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Muito bom dia, são 9:02. As notícias com Carla Jorge Carvalho. Carla, a ministra da Administração Interna faz a esta hora um ponto de situação dos desacatos na Grande Lisboa.

Vamos ouvir Margarida Blasco, que está em Faro. Vamos ouvi-la com a ajuda da RTP.

Que têm atuado nestes distúrbios, três já se encontram detidos e tudo faremos para levar todos aqueles que participaram destes tumultos à Justiça.

Senhora ministra, vai ser preciso

Aquilo que eu quero dizer é que a PSP, em articulação com todas as forças de segurança, estão neste momento e desde a primeira hora, a fazer todas as atividades e funções necessárias para repor a tranquilidade pública e o apoio às populações.

Isso implica um reforço policial? Implica um reforço policial, sim?

O que eu quero dizer é que nós, o governo, acompanhamos, e eu, permanentemente, todos os desenvolvimentos e todas as ações de polícia, de prevenção e de repressão de todos aqueles que praticam estes atos. Queria vos dizer que estou nesta permanente troca de mensagens e de acompanhamento daquilo que é perfeitamente inadmissível, que são estes atos de vandalismo que põem em causa a ordem e a segurança públicas.

Vai ser tomada uma medida de força ou não?

Como pode imaginar, não revelarei aqui qualquer ação operacional. Aquilo que eu tenho acompanhado e aquilo que eu queria garantir aos portugueses é que as forças de segurança tudo farão para manter a ordem e deter aqueles que têm participado nestes distúrbios, sendo que já estão três detidos.

Algum detalhe sobre Margarida Blasco?

Image não disse a ministra da Administração Interna, que saiu do local onde estava a falar aos jornalistas, com esta indicação de que o governo está a acompanhar a situação. O objetivo, nesta altura, quer do governo, quer das forças de segurança, é repor a tranquilidade pública, dizendo que os atos de vandalismo registados nas duas últimas noites são inadmissíveis, prometendo que todos os autores dos distúrbios vão ser levados à Justiça. A ministra Margarida Blasco também aqui já a avançar, confirmando os números da PSP de que já três pessoas foram detidas até agora.

Nos desacatos que se alastraram, Carla, há várias zonas da Grande Lisboa.

As três pessoas detidas são do Conselho de Amadora, duas por incêndio e agressões a agentes policiais, outra por posse de material combustível. Não há, para já, mais detalhes. Por exemplo, a idade dos detidos. Os desacatos começaram depois da morte de Odair Muniz, homem de 43 anos, morador no bairro do Zambujal, baleado pela PSP, e que se alastraram ontem à noite a vários conselhos da Grande Lisboa. Foram incendiados autocarros, carros particulares, caixotes do lixo. Houve também uma tentativa de fogo posto numa bomba de gasolina. Os moradores do bairro do Zambujal, ouvidos pelo Observador, temem que os manifestantes só parem quando matarem um polícia. O António José Soares está agora na Portela de Carnaxide, onde foi incendiado um dos autocarros. António, tens visto vários veículos queimados. O que é que vão dizendo por aí os moradores?

Boa tarde, Carla. Aliás, bom dia. Mais uma vez aqui o cenário repete-se: carros queimados. Estamos exatamente, e antes de ouvirmos os moradores, chegamos aqui a uma rotunda onde parámos, porque havia mais um carro queimado e estava cá neste momento, está aqui, aliás, neste preciso momento, o presidente da União de Freguesias de Carnaxide, Inigo Pereira, que está agora aqui disponível para falar com a Rádio Observador. Muito bom dia. Perguntava-lhe, Inigo Pereira, surpreendeu esta explosão de violência aqui no bairro da Portela de Carnaxide?

Bom dia. Quer dizer, não é assim um bom dia, mas surpreende porque esta zona é uma zona tranquila, calma. Eu compreendo que as pessoas estejam revoltadas com o que se passou, mas, no entanto, o que eu verifico aqui é que também há muito vandalismo aqui à mistura. Esta não é a melhor forma de as pessoas demonstrarem o seu desagrado. Pelo contrário, porque só prejudica quem aqui vive, quem aqui trabalha, quem por aqui circula. Como vocês podem verificar, há muitas pessoas a serem, logo pela manhã, para ir trabalhar. Esta é uma zona muito movimentada. Este bairro é tranquilo, tal como os outros, a maioria dos bairros municipais do Conselho de Oeiras. As pessoas gostam de aqui viver, têm bons equipamentos de lazer, equipamentos desportivos, etc. Há uma boa convivência entre todos e esta situação não se compreende.

Pensa que foi um contágio dos outros bairros, nos outros bairros contagiou aqui este também?

Sim, obviamente que trata-se de uma situação desse género. Há um contágio com o que aconteceu ontem no bairro do Zambujal, mesmo aqui ao lado. Ontem à noite também houve aqui alguns desacatos, mas pela proximidade também houve aqui um contágio direto do que aconteceu no bairro do Zambujal e o que está a acontecer em outros bairros do distrito de Lisboa.

Muito obrigado. Inigo Pereira, presidente da União de Freguesias de Carnaxide, a fazer aqui uma leitura dos acontecimentos da última noite. Antes de chegarmos a esta rotunda, passamos por uma outra rua onde havia outro carro incendiado e conseguimos falar com alguns moradores que nos descreveram o que se passou na última noite.

Toda a gente sabe o que se passou, foi mais uma retaliação que eles fizeram.

Viu este carro a ser incendiado?

Não, já estava incendiado quando a gente viu.

Moram aqui perto?

Aqui.

Isto foi mais ou menos a que horas que incendiaram o carro? Conseguiram perceber?

Eu não me lembro.

10 e tal, 11 horas. 10 e quanto?

10 e tal da noite, 11 horas?

Foi quando houve muito barulho aqui.

Peço desculpa?

Foi quando houve muito barulho aqui.

Houve muita confusão, a polícia esteve cá?

Não, nem quiseram entrar no bairro.

Foram lá em cima, nem desceram lá de cima cá para baixo.

Quando viam as pessoas a vir a pé, até diziam para ir a pé tranquilamente, que não se passava nada. Eles não queriam saber, sinceramente, do bairro. Tanto que houve muita confusão aqui dentro, muito ao pé deles, e eles não fizeram nada, só ficaram quietos a olhar. Houve um rapaz que levou facada e mesmo assim não fizeram nada.

Um rapaz que levou?

Facada. Foram chamar a GNR e eles não quiseram saber, só deixaram andar.

É o testemunho de alguns moradores que aceitaram falar com a Rádio Observador sobre os acontecimentos da última noite na Portela de Carnaxide, um dos bairros onde houve esta onda de violências na última noite, Carla, e onde também foi incendiado mais um autocarro. É mais um cenário que descrevemos ao longo desta manhã, que temos estado a acompanhar desde as 06h, a passar pelas várias zonas da área da Grande Lisboa, onde deflagraram vários focos de confusão, de violência, de incêndios, de caixotes do lixo destruídos, um cenário que se vai repetindo um pouco pelos sítios onde temos vindo a passar esta manhã, Carla.

E vais, António José Soares, tem estado a contar os estragos, os veículos queimados agora em direto da Portela de Carnaxide, concelho de Oeiras, um dos locais onde foram registados muitos desacatos esta madrugada.

E a advogada da família de Odair Moniz denuncia uma invasão violenta ilegal por parte da PSP esta noite na casa da viúva e vai apresentar queixa.

A família afirma que um grupo de agentes da PSP arrombou a porta fora da hora legal, sem mandado, alegadamente duas pessoas foram agredidas. Os agentes terão também tentado entrar uma segunda vez, mas aí a advogada já estava no local, pelo que a polícia não voltou a entrar em casa. É o que afirma a advogada, que representa a família de Odair Moniz. Esta versão é também confirmada por um familiar da vítima, Silvia Silva, em declarações à Rádio Observador.

Entrou de uma forma agressiva e a dar com cassetes na mesa, na porta, pontapés na porta, arrebentaram a porta toda. Entretanto, eu disse: "Eles querem matar mais um", não sei o quê. Mostrei-lhes a foto do Odair, eles acalmaram. Depois eles disseram: "Não, é porque também nos deram com pedra". "Mas o que vocês vêm fazer, arrebentarem a porta? Têm direito de arrebentarem a porta ou fazerem o que fizeram?" "Não, deram com pedras, mas foram embora". Entraram mais 15 aqui dentro e agrediram duas pessoas aqui dentro.

E é por isto que a família de Odair Moniz vai apresentar uma queixa-crime pela alegada invasão da polícia. A PSP não confirma esta versão.

O presidente do Observatório de Segurança Interna fala num fenômeno novo em Portugal. Luís Fernandes sublinha que o uso da força por parte da PSP não é arbitrário.

O presidente do Observatório de Segurança Interna sublinha que as forças de segurança não podem estar constantemente expostas a este tipo de situação. Luís Fernandes alerta que a PSP tem várias regras a cumprir no que toca ao uso da força.

Estamos a assistir a um fenômeno novo, que já é antigo. Ora bem, nós temos que ter a percepção de que existem aqui algumas questões que influenciam não só a forma como as populações sentem, portanto, a força das forças de segurança, como também temos a noção de que as forças de segurança têm que fazer o seu papel e não podem estar sempre a ser expostas a agressões e a confusões de todo o tamanho. Por ter sido utilizada uma arma de fogo, significa que não havia meio inferior. Por outro lado, também há aqui uma outra questão. Eu queria que ficasse completamente claro para toda a população portuguesa: a polícia, PSP e GNR cumprem normas legais na utilização da força.

O presidente do Observatório de Segurança Interna, Luís Fernandes, sublinha que é preciso acalmar os ânimos para se perceber o que realmente aconteceu.

São agora 9h13. Já segue o Explicador com o antigo ministro da Administração Interna, Rui Pereira. Mas primeiro, Carla, as outras notícias que estão em destaque.

A Secretária de Estado Adjunta da Justiça afirma que houve falta de comando e de cumprimento das regras de segurança na prisão de Vale de Judeus. Em entrevista à Rádio Observador, Maria Clara Figueiredo reconhece falhas nas escalas, na videovigilância e também incumprimento de instruções. Isto depois da fuga de cinco reclusos. A Secretária de Estado Adjunta anuncia ainda que a plataforma Sítios, aquela que é usada pelos tribunais para gerir os processos judiciais, vai ser alargada à fase de investigação. Está marcada para hoje, em Lisboa, uma manifestação de cientistas. O protesto junta vários sindicatos e organizações do ensino superior. Consiste numa marcha entre o Ministério da Ciência e a Assembleia da República. Esta manifestação acontece no mesmo dia em que se realiza também uma greve no setor contra a precariedade da profissão. Vladimir Putin fala hoje com o presidente da Venezuela, à margem da Cimeira dos BRICS. A notícia é avançada pela imprensa russa. Amanhã, no último dia desta cimeira, Putin vai reunir-se com António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas.