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Bem-vindos ao Nota 20 desta semana, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação. Professor Nuno Crato, viva.

Viva, como está?

No programa de hoje, vamos ajudar os professores a desenvolver estratégias para prepararem boas aulas online e perceber quais os benefícios da educação online. Vamos fazê-lo com a ajuda da investigadora Ludmila Nunes, que se vai juntar a este Nota 20 a partir dos Estados Unidos. Mas antes vamos aos resultados da sondagem. Foi perguntado aos nossos ouvintes: qual a duração ideal das aulas online? Uma aula de 50 minutos ou duas aulas de 15 minutos? 61% respondeu uma aula de 50 minutos. Professor Nuno Crato, foi uma resposta conservadora. Ficou surpreendido com a escolha dos nossos ouvintes?

Fiquei, talvez, um pouco surpreendido, sim. Acho uma resposta natural. Eu estive a ver os comentários que estão no Twitter e achei comentários interessantes, porque de facto a pergunta estava feita de tal forma que era um bocadinho difícil decidir, porque são 15 minutos duas vezes ou 50 minutos, que é mais tempo. Mas a ideia que estava aqui subjacente é que às vezes vale a pena concentrar as atividades em pequenos espaços de tempo, de forma direta, concentrada, e intervalar essas atividades. E, portanto, eu responderia que mais valem duas vezes 15 minutos do que uma vez 50 minutos. Mas também, como alguns comentadores disseram no Twitter, depende das matérias, depende de uma série de coisas. Eu acho que isto é interessante. E deixe-me falar aqui de uma técnica muito conhecida, sobretudo no mundo da gestão, que é a técnica do Pomodoro. Foi uma técnica inventada por um estudante italiano. Pomodoro quer dizer tomate em italiano. Ele estava-se a referir àqueles relógios, àqueles despertadores que existem de cozinha, que antigamente tinham a forma de um tomate, que se rodavam para ao fim de 25 minutos dar o alarme e dizer: "Pronto, já está cozido, vamos lá buscar isso". Ele quando estudava, estudava exatamente assim. Ele punha 25 minutos, estudava 25 minutos muito concentrado, depois parava, descansava um bocadinho, depois concentrava-se outra vez outros 25 minutos. E de facto, eu julgo que a nossa psicóloga de hoje, a Ludmila, muito bem-vinda, vai falar um pouco sobre isto, que é a vantagem de concentração e ao mesmo tempo do espaçamento, de poder ir intervalando as coisas.

Muito bem, vamos ao sumário do programa de hoje: que recursos e estratégias devem ser adotados para tornar a educação online mais eficiente e que benefícios podem advir de uma educação à distância. A investigadora Ludmila Nunes é a convidada do Nota 20 desta semana. Começou a estudar psicologia por acaso. Na hora de escolher o curso nos formulários de acesso ao ensino superior, entregou a sorte a uma amiga, ficou colocada em psicologia e nunca mais parou de estudar a mente humana. É escritora científica para a Association for Psychological Science dos Estados Unidos, é doutorada em psicologia pela Universidade de Lisboa e desenvolveu investigação na área de memória humana e aprendizagem em diversas universidades. E deu ainda aulas nos Estados Unidos e foi revisora para várias publicações científicas. Ludmila Nunes, bem-vinda ao Nota 20 desta semana.

Olá, obrigada.

Vamos começar pelo desafio que estes tempos colocaram aos professores e aos alunos. Que estratégias devem os docentes adotar, agora que estão a converter as aulas presenciais em aulas online?

Sim. As estratégias básicas não são assim tão diferentes daquelas estratégias que os professores já devem adotar numa sala de aula mais tradicional. Como Clark em 2001 disse, e muito bem, não são os meios que importam, são as estratégias em si. E, portanto, há uma série de estratégias que a investigação em psicologia cognitiva, a investigação em educação, já nos mostraram que funcionam e são estratégias que funcionam tanto em aulas tradicionais como em aulas online, foram demonstradas em laboratórios, portanto, em meios mais controlados, como em meios mais aplicados.

Qual é essa estratégia? Temos muitos professores a ouvir-nos que querem já tomar notas sobre aquilo que a Ludmila tem para dizer.

A mais básica de todas e mais falada é a prática de recuperação, ou seja, testar os conhecimentos e tornar a testar os conhecimentos. Não estamos a falar de testes para avaliação, estamos a falar de testes que ajudam os alunos a de facto consolidar a aprendizagem que fizeram. Portanto, incluir vários episódios de teste nestes ambientes online, nas aulas online, é extremamente importante. E é muito importante que os alunos recebam feedback após estes testes. Não é apenas fazer o teste só por si, mas é importante que esteja preparado uma explicação daquilo que está certo ou errado.

Ludmila, posso fazer uma pergunta agora? Eu ouvi dizer, ou li algures num estudo vosso, que há uma espécie de tempo ideal para isso, ou seja, que o feedback não deve ser dado imediatamente, deve ser esperado algum tempo. O que se sabe sobre isso?

Que o feedback deve ser dado imediatamente, não deve ser muito espaçado no tempo. Ele permite que os alunos se lembrem da resposta que deram e façam um acesso imediato, consigam avaliar imediatamente aquilo que tinham errado ou não. Se o feedback é muito espaçado, a possibilidade de dar feedback espaçado é quando se apresenta a resposta do aluno de novo. Ou seja, eles têm a sua resposta e têm o feedback, mas mesmo assim, o ideal é dar um feedback imediatamente, se possível.

Muito bem.

Portanto, no fundo, é fazer o que se faz em rádio ou na vida normal, que é sempre manter o nível da atenção do outro em níveis altos. É isso, Ludmila?

Sim, os testes ajudam a manter a atenção e ajudam a quebrar um pouco a rotina do aluno que está em casa apenas a olhar para uma aula gravada, mesmo que seja em tempo real, ajuda a diversificar a experiência do aluno e a atenção, e provavelmente evitará que o aluno vá navegar na internet, ver outros conteúdos, se disperse com tudo o que está em casa ao seu dispor. Portanto, diversificar estas atividades ajuda a manter a atenção, cognitivamente, sim.

Em relação ao tempo de duração das aulas, elas devem ter os clássicos 50 minutos, como no ensino presencial, ou não?

A resposta aqui eu diria que é bastante clara e é não.

Não devem ter 50 minutos?

Não. Depende das matérias, obviamente. Não se recomenda quebrar este tópico que estamos a tentar ensinar de uma forma que não faz sentido nenhum. Mas a ideia, e a investigação aqui é bastante clara, é que períodos de ensino mais curtos fazem com que os alunos mantenham a atenção durante esse período de ensino, portanto, consigam de facto codificar toda a informação que é esperada que aprendam. E também ajuda os alunos a manter a atenção e a conseguirem melhor avaliar aquilo que estão a aprender. Portanto, há várias investigações que mostraram que períodos mais curtos de aprendizagem são melhores. E além disso, usando períodos mais curtos de aula, ajuda a que se consiga intercalar as matérias. Portanto, a investigação mostrou também que não é ideal. Eu vou dar um exemplo muito simples. Se um aluno está a estudar contas de dividir, não deve fazer 20 problemas de contas de dividir e depois passar a 20 problemas de contas de multiplicar. Será muito mais benéfico se fizer cinco contas de dividir, cinco de multiplicar, e por aí fora. Não é reduzir o tempo total de aprendizagem, mas é conseguir intercalar e haver estas quebras no tipo de problemas que estão a ser tratados.

E qual é a vantagem dessas quebras? É obrigar a pensar mais ou é outro estímulo?

Pode-se dizer que é obrigar a pensar mais, mas tem muito a ver, e isto é especialmente quando se está a fazer exercícios num determinado tópico, às contas começa a ser automático e eles tornam-se cada vez mais fáceis. E a ideia é que nós devemos manter um nível desejável de dificuldade dos exercícios que os alunos fazem. Isto quer dizer que não devem ser demasiado difíceis, mas que é necessário alguma dificuldade para haver aprendizagem.

Ludmila, em relação à avaliação, há estratégias que funcionam para testar os conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos?

As estratégias não são muito diferentes, de novo, daquilo que já se faz em sala de aula. Eu diria que há um desafio extra, que é: os alunos estão em casa e, portanto, têm acesso a toda a informação possível. E como é que os professores garantem que estão, de facto, a testar a informação que os alunos obtiveram e não a sua capacidade de pesquisa? Uma boa estratégia é criar exercícios de avaliação que têm de ser respondidos rapidamente. E claro que isto depois também cria o problema da pressão e como é que isto se reflete na avaliação dos alunos. Portanto, uma coisa que se deve ter em conta é talvez criar exercícios que não têm um peso muito grande na avaliação, mas mais exercícios. Portanto, consegue-se ainda avaliar os alunos, mas tira-se aquela pressão de "eu vou ter de responder a isto tudo bem e vou-me sentar durante uma hora a responder a estas questões". Não, se calhar vou me sentar durante cinco, 10 minutos, tenho de responder rapidamente, mas sei que isto não terá um impacto assim tão grande na minha avaliação.

Portanto, no fundo, é polvilhar a aula com pequenos exercícios para manter sempre a relação entre o professor e o aluno viva, é isso?

Exato. E aí ganhamos ainda outra vantagem, que é para além de conseguirmos saber o que é que o aluno está a aprender ou não, o próprio aluno beneficia dessa prática de recuperação da informação, que é uma das estratégias mais importantes.

Professor, não sei se tem alguma opinião.

Não, eu acho que isto é um tema interessantíssimo da psicologia cognitiva moderna, pelo que eu conheço, que é a importância que tem a recuperação da informação via teste ou por outras vias, para a própria consolidação daquilo que se pensa, daquilo que se conhece. Porque muitas vezes nós olhamos para a avaliação como o mal necessário. E não, a avaliação é algo que nos ajuda a todos nós a progredir, porque no próprio momento em que estamos a responder às perguntas, já estamos a aprender com a resposta que estamos a dar, porque estamos a reorganizar no nosso cérebro, tanto quanto eu entendo, aquilo que se está a passar. E depois está nos a manter atentos e está nos a voltar, como que a limpar os canais do cérebro, onde a informação flui. Eu julgo que isto é uma das coisas mais interessantes e que tem sido um bocadinho deturpada com alguma discussão em torno da avaliação formativa, que é isto, versus a somativa, que são as notas, quando as duas são complementares e, portanto, devem estar constantemente a ser praticadas, a meu entender.

Ludmila, começamos esta conversa por falar do trabalho de adaptação, de conversão das aulas tradicionais em aulas à distância. A ciência que já existe sobre esta matéria, ela diz-nos o quê? Os professores devem ter que cuidados quando convertem uma aula presencial numa aula à distância?

Os principais cuidados têm a ver com os desafios que os alunos vão ter enquanto estão a ter uma aula à distância. E estes desafios são manter a atenção Como nós falamos, e como navegar a quantidade de informação que poderão ter disponível. Claro que depois há outros desafios, como todos os alunos têm acesso a computadores, têm acesso à internet, isso é outra parte de desafios que eu não estou qualificada para falar, infelizmente. Mas os cuidados são implementar estas estratégias que nós já sabemos e muitas vezes, dar aulas online pode até ajudar a implementar estas estratégias. Por exemplo, a parte do espaçamento. Um artigo recente de 2019 mostra exatamente isto, que os alunos aprendem muito melhor por curtos períodos de tempo, que são espaçados, e são intercalados os tópicos que os alunos estão aprendendo, vão variando. Isto mantém a atenção, que facilita a aprendizagem. Portanto, isto será o cuidado principal que os professores podem ter. Em vez de fazerem a aula de 50 minutos, podem fazer duas aulas de 25, ou duas aulas de 20 e 10 minutos no meio, ou para uma pausa, ou para um teste. Eu faria um teste. Portanto, a parte do espaçamento e intercalar as aulas, permite também implementar a prática de recuperação. Isso será talvez o maior cuidado. E depois, guiar os alunos ao máximo para que tirem partido da informação que têm disponível e possam usá-la para uma aprendizagem mais ativa. Portanto, isto é a perfeita oportunidade para fomentar uma aprendizagem ativa, em que os alunos procuram o conteúdo e aprendem, mais do que a pesquisar, do que a parte inicial de vamos obter a maior quantidade de conteúdo possível, possam também começar a aprender criticamente selecionar bom material de mau material, porque temos tudo disponível online. Portanto, o cuidado é este, é intercalar informação, espaçar a informação, usar aulas mais curtas, aproveitar, guiar os alunos para uma boa pesquisa online, fomentar a capacidade crítica e de análise dos alunos e também dar sempre feedback, tentar acompanhar os alunos para aumentar o seu sentido de competência, mostrar-lhes que são capazes de fazer isto, porque é uma mudança muito grande. E estes factos são todos suportados por investigação, nós temos um artigo online na Iniciativa Educação, que pode ser consultado e que tem esta informação toda representada.

Eu julgo que isso é importante também, porque nós temos já um conjunto bastante razoável de artigos sobre estes temas, sobre o problema da dispersão, sobre o mito do multitasking, sobre a necessidade de fazer recuperação de conhecimentos. Nós temos já online, no site da Iniciativa Educação, uma série de artigos deste tipo. Temos um artigo do Kirchner sobre as 10 sugestões para aulas online. Portanto, uma série de informação que eu julgo que será interessante para os professores, porque é uma informação complementar. Claro que os bons professores sabem estas coisas. Os bons professores, mesmo numa aula presencial, não passam a aula inteira. Isto é uma caricatura que as pessoas têm das aulas presenciais, porque não é verdade. Os bons professores estão na aula e falam do assunto, depois fazem uma pausa, depois fazem um pequeno exercício, depois fazem perguntas, depois controlam a atenção dos alunos, depois vão verificando o que eles sabem e o que não sabem, para se adaptarem a si próprios. Portanto, no fundo, agora é redobrar esses esforços, julgo eu, não será assim, Ludimila?

Sim, exatamente. Será reforçar esses esforços e usar o ambiente online o melhor que se pode, porque mesmo os bons professores não tiveram de passar por isto. Portanto, há desafios extra, que plataformas usar, que programas usar. E depois há coisas tão simples que os professores podem nem se lembrar, porque, por exemplo, se calhar nem todos os alunos têm acesso à internet todo o tempo ou um acesso estável, mas é muito fácil numa apresentação de PowerPoint fazer um exercício de prática de recuperação, em que os alunos veem uma pergunta, até podem escrever em papel, veem uma pergunta, podem escrever a sua resposta até em papel e depois continuam a apresentação e têm o feedback imediato. Há coisas muito simples que podem ser usadas online.

E há um recurso, que é novo, que é o vídeo, e que é muito usado no ensino à distância. Também aqui há segredos, truques, Ludimila. Um bom vídeo destinado à aprendizagem, eleva obedecer a que regras?

Sim, há uma série de princípios baseados em muitos estudos. Vieram principalmente no trabalho do Richard Mayer, e ele tem um bom sumário disso tudo num artigo de 2008, portanto não é assim tão atual, há estudos mais atuais que dão algumas indicações, mas estes são mesmo os princípios que devem ser obedecidos para aumentar a aprendizagem. Nós também temos um artigo que saiu hoje precisamente sobre isso.

Do site da Iniciativa Educação.

Iniciativa Educação, exatamente.

Certo.

E o princípio mais básico é mesmo manter os vídeos simples, evitar informação desnecessária, que pode ser interessante, mas que não adiciona nada àquilo que deve ser aprendido. Portanto, não dispersar a atenção dos alunos, não desperdiçar o seu esforço cognitivo em coisas que não são importantes para a aprendizagem e tentar não haver demasiada informação visual, por exemplo. E não estamos apenas a falar de vídeos criados pelos professores, estamos a falar de estratégias que ajudam a selecionar vídeos que já estão online. Por exemplo, os vídeos já têm animação e narração, não há necessidade de pôr legendas. Vários estudos mostram que isso penaliza o ensino dos alunos.

É uma redundância, é aquilo que se chama na televisão, lixo visual. Ludimila, estamos na reta final do Nota 20 desta semana, mas há um assunto sobre o qual eu e o professor gostaríamos de ouvir, que tem a ver com o uso da internet. Há vantagens em aproveitar a web como recurso de aprendizagem? E aqui apelava muito, imensamente, ao seu poder de síntese.

Sim, há vantagens que eu já referi, mais ou menos, que é: temos acesso a muita informação e isto ajuda a aumentar a capacidade de pesquisa e a capacidade crítica dos alunos. É importante eles serem guiados neste processo. Mas de facto pode-se fazer uso de toda esta informação para tornar a aprendizagem mais ativa. Portanto, será essa a grande vantagem.

Ludimila Nunes, muito obrigado por ter vindo ao Nota 20 desta semana. Professor Nuno Crato, se tivesse que sistematizar esta conversa que aqui mantivemos com a Ludimila Nunes, começaria por onde? E apelava também ao seu poder de síntese.

Eu começaria por vídeos curtos e espaçados, concentração de momentos espaçados, pela verificação constante do que se aprende, portanto, uma interação sempre de forma que se possa verificar o que os alunos estão a seguir e o que não estão a seguir. E em terceiro lugar, esta última ideia, que eu acho uma ideia muito importante, que é não dar informação a mais. Muitas vezes as pessoas pensam que é bom fazer mais atividades e mais animações. Não, concentrar no essencial, porque o que nós queremos, no fundo, é que os alunos aprendam e se desenvolvam. Para eles aprenderem e se desenvolverem, necessitam de se concentrar. Por vezes, a informação a mais é apenas um distrator. Julgamos que aprenderam mais? Não, não aprenderam mais, distraíram-se.

Muito bem, estamos quase no fim. O Nota 20 da próxima semana é sobre os mitos dos estilos de aprendizagem. Vamos conversar com a Joana Rato, que é doutorada em Neuropsicologia, correto?

Muito bem.

E até lá, pode responder à nossa sondagem online, colocada nas redes sociais, tanto do Observador como da Iniciativa Educação. A pergunta que colocamos esta semana é a seguinte: os professores devem adaptar o estilo de ensino às preferências de aprendizagem de cada aluno, ou seja, preferência verbal ou visual? Sim ou não? São estas as duas opções de resposta para a sondagem desta semana. Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana.