perfil dos muitos que se vão sabendo agora. Este talvez dos mais dramáticos, deve ter sido a pessoa que melhor se apercebeu, ou a única, talvez, que melhor se apercebeu, ou que se apercebeu do que ia acontecer, da gravidade do que ia acontecer.
E que não pode fazer nada.
Não pode fazer nada.
O pouco que fez não foi suficiente.
Não foi suficiente.