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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?

O bom é Miguel Costa Matos, o ex-líder da JS e agora deputado do PS, que acaba de lançar o novo Instituto Progresso. É um think tank que pretende ser a resposta da esquerda a um instituto mais liberdade, que foi lançado por Carlos Guimarães Pinto e que junta várias figuras da direita liberal. A esquerda em Portugal realmente está numa enorme crise provocada por falta de ideias, por isso é bom que as pessoas dessa área política pensem, discutam, estudem, porque numa democracia saudável, tanto a direita como a esquerda têm de ter a capacidade intelectual de fazer boas propostas aos eleitores. Agora, lendo no Observador a notícia sobre este novo think tank progressista, só houve uma coisa que eu não percebi. É que estão lá figuras do PS, claro. Estão lá figuras do LIVRE, figuras do Bloco de Esquerda e até figuras da esquerda do PSD. Está tudo certo. Mas depois também lá está uma outra figura, que é Isaltino de Morais. E eu fiquei a pensar: "Mas o que passou pela cabeça destas pessoas para convidarem Isaltino de Morais?" Tem que ter havido aqui um lapso qualquer de bom senso. Só pode. Acho que é a única explicação pra isso.

Não, Miguel, o Instituto Progresso pode ficar instalado em Oeiras. Não se sabe.

Será?

Pode ser uma explicação. Estou à procura de uma explicação.

Uma cortesia institucional, é isso?

Isso, ou então estão a precisar de boas dicas para restaurantes, para se reunirem.

Fiquei a meditar sobre isto.

Estou à procura de explicações razoáveis.

Tenho a certeza de que vai surgir uma explicação razoável.

Miguel, o teu mau é Luís Neves.

Sim, nós já sabíamos pelo Observador que o ministro da Administração Interna tinha sido recebido no Vaticano pelo Papa, integrado numa comitiva de 130 pessoas. Não foi só ele. Foram 130 pessoas a convite, e muito bem, do bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança. E já sabíamos que nessa mesma comitiva não tinha estado mais nenhum ministro, mas tinham estado secretários de Estado. O ministro da Defesa, por exemplo, tinha sido convidado, mas delegou a presença e a representação do ministério no secretário de Estado. E sabíamos que também tinha ido ao Vaticano, por exemplo, o diretor nacional da PSP. E ontem descobrimos pela CNN que o ministro foi acompanhado pela mulher e pelo filho. Atenção, é certo que também lá esteve, por exemplo, a mulher do diretor da PSP, mas há diferenças. A primeira diferença é que Luís Neves é um político e, mais do que isso, é um político que está a ter problemas pelo seu recurso aos chamados jeitinhos. E neste caso, com mais um jeitinho, conseguiu que a mulher e o filho conhecessem o Papa. E depois há, mais uma vez, outra diferença: a forma como o ministro reage ao escrutínio. Porque tanto Luís Neves como o diretor da PSP garantem que os familiares pagaram eles mesmos as despesas da deslocação, e acreditamos que sim. Mas há uma diferença: é que o diretor da PSP mostrou os papéis. Luís Neves, aparentemente, não. E não mostrou os papéis com um argumento fraquinho. Porque, segundo ele, a mulher e o filho já estavam em Itália anteriormente para uma visita privada e, por isso, se bem percebi, os documentos, como estão relacionados com essa outra viagem, que é uma viagem que já estava a acontecer, não mostra. E, portanto, o que eu tiro daqui é que foi tudo uma grande coincidência. Eles por acaso estavam em Roma, por acaso perceberam de repente que o marido e pai tinha chegado à cidade, por acaso ele ia ser recebido pelo Papa, por acaso combinaram naquela altura encontrar-se e isto proporcionou-se. Portanto, uma coisa não tem nada a ver com outra, uma viagem não tem nada a ver com outra, foi assim ali uma coincidência e pronto. Deve ter sido.

Coincidências acontecem. Apesar do que dizia o título de um célebre livro, que não há coincidências, se calhar as coincidências acontecem, mas há aqui um problema. Luís Neves tem tido vários problemas, mas tem um problema muito particular com os papéis, com os documentos. Ele tem um problema em mostrar os papéis ou então andar aos papéis.

Mas repara, eu acho que mesmo mostrando os papéis e mesmo estando tudo bem, como tenho a certeza de que estará, Luís Neves não entende a situação em que está. Não percebe que as pessoas não querem de repente ver que ele foi numa comitiva oficial e que levou pessoas da família Mesmo que isso tenha sido feito por outras pessoas da comitiva, ele não percebe que está numa situação de especial fragilidade política? É assim tão difícil entender isto? Não há ninguém que lhe explique isto naquele ministério?

A resposta é não, pelos vistos, não percebe.

E esse é que é o problema.

Miguel, o teu vilão tem um caso complicado entre mãos.

Pois tem. É a PSP. Nós ontem soubemos que o processo que investiga suspeitas de tortura numa esquadra por agentes de PSP foi reclassificado como sendo de especial complexidade e por causa disso o Ministério Público vai ter mais seis meses para investigar o caso. E por que isso aconteceu? Aconteceu porque o Ministério Público argumenta que o número de agentes envolvidos é muito superior ao que inicialmente se previa e porque há outros suspeitos a deter. Convém notar que neste momento já há 23 arguidos no caso. Não é um, não são dois, não são três, são 23. Se as coisas tivessem ficado por aqui, a PSP já teria um grande problema. Mas se, como diz o Ministério Público, há um número muito superior de agentes nisto, então nós passamos para um outro patamar. Já estávamos num patamar complicado, é um outro patamar ainda. E um patamar em que não basta a PSP dizer que há sempre alguns maus elementos numa corporação enorme, e há. Nem basta tranquilizar-nos dizendo que tratou o caso sem contemplações, e tratou. Nós temos de perceber melhor o que é que correu mal para tantas pessoas recrutadas pela PSP se envolverem numa coisa destas.

Aquela teoria da maçã podre no cesto começa a ficar em causa. Com tantas maçãs podres, o problema é encontrar uma maçã que não esteja podre.

Sim.

É porque são muitos.

Que cultura há lá dentro que faz com que tanta gente se envolva nisto? Pode começar-se a suspeitar que há um problema cultural, por assim dizer, dentro da PSP. E essas suspeitas, esses receios têm de ser afastados.

Miguel, é quarta-feira, dia de Realpolitik. Regressas, por isso, depois do meio-dia com o Sérgio Sousa Pinto. O que vão falar esta semana?

Olha, vamos conversar um pouquinho sobre o debate político à volta das pensões. Nós na semana passada falámos sobre o relatório, mas agora queremos falar um pouquinho sobre todo este debate, todo este alvoroço. E também queríamos conversar sobre dois temas internacionais da atualidade. Um é a rutura das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá, o que isso significa e que implicações é que pode ter até para nós. E também esta nova fase da guerra contra o Irão, que é o cerco económico.

O dia D económico, não é?

Certo. E também que consequências é que isso pode ter para nós.

Realpolitik para ouvir, como sempre, depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, mau e o vilão desta quarta-feira, o bom é o deputado do PS, Miguel Costa Matos, o mau é Luís Neves e o vilão de hoje é a PSP. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.