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Duas horas. As notícias com Martim Madeira. Boa noite. Está na hora de usar toda a informação aqui com a Rádio Observador. E é oficial, o Brasil vai mesmo pra segunda volta nas eleições presidenciais. Lula confessa que pensou que ia vencer e continuar como presidente na primeira volta. Uma primeira volta que ficou marcada pela vitória de Flávio Bolsonaro, que teve 47% dos votos e ultrapassou mesmo os números do pai, quando Jair Bolsonaro venceu a primeira volta em 2018. Mesmo assim, o candidato do Partido Liberal não conseguiu a maioria necessária para ser presidente. Já Lula da Silva, do Partido Trabalhador, ficou em segundo lugar com 45% dos votos. E no discurso da derrota desta primeira volta, o atual presidente brasileiro prepara já a segunda volta, que diz ser a prova dos nove.

Muitas vezes é inesperado. A gente nunca consegue tudo aquilo que a gente queria. Eu confesso pra vocês que eu estava convencido que eu ia ganhar as eleições no primeiro turno. Mas eu também já pensei isso outras vezes. Eu lembro que eu pensei em ganhar no primeiro turno quando eu disputei com o José Serra, eu também não ganhei. Mas a gente tem o segundo turno, e o segundo turno é a hora da prova dos nove. É a hora da gente mostrar a verdadeira fotografia do Brasil de hoje e o Brasil que a gente quer.

As declarações de Lula da Silva nesta reação à derrota da primeira volta, num registo da CNN Portugal. Já Flávio Bolsonaro mostra-se contente com o resultado e diz que o tempo do PT chegou ao fim.

Estou muito feliz, de verdade. São quase 56 milhões de brasileiros e brasileiras que deram esse voto de confiança pra mudança. A palavra é mudança. É o fim da era do PT. Está decretado o fim da era do PT, a mudança no nosso país. O Brasil dá uma resposta definitiva de que quer um governo moderno, um governo com menos ministérios, um governo que vai resgatar a democracia. O que eu tenho pra falar é que o Lula está disputando o poder. Ele já disputou sete eleições presidenciais. Eu só preciso de um mandato.

O apelo aqui de Flávio Bolsonaro. Conosco, em estúdio, temos o jornalista do Observador, José Carlos Duarte, que tem estado a acompanhar estas eleições no Brasil. E José Carlos, eu sei que ouvimos agora falar Flávio Bolsonaro, mas queria primeiro analisar este discurso de Lula da Silva, que aqui diz que já noutras ocasiões, por exemplo, noutras eleições, em 2002, também perdeu a primeira volta, acabou depois por ganhar a segunda volta. Parece aqui uma sugestão de que Lula não tem dúvidas nenhumas de que pode ganhar a segunda volta?

Eu acho que Lula é um político que tem um certo autoconvencimento, ou seja, ele gosta de se mostrar confiante e assertivo. Eu acho que é mais da personalidade dele como político, mais do que propriamente uma confiança cega de que vai ganhar a segunda volta. Eu acho que ele pode ter essa crença, ele demonstrou que até conseguia ganhar a primeira volta, mas não sei até que ponto é realista esta sua proposta. Ele disse que já perdeu na primeira volta, depois já ganhou na segunda, mas isso nas eleições presidenciais nunca aconteceu na história do Brasil. Ou seja, o que aconteceu foram outras eleições em que ele fez isso, mas nas presidenciais, o candidato que ganha a primeira volta, ganha a segunda. Portanto, ele tem que correr aqui um cadinho contra a história e vai ser muito complicado para o candidato do PT. Eu acho que ele talvez ainda tenha alguma espécie de crença, porque houve muitas pessoas no Brasil que não votaram, cerca de 20 milhões de pessoas que se absteram. Portanto, há aqui um potencial mercado de voto a ser explorado. Há ainda os candidatos da terceira via, que estão mais associados à direita, mas que mesmo assim pode alguns votos migrar, mas eu acho que Lula não está na melhor posição pra corrida da segunda volta. Acho que Flávio está à frente, Flávio Bolsonaro está claramente à frente. E acho que ele vai ter que demonstrar outras espécies da sua campanha que não ficaram totalmente claras na primeira.

Queria também explicar um cadinho estas declarações de Lula, em que Lula cola Bolsonaro ao escândalo do Banco Master, diz mesmo: "Tudo isto vai ficar claro". Não sei se parece um tom de ameaça, de algo que vem aí. O que Lula quis fazer aqui?

Sim, nesse aspecto existe um rumor que está a circular nas redes sociais, entre a campanha do Lula, que nos próximos tempos será descoberto um grande escândalo do Banco Master ligado a Flávio Bolsonaro, ou pelo menos à família do antigo presidente. O que é certo é que já há ligações Ou alegadas ligações, melhor dizendo, de Flávio Bolsonaro ao caso Master. Flávio Bolsonaro é suspeito de ter pedido ajuda a Daniel Vorcark, que é o empresário e o rosto do caso Master. E Flávio Bolsonaro terá pedido financiamento para fazer um documentário, um filme sobre o pai. Portanto, já há aqui uma espécie de ligação, ainda que não esteja comprovada, é apenas uma suspeita, não avançou nada judicialmente, mas o que é fato é que há este rumor de que poderá alterar o curso da segunda volta, que é uma ligação ainda mais clara e explícita do candidato Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcark e ao caso Master, mas por agora é só especulação. Mas há realmente aqui informações nos bastidores que dão a entender que poderá ser um trunfo pra Lula da Silva na segunda volta.

E agora olhando para Flávio Bolsonaro, disse esta frase de que as pessoas estão um bocadinho saturadas do Lula, Lula está há demasiado tempo no governo. Pergunto se achas que isso é o caso e é uma das grandes motivações pra Flávio Bolsonaro ter vencido esta primeira volta.

Eu acho que não é propriamente a saturação com Lula da Silva, mas eu acho que é um argumento bastante bem elaborado. Ou seja, Flávio acena com mudança, acena com a diferença, e coloca o legado e a história do Lula da Silva aqui em causa, porque a mensagem que Flávio quer passar é: apesar de Lula ter governado o país desde 2002 e apesar de não ter sido sempre ele, e ter vindo o Jair Bolsonaro, Dilma Rousseff e Michel Temer, mas ele governou a maior parte dos últimos 25 anos. Está o Brasil melhor? É por este rumo que queremos continuar a levar o país? Eu acho que é um argumento que pode colar entre certas partes do eleitorado. Lula da Silva é uma figura que é muito polarizada no Brasil. Muita gente o ama, muita gente o odeia. Não há aqui meio-termo, é muito difícil arranjar aqui um meio-termo pro Lula da Silva, e ele pode estar a querer mobilizar estes eleitores mais indecisos, este eleitorado que não gosta particularmente dele, do Flávio, mas também que não gosta do Lula da Silva. E quer aproveitar este índice de rejeição do Lula da Silva, que existe, aliás, há uma sondagem recente que diz que 53% dos inquiridos desaprovam e têm uma imagem negativa do Lula da Silva, e 53% é uma porcentagem que lhe serve pra ganhar a segunda volta. Ou seja, ele vai apostar precisamente isso, na taxa de rejeição de Lula, pra cavalgar a sua campanha e para se mostrar como um elemento diferente, alguém que vem um bocadinho romper com o sistema e que vem trazer uma nova esperança. Ele disse mesmo isso, uma nova esperança, um novo vento de mudança. Eu acho que ele também associa o PT, porque o PT teve um resultado bastante negativo nessas eleições. E eu acho que ele também acaba por colar o PT ao Lula para dar aqui a sensação de que esta candidatura está destinada ao fracasso.

E achas, muito rapidamente mesmo, achas que, de fato, Flávio Bolsonaro precisa mesmo só de um mandato pra resolver o problema do Brasil?

Eu acho que é muito difícil. O Brasil tem muitos problemas estruturais. É um país muito grande. É um país em que existe um poder legislativo, o Congresso, que tem muitos poderes e Flávio Bolsonaro, mesmo com o Congresso mais amigo, houve muitos senadores e deputados que foram eleitos que são do partido dele, o Partido Liberal, vai ter um Congresso mais amigo, mas mesmo assim é preciso negociar no Congresso. E estas negociações são complexas e Flávio Bolsonaro, pelo menos da experiência do pai, poderá não ter muito sucesso em concretizar toda a sua agenda, porque é preciso ter aprovação do Congresso, é preciso ter aprovação da Câmara dos Deputados e do Senado. E lá está, este contrapoder à presidência, muitas vezes dinamita o caminho do presidente e dinamita a agenda do presidente. Portanto, acho que o mandato vai ser muito difícil pra concretizar a agenda que ele tem, mas aquilo que pode acontecer, e que eu acho que é o mais provável, é uma espécie de dinastia dos Bolsonaros. Eu não estou a falar só dele, ele é político, os irmãos também são políticos.

A madrasta foi eleita há poucos meses.

É política, há muitos nomes da direita. Eu acho que ele, se calhar, pode só ficar o mandato, e eu acho que ele dá a entender isso no discurso, mas isso não significa que o bolsonarismo tenha morrido. Ou seja, é só a figura nestes quatro anos, mas depois vem alguém que poderá ser, se for indultado, que é uma hipótese que se está a falar, Jair Bolsonaro. Portanto, existe essa probabilidade de ele poder regressar à vida política caso o futuro presidente do Brasil seja Flávio Bolsonaro e decida indultar o pai.

Obrigado, José Carlos, por esta tua análise nestas eleições do Brasil. Também vai estar a acompanhar durante esta noite estas eleições e saberemos se o próximo presidente brasileiro na segunda volta está marcada pro dia 25 de outubro. Vamos agora rapidamente falar de futebol. Jorge Jesus falou sobre o tema Cristiano Ronaldo. O selecionador português abre a porta ao antigo capitão já na próxima convocatória. Na conferência de imprensa pós-jogo, o selecionador nacional de futebol afirma que se Ronaldo quiser voltar, será aceito.

Pra mim, o Cris, na próxima convocatória será, caso ele esteja a jogar no Nasser, será um jogador convocável. Se ele quiser, regressar à seleção, porque, volto a dizer, não dá pra entender só porque foi ele, que criou-se, e se calhar bem, porque ele é um símbolo, este problema todo de aquecer e não aquecer, entrar e não entrar. Isso acontece com todos os jogadores. Quantos jogadores hoje aqueceram e não entraram? Quantos? Vai haver algum problema? Não. O Cris é diferente, cá está, é o símbolo

Jorge Jesus revelou ainda que também fez um pedido especial ao jogador.

Eu quero que ele esteja. Ele sabe que vai acabar, isto não dura para sempre a todos. Mas gostava que ele acabasse na seleção como ele quer. Ele é que vai decidir como ele quer. Porque foi assim que falamos os dois. Eu disse: "Eu preciso de ti. A minha primeira convocatória, eu preciso de ti, preciso que tu estejas ao pé de mim, jogando ou não jogando, eu preciso de ti." E agora digo a mesma coisa.

Além do selecionador nacional, falou também o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, em declarações exclusivas à RTP, diz que o país precisa de fazer uma vénia a Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo hoje representa o símbolo maior da portugalidade e nós temos que prestar a vénia ao Cristiano Ronaldo. E deixe-me lhe dizer uma coisa, o Cristiano Ronaldo está na seleção nacional por mérito desportivo próprio e isto tem que ser absolutamente inquestionável. E ele fará sempre parte deste grupo de trabalho, sempre que tecnicamente ele estiver capaz. O Cristiano sabe disso, sabe que é esse o sentimento. Sobre o tema em concreto, deixe-me lhe dizer que estamos claramente perante um mal-entendido que tem que ser resolvido dentro de casa.

As palavras de Pedro Proença, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, também falou pela primeira vez sobre toda esta novela a envolver Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. E falando agora do resultado desportivo, que é o que realmente interessa, nesta noite de domingo, Portugal venceu a Noruega por 2 x 1. Consegue assim o melhor arranque de sempre na Liga das Nações, garante já o apuramento para os quartos-final da prova. Os gols foram marcados por João Cancelo e Gonçalo Ramos, 12 pontos do grupo A, ainda tem alguns jogos pela frente. É a terceira vez em cinco edições que Portugal passa aos quartos-final. Nas duas edições anteriores venceu mesmo a competição. O ano passado vencemos contra a Espanha. Notícia de fecho deste jornal das 02h. Informação está de regresso às 02h30. Até já.