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A hora são 9h. "Jornal das Nove" com Carla Jorge Carvalho. Morreu o antigo gestor do Banco Espírito Santo, José Maria Ricciardi, tinha 71 anos.

A notícia foi avançada pelo jornal "Eco", entretanto confirmada pelo "Observador". Ricciardi dedicou grande parte da vida profissional ao setor da banca, em especial ao Grupo Espírito Santo. Carlos Pedro.

Foi presidente da Comissão Executiva e vice-presidente do Conselho de Administração do BES Investimentos, presidente também do Conselho de Administração do BESI Brasil e membro da Comissão Executiva do Banco Espírito Santo. A carreira profissional começou antes disso, na década de 70, no Brasil, no Banco Interatlântico. Depois, aí sim, começaria a aventura pelo Grupo Espírito Santo da própria família. O banco acabaria por falir devido a graves problemas financeiros. Deu também origem a um megaprocesso na Justiça, que obrigou José Maria Ricciardi a testemunhar em tribunal contra o próprio primo, Ricardo Salgado. Ricciardi foi uma das figuras centrais na reta final da vida do BES, denunciou práticas irregulares no banco e contestou a liderança de Salgado. Em 2023, em entrevista ao Observador, admitiu que o primo tinha tentado pressionar num jantar em 2014, perguntando-lhe o que é que queria em troca de silêncio.

Carlos, e fora do setor da banca, José Maria Ricciardi foi também um nome ligado ao Sporting.

Desde logo porque é sobrinho-neto do sócio-fundador do clube, José de Alvalade. Sempre com as contas em mente, foi membro do Conselho Fiscal do Sporting nos mandatos de Pedro Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e também Godinho Lopes. Em 2018, perdeu as eleições para a presidência do Sporting, sendo derrotado pelo atual presidente Frederico Varandas.

Carlos Pedro a recordar aqui José Maria Ricciardi, que morreu hoje aos 71 anos, vítima de doença prolongada. Em direto conosco agora neste jornal está o redator principal do Observador, Luís Rosa. Bom dia, Luís.

Bom dia.

Ricciardi, acabamos de ouvir, foi uma figura central no processo que levou à queda de Ricardo Salgado e do BES. Fizeste-lhe uma das últimas entrevistas. Ricardo Salgado. Ficou a mágoa entre primos por aquilo que aconteceu no BES?

Sim, havia uma grande mágoa da parte de José Maria Ricciardi, em primeiro lugar, porque José Maria Ricciardi tentou suceder a Ricardo Salgado com o apoio da família, e Ricardo Salgado torpedeou essas intenções, nunca quis, não aceitou. E na entrevista que nos deu em 2023, até revelou que Salgado tinha feito algo que se pode dizer que era uma tentativa de corrupção, uma espécie de proposta: "Quanto é que queres para ficares calado?"

Quanto é que vale o silêncio? Sim.

Quanto é que vale esse silêncio. E José Maria Ricciardi, de facto, sempre teve a convicção de que teria conseguido salvar o BES se tivesse conseguido substituir Salgado ainda em 2013, que era essa a intenção dele, não propriamente em 2014, mas ainda em 2013. E é verdade, pelo que sabemos hoje, que em 2013, o Grupo Espírito Santo provavelmente estava falido, mas o banco ainda não tinha sido tão afetado como foi mais tarde com as investigações que são hoje públicas, quer do Banco de Portugal, quer do Ministério Público. Sabemos que Salgado hipotecou o futuro do BES muito em 2014, com operações de puro desespero, que afetaram muito o patrimônio do Banco Espírito Santo. Tudo para salvar um grupo que já estava falido. E, portanto, Ricciardi, se tivesse conseguido substituir Salgado, provavelmente teria conseguido proteger muito melhor o BES do que Salgado fez. Portanto, nesse ponto de vista, havia essa grande mágoa de José Maria Ricciardi não ter conseguido atingir esse objetivo. Em relação à relação entre os dois, essa relação sempre foi uma relação complexa, sempre foi uma relação muito complicada. Salgado sempre tentou menorizar o Ricciardi, e Ricciardi nunca aceitou, obviamente, essa matéria, e sempre tentou lutar pelo seu trabalho, pela sua credibilidade. E Ricciardi, nessa entrevista que nos deu em 2023, ao fim e ao cabo, a grande mágoa que persistia é que ele não perdoava Ricardo Salgado pelo fato de ter feito a gestão que fez. E é importante recordar, é um dos títulos dessa entrevista, Ricardo Salgado acabou por ser condenado, contra ele tem julgado, por ter, ao fim e ao cabo, o crime do abuso de confiança, que significa que Salgado desviou € 10 milhões do próprio Grupo Espírito Santo. E daí a expressão que Ricciardi utiliza na entrevista, que não o surpreendia o facto de ter roubado a própria família. Era uma frase forte na entrevista. Isso também caracteriza um bocadinho José Maria Ricciardi, uma pessoa muito frontal, uma pessoa que era também muito emocional, no bom sentido da palavra, mas também quando se chateava, era um bocadinho colérico. Mas era uma pessoa muito emocional, era um empreendedor que fez uma boa carreira, fez um bom trabalho no Banco Espírito Santo Investimentos. Foi o único banco, e ele tinha muito orgulho nisso. Foi o único banco do Grupo Espírito Santo, se tu quiseres, que conseguiu ser vendido a um grupo chinês, se não me falha, o Aitong, com uma receita bastante significativa. Era um banco que foi gerido durante muito tempo por José Maria Ricciardi. E José Maria Ricciardi tinha muito orgulho na sua carreira profissional, no trabalho que ele tinha feito. Mas era, de facto, uma pessoa extraordinária de conhecer, porque era muito comunicativo. Falei muitas vezes com ele, não só nessa entrevista, como também em encontros privados, e falei muitas vezes com ele nos últimos 10 anos. E era alguém com quem era muito fácil falar, muito comunicativo, muito alegre, muito extrovertido

E de fato, é uma notícia muito triste esta com que iniciamos este dia.

E como aqui recordas, terá ficado muita mágoa ao fim de todo este processo do BES, não só pela questão profissional, mas também, naturalmente, pela relação familiar. Luís Rosa, obrigada por teres recordado aqui esses momentos que partilhaste com José Maria Ricciardi, que morreu hoje aos 71 anos.

José Maria Ricciardi, que foi também membro do Conselho Fiscal do Sporting Clube de Portugal.

À banca junta-se também esta paixão pelo Sporting, junta-se a este Jornal das Nove, Dias Ferreira. Foi também dirigente do Clube de Alvalade. Dias Ferreira, bom dia, obrigada por estar conosco. Começo por lhe perguntar precisamente que memória tem e o que é que recorda de José Maria Ricciardi como adepto e pelo amor ao clube.

Em primeiro lugar, fui surpreendido esta manhã com esta tristíssima notícia, embora, de algum modo, ele acabou com um sofrimento grande.

Claro, estava doente já há algum tempo.

Exatamente, já há bastante tempo. Ele foi perseguido por esta maldita doença. E, portanto, fui surpreendido esta manhã com uma notícia que não será uma surpresa. Infelizmente, pois José Maria Ricciardi era um dos grandes amigos que eu tinha e que eu conheci no Sporting Clube de Portugal e que apreciava muito o seu sportinguismo. E ainda agora o jornalista que estava a falar, numa característica que era, efetivamente, ele era muito emocional a discutir qualquer coisa e por isso muitas vezes as nossas discussões eram dois emocionais a discutir o Sporting, dois sportinguistas a discutir emocionalmente o Sporting. E às vezes a gente ultrapassava aquilo que era legítimo, ou aquilo que seria lícito entre dois amigos, mas voltava tudo ao mesmo, porque ambos compreendíamos que era uma questão de feitio.

Imagino que tenha visto muitos jogos do Sporting perto dele.

Sim, alguns, quando estava na tribuna ou camarote do Espírito Santo, era ali bem perto. Mas vivi com ele muitas situações, inclusivamente em 2018, anos fomos candidatos à presidência do Sporting. Portanto, tivemos algumas discussões, mas o que permaneceu sempre foi uma boa relação, uma boa amizade, e por isso é com muita tristeza que o vejo partir. Sobretudo porque sei que ele tinha dois sonhos principais, um deles era realmente ser sócio do Sporting, e podia ter sido, talvez noutra ocasião, podia ter sido se quisesse, mas achou que era preferível e que podia melhor de uma posição no Conselho Fiscal, ajudar o Sporting, e ajudou. E o outro sonho que ele tinha e que me confessou várias vezes nos últimos tempos, foi que realmente queria reconstruir o nome do Espírito Santo, da família Espírito Santo. Não fez nem um nem outro, terá prestado grandes serviços tanto num lado como noutro, e sobretudo tenho a certeza absoluta que deixou muitos amigos. E onde quer que esteja, a única coisa que eu lhe desejo é que descanse em paz.

Dias Ferreira, muito obrigada por ter estado conosco também neste Jornal das Nove da Rádio Observador. Dias Ferreira foi antigo dirigente do Sporting, que partilhava com José Maria Ricciardi o amor ao clube. Ricciardi tentou concorrer à presidência do clube, acabou por ser derrotado pelo atual presidente Frederico Varandas. A mágoa fica de não ter conseguido assumir a gestão do Banco Espírito Santo.

São agora 09h10, Carla, antes do explicador, que outras notícias marcam esta manhã de quarta-feira?

O presidente da República, António José Seguro, convocou a primeira reunião do Conselho de Estado para o dia 17 de abril. A informação acaba de ser avançada numa nota da presidência. A reunião está marcada para o próximo mês, pelas 15h, no Palácio de Belém. O tema será segurança e defesa. O Irão rejeita negociar a paz no Médio Oriente com os Estados Unidos, mas terá feito exigências a Washington, exigências que passam pelo encerramento de todas as bases militares norte-americanas no Golfo. É o que conta hoje o Wall Street Journal. Enquanto isso, a versão oficial de Irão é que não mantém qualquer tipo de negociações com Washington, e isto apesar do plano de 15 pontos que já foi entregue ao Irão. Entretanto, continuam os ataques. O Iraque é o mais recente país a ser atingido num ataque aéreo contra um hospital militar que pertence às Forças de Mobilização Popular do país, do Iraque, um braço do exército iraquiano ligado ao Irão. Sete militares morreram. O primeiro-ministro do Iraque anunciou uma reunião de emergência com o Conselho de Segurança. Pedro Sánchez está neste momento a ser ouvido no Congresso sobre a posição crítica que o governo espanhol tomou face à guerra no Médio Oriente. O chefe de governo espanhol volta a classificar o conflito de Estados Unidos e Israel com o Irão como ilegal e um desastre absoluto. Diz também que Donald Trump avançou para o Médio Oriente sem um objetivo concreto e que a Casa Branca teve a oportunidade de fechar um acordo com o regime iraniano, mas não o quis fazer.