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Sejam bem-vindos ao "Nota 20". No programa de hoje vamos falar sobre motivação. A motivação é determinante para um bom desempenho escolar. "Nota 20" é um programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Olá, professor Nuno Crato.
Ora viva, aqui estamos de novo.
Professor, muito motivado para o programa de hoje?
Motivadíssimo.
Vamos a isso. Começamos, como sempre, com a pergunta que colocamos aos nossos ouvintes no Twitter: é a motivação que determina o desempenho dos alunos? 82% respondeu sim. É mesmo, professor Nuno Crato?
Nós temos hoje uma especialista que nos vai falar sobre isso. Mas deixe-me fazer algumas considerações preliminares antes de entrarmos propriamente nessa discussão. É uma coisa muito difundida, a ideia está extremamente difundida. O que é preciso é motivar os alunos. Se motivarmos os alunos, eles vão ter sucesso. Certamente, pensa-se que tudo depende da motivação. Não é completamente verdade. Eu não estou a dizer que não se deva motivar os alunos, mas deve-se fazer muito mais do que isso. E a ideia de que tudo depende da motivação pode mesmo ser perigosa. Para isso é que nós temos aqui, hoje, uma especialista, psicóloga, que nos vai falar sobre estudos recentes que foram feitos nesse sentido e que ela própria reporta num artigo escrito para a Iniciativa Educação, em que difunde uma série de novidades, e outras que não são tão novas, sobre o problema da motivação. O que é que a ciência nos diz sobre a motivação?
Muito bem, vamos então receber a nossa convidada, Ludmila Nunes, investigadora em Psicologia Educativa, escritora científica para a Association for Psychological Science. Ludmila, obrigado por estar conosco nesta edição do "Nota 20".
Olá a todos, obrigada.
Ludmila, os alunos mais motivados são os que têm melhores notas ou isto é um disparate?
Não é um disparate completo, mas não é verdade. Ou seja, a motivação não é o mais importante.
Então o que é mais importante no percurso escolar de um jovem?
É uma base sólida de conhecimentos e há um estudo recente, deste ano, que mostrou exatamente isso, que a motivação pode ajudar, mas não torna o aluno melhor. Aquilo que faz diferença é se o aluno tem uma base sólida de conhecimentos ou não. Nesse caso, a motivação pode ajudar esse aluno a ser melhor do que um aluno que não esteja motivado, mas por si só não é aquilo que vai causar um bom desempenho.
O professor há pouco falava numa ideia muito difundida que há por aí, de que a motivação é essencial e até nalguns casos é determinante para os jovens terem um bom desempenho acadêmico. Diga, professor.
Não, deixe-me colocar isso de maneira um bocadinho mais relativa e vamos ver o que a nossa convidada nos tem a dizer sobre isso. Há uma ideia de que tudo depende do gosto. Se o aluno gostar, então aprende. E há uma ideia contrária que diz: "Depende do conhecimento, o aluno não pode gostar daquilo que não conhece. E o aluno gosta daquilo em que tem sucesso. Portanto, estarmos pura e simplesmente a tentar despertar o gosto do aluno por um assunto que não conhece, pode até ser frustrante. Portanto, é importante que as duas coisas vão em paralelo, ou seja, não só o gosto motiva a aprendizagem, como a aprendizagem ajuda o gosto. Eu julgo que é preciso sempre andar em paralelo com essas duas coisas, mas vamos ver o que a ciência mais recente nos diz sobre isso.
Ludmila Nunes, o que nos diz a ciência?
Sim, a ciência já nos dizia há algum tempo que para motivar é preciso haver um nível ideal de interesse e também de dificuldade. Ou seja, as coisas não podem ser muito simples, mas têm de ser simples o suficiente para os alunos sentirem que têm competência. Mas no estudo que eu estava a referir, que é um estudo bastante recente, em que foram testados cerca de 3 mil alunos do sétimo ao 12º ano, alunos americanos, aquilo que se verificou foi que alunos que se sentiam mais motivados, ou seja, por fazerem as suas tarefas, os seus trabalhos de casa, também alunos que eram mais motivados através do envolvimento da família, ou alunos que tinham uma conduta mais ordeira, conseguiam regular melhor os seus sentimentos, no fundo não mostraram vantagens se não tinham já uma base de conhecimentos sólida. Portanto, aquilo que parece ser mais importante é dar aos alunos as ferramentas para que eles depois possam estar motivados e conseguirem, de facto, aprender. Ou seja, se de facto a motivação ajuda ou não, vai depender muito da definição de motivação.
E em que situações é que a motivação pode ajudar?
Há uma teoria que é a teoria da autodeterminação, uma teoria dos anos 80 de Deci e Ryan, em que motivação é vista como a satisfação de três necessidades básicas: a necessidade do sentido de pertença, a necessidade da autonomia e a necessidade de competência. E esta parte, a necessidade de competência, eu sinto que é aquilo que às vezes falha na nossa definição de motivação. Ou seja, em situação escolar, o aluno tem que sentir que é competente o suficiente para atingir os objetivos E para isso é necessário ter uma base de conhecimentos sólida.
Portanto, está mais associado à ideia de competência do que à ideia de gosto, que falava há pouco o professor Nuno Crato.
Sim, eu diria que sim. Claro que é importante que os alunos tenham algum interesse para darem aquele passo inicial para aprender, mas depois, se não tiverem as ferramentas necessárias para de fato aprender alguma coisa, aí temos um problema.
Temos um problema e pode ser frustrante para os jovens estarem muito motivados e não conseguirem progredir, muito motivados pra leitura e não conseguirem ler, deve ser de uma frustração imensa. Portanto, por isso é que é preciso sempre estar a ajudá-los a progredir no seu próprio conhecimento, no domínio das diversas ferramentas, julgo eu. Agora, pelo que eu percebi, a Ludimila, esse artigo que está a citar, vai ainda mais longe e diz que, em certas alturas, só a motivação pode prejudicar alguns alunos em detrimento de outros. Eu não percebi muito bem essa ideia. Se a Ludimila pudesse explicar, seria bom.
Sim, o estudo não procurou responder exatamente por que isto acontecia, mas aquilo que se verificou neste estudo foi que alunos que tinham o menor desempenho escolar, tinham pior desempenho, mas que estavam muito motivados, se não tinham essa base de conhecimento sólida que eu referi há pouco, muitas vezes acabavam por ter piores resultados até do que alunos que tinham menores conhecimentos e não estavam tão motivados. Portanto, houve casos em que estar motivado prejudicou o aluno. E apesar do artigo não nos dizer por quê, porque não era esse o seu objetivo, podemos inferir que talvez tivesse a ver com essa frustração, porque se tivermos alguém que está muito motivado pra ter um bom desempenho ou que acredita que vai ter um bom desempenho, dado o seu interesse, dado o seu esforço, e depois, de fato, não consegue atingir os objetivos, isso pode ser muito frustrante e revelar-se depois nas notas finais.
E acaba por ser também contraproducente, como dizia o professor Nuno Crato.
Sim.
Essa parte, pra mim, é um pouco surpreendente, mas é importante conhecê-la. Agora deixem-me dar um exemplo pessoal e até um bocadinho caricato. Eu estudei piano. Estudei piano durante bastante tempo e sou péssimo no piano, mas eu adoro piano. Eu sou péssimo, hoje nem me aproximo de um piano, porque tenho vergonha de mim próprio. Mas há aqui um contraste entre música, adoro música, e depois uma incapacidade para tocar alguma coisa de jeito. Isso pra mim é um bocadinho frustrante. Será esse o sentimento que alguns jovens podem ter e o que se pode fazer em relação a isso? Ou o que se deve fazer?
Eu diria que pode ser esse o sentimento. Neste artigo, nós não sabemos exatamente o que é que causa a motivação, às vezes, prejudicar os alunos. Porque pode ser essa frustração, que o professor falava, mas também pode ser um excesso de autoconfiança. Porque há vários estudos que têm mostrado, muitas vezes, os alunos estão muito interessados e estão muito motivados a aprender, por exemplo, com um determinado material. O Jeff Karpicke e eu fizemos algumas experiências com vídeos educativos e o que acontecia era que os alunos estavam mais interessados em aprender com o vídeo do que em ler um texto sobre exatamente o mesmo tema, e depois achavam que tinham aprendido muito após terem visto o vídeo. Mas quando faziam um teste, o seu desempenho era exatamente o mesmo se tivessem lido um texto. E o que isto pode fazer é que o aluno deixe de estudar antes de estar preparado. Portanto, isso também pode ser o efeito desta motivação em excesso.
Pode ser confundida com excesso de autoconfiança, ou pelo menos uma ilusão. Na verdade, acaba por ser uma ilusão.
É uma ilusão de aprendizagem.
Agravado, diria eu, talvez, peço desculpa, professor. Ou seja, a pergunta de outra maneira: este contexto de utilização massiva de novas tecnologias pode agravar essa ilusão, uma vez que em muitos casos o conteúdo chega aos jovens de forma já mastigada, sintetizada?
Sim, há alguns estudos que mostram esse efeito e pode não ter a ver só com a informação que está sintetizada, mas mesmo com o meio visual, com o vídeo.
Que é mais imediato, não é?
Exato. Mas muitas vezes o que os vídeos fazem, os vídeos educativos ou programas em que o conceito de jogo e gamificação entra pra criação do programa, por vezes, estes conteúdos não exigem uma aprendizagem ativa, mas, dito isso, o aluno está no papel passivo, apenas a receber informação e não a interagir com a informação. Depende como é que plataformas são construídas, porque as características de jogos podem ser utilizadas pra envolver o aluno e de fato providenciarem uma melhor aprendizagem, se tiverem mapeadas com aquilo que depois é requerido em termos de avaliação, mas também podem ter o efeito contrário.
O professor Nuno Crato há pouco interrompeu, ia dizer?
Não, está tudo bem. Eu ia talvez falar outra vez de uma história pessoal.
Vamos lá.
Mas não sei, ia perguntar à Ludimila em que medida que isto pode acontecer. Há aqueles momentos de epifania nas vidas das pessoas. Um dos meus momentos foi este que eu vou relatar em seguida. Eu costumo dar uma cadeira de econometria, que é uma cadeira bastante técnica Muita fórmula, muita matemática, muita estatística, etc. Mas costumo também dar uma aula que é mais cultural, que é uma aula do gênero: como é que apareceram os mínimos quadrados? Como é que esta descoberta ou que esta criação matemática foi importante para a astronomia e para o estudo da sociedade, etc.? E uma vez dei essa aula, disse: "Hoje não vamos falar de matéria no sentido estrito, mas vou vos explicar como é que tudo isso nasceu". Dei a aula, cheguei ao fim e há uma aluna que vem ter comigo e que me diz: "Professor, se as aulas fossem todas assim, nós aprendíamos mais". E eu fiquei a pensar assim: "Bem, mas esta aula não se aprendeu nada, aprendeu-se história, aprendeu-se de cultura, mas exatamente sobre aquilo não se aprendeu. Ou seja, não haverá a ilusão da parte da aluna, neste caso concreto, de que este tema diferente, que era um tema mais ligeiro, mais cultural, que este tema diferente, por ela ter gostado mais, poderia aprender mais. Mas nós não podemos fazer sempre aulas assim. Temos que fazer aulas em que também aparecem umas fórmulas e que escrevemos no quadro x, x quadrado, etc." Enfim, uma experiência pessoal, mas para mim foi um momento de revelação, de pensar que incentivar os alunos, tentar dar-lhes interesse pela matéria, explicar-lhes o contexto é muito importante, mas não chega. E se todas as aulas fossem assim, seria uma frustração no fim do ano, porque essa aluna e todos os outros de certeza reprovariam, de certeza não teriam aprendido o essencial daquela disciplina.
Ia saber-
Hoje estou a falar muito.
Ia saber a origem de todas as fórmulas matemáticas, mas não as conheceria.
Não as conhecia.
Ludmila, estamos quase no final do nosso tempo. Esta ideia de que a motivação é muito determinante para um bom desempenho, ou aliás, ao contrário, esta ideia de que a motivação não é determinante para um bom desempenho acadêmico, ela é consensual ou não?
Eu penso que não. Penso que na área da psicologia é mais consensual, há mais essa ideia, e há a ideia de como definimos, como operacionalizamos motivação. E se para esta operacionalização incluímos a ideia de competência, aí sim, acaba por ser não determinante, mas muito importante. Depois, quando falamos em motivação, por exemplo, se um aluno está motivado porque tem medo das consequências de não ter bom desempenho ou porque está à espera de uma recompensa por ter bom desempenho, aí sabemos que não ajuda assim muito. Em educação, eu penso que há ainda a ideia de que a motivação é muito importante e é mesmo determinante. Eu gostava só de realçar que nós aqui não estamos a dizer que a motivação não é importante, que não devemos motivar os alunos, que não devemos apresentar o conteúdo de forma interessante, que não devemos ter em consideração aquilo que os alunos preferem. Pelo contrário, devemos tentar fazer todas estas coisas, mas antes disso, é muito importante que consigamos dar aos alunos as bases de conhecimento.
Portanto, é isso.
Mais importante, é isso que vai ser determinante para o seu desempenho e não quão motivados estão.
Diga, professor.
Agora, uma ideia também que eu fiquei curioso da leitura deste artigo da Ludmila, que já está disponível no site da Iniciativa Educação. A ideia que eu achei curiosa é que as próprias desigualdades, como agora se diz, agora tudo aquilo que se fala é desigualdades. As próprias desigualdades podem aumentar, a motivação pode aumentar as próprias desigualdades. O que isto quer dizer, se eu percebi bem? É que motivar os alunos pode funcionar para uns, para aqueles que já sabem alguma coisa, e não funcionar para outros. Eu não percebi exatamente, não sei, talvez fosse interessante a Ludmila explicar um bocadinho isto.
Sim, é exatamente esta ideia de a motivação não é determinante, ajuda, mas ajuda quando já existem conhecimentos. Portanto, alunos que já são bons alunos, se forem motivados, vão beneficiar bastante dessa motivação. Mas os alunos que têm um pior desempenho à partida, se forem motivados, podem ver o seu desempenho sofrer ainda mais com essa motivação. Isto é o efeito Mateus, e há várias intervenções educativas que causam esta maximização das diferenças entre bons e maus alunos. E são intervenções que se nós olharmos para as médias, parecem eficazes, porque em média o desempenho aumenta, mas no fundo, são intervenções que estão a aumentar as diferenças entre bons e maus alunos e que não ajudam todos os alunos igualmente.
Muito bem. Ludmila Nunes, agradeço-lhe imenso ter estado no Nota 20 esta semana. Muito obrigado.
Eu é que agradeço.
Professor Nuno Crato, vamos ao resumo da matéria dada.
Eu acho que eu resumiria isto em duas palavras: encorajamento, sim, mas com acompanhamento da aprendizagem. Acho que é preciso fazer as duas coisas. É preciso encorajar os alunos, mas os alunos não podem ser encorajados no vazio. Temos que acompanhá-los e temos que os fazer progredir em termos dos conhecimentos e das capacidades que eles estão a desenvolver. E que se uma coisa se ajudar à outra, nós teremos sucesso. É o que me parece que se tira essencialmente daqui, mas nada como ler o artigo original no site da Iniciativa Educação.
Na verdade, e agora corrija-me se estou enganado, é dar substância à motivação. É isso? Mais ou menos.
Sim. Ou seja, motivação vazia pode mesmo ser prejudicial.
Muito bem.
Encorajar no vazio pode mesmo ser prejudicial. É preciso encorajar, mas acompanhar.
Professor, estamos de regresso daqui a oito dias. Boa semana, até lá.
Boa semana, até lá.