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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast, sempre com Miguel Pinheiro. Fala Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o bom nesta terça-feira, Miguel?
O bom desta terça são Isabel Moreira e Alexandra Leitão. Ontem à noite, Isabel Moreira falou sobre o caso Miguel Alves e no fim de semana tinha sido Alexandra Leitão a falar sobre o caso. As duas deputadas do PS fizeram uma coisa rara, criticaram publicamente um membro do governo que apoiam. Aliás, mais do que isso, criticaram publicamente e até pediram a demissão do secretário de Estado adjunto que trabalha diretamente com o primeiro-ministro desse governo, portanto, não é um membro do governo qualquer, e sendo que esse primeiro-ministro é também o líder do partido que as elegeu. Em Portugal isto é raro porque, como toda a gente sabe, somos o país do respeitinho, e é mais raro ainda hoje em dia, porque ao respeitinho tem-se juntado agora um sectarismo cada vez maior na forma como se faz política, o que faz com que muita gente ponha a defesa da sua área política à frente da defesa das suas convicções, com resultados desastrosos, como se vê quase todos os dias. Isabel Moreira e Alexandra Leitão dizem em voz alta aquilo que outros pensam baixinho, e é bom que haja pessoas assim no PS, no PSD e em todos os outros partidos. Têm aqui um bom exemplo para seguir.
É, prestam serviço aos partidos e à política, sem qualquer dúvida, mais do que aquele seguidismo cego, tantas vezes.
Que já não se aguenta.
Então quem é o mau?
O mau é o ministro da Administração Interna. Nós já sabíamos que o Estado não consegue recrutar médicos. São abertos concursos em vários hospitais do país que ficam vazios porque os médicos simplesmente não querem trabalhar para o Estado. E agora ficámos a saber que isso também está a acontecer com os polícias. Segundo o Público, no último concurso para agentes da PSP, foram abertas 1020 vagas, mas no final só se conseguiram preencher 648. E então, perante isto, o que é que o Ministério da Administração Interna fez ao perceber que não conseguia ter polícias suficientes? Fez o óbvio, que é baixar o grau de exigência. Antes, a idade mínima de entrada era de 19 anos, agora passou a ser de 18. Antes, a idade máxima de entrada era de 27 anos, agora é de 30. Antes, os candidatos precisavam ter o 12º ano completo e agora basta estarem a frequentar o 12º ano. Antes, a avaliação psicológica era feita numa classificação com cinco escalas possíveis, imagine-se a exigência disto, e agora os candidatos são simplesmente declarados aptos ou não aptos. Portanto, o grau de exigência desce, vai descendo, desce mais um bocadinho, desce outra vez, mas mesmo assim não há candidatos suficientes, continua a não haver. Por isso, muito em breve, alguém se vai lembrar de baixar o grau de exigência ainda mais. E esta é a forma típica de atuar de um Estado que está esgotado. É que em vez de arranjar a solução para um problema, cria outro problema ao lado do anterior e vamos andando nisto, problemas atrás de problemas.
Sim, cria outro problema tentando disfarçar o primeiro. Mas olha, enquanto o pau vai e vem.
Folga a maioria absoluta.
Exatamente.
Miguel, o mau é o ministro da Administração Interna e quem escolheste para vilão?
Para não estarmos também aqui agora a mudar muito, o vilão também está no governo, é a ministra da Justiça. Como se sabe, há umas semanas surgiu uma notícia de que há falta de papéis nos tribunais, de tal forma que nalguns sítios nem sequer se consegue imprimir mandados de detenção. Como se sabe também, a ministra tentou desmentir essa notícia jurando que não havia nenhuma falta de papel nos tribunais. E, como se sabe, chegou um dia em que uma jornalista do Observador viu pessoalmente, foi ela que viu, não foi ninguém que lhe contou, não foi nenhuma fonte, ela viu que há mesmo falta de papel nos tribunais. E perante estas evidências irrefutáveis, o que é que fez a ministra Catarina Sarmento e Castro? Ora bem, perante as evidências irrefutáveis, a ministra Catarina Sarmento e Castro foi ao Parlamento e apresentou uma solução absolutamente milagrosa para o problema. E a solução é simplesmente passar a reduzir ao máximo as necessidades de papel nos tribunais. Como? Acabando com as impressões. A frase da ministra foi: "O objetivo é evitar as impressões nos tribunais, que também será feita com a interoperabilidade dos vários sistemas dos tribunais com outras entidades com que estamos a trabalhar." Eu acho que aqui o segredo é a interoperabilidade. Quem tem uma interoperabilidade, eu acho que tem tudo. Não há governo que possa falhar tendo interoperabilidade. Ora, um político banal acabaria com o problema da falta de papel comprando mais papel, assim como uma pessoa básica como eu.
Isso é para os fáceis.
Não, é verdade, eu sou um tipo limitado, eu não tenho interoperabilidades, portanto eu diria: "Bem, vamos comprar papel." Mas não, nós temos uma ministra que além de ter interoperabilidades é visionária, e então qual é esta visão? É, se não há papel, acaba-se com as impressões. Não havendo impressões, não é preciso papel. Isto não é brilhante? Às vezes as coisas estão à nossa frente e nós não as vemos. Mas isto só mostra que de facto a ministra não conhece a área que tutela, nem conhece o país onde vive. A ministra, somos forçados a concluir que é uma extraterrestre que pousou na pátria e que agora tem que estar ali.
Eu acho que isso é impressão tua.
Achas? É possível. Olha, se calhar não.
Impressão em papel ou sem papel?
Pois, exato. Olha, estás a ver? Eu sou tão limitado que eu nem sequer cheguei lá primeiro. Foi preciso a Maria João vir ajudar-me. Estás a ver? É a falta de interoperabilidade da niche. É burro.
Deixei-te impressionado agora.
Não, deixaste-me impressionado com a tua capacidade e com a minha incapacidade, que eu já conhecia, mas não sabia que era tão grande. Peço desculpa aos ouvintes.
O bom desta terça-feira são Isabel Moreira e Alexandra Leitão. O mau é a ministra da Administração Interna e o vilão de hoje é a ministra da Justiça. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro na Rádio Observador e que já sabe que também pode ouvir em podcast.