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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Professor Nuno Crato, viva.
Ora viva, tudo bem?
Tudo bem, professor. No programa de hoje vamos escrever à mão, mas antes de mais vamos começar pela pergunta que colocámos aos nossos ouvintes na rede social Twitter: há vantagens para as crianças em escrever à mão? E os nossos ouvintes não têm dúvida, 96% respondeu sim. Professor Nuno Crato, isto quer dizer que a tradição ainda é o que era?
Olha, eu fico muito contente com essa resposta. Não sei se é por uma questão de tradição ou se é por uma questão de conhecimento, porque nós já tivemos aqui no site da Iniciativa Educação e já referimos aqui neste programa, temos algumas informações sobre isto e uma notícia em especial sobre as vantagens de escrever à mão e as vantagens de ensinar as crianças a escrever à mão. Ora, isto foi muito debatido porque durante alguns tempos se disse: "Ah, agora que existem computadores, mais vale escrever tal como escreve uma máquina no teclado, para quê estar a fazer o esforço caligráfico e para quê fazer o esforço de escrever à mão as letras?" Mas a verdade é que a investigação psicológica mais recente tem reforçado as vantagens de escrever à mão para as crianças que estão a aprender a ler e, em geral, para todos, para várias áreas, mas sobretudo para as crianças que estão a aprender a ler. E por isso nós temos hoje conosco uma psicóloga experimental, que faz experiências em laboratório, que mede com adultos, com jovens, com pessoas que leem bem, com pessoas que leem mal e que mede os tempos de reação e que, portanto, sabe muito sobre isto. Ela é psicóloga na Universidade de Lisboa e eu não digo mais.
Muito bem. Chama-se Tânia Fernandes, é psicóloga experimental e investigadora sobre a fala, a leitura e a escrita, coordenadora de um grupo no Centro de Investigação em Ciência Psicológica, o CO2, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Tânia Fernandes, obrigado pela disponibilidade.
Obrigada por me terem conosco. Obrigada.
Tânia Fernandes, escrever à mão é assim tão importante no contexto da aprendizagem?
É importantíssimo e fico contente que os ouvintes e as pessoas que habitualmente atendem ao vosso programa tenham esta ideia de que escrever à mão é, de facto, muito importante. Porque curiosamente não é assim tão intuitivo que escrever à mão possa ser útil, inclusivamente em países como a Finlândia, há alguma discussão ao nível da definição curricular dos programas nas faixas etárias do pré-escolar e do primeiro ciclo de aprendizagem, que têm vindo a propor a não utilização da escrita à mão para o ensino da leitura.
Tânia, desculpe este meu aparte, mas eu aproveito para dizer que a Finlândia curricularmente só tem feito disparates nos últimos anos e por isso é que tem vindo a decair tanto nas avaliações internacionais do Teams e do PISA. Enfim, mas é um parêntesis. Peço desculpa, em frente.
Não tem mal. De qualquer forma, embora a questão à partida intuitivamente possa realmente gerar discussão, aquilo que a investigação mais recente tem mostrado é que de facto escrever à mão é muito importante. E escrever à mão não é necessariamente usar uma letra cursiva, é utilizar a mão para desenhar as letras que correspondem aos elementos mais pequenos do código ortográfico.
Letra cursiva, quando diz, Tânia, quando diz letra cursiva, é aquela letra que nós aprendemos.
Caligráfica, não é?
Caligráfica, não é? Caligrafia clássica.
Exatamente. Portanto, uma coisa e outra são distintas e têm impactos distintos. A escrita à mão, genericamente, a literatura tem mostrado que é de facto muito importante não só para a aprendizagem da escrita, mas como estavam a falar no início, para a aprendizagem da leitura, para melhor reconhecer as letras do alfabeto latim, no caso daquilo que acontece em português, mas também para aprender a ler palavras mais fluentemente. Mas por outro lado, há também esta escrita caligráfica, como o Nuno referia, que é a utilização de letras que têm um desenho diferente das letras de imprensa. E isso também se tem mostrado muito importante e útil para a aprendizagem da leitura.
Mas então é bom escrever à mão de acordo com a caligrafia ou ter uma caligrafia que reproduza as letras com um formato diferente da letra impressa, isso é bom também?
Isso é muito bom. Por quê? Porque a leitura tem, em primeiro lugar, um componente visual. Nós temos, enquanto aprendizes da leitura, que não são só crianças, podemos pensar em adultos que não frequentaram a escola na infância e que depois já na idade adulta frequentam cursos de alfabetização, e também eles vão ter de aprender a ler, daí a ideia dos aprendizes. Mas o primeiro desafio que um aprendiz vai ter que superar é esta capacidade de rapidamente identificar letras e discriminar essas letras umas das outras. Isso não é nada intuitivo, porque a leitura implica uma aprendizagem. Não há nada na letra de imprensa A maiúscula que indique que ela corresponde exatamente ao mesmo item que um a minúsculo de imprensa ou o a minúsculo caligráfico. E, portanto, há uma necessidade de uma aprendizagem destas categorias. Essa aprendizagem é potenciada quando a pessoa experiencia diferentes instâncias da mesma categoria. Como é que isso pode acontecer na escola? Por exemplo, aprendendo a ler textos que são redigidos com letra de imprensa e aprendendo ao mesmo tempo a escrever usando uma letra caligráfica. Essa variabilidade tem se mostrado, e alguns estudos publicados mostraram, que é importante e útil para uma melhoria da aprendizagem da leitura.
Portanto, o que está a dizer a Tânia é que Diga, professor.
Por que é importante ver letras diferentes? Porque se as letras fossem todas iguais, não precisaríamos ver letras diferentes, não é? Ou será que isso faz algum sentido?
A questão é que as letras não são todas iguais. Mesmo quando nós utilizamos fontes, tipos de letra muito próximas, há uma variabilidade. E, portanto, o aprendiz tem de aprender quais são as diferenças que são irrelevantes, que tem de subestimar, e elas podem ser abismais, mas também, ao mesmo tempo, tem de aprender que algumas diferenças mínimas são relevantes para poder fazer essa diferença. E um aspecto muito importante da letra enquanto objeto visual, e que faz com que ela seja diferente dos outros objetos, é que no caso das letras em concreto, a orientação é muito importante. Antes da aprendizagem da leitura, a orientação não é relevante para saber o que é um objeto. Uma cadeira é sempre uma cadeira, quer na posição certa, quer virada de pernas pro ar. Mas no caso das letras, a orientação é uma dimensão que é crítica para a letra. Pensem, por exemplo, nas letras D, B, P, Q, que são exatamente a mesma forma geométrica visual, mas que só se distinguem na orientação. E, portanto, esse traço é muito importante.
É por isso que os professores do ensino básico usam até aquela imagem visual da barriga para a esquerda ou a barriga da letra para a direita, não é?
Extraordinário. Muito bem. Aliás, os estudos o que mostram é que um dos aspectos que esta ação motora potencia é concentrar a atenção de quem está a aprender nessas diferenças de orientação. E, portanto, explicitamente mostrar ao aprendiz que a orientação é crítica para a discriminação destas letras, é fundamental, é das coisas mais importantes. É tão importante como aprender a escrever as próprias letras.
Portanto, resumindo, o que a Tânia está a dizer é que escrevendo à mão, nós, aprendizes, também estamos a aprender a ler, é isso, resumidamente?
Exatamente. Porque estamos a aprender o código visual, a primeira etapa que a leitura implica ao aprendiz. Portanto, a leitura envolve uma série de desafios e o primeiro desafio é ser capaz de rapidamente discriminar estes símbolos visuais, as letras no alfabeto latino.
E podemos depreender que quem escreve bem e rápido, lê rápido e bem?
Na realidade, temos que fazer a pergunta de uma outra forma.
Vamos lá.
Por um lado, a escrita rápida implica uma automatização dos processos motores e do acesso ao código. E se é disso que estamos a falar, então sim, se esse acesso ao código é rápido, isso significa que essas unidades visuais estão representadas na minha memória de uma forma muito clara e, portanto, quando eu sou confrontado com elas aquando da leitura, eu também vou aceder rapidamente a essas unidades. Mas obviamente que a leitura não é só a discriminação dos caracteres visuais. Depois existe o outro passo, que é fazer mapear estas categorias visuais às unidades linguísticas do código, no caso do português, os chamados sons da fala. Portanto, esse é o segundo desafio que a criança ou o aprendiz vai ter que superar.
Tânia, o que se passa aqui no nosso cérebro quando estamos a aprender a escrever?
Quando estamos a aprender a escrever ou quando estamos a aprender outra atividade cultural, porque não nos esqueçamos que a leitura ou a escrita são, em primeiro lugar, competências que não fazem parte do nosso código genético e, portanto, não nos basta estar imersos no mundo de livros para as aprender. E isso implica duas coisas. Implica, em primeiro lugar, um ensino explícito, formal, deliberado, implica que essa aprendizagem é laboriosa e, em segundo lugar, implica também que ela não vai ser adquirida por imersão, por estar simplesmente exposta ao mundo de livros. E, portanto, isso faz com que existam regiões cerebrais e processos cognitivos que inicialmente não estavam devotados a essas capacidades, que vão ter que ser afinados para que essas capacidades possam ser automatizadas, tornadas mais rápidas.
Eu gostei da expressão.
Sim?
Não, Tânia, termina. Eu estava a dizer, eu gostei da expressão ensino explícito, formal, deliberado, que acho que era interessante falar um bocadinho sobre isso, porque de fato as crianças não conseguem aprender a ler, digamos 99,9% das crianças não conseguem aprender a ler, sem esse ensino explícito, formal, deliberado.
Eu diria que 100%, porque não é possível aprender a ler sem que alguém me tenha dito que um A maiúsculo e que um A minúsculo correspondem ao mesmo item. Não existe nada no meu patrimônio genético, nem no meu sistema cognitivo visual, que saiba que essas duas categorias são, na realidade, a mesma. Isso implica um ensino explícito e deliberado. Se ele não é explícito, existem duas coisas que vão acontecer. Eu vou tornar aquilo que já é um desafio, não um desafio, mas uma dificuldade a quem está a aprender, e vou tornar o processo de aquisição destas competências mais lento. E, portanto, daí a necessidade, acho eu, de reforçar, de fato, esta importância do ser explícito. E como o João há pouco falava, da referência que os professores fazem muitas vezes de onde é que está a barriga da letra pra fazer a discriminação do B entre o D, e esse ensino explícito ser tão importante mesmo.
Quando explícito é reiteradamente com exemplos, não é?
Exatamente. E que oriente, de fato, quem está a aprender para aquilo que é importante. Não esperar que o aprendiz extraia de uma forma implícita regras que não lhe foram indicadas e apresentadas.
Explicar as regras pra que elas se tornem depois automáticas. Primeiro sejam assimiladas e depois automáticas. Certíssimo.
Exatamente.
Muito bem
Professor, fiquei com a impressão que ia fazer uma pergunta.
Eu ia fazer uma pergunta, mas eu já interrompi 10 vezes a nossa conversa. Agora calo. Eu ia fazer uma pergunta que era voltar um pouquinho atrás: por que a escrita é tão importante pra leitura? Ou seja, por que as duas coisas devem ser feitas ao mesmo tempo?
Como eu dizia há pouco, eu olho para a escrita, olhando para o que ela potencia na aprendizagem da leitura. Existem outros aspectos que são igualmente importantes, que dizem respeito ao sistema de escrita propriamente dito, porque a escrita e a leitura, embora sejam atividades intimamente ligadas, ambas estão envolvidas na literacia, elas são sistemas cognitivos distintos e independentes. E nós sabemos isso do ponto de vista científico, em particular porque indivíduos adultos que eram leitores fluentes, escritores fluentes, isto é, sem qualquer dificuldade no ato de escrever e inclusivamente à mão, se sofrerem um insulto cerebral, ou seja, tiverem um AVC, um acidente que leva a uma lesão numa região cerebral específica, em função da região cerebral afetada, podem apresentar um déficit específico da leitura, apresentar a partir daí uma dificuldade muito grande na leitura e continuarem a ser escritores fluentes, ou seja, não terem qualquer dificuldade de escrita, mas também encontramos o padrão contrário. Ou seja, pessoas que, tendo uma lesão na outra região, apresentam um déficit na escrita, continuando a ser leitores fluentes sem qualquer dificuldade. Isto é chamado as duplas dissociações, que nos mostram que a leitura e a escrita são de fato sistemas cognitivos independentes e, portanto, elas não dependem necessariamente dos mesmos aspectos ou dos mesmos processos. São independentes. Mas, como eu dizia no início, elas têm obviamente uma relação importante entre si e, portanto, a aprendizagem da escrita potencia para a leitura esta aprendizagem perceptiva, ou seja, ser capaz de identificar e rapidamente atender às dimensões que são críticas para distinguir letras muito próximas, o exemplo da orientação dos caracteres como o B e o D, mas ao mesmo tempo, esta aprendizagem da escrita expõe a criança à variabilidade da sua própria forma escrita das letras e às diferentes variâncias a que ela é exposta dos símbolos letras, também lhe permite saber que há variâncias abismais que são completamente irrelevantes na identificação da letra. O exemplo que eu vos dava no início do A maiúsculo e do A minúsculo, que são de fato completamente diferentes, mas correspondem à mesma categoria. E pensando nesses dois aspectos, a escrita é muito importante para a aprendizagem da leitura.
Estamos já aqui na reta final do nosso programa. Professor, não sei se tinha uma pergunta pra fazer.
Não, eu tive um pequeno comentário que acho que é interessante, que é o captcha, que é aquelas letras que aparecem deformadas nos computadores, que a pessoa tem que ler a letra, tem que ler a frase ou mesmo que seja um conjunto de letras e escrevê-las depois no computador para que o programa da internet nos deixe entrar em certos sites. É uma coisa que é muito comum. É curiosíssimo que nós conseguimos ler aquelas letras, mas os computadores de reconhecimento visual não conseguem. Portanto, há aqui algo no nosso cérebro que é muito particular, não é, Tânia?
É verdade, isso é extraordinário. Os captchas são um exemplo e uma ilustração exímia de como o cérebro e a cognição funcionam de uma forma extraordinariamente rápida e eficaz no ser humano e ao mesmo tempo mostram a importância do estudo da ciência cognitiva sobre como é que se faz esse reconhecimento visual de letras. Porque de fato, na atualidade, máquinas, agentes artificiais muito sofisticados não são capazes de resolver aquilo que para um ser humano leitor é muito simples, que é identificar aquelas letras distorcidas que nos aparecem nos sites quando fazemos, por exemplo, uma conta de e-mail e que não temos qualquer dificuldade em perceber o que são aquelas letras distorcidas e para um computador são extraordinariamente difíceis. Isso tem atualmente uma vantagem.
Um zero a nosso favor.
Um zero a nosso favor, sem dúvida. E tem uma vantagem em termos da cibersegurança. Agora, obviamente, aquilo que a investigação pretende perceber é: será que nós podemos ensinar as máquinas artificiais a quebrarem esses captcha e a serem capazes de fazer essa identificação? E aí voltamos outra vez à importância da orientação, à importância de aprender esta aprendizagem categorial de letras e que é tolerante q.b. Ou seja, nós somos tolerantes a algumas variações, às variações que os captchas precisamente utilizam, mas não somos ilimitadamente livres de aceitar qualquer variação. E portanto, novamente, este equilíbrio que a leitura potencia de, por um lado, negligenciar diferenças abismais, no caso do A maiúsculo e do A minúsculo, e por outro lado, atender a diferenças mínimas, sejam elas de orientação, como no B e no D, sejam elas diferenças mínimas de um traço. Pensem, por exemplo, no caso das letras de imprensa, C minúsculo e E minúsculo, que a diferença é só naquele traço mínimo que nós temos a meio na posição horizontal. E mesmo assim, ninguém nunca pensa, leitor fluente, que um C e um E são muito parecidos. Temos a sensação de que são abismalmente diferentes.
Estamos mesmo na reta final do programa. Pedia-lhe muita rapidez e poder de síntese na próxima resposta. Escrever à mão em papel é muito diferente e é mais benéfico do que escrever à mão, por exemplo, com aquelas canetinhas eletrônicas nos tablets?
Poderíamos pensar isso porque a ação motora é muito diferente, exigir é muito diferente quando escrevemos caneta sobre o papel ou stylus sobre tablet. Mas na realidade, o que a literatura tem mostrado, até mesmo num estudo muito recente publicado na Frontiers in Psychology, é que efetivamente não interessa para aquilo que é o benefício da aprendizagem da leitura. O que interessa, efetivamente, é escrever à mão.
Muito bem, Tânia Fernandes, obrigado por ter vindo ao Nota 20 desta semana.
Muito obrigada por me terem aqui convosco.
Obrigado, Tânia.
Adeus, até breve.
Professor Nuno Crato, para resumo do programa de hoje, e estamos mesmo já a queimar o nosso tempo, o que destacaria?
Eu acho que isto foi tão claro que é muito fácil. O ensino explícito, direto da leitura é fundamental, que escrever à mão é difícil, mas vale a pena. E uma coisa muito curiosa, a variabilidade de letras é uma vantagem pra nós pra reconhecermos o que são as letras e essas categorias e sabermos arrumá-las, sabermos verificar que isto é um C e aquele é um E. E para tudo isso, a escrita à mão ajuda.
Muito bem, no programa da próxima semana, vamos falar de sono e focar a nossa atenção na adolescência. Será nossa convidada a professora Helena Ribeiro Pinto, da Universidade Católica. A pergunta que vamos deixar no Twitter daqui a instantes é esta: a qualidade de sono dos adolescentes deve ser uma preocupação da escola, sim ou não? É uma pergunta à qual pode responder já a seguir na rede social Twitter. Professor, está feito o programa desta semana. Até dois, oito dias.
Até pra semana.