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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Miguel, o teu bom está relacionado com as greves.

Pois é, estamos outra vez com greves. E o bom são as associações de pais, porque ontem o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Estado e das Autarquias insurgiu-se porque descobriu que numa determinada escola uma associação de pais tinha arranjado pessoas pra tomar conta das crianças e, dessa forma, substituírem trabalhadores não docentes que estavam em greve. Atenção, eu percebo perfeitamente que isto pode, eventualmente, ir contra a lei por colocar em causa a greve, com certeza. Mas o sindicato também tem de perceber outra coisa: ontem houve greve, hoje há outra vez greve. Há não muito tempo andamos em greves permanentes por causa de reivindicações de valorização de carreira. Agora que o PCP está com problemas eleitorais, nós voltamos a ter greves, pelos vistos, umas atrás das outras, e a dada altura, sim, os pais organizam-se pra tentarem minorar um bocadinho o problema, porque nós não podemos ter escolas que estão permanentemente em convulsão. Não dá, não é possível. E as pessoas se não têm meios para tirar as crianças deste inferno e as colocar em escolas que, não sei, devem ser gulags, são escolas onde não há greves, devem ser geridas num regime totalitário e de terror, onde não há greves. Os que não têm meios pra pôr as crianças em escolas onde não há greves, tentam arranjar uma solução pra vida delas.

Duvido que seja uma solução que viola a lei da greve. Os pais não podem organizar-se para arranjar forma de ter alguém pra tomar conta das crianças.

Acho que não podes substituir, na escola, trabalhadores que estão em greve.

No âmbito da escola, talvez.

Paulo, eu sou jurista não praticante já há muito tempo.

E eu nem isso.

E por isso não me vou atravessar por isso. Eu sou apenas um jurista do bom senso. E por isso eu diria que quando as situações se tornam incomportáveis, as pessoas tentam arranjar uma solução.

É uma chatice as pessoas terem que resolver os problemas na vida delas.

O que se há de fazer? Pá, deem votos ao PCP. Eu acho que a solução é: vamos nos organizar, vamos perguntar ao PCP. Não, mas é, vamos perguntar assim, vamos perguntar ao Paulo Raimundo. Paulo Raimundo, diga lá, de quantos votos é que precisa pra não haver chatices? Diga lá, precisam de quantos? 7%, 8%, 10%? Nós resolvemos isto. Damos os votos ao PCP e pronto, e está resolvido. Eles com os votos e não temos greves. Pode ser que resulte. Atenção.

Aí está uma boa.

Eu não estou de forma nenhuma a dizer que os sindicatos afetos à CGTP se movam por preocupações ligadas com o PCP. Eu sei que o movimento sindical, nomeadamente a CGTP, é totalmente independente dos partidos. Portanto, não me interpretem mal, isto era só uma graça pra nos divertirmos, já que há greve, divertimo-nos, mas obviamente, alguma vez, nunca.

Então e quem é o teu mau?

Olha, o meu mau é... Não, isto ainda é por causa do anterior. Ainda estou a recuperar. Não, o mau é João Leão, porque o ex-ministro das Finanças e atual membro do Tribunal de Contas Europeu esteve no Parlamento Português a responder a críticas de deputados do PSD. Estão em causa afirmações de João Leão que há tempos disse que a substituição de Mário Centeno no Banco de Portugal fazia com que o governo prescindisse de um fator de credibilidade na Europa e, além disso, antecipou que Portugal irá supostamente voltar ao défice em 2026 por causa dos compromissos orçamentais assumidos pelo governo. E segundo o PSD, estas declarações foram feitas enquanto membro do Tribunal de Contas Europeu, nomeado por Portugal, e por isso poriam em causa aquela instituição. Segundo João Leão, elas não são declarações de natureza política e são apenas a avaliação dele enquanto economista e ex-ministro das Finanças sobre a situação do país. Eu diria que João Leão deve lembrar-se da frase célebre de António Costa. Não sei se ele conhece António Costa, foi um primeiro-ministro que nós tivemos, e esse primeiro-ministro falou sobre o comportamento de um dos seus ministros e cunhou a frase: "Nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do governo." E João Leão, nem à mesa do café pode deixar de se lembrar que é membro do Tribunal de Contas Europeu.

Pois, e se fizer declarações mais políticas, tem que dizer muito bem que não está ali a representar o tribunal. Ou achas que nem isso?

Acho difícil. Numa instituição como o Tribunal de Contas Europeu, acho difícil. Acho que terá muito tempo pra fazer essas declarações políticas, diria eu.

Miguel, o teu vilão é um repetente.

Não é falta de assunto, é mesmo porque há novidades. O vilão é outra vez o Livre. Há desenvolvimentos da telenovela mexicana em que se tornou a candidatura presidencial do partido. Como sabem, Rui Tavares tinha prometido solenemente que os militantes do Livre iam decidir o que fazer nas presidenciais através de uma consulta interna. O Livre adora consultas internas, mas há dias o deputado Jorge Pinto, falamos disto ontem, aparentemente com o apoio da direção do partido, avançou com a candidatura dele. E então, e agora, como é que é agora? Ora, agora o líder do Livre tem um problema. A grande dúvida na cabeça de Rui Tavares é: vai cumprir a promessa de umas primárias sobre este assunto Não vai cumprir ou vai cumprir, mas mais ou menos. Esta é a grande dúvida. A decisão final vai ser tomada na segunda-feira e fontes do partido explicaram ao Observador as várias possibilidades. Temos um artigo publicado sobre isso. Primeira hipótese: cumprir a promessa. Efetivamente realizam-se as primárias, no boletim de voto estão vários nomes possíveis, incluindo o de Jorge Pinto, com certeza, e o dos restantes candidatos da esquerda que já se apresentaram. Esta é a primeira hipótese. Segunda hipótese: não cumprir a promessa. Portanto, não há primárias, acabou. É o Jorge Pinto, aqui o amigo da direção, não se fala mais nisso, ninguém vota, vamos à campanha. Terceira hipótese: cumprir a promessa, mais ou menos. E aqui há duas possibilidades. Não percam a atenção.

Calma, eu estou a tomar notas. Continua.

Paulo, com o Livre é preciso sempre tomar notas, porque é um partido que não cede a facilitismos. Então, cumprir as promessas mais ou menos. Há duas possibilidades para se cumprir a promessa mais ou menos. Uma: faz-se as primárias e se o resultado não agradar, ignora-se.

Parece-me um bom princípio.

Espera lá. Os estatutos do partido permitem isso, explicaram-nos isso, os estatutos permitem, é possível, não é vinculativo, portanto, é uma possibilidade. Cumpriu, mas mais ou menos. Fez a consulta interna, mas ignorou. Está tudo certo. Outra possibilidade do mais ou menos. Realiza-se de facto a consulta interna, os militantes vão votar, recebem um papelinho, têm uma caneta, mas, porém, todavia, contudo, o boletim de voto tem apenas um nome: o de Jorge Pinto. Ok?

Fica difícil a escolha.

Pessoas, eu não estou a inventar. Isto tem mesmo uma possibilidade. Isto está mesmo a ser debatido. Eu não estou a inventar. E aí a pergunta seria: deve ser Jorge Pinto ou não?

Entre Jorge e Pinto, quem é que tu escolhes?

Entre Jorge e Pinto? Não sei. É uma coisa do gênero: quem é que quer como candidato presidencial e por que essa pessoa é Jorge Pinto? É este estilo. Depois, o que aconteceria se a maior parte das pessoas dissesse que não queria o Jorge Pinto? Não sei. Lá está, eu sou apenas um observador.

Mas aí regressas ao ponto anterior, que é: pode-se ignorar o resultado da consulta interna.

É uma hipótese, mas depois abrem-se três ou quatro sub-hipóteses, Paulo, mas para isso teríamos agora que cancelar o Vencedor É para eu explicar isso tudo.

Merece um diagrama, mas numa folha A3, numa A4, o diagrama com as várias opções não dá.

Exato. Aquilo que as folhas desdobram-se.

Sim, não, passa para o outro.

Certo. Era como na escola: queres namorar comigo? Sim. Depois passava um papelinho que só dizia sim. Enfim, não interessa. Vamos deixar as minhas memórias para a minha autobiografia. Agora, aqui o ponto é: o Livre só precisava de arranjar um candidato presidencial.

Ou apoiar um candidato que já tivesse feito a apresentação de candidatura.

Não, certo. Quando eu digo arranjar, é no sentido de...

Ter uma candidatura própria.

Não, própria ou partilhada. Só precisava de dizer: apoiamos esta pessoa. Era simples, mas Rui Tavares conseguiu transformar uma coisa muito simples num enorme sarilho. Não é inédito. Lembrem-se do caso Paupério nas europeias e no que aquilo deu. Acho que vamos a caminho de um episódio dois.

E Joacine e o problema das consultas internas com o caso Joacine Katar Moreira também.

Há uma larga experiência no Livre e por isso vamos novamente a isto. Novela mexicana, parte três.

Vamos então ao resumo: o bom desta sexta-feira são as associações de pais, o mau é o ex-ministro das Finanças, João Leão, e o vilão de hoje é o Livre. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.