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Ricardo Lopes. Ricardo, boa noite. Dez da noite, notícias na Rádio Observador. No Porto, os manifestantes vão mesmo pernoitar na Praça Dom João I. A decisão foi publicada pela organização depois de uma assembleia popular.
Sim, depois de debaterem em reunião uma ordem de trabalhos, os manifestantes decidiram que vão mesmo passar a noite na rua. Dizem não temer uma nova carga policial. Pedro Duarte, o presidente da Câmara do Porto, tinha prometido ser implacável com a colocação de tendas na Praça Dom João I. Ainda assim, Laura Figueiredo, agora conosco aqui em direto da Cidade Invicta, os manifestantes parecem ter ignorado esse aviso. Continuam a ser montadas cada vez mais tendas?
Sim, Ricardo, boa noite. Cada vez mais, são já cerca de 30 ou mais, mas a cada hora vemos aumentar esse número de tendas, depois da decisão que saiu da assembleia popular, que decidiu pernoitar aqui na Praça Dom João I, como dizias. Se há pouco, no último direto, dava conta de que os manifestantes dizem não ter medo da polícia, até porque é isso que têm dito e também deixaram claro hoje na assembleia, tenho, entretanto, recolhido aqui alguns relatos diferentes. Vamos falar aqui, por exemplo, com Bernardo Guerra, um dos manifestantes que dá voz a este movimento. Boa noite. Depois do que aconteceu na quinta-feira com a polícia, hoje estão a voltar a montar aqui as tendas para passar a noite. Não têm medo do que pode acontecer?
Sim, eu vou ser honesto. Eu cresci num bairro social do Porto e tenho medo da polícia desde que nasci, mas tenho medo da polícia porque estava sozinho e a polícia como força de repressão que sempre foi, eu vi essa violência diretamente com os meus olhos, mas hoje, com tantos amigos e amigas aqui, para darem os braços comigo, não tenho medo nenhum.
Se depois da meia-noite e meia a polícia vier aqui pedir vos para retirarem as tendas, como já aconteceu noutras noites, o que é que pretendem fazer hoje?
Como sempre, vamos decidir horizontalmente, vamos decidir com toda a gente aqui, todos têm voz e já decidimos na assembleia, quem esteve cá saberia. Faço a recomendação ao nosso primeiro-ministro para vir cá, mais uma vez, ao nosso presidente da Câmara, para nos virem ouvir. Uma assembleia popular que as pessoas têm voz e acho que é o que elas querem.
Tens estado aqui desde o primeiro dia, há uma semana, nestes piquetes?
Sim, estou cá desde o primeiro dia. Foi muito bonito sermos 20 no primeiro dia, sermos 50 na segunda hora, sermos 100 no segundo dia e depois da violência policial, estávamos cá cerca de 6 mil pessoas, eu imagino. É isso, o povo unido jamais será vencido.
E o que te faz estar aqui todos os dias?
Acho que a pauta é a mesma para toda a gente. A pauta é a habitação e eu não quero morar com a minha mãe até ela morrer. Eu quero ter habitação digna. Para mim é triste eu saber que o meu avô tinha mais hipótese de comprar casa do que eu, e acho que todos nós partilhamos isso. Eu não quero ser expulso da minha cidade. Adoro o Porto e quero morar cá.
E acreditam que este movimento, estes protestos, vão de facto contribuir para mudar o preço da habitação ou pelo menos algumas das políticas do governo em relação a isto?
Claro que sim. Sem querer dar uma lição moralista ao nosso primeiro-ministro, que acho que faz-lhe falta ler uns livros da história portuguesa, que muitas das nossas conquistas e o nosso direito à manifestação foi conquistado com organização popular e muita luta, anterior à revolução e pós-revolução. E sempre foi assim, sempre foi o povo a fazer as mudanças. E se temos direitos hoje em dia, foi graças à organização popular.
Obrigada. Bernardo Guerra, fica aqui. Diga.
Pronto. Eu queria apelar ao que um amigo antigo disse, que é viva o preco, nunca desmenti do preco e viva a malta e trama a terra.
Muito obrigada. Fica aqui então o testemunho de Bernardo Guerra, uma das vozes deste protesto pela habitação. Por agora os manifestantes continuam aqui a montar as tendas, como dizia, em menor número do que na hora da assembleia popular, mas ainda assim, muita gente aqui agora também a jantar. Várias pessoas também continuam a entoar cânticos, vão também dançando numa noite que se espera longa e ainda com alguma incerteza sobre o que vai acontecer então depois da meia-noite e meia.
Reportagem da jornalista Laura Figueiredo, que conversava com o manifestante, que desafiava o presidente da Câmara do Porto a ir até à manifestação. Pedro Duarte recusou ir à praça, mas o autarca garante em entrevista à TSF que convidou os manifestantes para conversar na Câmara Municipal do Porto já há dois dias.
E neste sábado marcado por protestos no país, descemos para Sul, até Lisboa, à Praça do Rossio, onde também decorre a esta hora uma acampada pelo direito à habitação. Ora, a organização, Ricardo, deste protesto já anunciou uma programação para o dia de amanhã.
É isso. Há pouco dávamos conta de que ainda é incerto se os manifestantes vão pernoitar na Praça do Rossio, à semelhança daquilo que vai acontecer no Porto, mas sabemos que amanhã lá estarão. Ainda assim, sobre a noite de hoje, fonte do movimento confirma ao Observador que só tem autorização para estar na praça até à meia-noite e meia. É no Rossio que se encontra o jornalista Miguel Pina Andrade. Junta-se agora a este jornal. Boa noite, mais uma vez. Miguel, está agendado para esta hora também o início de um concerto e para amanhã também há já várias atividades definidas.
Boa noite, Ricardo. Sim, um plano que começa às 10h com aquilo que o movimento chama boxe popular. Segue-se uma corrida, também ela popular, às 11h e, por volta de 13h, uma cantina onde vão ser distribuídas refeições, que também decorreu esta noite. A organização distribuiu refeições aos manifestantes, mas também muitos deles trouxeram comida e fizeram as refeições dentro das tendas, que são dezenas, a esta altura, na Praça do Rossio. Para amanhã, domingo, está também planeada uma assembleia popular para as 19h, a mesma hora daquela que aconteceu no dia de hoje. Para esta hora, como dizias, Ricardo, estava marcado um concerto da cantora Maria Reis. Já se ouvem aqui alguns instrumentos. Não te consigo dizer porque, na verdade, é mesmo muita gente que está aqui no Rossio e não consegui ainda furar pelo meio da multidão. A verdade é que se ouvem muitos instrumentos e muitas músicas. O ambiente é de muita festa e animação, que apesar de tudo, é também um protesto com uma carga muito política. A maioria dos cartazes aqui presentes faz referência ao primeiro-ministro, ora criticam os imóveis de Luís Montenegro, ora fazem referência ao egoísmo do chefe de governo, aqui numa referência às palavras do primeiro-ministro que, durante esta semana, acusou os manifestantes do Porto de egoísmo. Ora, até agora, Ricardo, esta acampada está a correr de forma pacífica. Os milhares de manifestantes e as muitas dezenas de tendas têm sido apenas vigiadas à distância pelas autoridades. E como disseste, este é um movimento que apenas tem autorização para estar aqui na Praça do Rossio até à 00h30. Depois disso, teremos de ver como é que as autoridades e a polícia vão agir perante as muitas dezenas de tendas e os milhares de manifestantes que ainda se encontram aqui na Praça do Rossio.
O relato do jornalista Miguel Pina Andrade, a dar conta também ainda desta incerteza. A organização deste protesto, ainda assim, já anunciou uma programação para o dia de amanhã.
E durante a tarde, no final da marcha lenta convocada pela CGTP, o líder da Central Sindical insistiu nas críticas ao governo. Diz, Ricardo, que as medidas do executivo só servem às grandes empresas.
E Tiago Oliveira sublinha que é preciso cada vez mais trazer para a rua as manifestações de descontentamento do povo. Depois, em declarações aos jornalistas, voltou a apontar o governo. O líder da Central Sindical diz que esta manifestação mostra a verdadeira realidade da vida dos portugueses.
Esta é uma manifestação que tem como objetivo trazer para a rua as denúncias concretas daquilo que vivemos e exigir uma política diferente e um rumo diferente para o país. Se este governo não é capaz de dar resposta, o próprio governo tem que encontrar o caminho para se decidir relativamente ao futuro, porque está mais do que provado que a política que tem sido seguida, essa não encontra respaldo, nem a resposta às dificuldades que os trabalhadores vivem.
Tiago Oliveira, que liderou a manifestação organizada pela CGTP.
Viramos agora a nossa atenção para algumas reações políticas a essa manifestação. As críticas ao governo foram sendo repetidas pelos líderes de partidos que se juntaram à iniciativa da Central Sindical.
Um deles, o líder do PCP, Paulo Raimundo, foi questionado sobre as declarações do primeiro-ministro, que desvalorizou estes protestos contra a crise da habitação. O líder comunista diz que a ele não surpreendeu.
Não, não fiquei com surpresa nenhuma. O senhor primeiro-ministro tem responsabilidades acrescidas pela situação em que o país está e pela situação de vida de cada uma das pessoas que aqui estão. E, portanto, o primeiro-ministro talvez tenha que refletir melhor cada vez que fala.
Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, em declarações aos jornalistas durante a marcha lenta até ao Rossio. Antes também falou a porta-voz do LIVRE, Isabel Mendes Lopes, diz que a mobilização do dia de hoje demonstra a revolta dos portugueses.
É a mensagem óbvia de que o custo de vida está insuportável em Portugal e que é preciso políticas públicas, medidas concretas para ajudar as pessoas nesta altura em que os preços estão a subir tanto, não só os preços dos combustíveis, mas também os preços da alimentação e os preços da habitação têm vindo a subir há anos, mas nos últimos dois anos se agravaram especialmente. E hoje sabemos que 15% das pessoas estão em situação de pobreza, mas que se juntarmos à habitação, passam para 27% das pessoas em Portugal. Isto é um valor que deveria alarmar todos os políticos.
A posição de Isabel Mendes Lopes, do LIVRE, que defende a adoção de medidas para a habitação que promovam o arrefecimento do mercado imobiliário.
E à direita, declarações da Iniciativa Liberal, que acusa o Partido Socialista de ser um dos principais responsáveis, Ricardo, pelos problemas na habitação.
Palavras da líder do partido, Mariana Leitão diz que o PS não pode descartar o papel que teve neste problema quando era governo, acusa o Partido Socialista de tentar enfiar casas na gaveta durante a governação.
Que aquilo a que assistimos nos últimos anos de políticas do Partido Socialista foi basicamente enfiarem casas na gaveta. Foi exatamente isto que foi feito em oito anos de políticas socialistas.
As palavras de Mariana Leitão, que apela o PS que reflita sobre este tema, palavras da líder da Iniciativa Liberal durante a visita aos Bombeiros de Castelo Branco.
E em França, à semelhança da atualidade nacional, um sábado marcado pelos protestos. Emmanuel Macron, o presidente, promete levar à Justiça os responsáveis pelos atos de violência durante as manifestações deste sábado.
Numa publicação na rede social X, o presidente francês garante que não há lugar para a violência e que os responsáveis pelos ataques a edifícios públicos e estabelecimentos comerciais terão de ser processados e punidos. Também o primeiro-ministro Sébastien Lecornu reagiu na mesma rede social, acusa grupos de extrema-esquerda de organizarem atos violentos e garante que o governo não se deixará intimidar. O primeiro-ministro francês sublinha que as manifestações pacíficas têm lugar na democracia, mas nega que haja espaço para incêndios, pilhagens e ataques.
E estima-se, Ricardo, que nestes protestos em França tenham saído à rua perto De 800 mil pessoas, um pouco por todo o país.
Para participarem em marchas e protestos contra o elevado custo de vida, como é panário, os franceses saíram em força à rua para protestar. Cerca de 800 mil, um balanço divulgado por várias organizações que convocaram os protestos. As autoridades dão conta de quase 200 detidos em todo o país. Em Paris, os manifestantes entraram em confronto com as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogêneo e com a detenção de quase 100 pessoas. Um cenário difícil na capital francesa. São escutadas explosões constantes nas ruas, estão a ser levadas a cabo pilhagens, enquanto a polícia tenta manter a ordem. Em Lyon, por exemplo, um posto de turismo foi vandalizado, sendo que em Marselha, também um grupo de pessoas tentou forçar a entrada na Câmara Municipal, o que obrigou à intervenção da polícia.
E mudamos de tema nesta edição das 10. Isto porque mais de 52 mil alunos, Ricardo, conseguiram entrar numa instituição de ensino superior através do concurso nacional de acesso.
Os resultados da última fase do concurso só serão divulgados depois da meia-noite de hoje, mas os dados oficiais já divulgados dão conta desses mais de 52 mil estudantes colocados entre as três fases de acesso ao ensino superior. Este número mostra que há um aumento de colocados face ao ano passado. São quase 7 mil. Após receberem os resultados, os estudantes colocados na terceira fase terão até terça-feira para se matricularem.
E hoje é dia de Taça de Portugal e já estão encontrados os primeiros tombos gigantes da prova, Ricardo. É o caso do Sanjoanense, da quarta divisão, que eliminou o Nacional da Madeira.
É isso, Vicente. Como acontece todos os anos, a Taça de Portugal está a fazer vítimas entre as principais equipas dos escalões profissionais. A maior surpresa deste sábado chega de São João da Madeira. A Sanjoanense, do quarto escalão do futebol português, eliminou os madeirenses do Nacional da Primeira Liga, com uma vitória por um bola a zero. Maxwell Sani marcou o gol decisivo aos 81 minutos. Mas o Nacional não foi a única equipa do primeiro escalão a cair. O Moreirense também está fora da Taça, depois de perder por uma bola a zero frente ao Aves, da Segunda Liga. Rodrigo Pinho marcou o gol da partida logo aos três minutos. Também o Atlético e o Vianense, ambos da Liga 3, conseguiram surpreender equipas da Segunda Liga. O Atlético venceu o Vizela por uma bola a zero, enquanto o Vianense afastou o Leixões também pelo mesmo resultado. Em sentido inverso, o Vitória de Guimarães confirmou o favoritismo frente ao Lamelas, que atua na divisão distrital de Viseu. Os vimaranenses tiveram de suar. Ainda assim, Vicente, venceram apenas pela margem mínima. Também o Estrela da Amadora passou por dificuldades, precisou de um gol perto do fim para vencer o Fazendense por duas bolas a uma. O Rio Ave, o Portimonense, o Farense e o União de Leiria também garantiram a passagem à próxima eliminatória. Estes jogos são da terceira eliminatória da Taça de Portugal, numa fase que ainda não conta com Benfica, Sporting, Porto e Braga, que só entram em prova na próxima ronda.
Mas ainda assim é sempre festa da Taça, já com meia tomba gigantes na prova a seguir até à próxima fase. Fica por aqui esta edição das 10 da noite, com o Ricardo Lopes, que está de regresso às 10h30 com uma síntese de notícias. Um abraço, Ricardo. Até já.
Até já.