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Se fala de outra coisa, lembrou-se do Tamagotchi. Os vossos filhos tiveram?
Os filhos?
Tu tiveste. Os filhos? Isto é anos 90. Que idade tinhas?
Eu não tive.
Tinha filhos nos anos 90, aqui neste- Pois não.
Quando os meus nasceram-
Foi no final dos anos 90.
Era 30 anos, é isso?
Sim.
É 30 anos.
Sim, 30 anos.
Em 96 eu tinha 17 anos.
Nós não somos assim tão velhos, João.
Eu tinha 17.
Então, mas vocês tiveram?
Eu não tive.
Desculpem, eu às vezes abstraio-me para vocês e penso em mim. Eu ainda estou a reagir a esta suspeita do João, de que eu tinha filhos nos anos 90. Desculpem. Magueei.
Que eu saiba, não.
E vocês tinham ou não tinham? Não.
Não tinha, mas conhecia pessoas.
Aquilo era quase mítico. Era um mito urbano.
Era muito falado.
Está a celebrar quase 30 anos e as vendas continuam a subir, ou melhor, voltaram a subir. Lembram-se? Tinham que ser alimentados, animaizinhos, pôr para dormir. Eles voltam a cativar os mais jovens que gostam de diversões retro. Agora está tudo a voltar.
Vinil.
Mas não é só os jovens. Há também pais nostálgicos com o seu próprio Tamagotchi. Segundo a fabricante, desde o lançamento, foram vendidos mais de 100 milhões destes ovos de plástico com ecrãs, que já vai na 37ª versão, portanto, já há 37 modelos diferentes de Tamagotchi.
Agora sim, faz sentido que os pais tenham tido Tamagotchis há 30 anos.
Pois é isso.
Não, agora, que eles estão a ser pais pela primeira vez agora.
Há dias, numa exposição em Tóquio, apresentaram a evolução do Tamagotchi ao longo destes 30 anos, desde os bonequinhos de pixels a preto e branco, agora ecrãs a cores, ligação Wi-Fi. Sim, agora é tudo muito moderno. Esses não conheço. Mas se calhar perdeu o encanto. Eu também tinha uma consola Tetris que agora já não encontro em lado nenhum.
E se encontrares, não deve ser nada barata.
Não deve ser nada barata. O ano passado, a conhecida cadeia britânica de brinquedos, a Hamleys, incluiu o Tamagotchi na lista dos 100 melhores brinquedos de sempre, ao lado de Legos, o cubo de Rubik. Estava lá o Tamagotchi também. O cubo mágico. Sim, o cubo mágico. São vendidos em cerca de 50 países, mas quase metade das vendas foram no Japão. 33% no continente americano e apenas 2% noutros países da Ásia-Pacífico. Na altura, foi considerado um brinquedo revolucionário. Era viciante ao ponto de ser proibido nas salas de aulas. Porque as pessoas interrompiam o que tinham a fazer para dar de comer ao Tamagotchi. Para pôr o Tamagotchi, para o Tamagotchi não morria. Agora está de volta com uma imagem renovada e novos adeptos, que vão não só dos mais jovens aos mais cotas, como nós.
Nós, exatamente. Eu lembro-me muito bem daquele jogo.
Nós, a ver se conseguimos ser da revolta.
Estavas a falar do Tetris. O Tetris era extraordinariamente viciante.
Pois era.
E uma pessoa até sonhava com as peças a cair.
É como o Solitário também. Aquilo é terrível. O Solitário.
Isso eu agora redescobri no ginásio, o Solitário.
Quando estás nas máquinas.
Quando estou na passadeira é outro.
Por falar em Solitário. É outro sinal dos tempos, uma aplicação que está a ser um enorme sucesso na China, sobretudo entre os jovens que vivem sozinhos. E o que é que tem esta aplicação? Serve para provar que se está vivo.
E estar vivo é o contrário de estar morto.
Chama-se "Are You Dead?" Portanto, estás morto. E a ideia é muito básica, é mesmo esta. E aliás, a aplicação é só isto, é um botão verde no ecrã do telemóvel. De dois em dois dias faço um check-in, se está vivo, carrego esse botão verde. Mas é de jovens, isso devia ser para nós. Pois, mas isso também é surpreendente. Isto está a acontecer porque há cada vez mais jovens a viverem sozinhos. É um sinal de que está tudo bem. É um sinal de que está tudo bem. Aqui a lógica é: de dois em dois dias fazes tu o check-in, estou vivo. Se não houver uma resposta em 48 horas, desencadeia-se todo um aviso de contacto de emergência, que é nomeado pelo utilizador. Aquela coisa que nós tínhamos nas agendas de papel em caso de acidente, contactar.
Sim.
Agendas de papel que não andam connosco de coisa. Que não andam connosco. Não servem de nada, estão em casa.
Eu tenho.
Tens? Eu também tenho. Eu tenho agenda de papel.
Todos os anos. Aqui está a de 2025, podem ver. Os nossos ouvintes não podem ver, mas está aqui.
Agenda excluída.
Mas eu já tenho a de 2026. Muitas vezes não consulto, depois baralho muito.
E às vezes passam uns dias. Também me acontece, mas eu preciso visualmente ter ali o papel. Ora, o que é que está a acontecer na China? Aquilo que era o país mais populoso do mundo há tanto tempo, neste momento, os agregados unipessoais, portanto, as pessoas que vivem sozinhas, estão a aumentar de tal forma que se estima que em 2030, não falta muito para 2030, podem ser 200 milhões os agregados familiares só de uma pessoa. Há uma mudança demográfica, cultural, social enorme, e há cada vez mais pessoas que ficam preocupadas com esta ideia: e se eu morrer, quem é que vai dar por isso? O que é estranhíssimo, é o sinal dos tempos, mas lá está. E cá pensamos nisso, mas associamos mais a quem está mais velho. Aos mais velhos também. Há quem pense também na China que isso pode ser útil também para os mais velhos, sobretudo para aqueles que estão nas zonas rurais, em que os familiares mais novos estão a mudar para as cidades. Pode ser também útil. De resto, a tecnologia está a encontrar outros tipos de soluções. Esta da aplicação é uma delas, mas há, por exemplo, isto em todo o mundo, há monitores instalados em frigoríficos ou em televisões que detetam a falta de uma utilização regular e enviam alertas aos familiares. Aqui a tecnologia pode efetivamente ajudar, mas estamos a viver e estamos todos cada vez mais sozinhos. A app chama-se "Are You Dead?" "Are You Dead?"
Estás ou não?
Estou.