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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão", a primeira desta semana. Bom dia, Miguel Pinheiro. O teu bom desta segunda-feira, estou a ver bem, é o Benfica?
É o Benfica. Não estou a dizer isto por clubismo, porque eu não lido nada futebol, e também não estou a dizer isto por causa dos resultados. Sou agnóstico nessa matéria. Os benfiquistas é que sabem o que é que querem. A mim, o que me impressionou foi a quantidade de pessoas que votaram nas eleições do clube. Foram 85422 votantes. Isto pulverizou o anterior recorde do mundo de votação presencial em eleições de clubes, que era do Barcelona. Eram 57088. Quer dizer, não tem nada a ver sequer uma coisa com o outra. Mesmo a comparação com o político impressiona. Nós contámos aqui no Observador que se olharmos para os resultados das últimas eleições autárquicas, que foram agora há pouco tempo, vemos que apenas em seis dos 308 municípios houve mais votantes do que nas eleições do Benfica. Só em seis é que houve mais votantes. E isto é importante porque numa democracia sólida, gosta-se muito de dizer mal do futebol, dos clubes, que tudo aquilo é um horror, mas a verdade é que numa democracia sólida, os cidadãos não se envolvem apenas com os partidos, eles empenham-se em clubes, em associações, em organizações não governamentais, em movimentos, em pequenos clubes que não sejam de futebol. Uma democracia é mais forte se tiver uma sociedade civil que se mobiliza e se tiver instituições robustas fora do Estado e independentes do Estado. Tudo isso é bom para termos uma democracia melhor e por isso estes números são um bom sinal.
E leva-nos a perguntar por que não há esta capacidade de mobilização dos próprios partidos, seja nas autárquicas, seja em legislativas.
Se bem que os níveis de abstenção não foram muito diferentes.
Sim, mas estamos a falar também de possibilidades de votar muito distintas.
Claro.
Aquilo que as pessoas tiveram de fazer para participar nestas eleições, os sócios do Benfica, não é comparável à facilidade com que se pode votar noutras eleições.
Sem dúvida. Portanto, este entusiasmo é bom, mostra que as pessoas não estão fechadas em casa, estão a mexer-se. Isso, de facto, é bom para a nossa democracia.
Miguel, o bom é o Benfica, já o teu mau esteve a protestar.
Pois, mais uma vez, a Climaço, este domingo, três solitários ativistas do movimento Climaço sentaram-se ao pé do final da meia maratona de Lisboa para, com uns cartazes muito tristes, acusarem a EDP de greenwashing por patrocinar eventos desportivos como aquele, como a meia maratona. Enfim, a conversa é a de sempre. A Climaço diz que Portugal deveria alcançar eletricidade 100% renovável e gratuita já em 2025, quer o fim dos combustíveis fósseis até 2030 e diz que só não se consegue isso porque as empresas são gananciosas. Há muito tempo que a Climaço diz isto, há muito tempo que a Climaço realiza ações destas e há muito tempo que a Climaço apela a uma espécie de insurreição, sublevação da sociedade civil. Apesar disso, ontem tivemos três solitários ativistas a segurarem num cartaz e se calhar era altura da Climaço tentar perceber por que não consegue convencer ninguém. Lá está, olha, por que num clube de futebol houve 85422 pessoas a saírem de casa e a Climaço teve ali três pessoas sentadas no chão com cartaz. Por que será que isso acontece?
É um mistério.
Ou não.
Ou não, se calhar aquilo que defende explica a fraca adesão, a fraca capacidade de mobilização. Mesmo assim, atenção, foram três. Não desvalorizes a capacidade de mudar o mundo de três pessoas.
Não, claro, e eu sei que a Climaço gosta de vanguardas, gosta de se ver seguramente como uma vanguarda.
Portanto, não podem ser muitos.
Certo, porque senão a coisa também banaliza-se. Mas enfim, se calhar isto quer dizer alguma coisa.
Miguel, e quem é que é o teu vilão?
Olha, só podia ser Mariana Mortágua, que anunciou no fim de semana que vai deixar a liderança do Bloco de Esquerda. E o que mais me impressionou na mensagem que Mariana Mortágua enviou aos militantes a explicar por que não se recandidata, são as desculpas. Ela escreve isto: "Há dois anos e meio, quando decidi candidatar-me à coordenação do Bloco de Esquerda, conhecia as difíceis condições políticas da esquerda e do nosso partido." Portanto, ela conhecia as difíceis condições políticas e depois mais à frente escreve isto: "A política como a vida somos nós e as nossas circunstâncias." E no fundo, Mariana Mortágua está a dizer o seguinte: quando me deram a liderança do partido, isto já estava tudo estragado O bloco estava estragado, mas acima de tudo, a esquerda estava estragada, porque estávamos a ver a ascensão da direita e da extrema-direita, e as minhas circunstâncias deram cabo de tudo. Não fui eu, eu sou ótimo, eu sou incrível. As circunstâncias é que deram cabo de tudo. Só há um problema com esta tese, é que nós temos a contraprova. Normalmente nós não temos a resposta à pergunta "e se?". Neste caso, e se Mariana Mortágua tivesse feito as coisas de forma diferente, o que é que tinha acontecido? Normalmente nós não sabemos, porque aconteceu o que aconteceu. Mas neste caso, nós temos a resposta à pergunta, porque ao mesmo tempo que Mariana Mortágua se tornou líder do Bloco de Esquerda, nós tivemos Rui Tavares a construir o LIVRE. Por isso, dois partidos de esquerda radical a seguirem caminhos diferentes. E o que é que aconteceu? Aconteceu, claro, que nas eleições de 2024, o Bloco passou de cinco deputados para quatro, e nas de 2025 passou de quatro deputados para um. E já o LIVRE, no mesmíssimo momento, em 2024, passou de um deputado para quatro, e em 2025 passou de quatro deputados para seis. Entre 2022 e 2025, o Bloco perdeu 118 mil votos e o LIVRE ganhou 186 mil votos. Ou seja, os votos da esquerda radical continuam lá, estão no mesmo sítio, e se Mariana Mortágua não fez melhor, é porque foi incompetente. Rui Tavares foi competente. Não vale a pena vir agora com desculpas.
Foi a negação daquela máxima do Tiririca de pior do que está não fica. Com Mariana Mortágua estava mal, ficou pior.
Fica. Pois ficou. Vai saber, e os eleitores não desapareceram, foram é para o partido do lado.
E vamos ao resumo: o bom é o Benfica, o mau é Climácimo e o vilão é Mariana Mortágua.