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Boa hora. Está a começar o Jornal da Uma, com edição do Miguel Videra. Miguel, morreu o jornalista e escritor Joaquim Leiria.
Aos 82 anos. Começou a carreira de jornalista em 1963, no Diário de Lisboa, foi repórter internacional e comentador. Passou pela RTP no pós-25 de Abril, sendo que José Rafael Lopes, que está agora aqui conosco em estúdio, foi um dos moderadores desse histórico debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares em novembro de 1975.
Talvez um dos momentos mais icônicos da política portuguesa. Joaquim Leiria moderou esse debate ao lado de José Megre. Foram mais de três horas e meia de batalha política entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, um dos pontos altos dessa carreira que começou na década de 60. Joaquim Leiria ajudou a contar o Portugal da ditadura, da revolução e da democracia. Trabalhou nos jornais, nas agências internacionais, na rádio e na televisão. Foi repórter, entrevistador, diretor, apresentador e também professor. Nasceu em Lisboa, 1943, cresceu em Campo Grande. O gosto pelas histórias chegou cedo e a carreira deu o primeiro passo no Diário de Lisboa. O percurso ganhou dimensão internacional, trabalhou para a Associated Press e foi correspondente da agência de notícias alemã DPA. Mais tarde, mudou-se para Londres para trabalhar na BBC. Estava precisamente em Londres quando aconteceu o 25 de Abril. A pedido da RTP, depois da revolução, regressou a Portugal em outubro de 1974 para a direção adjunta de informação da RTP, a televisão pública portuguesa. Aí participou nas eleições para a Assembleia Constituinte em abril de 75, uma maratona televisiva de 30 horas com a mesma equipe em estúdio, no momento em que o país votava pela primeira vez em liberdade e a televisão acompanhava a construção do novo regime. Em 75, Joaquim Leiria sentou-se nos estúdios da RTP, no Lumiar, ao lado do jornalista José Megre, para moderar esse debate entre Mário Soares, secretário-geral do PS, e Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP. Os dois jornalistas tinham essa tarefa de moderar o confronto entre dois caminhos diferentes para o país. A carreira de Joaquim Leiria não se limitou à informação televisiva. Participou na criação de vários projetos de imprensa, entre eles o jornal Tal&Qual, e também esteve ligado à revista Sábado. Nos anos 90, no início, participou no programa Apanhados, o primeiro do gênero em Portugal, que contava com rábulas de José Pedro Gomes e António Feio. Apresentou também o talk show Conversa Afiada e, mais tarde, o Café Lisboa. Foi ainda Joaquim Leiria autor publicado, lançou o livro "A Verdade Confiscada: Escândalo, a armadilha da nova censura". Foi também presidente do Sindicato de Jornalistas e exerceu funções de porta-voz do presidente da República Ramalho Eanes após a eleição presidencial. Após o final da carreira, entrou no mundo acadêmico, foi professor em Aveiro, Porto e Lisboa.
José Rafael Lopes, com alguns dos marcos do percurso de Joaquim Leiria, jornalista e escritor. Como aqui ouvimos, passou também pelo Sindicato de Jornalistas, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas e a esta hora temos conosco o vice-presidente deste sindicato, Augusto Correia, a quem agradeço a disponibilidade para aqui estar conosco, para lhe pedir que memória guarda de Joaquim Leiria, o que lhe desperta este nome, um ícone do jornalismo em Portugal, um dos rostos mais conhecidos do jornalismo em Portugal, particularmente durante a década de 70 e 80.
Boa tarde e obrigado pelo convite e obrigado pelo contato com o Sindicato de Jornalistas. Eu, quando era um jovem jornalista, isto há 30 anos, tinha um editor que dizia: "Jornalista não é notícia, a não ser quando morre. E para isso, só se for muito bom ou muito mau". Acho que estamos aqui claramente num caso de um jornalista que é notícia, porque foi realmente muito bom. É uma figura incontornável do nosso jornalismo, é uma referência para tantos jornalistas como eu e muitos outros nos últimos 40, 50 anos, e particularmente no pós-25 de Abril. Por isso, acho que é um dia de luto para o jornalismo. É uma perda que o Sindicato de Jornalistas lamenta, também particularmente por aquilo que ainda há pouco disseram. Também foi um presidente do Sindicato de Jornalistas, alguém que honrou muito o Sindicato de Jornalistas, alguém que deu muito ao Sindicato de Jornalistas, numa altura também muito particular, ali no fim dos anos 80, início dos anos 90, de grande convulsão, de grande emergência e grande despertar do jornalismo. Foi muito importante, porque já era uma figura conhecida, já era uma figura pública e eu não queria dizer que arriscou um bocadinho a sua pele ou a sua imagem, mas mesmo sendo uma figura pública, sendo uma figura muito conhecida, sendo já uma referência do jornalismo, alguém pra quem todos olhavam, disponibilizou-se a uma luta de classe, disponibilizou-se a estar num sindicato, disponibilizou-se a ajudar os outros, disponibilizou o que era o seu talento, a sua imagem, a sua capacidade para fazer algo pelo bem comum e pelos outros. E eu acho que isso é notável e é algo que aqui no sindicato nós sentimos muito e apreciamos muito e por isso mesmo lamentamos ainda mais esta perda. Num mês, se calhar, em que têm morrido bastantes jornalistas. Eu lembro os casos do Vial Moutinho, Pinto de Carvalho, por exemplo. Está a ser, digamos, umas semanas difíceis para o jornalismo e para aquilo que é a memória do jornalismo. Cabe-nos a nós agora preservar a memória daqui pra frente a estas pessoas.
Os jornalistas que marcaram determinado período desta atividade nobre, digo eu, hoje subsaltados.
Nobreíssima esta atividade.
Joaquim Leiria era muito crítico. Há aqui uma entrevista dele ao semanário Expresso, uma entrevista recente em que ele era muito crítico também do estado atual do jornalismo e mantinha esse espírito crítico e apesar de ter sido presidente do Sindicato dos Jornalistas, não tinha, segundo aquilo que li, uma perspectiva corporativista da profissão.
Eu acho que o espírito crítico faz parte da nossa profissão. E nós temos que estar sempre disponíveis. Nós, como escrutinadores, também temos que estar disponíveis para ser escrutinados e, como criticamos, também temos que estar disponíveis para ser criticados. E é sempre salutar que entre jornalistas e numa sociedade democrática haja esta crítica. A questão da profissão corporativista, eu não sou propriamente a melhor pessoa para falar. Eu falo na questão do jornalismo, hoje em dia, ter sido cada vez mais precarizado, cada vez piores salários, cada vez piores condições de vida. Eu não falo no corporativismo, mas falo numa unidade e numa capacidade de os jornalistas se mobilizarem para conseguir melhores condições de trabalho, melhores condições de vida e melhores condições laborais. Só assim faremos também melhor jornalismo e honraremos melhor a memória de cada um destes que parte e que nos deixa um legado.
Hoje, Joaquim Lutri, aos 82 anos. Agradeço-lhe, Augusto Correia, vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas, neste jornal, precisamente, a pretexto da morte desta figura icónica do jornalismo em Portugal, em particular na década de 70 e 80.
E na última noite houve nova concentração na Praça Dom João I, no Porto. A PSP não confirma a presença de elementos de grupos de extrema-direita.
Foi essa a denúncia feita pelo Movimento pela Habitação, responsável pelas manifestações que têm ocorrido na cidade do Porto desde sábado. O porta-voz da PSP dá conta ao Observador que a polícia identificou sete pessoas que se envolveram em confrontos, sem confirmar se pertenciam ou não a grupos de extrema-direita. Acrescenta que foi feita uma revista às pessoas que foram identificadas. Não foi encontrada qualquer arma. Tinha sido isso que havia sido anunciado pelos organizadores do protesto. A manifestação terminou por volta da 01h30 da manhã. E a esta hora, Pedro Duarte, o presidente da Câmara do Porto, fala precisamente sobre estes protestos e alegada infiltração de grupos entre os manifestantes. Vamos escutar João, à boleia da CNN Portugal.
No país, na Europa em geral, particularmente nas grandes cidades. O Porto também está a sentir essa pressão, evidentemente, e nós aqui estamos a ter políticas pró-ativas para tentarmos contrariar esta tendência de preços excessivamente elevados.
Mas acha justa esta declaração dizer que o governo não vai ceder aos gritos da rua, tendo em conta que os gritos da rua também são muito importantes? O 25 de Abril é um grito de rua muito grande e muito importante em Portugal.
Eu estou muito concentrado no trabalho que estou a fazer aqui no Porto e acho que é isso que também o governo tem que fazer e está a fazer, que é ter políticas públicas.
Para retomarmos ou repetir um pouco daquilo que começámos, que é a manifestação de ontem foi mais ordeira, de quarta pra quinta, infelizmente acabou em confrontos. As suas declarações poderão ter inflamado um bocadinho o protesto de ontem, pelo menos na quantidade de manifestantes que se reuniram na praça e que criticam as suas declarações e criticam a crise habitacional, principalmente da cidade do Porto, numa altura em que vemos tantos prédios a serem vendidos a investimentos estrangeiros, que são para hotéis e para alojamento local.
Sim, a crise da habitação é uma realidade, não vale a pena contornarmos esse facto, mas também é verdade que a cidade do Porto e o município do Porto é, de longe, o que tem mais respostas públicas para o problema da habitação. Não só em casas municipais, temos cerca de 13% da população a viver em casas municipais, não há nenhum município sequer que seja próximo disso. O segundo está quase a metade disso, o segundo município. E, além disso, temos as respostas para a classe média, casas municipais para as classes mais desfavorecidas, para as classes médias temos também políticas de arrendamento acessível, que também são as mais eficazes, eu diria, do ponto de vista nacional, atualmente. Mas isso não quer dizer que o problema não exista e que não seja muito legítimo e muito justo, e eu diria, e muito autêntico aquilo que foi proferido pelas pessoas. Nós estamos a encontrar respostas para isso. Agora, eu saúdo, e gostava de dizer isto, eu saúdo muito a forma ordeira como ontem a manifestação decorreu. Decorreu dentro do quadro legal vigente e quando é assim, a democracia ganha. E, portanto, nós temos que ouvir as pessoas, obviamente, e temos que encontrar respostas com as nossas políticas.
Com quatro mil manifestantes.
Pedro Duarte, o presidente da Câmara Municipal do Porto, que a esta hora fala outra vez sobre os protestos, tem tido como palco a Praça Dom João I, na Cidade Invicta, reiterando um bocadinho aquilo que ontem já havia dito. Reconhece que há, de facto, um problema de acesso à habitação, reconhece o direito à manifestação, mas volta a supinhar que as manifestações e os protestos devem ser concretizados respeitando a lei em vigor.
E o governo avisa que não vai andar a reboque das manifestações.
Sim, foi isso que disse o ministro dos Assuntos Parlamentares durante a sessão plenária que decorre no Parlamento, um debate sobre o aumento do custo de vida, pedido pelo PCP. O ministro Carlos Abreu Amorim registou pressões sobre o governo à boleia dos protestos.
E este governo não vai ceder aos gritos que vêm da rua. Este governo resolve problemas com políticas públicas, com soluções sérias, com soluções construídas. Sim, com a estatística, senhor deputado. Com a estatística. A estatística é importante, os dados são importantes, não são os slogans irrealistas. Nós resolvemos os problemas com os ingredientes da realidade e tentando sempre e conseguindo resolvê-los dentro do espírito, repito, da moderação, do humanismo e da defesa do Estado de direito.
Carlos Abreu Amorim acusou ainda o líder do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, de fazer um apelo à insurreição, à semelhança do que acontece noutras cidades europeias. O Bloco pediu a defesa da honra para recusar a acusação do ministro dos Assuntos Parlamentares.
E assim termina o Jornal da Uma.