Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Olá, professor Nuno Crato.

Ora viva.

Professor, hoje vamos tratar da questão dos horários das aulas. Eles influenciam o desempenho e rendimento escolares? Foi nesse sentido que colocamos uma pergunta na semana passada no Twitter. A pergunta era a seguinte: o horário de início das aulas pode ter impacto nos resultados dos alunos? E 88% dos ouvintes que responderam à pergunta, responderam sim. Professor, estamos perante um tema consensual ou nem por isso?

Assim parece. Tem havido muita investigação recentemente sobre isso. Quando falo em investigação, falo de estudos quase experimentais e de muitos estudos em áreas diversas que apontam nesse sentido. E é bom termos aqui hoje conosco uma pessoa que é de Economia Experimental e que nos vai ajudar a esclarecer este tema.

Chama-se Joana Pais, é professora de Economia no ISEG, em Lisboa, instituto onde também coordena o XLab, laboratório de Economia Experimental. Olá, professora Joana Pais.

Olá, bom dia.

Bem-vinda e obrigado pela disponibilidade. Existe a crença de que da manhã se faz o dia. No caso dos horários escolares, é mesmo assim? Ou seja, existe evidência científica sobre a diferença de ter aulas de manhã ou de tarde?

Sim, há várias questões dentro dessa questão mais abrangente. Uma das questões e um dos tais estudos quase experimentais, e eu já vou explicar brevemente o que é que são os estudos quase experimentais, mas que fazem parte desta literatura mais recente, aponta para um resultado que é o de que à medida que o dia escolar avança, os resultados, pelo menos em determinadas disciplinas, tendem a ser piores. Portanto, este estudo analisa dados de notas, nomeadamente em Matemática e em Inglês, de um conjunto muito grande de alunos, no total são quase dois milhões de observações, observa estes alunos ao longo de um período de sete anos, em Los Angeles, alunos que estão entre o segundo e o 11º ano, e conclui-se que, de facto, há um efeito positivo de ter Matemática logo às primeiras horas da manhã, e esse efeito reflete-se num aumento na nota, um aumento pequeno, mas que é um aumento que existe, de facto, que é de 0,0 pontos numa escala de zero a quatro. Portanto, é um aumento pequeno, mas é um aumento que existe.

Uma interrupção muito rápida. Isso vai contra aquele sentido comum que às vezes tem, que é: "tão cedo para estudar Matemática, tão cedo, logo de manhã, estudar Matemática". Pelos vistos, isso indica que não, que é melhor até de manhã começar com uma disciplina desse género.

Sim, é verdade. É melhor de manhã e estes efeitos são particularmente grandes no caso da Matemática, no caso de Inglês, menores, mas depois há outra literatura, que não é contraditória, mas que compara uma hora de início do dia escolar muito cedo, por volta das 7:00, 7:30, com uma hora de início por volta das 8:00, 8:30. E nesse caso, essa literatura, que aliás é uma literatura não só do lado da Economia da Educação, mas também de outras ciências, nomeadamente da Neuropsicologia, e, portanto, tem apoio de várias áreas, e o resultado é mais ou menos unânime. Portanto, há um consenso científico no sentido de que começar as aulas muito cedo, num determinado período da vida, que é a adolescência, portanto, cobrindo ali os alunos do terceiro ciclo do ensino secundário, é prejudicial. Nós achamos que os adolescentes têm má reputação, porque precisam dormir muito, porque se deitam tarde, porque acordam tarde, mas de facto, há uma razão biológica para que isto aconteça. E, portanto, há estudos quase experimentais que mostram que assim é. Um destes estudos, é um estudo realizado no condado da Carolina do Norte, que pega em muitas observações de muitos alunos, observa-os durante vários anos, aproveitando variações de horário entre escolas e dentro da mesma escola, portanto, que afetam os mesmos alunos, e mostra que, de facto, há um impacto positivo em alterar o horário de início das aulas das 7:30 da manhã para, digamos, as 8:30 da manhã, e esse impacto é semelhante ao impacto positivo nas notas de ter pais com mais um ano de escolaridade. Este é um dos estudos. Isto é para os alunos do terceiro ciclo. No caso dos alunos do ensino secundário, este efeito não se conseguiu comprovar, mas há outros efeitos, nomeadamente uma menor taxa de desistência. No caso do ensino secundário, quando as aulas começam mais cedo, há uma probabilidade maior, em 8% dos alunos deixarem de estudar no final do 11º ano, e há também efeitos não cognitivos. Normalmente, quando se começam as aulas muito cedo, os alunos são menos assíduos, faltam mais às aulas, chegam mais vezes mais tarde, e isto tem, eventualmente, efeitos nos resultados e no rendimento escolar depois a mais longo prazo. Portanto, esta é outra literatura, é uma literatura que reúne os estudos de economia e educação, mas há estudos da neuropsicologia que mostram exatamente a mesma coisa. Portanto, há aqui um consenso científico neste sentido.

Professora Joana, só uma questão que eu imagino que todos os nossos ouvintes estejam a perceber bem, mas é muito comum, em ciência, entre cientistas, falar de literatura no sentido de papers publicados, portanto, estudos científicos submetidos à apreciação dos pares, verificados, etc. Ou seja, artigos científicos.

Exatamente.

Não estamos a falar de literatura do Eça de Queiroz, que também já falava das aulas.

Não, de todo. Que recolhem observações, centenas de milhares, nalguns casos, mais de 1 milhão de observações, e retiram estas conclusões de todas essas observações. E mais do que isso, há um primeiro conjunto de estudos, que são estudos não experimentais, que passam pela observação destas variáveis em contexto natural. Portanto, o que se fazia era olhar para notas de alunos que estão sujeitos a diferentes horários e fazer ali uma relação entre as notas e esses horários. Claro que, neste caso, estes efeitos apenas propõem uma relação, mas não provam causalidade. Não mostram que um horário mais tardio poderá, eventualmente, ter um impacto positivo nas notas. Deixem-me só explicar o que é o outro extremo. Estes são os tais estudos não experimentais. Os estudos experimentais são aquilo que os investigadores gostariam de poder fazer em todas as circunstâncias. Eu sou suspeita, porque sou coordenadora de um laboratório de economia experimental, mas é aquilo que todos gostariam de fazer. E esses estudos são aqueles que permitem provar a relação de causalidade, porque controlam completamente o ambiente, manipulam apenas a variável, que neste caso seria o horário, e depois observariam as consequências de alterar o horário e conseguiríamos aí provar uma relação de causalidade.

Ou seja, aleatoriamente escolher-se-iam os alunos e diriam: "Tu vais para ali, tu começas às 17h, tu começas às 18h, tu começas às 20h", etc.

Exatamente.

Professora Joana, mas isso não foi feito nos testes?

Não foi feito, porque eu acho que não agradaria aos pais e os decisores de política, de facto, não nos permitem fazer essas coisas, embora muito gostássemos de poder fazer.

Deixe-me só recapitular um bocadinho para os nossos ouvintes também perceberem. Portanto, começar as aulas de manhã, sim, tem impactos positivos. No caso dos adolescentes, muito cedo, não.

Exatamente. Depois, há ainda, já agora, um outro estudo que eu gostava de mencionar, que compara ter aulas só no período da manhã e só no período da tarde, em determinados casos. E este é um estudo que foi feito num país do leste europeu, em que, por uma questão de restrição de recursos, em particular recursos humanos, dividiram o dia escolar em dois turnos: um turno da manhã e um turno da tarde. Mas naquele caso, isto para os alunos do terceiro ciclo e do ensino secundário, eles foram alternando estes horários mensalmente. Portanto, mês sim, mês não, os alunos tinham aulas de manhã. No mês sim, tinham aulas de manhã, no mês não, tinham aulas à tarde e havia uma alternância que era mensal.

É um estudo realizado com o universo de 260 mil alunos.

Sim, todos estes estudos têm amostras muito grandes. E tem que ser, para termos resultados válidos. Ao fazer este estudo, aquilo que eles comprovam é que os resultados são um bocadinho piores para o turno da tarde. Mas embora este efeito exista, o que acontece é que, na verdade, é um efeito pequeno e, portanto, a conclusão é que, eventualmente, por uma questão de restrição de recursos, se tiver que ser feita esta divisão em turnos, pode fazer-se, porque, de facto, embora exista essa penalização para os alunos do turno da tarde, essa penalização é pequena. Portanto, a jeito de conclusão: ter aulas durante um dia escolar, ter disciplinas como a matemática logo às primeiras horas do dia escolar é benéfico, aumenta um bocadinho o desempenho escolar, mas, no caso dos adolescentes, convém que o dia escolar não comece muito cedo, por causa desta questão do relógio biológico, que se altera no período da adolescência. E quando comparamos um turno da tarde com um turno da manhã, o turno da tarde tem desempenhos ligeiramente piores, mas é um efeito negativo de muito reduzida dimensão. E já para concluir, falei dos estudos não experimentais, dos estudos experimentais, que é aquilo que todos gostaríamos de fazer, mas estes são todos estudos quase experimentais, que não sendo experimentais, tentam aproximar-se o mais possível destes estudos experimentais, controlando da forma possível para estabelecer a tal relação de causalidade. Portanto, neste caso, em todos estes estudos, aquilo que se faz é seguir os mesmos alunos, que por acaso são expostos a diferentes horários, ao longo do tempo e numa escala muito grande e, eventualmente, nalguns casos, comparando com alunos que têm sempre o mesmo horário e, portanto, daqui consegue estabelecer-se uma série.

Estamos a falar de intervalos de tempo de quantos anos nestes estudos?

Depende um bocadinho, mas de cerca de sete anos. E, portanto, são muitas observações e muitos alunos que estão aqui envolvidos, que nos permite, com alguma confiança, tirar estas conclusões.

E para isso

É necessário também que haja instrumentos de medida. Deve haver instrumentos de medida. Há nos diversos estudos diferentes instrumentos de medida. Em alguns casos, há instrumentos standardizados, a nível estadual ou a nível do condado, ou que seja, nos Estados Unidos, que mostram o que os alunos sabem. Estou a falar em testes. E há também avaliações feitas pelos professores. Deve haver tudo nestes estudos, imagino.

Sim, é verdade. Eles comparam não só avaliações internas, feitas pelos professores, mas depois também testes centralizados, que são levados a cabo pelo estado, mas que são universais e são comparáveis. Portanto, com mais segurança nós podemos tirar estas conclusões.

Muito bem. Professor, não sei se quer adicionar mais alguma coisa a esta questão.

Esta ideia dos estudos experimentais, quase experimentais e puramente observacionais, acho que é uma questão muito interessante e que nós temos vindo, ao longo deste programa, a falar sempre que vem a propósito. Porque, na realidade, o que a nossa entrevistada hoje está a dizer é que nós gostaríamos todos de fazer experiências, tais como se fazem experiências em laboratório, químicas ou que seja, mas que uma questão de ética e uma questão de respeito e as próprias condições não nos permitem e tentamos fazer algo que seja parecido com as experiências, ou seja, observar experiências que ocorrem naturalmente, por razões diversas, ou observar aquilo que é quase como se fosse uma experiência, ou seja, em que não há um efeito de seleção daquilo que é estudado. Por exemplo, imaginemos que nós estávamos a comparar notas de alunos ou resultados de alunos em colégios que começam mais cedo e colégios que começam mais tarde. Se os colégios particulares começarem mais tarde, estamos a introduzir um fator de seleção que não permite tirar conclusões.

É quase como uma distorção, não é?

Uma distorção, exato. Chama-se a isso mesmo um enviesamento por seleção. Portanto, é preciso muito cuidado para isto. E a segunda coisa que é necessária é instrumentos que sejam comparáveis, porque se não houver avaliação, se não souber o que se passa, não é possível tirar conclusões nenhumas.

Aparentemente, assim foi nestes estudos que a professora Joana Pais acabou de citar. Correto, Joana?

Sim, exatamente. Todos eles são estudos quase experimentais e portanto este problema do enviesamento de seleção é minimizado. Claro que, mais uma vez, aquilo que nós poderíamos fazer eram os estudos experimentais, em que aleatoriamente os alunos seriam alocados a horários diferentes. Não é assim, mas apesar de tudo, este tipo de estudos permite-nos tirar conclusões muito mais robustas do que aqueles estudos que se faziam inicialmente, em que se comparavam alunos sujeitos a horários diferentes, mas esses alunos, em muitos casos, teriam eles próprios escolhido aqueles diferentes horários e já por algum motivo. E portanto, não se conseguia distinguir se o efeito de um determinado horário era positivo por causa do horário em si ou por causa das características dos alunos que escolhiam esses horários. Esse enviesamento de seleção é minimizado nestes estudos quase experimentais. Eles utilizam aqui uma série de controlos que nos permitem ter mais confiança nestas conclusões.

Muito bem, professor. Diga.

Uma área que tem sido muito discutida, muito estudada, que por vezes se chama de avaliação de impacto contrafactual, porque a ideia é exatamente essa, é reproduzir as melhores condições possíveis para avaliar o impacto de certas medidas ou de certas ações. E o que é importantíssimo aqui é ter o contrafactual, ou seja, é ter um instrumento de comparação, ter uma amostra de controle para poder comparar o que é que acontece, porque se juntamos tudo e se a uma determinada medida, vamos ver se foi positiva, pode ter sido positiva por essa medida ou pode ter sido positiva porque as circunstâncias todas mudaram. Portanto, é sempre necessário ter um grupo de controle, como se faz em boa ciência.

Muito bem. Professora Joana Pais, muito obrigado por ter vindo à Nota 20 desta semana.

Muito obrigada pelo convite.

Obrigado.

E obrigado por nos ajudar a perceber que, de facto, professor Nuno Crato, já lançando aqui a rampa para as breves notas finais, o horário das aulas tem influência no rendimento dos alunos.

Tem influência. Tem alguma, não é, Joana? Tem alguma influência.

Tem, tem alguma influência.

Professor, agora sim, para finalizar, breves notas sobre o horário das aulas, mormente o horário da manhã, sobre o rendimento dos alunos.

A conclusão parece ser que talvez valha a pena começar mais cedo. O efeito não é muito forte, mas é um efeito positivo. Estes estudos que estão a ser discutidos, estão discutidos no nosso site da Iniciativa Educação, num artigo de Pedro Reis, que saiu ontem.

Hugo Reis, professor.

Hugo Reis, exatamente.

Hugo Reis e Pedro Freitas, correto?

Desculpa. Agora é que eu diria: "Espero que eles não estejam a ouvir".

Hugo Reis e Pedro Freitas.

E Pedro Freitas, os dois fizeram uma descrição destes problemas no site, que eu acho que vale a pena ler. E vale a pena ler também um outro artigo feito por uma neurocientista, que é a Joana Rato, já publicado há mais tempo, e que estuda isto de um outro ponto de vista, que é o ponto de vista das neurociências, onde se discute exatamente aquilo que é a evolução do cérebro dos adolescentes e, portanto, a mudança que existe no cérebro dos adolescentes e que leva a concluir que seria favorável para eles que começassem as aulas um pouco mais tarde. Isto é interessante também em termos de metodologia científica, porque por um lado, o que nós temos aqui é muita confirmação da mesma ideia, ou seja, muitos estudos que seguem este rigor de amostra, de controle, de quase experiência, muitos estudos que apontam no mesmo sentido. Isto em ciência chama-se confirmação. Estas confirmações sucessivas são importantes, porque poderia ser uma circunstância especial de um país ou uma circunstância especial de uma disciplina ou de um conjunto de escolas. E depois, esta confirmação que vem das neurociências também é muito importante, porque estamos a estudar o mesmo problema de diferentes pontos de vista científicos. A isso chama-se, às vezes, triangulação, porque estamos a olhar para um problema de dois pontos ou três pontos de vista diferentes. Enfim, acho que isto é tudo fascinante, mas nós teremos que continuar a discutir este e outros assuntos.

Muito bem. E o próximo programa será sobre o prazer de ler. Vamos perceber se as crianças que leem muito por prazer se tornam boas leitoras em consequência dessa prática ou se são aquelas que são melhores à partida, que tendem a acabar a ler mais por iniciativa própria. A pergunta que vamos colocar já de seguida no Twitter é a seguinte: "As crianças", e depois há duas opções, "que leem mais, leem melhor" ou "as crianças que leem melhor, leem mais". Termina aqui o Nota 20. Professor, até para a semana.

Até para a semana.