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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major-general José Arnaut Pereira. Bom dia.
Olá, muito bom dia a todos.
Bem-vindo, general. É inevitável começarmos pela eleição do novo Papa, um norte-americano de Chicago, Robert Prevost, que passou de cardeal pouco conhecido para ser uma das figuras centrais no mundo cheio de guerras e que esta quinta-feira, no seu primeiro discurso, falou de paz e em construir pontes.
Nós já tínhamos feito isto num programa anterior, já tínhamos falado quando foi da morte e do legado do Papa Francisco, já tínhamos falado sobre aquilo que é a importância que as religiões representam na geopolítica mundial. E eu recordo aquilo que na altura aqui nós dissemos, que as religiões falam diretamente com as pessoas, não têm intermediários, isso faz muita diferença no sistema internacional, porque não há filtro, contrariamente a todas as outras formas.
Lá está, não há intermediários.
Não há intermediários.
Sim, é direto.
Fala-se diretamente com a consciência das pessoas. E a maneira como nós moldamos a consciência das pessoas, depois tem reflexos também na forma como as pessoas percebem o mundo, os objetivos que têm para esse mundo e a forma como também podem ser agentes de mudança. Nesse sentido, a religião é um dos aspetos mais essenciais para se perceber também a geopolítica mundial. E, portanto, se falámos aqui em Francisco, agora temos que falar necessariamente do Leão XIV. Robert Francis Prevost entrou no conclave como cardeal. E ao fim de dois dias de votações, os 133 cardeais entenderam que tinham finalmente encontrado o novo papa. Portanto, Francis Prevost entrou como cardeal, saiu como Leão XIV. Isto é importante para todo o mundo. Basta ver o conjunto muito alargado de líderes mundiais que se apressou na hora seguinte.
É assim que se é o norte-americano.
Exatamente. A reagir a este anúncio. Isto dá-nos conta daquilo que nós dissemos, que é a importância que os líderes mundiais reconhecem para a Igreja Católica. Eu, antes de falar do Leão XIV, gostaria de falar também um bocadinho sobre a Igreja Católica e sobre a sua presença no mundo. Existem hoje em dia cerca de 1,1 mil milhões de católicos em todo o mundo. É muita gente. 1,1 mil milhões. Representam cerca de 17% de toda a população mundial. 17% da população mundial identifica-se como sendo católica. E é engraçado que esta é basicamente a mesma percentagem que existia em 1910. Há uma centena de anos, os católicos eram 17% no mundo e continuam como 17%. É muito curioso. Os católicos é apenas um dos ramos dentro dos cristãos, dentro da cristandade, mas os católicos são um ramo muito importante, porque os católicos representam cerca de 50% dos cristãos e têm um peso também muito significativo. O que é que mudou nestes 100 anos? Os números, houve mais gente, mas a população mundial também mais cresceu, mas a percentagem manteve-se idêntica. Mas houve coisas que mudaram na Igreja Católica, isto é importante olhar para estes números. Em 1910, dois terços de todos os católicos viviam na Europa. A Europa era o sítio onde se concentravam os católicos. Ora, um século depois, em 2010, já só um quarto dos católicos é que vive na Europa. Isto é, o catolicismo manteve a sua expressão global, já não através da Europa, mas através da forma como a Igreja Católica cresceu noutros continentes. Portanto, um quarto dos católicos vive hoje em dia na Europa, 40% dos católicos vive em duas regiões, na América Latina e nas Caraíbas. 40% dos católicos. Se olharmos para os países mais católicos, que têm um número maior de crentes, à cabeça temos o Brasil. O Brasil é o país que tem mais católicos em todo o mundo. O segundo é o México, e o terceiro, as Filipinas. Vê-se aqui a importância dos missionários da Península Ibérica, que transformaram o Brasil, o México e as Filipinas nos três países onde existem mais católicos. Talvez seja surpreendente, mas o quarto país nesta lista são exatamente os Estados Unidos da América Os Estados Unidos da América são o quarto país com maior número de católicos. E depois, também não deixa de ser surpreendente que o quinto país é a República Democrática do Congo.
Já faz um tempo, mas sim.
O crescimento verificou-se sobretudo na América Latina, em África, na Ásia. Na Europa, nós estamos a abandonar muito a religião, não sei se um dia não teremos que voltar outra vez a acreditar.
Pode ser que seja desta.
Pode ser que seja desta.
Vamos ver.
Algumas singularidades deste papa, porque isto é importante. O papa marca também pela sua figura, pela sua presença, pelas suas palavras. Cada papa é diferente do papa anterior e, portanto, temos que procurar perceber.
Sim, por muito que digam que seja uma continuidade ou não, criam-se seguramente características diferentes.
O que nos vai trazer, o que estes 133 cardeais viram em Leão XIV? Bom, em primeiro lugar, viram uma coisa importantíssima: não havia nenhum papa oriundo dos Estados Unidos, pois Leão XIV é o primeiro papa oriundo dos Estados Unidos. Aliás, é interessante verificar-se que muitas vezes ser oriundo dos Estados Unidos constituía uma desvantagem para se poder passar de cardeal a papa. Por quê? Porque havia um certo sentimento, isto tem a ver muito também com a geopolítica, que também se aplica à Igreja Católica, de que os Estados Unidos já tinham poder suficiente. Isto é, os Estados Unidos em si já eram um país suficientemente poderoso para lhes atribuir ainda um papa. E portanto, a primeira vitória de Leão XIV é exatamente esta: é ter conseguido ultrapassar aquilo que parecia uma desvantagem até agora, que era de ser norte-americano. Ele nasceu em Chicago. Depois, ele é membro da Ordem de Santo Agostinho. A Ordem de Santo Agostinho é uma ordem muito ligada à humildade, ao trabalho e, portanto, de alguma maneira, há aqui uma certa continuidade no pensamento religioso que o liga ao Papa Francisco. Depois tem algumas singularidades também interessantes. É licenciado em Matemática . Em ciências exatas. Portanto, é muito interessante encontrar na mesma personalidade alguém que tem uma fé inabalável, certamente, mas alguém que também acredita na ciência e que é um especialista em matemática. É muito interessante este aspecto.
E vai dar muito jeito aos professores de teologia.
Também gosta de jogar tênis, sai um bocadinho fora da caixa que estamos habituados. Eu julgo que o que terá sido mais decisivo, nós não estivemos lá presentes no conclave, mas a mim parece-me, olhando para aquilo que é o currículo de Leão XIV, que talvez o que tenha sido decisivo foi a sua missão de missionário. Ele, apesar de ser norte-americano, dedicou cerca de metade da sua vida eclesiástica às funções de missionário, e fê-lo no Peru.
No Peru, sim, esteve lá muito tempo.
Inclusivamente, ele depois ganhou a nacionalidade do Peru. Ele esteve lá imenso tempo, quer trabalhando em Trujillo, quer sendo também bispo em Chiclayo, que é outra cidade do Peru. E portanto, esta sua função de missionário junto dos mais pobres na América Latina terá sido, do meu ponto de vista, também um fator importante que terá sido levado em conta pelos cardeais. E depois, há um outro aspecto que também é importante, porque ser papa não é apenas gerir a fé católica junto dos crentes, é também administrar a Igreja.
Claro.
E portanto, um conhecimento aprofundado do funcionamento da Igreja é fundamental também para um papa. Ora, ele tinha sido nomeado pelo Papa Francisco para ser uma espécie do avaliador, do recomendador de bispos, da nomeação dos bispos. E portanto, era uma pessoa que tinha também já uma empatia e uma relação com os cardeais e tinha, sobretudo, esta capacidade de ser uma pessoa influente naquilo que era a escolha dos bispos da Igreja Católica. Última reflexão tem a ver com a escolha do nome de Leão XIV. A primeira coisa que eu fui naturalmente procurar foi quem foi Leão XIII. Faz todo sentido. Se escolheu Leão XIV, temos que ver quem foi Leão XIII.
Que marca deixou.
Talvez isso nos traga pistas e traz, realmente. Leão XIII fez a transição do século XIX para o século XX. Foi papa entre 1878 e 1903 e ficou conhecido como o papa dos trabalhadores. Portanto, alguém muito ligado também aos pobres e aos desfavorecidos. E portanto, compreende-se com este passado de Leão XIV, que as suas primeiras palavras sejam estas que eu aqui vou recordar para terminar Eu quero uma igreja que procure a paz, procure a caridade, a proximidade com as pessoas, especialmente com as que estão sofrendo. Parecem-me belíssimas palavras para começar o seu papado.
Sem dúvida. E foi muito comovente vê-lo à janela e a segurar as lágrimas.
Houve muita gente que me disse: "Tem um sorriso bonito".
Tem.
Isso ajuda.
É verdade. General, do Vaticano pra Rússia tem que ser .
Uma passagem brutal.
Até porque a nossa atenção midiática esteve toda a semana focada nas comemorações em Moscou do Dia da Vitória, este 9 de maio, com líderes mundiais sentados ao seu lado na Praça Vermelha. Putin insistiu numa trégua de três dias, enquanto Zelensky insistiu na proposta americana dos 30 dias. O que é que fica de todo este processo?
Esta foi uma semana complicadíssima de gestão de expectativas e de provocações de parte a parte. Bom, compreende-se que Putin quisesse fazer dos 80 anos do Dia da Vitória um acontecimento absolutamente inesquecível, uma demonstração de poder absolutamente extraordinária. E precisava de algumas coisas para isso. Uma das coisas que precisava era de Xi Jinping. Isto é, a Federação Russa, demos as voltas que dermos, no final, o que precisa mesmo é da China. E hoje eu já vi as imagens, Xi Jinping sentado exatamente ao lado de Vladimir Putin. Também há quem diga que isto também é importante porque o verdadeiro sistema antiaéreo da Federação Russa hoje em dia é o Xi Jinping. Isto é, foi o Xi Jinping que terá evitado, a presença de Xi Jinping, que haja uma disrupção por parte da Ucrânia de todas estas cerimônias, que não quereria entrar aqui por terrenos mais complicados de gestão da situação geopolítica mundial. E que, portanto, quando sentou Xi Jinping ao seu lado-
Tinha a proteção
...tinha uma proteção antiaérea associada. Bom, e portanto era natural que com esta presença destes dignatários, que a Ucrânia não pretendesse correr riscos desnecessários do ponto de vista do seu posicionamento político mundial e que esta cerimônia gerasse, ao ser perturbada, uma acrimônia por parte de um conjunto muito grande de países. Portanto, parece-me sensato a mim, parece-me perfeitamente adequado que a Ucrânia não interferisse com os drones na cerimônia de natureza militar. Mas a Ucrânia não podia deixar de ter a sua ação para marcar isto. Então, fez nos dias anteriores.
Até para deixar na dúvida.
Assistimos a uma verdadeira barragem de drones a serem enviados sobre-
E os avanços em curso também
...sobre a Federação Russa no sentido de perturbar as viagens. Fico viu-se aflito para chegar, porque para além do aeroporto internacional ter estado várias vezes fechado ao tráfego, também os países bálticos impediram que o avião de Fico passasse em direção a Moscou. Ele demorou imenso tempo. O presidente da Sérvia também teve que ir pelo Azerbaijão e também esteve parado. Enfim, a Ucrânia tratou de mostrar que tem poder e que a mensagem que a Ucrânia queria passar era esta: se eu quisesse, esta cerimônia seria perturbada.
Exatamente.
Era isso, foi isto que passámos toda a semana a fazer.
E que não é quando o Putin quer e quando quer.
E não é quando ele quer. E, portanto, foi este diálogo semanal para esta cerimônia. Eu sobre esta cerimônia queria apenas fazer dois apontamentos. Na verdade, há aqui duas cerimônias. E o que o Putin vai fazer é procurar misturar as duas cerimônias em seu proveito próprio. Mas há duas cerimônias aqui. Uma é uma cerimônia popular, absolutamente genuína, reconhecida internacionalmente, que é o reconhecimento pelas pessoas de que a população soviética sofreu imenso durante a Segunda Guerra Mundial e que a sua participação na guerra e o peso imenso de mortes que teve, a Federação Russa sente o direito de festejar e de dar visibilidade a isso. A parte popular da cerimônia é absolutamente legítima e tem que ser respeitada por todos os que respeitam as pessoas que, com o sacrifício da sua vida, procuram defender as respectivas pátrias. Esse é um aspecto sobre o qual eu também não me deixo iludir. A outra tem a ver com a cerimônia montada para estes 80 anos. Putin quis fazer desta cerimônia uma validação daquilo que é a sua operação militar especial, como ele chamou. E para isso, o que ele fez foi procurar identificar, isto é uma cerimônia que está a ser preparada há vários anos, não é uma cerimônia especialmente para os 80 anos. E, portanto, ela está a ser preparada há vários anos. E o que fez Putin foi procurar desde o início Identificar e colocar como ponto principal da sua justificação do ataque à Ucrânia o nazismo, a necessidade de destruir e de substituir o regime nazista da Ucrânia, segundo aquilo que era a observação de Putin. Isto conduz necessariamente à identificação perante a nação russa, a narrativa de que isto não é mais do que o prolongamento de uma guerra que foi vitoriosa. Que dessa guerra vitoriosa que ocorreu há 80 anos, ficaram ainda espalhados pela Europa um conjunto de resquícios de nazismo e que a missão da Federação Russa é eliminar esses resquícios de nazismo. Esta narrativa é extraordinária, está muito bem construída e compete-nos verificar se ela não irá alimentar também a narrativa russa de considerar que na Europa, para além da Ucrânia, também existem umas bolsas de nazismo que podem justificar uma intervenção militar russa sobre o território europeu.
Já me deixou nervosa. A nossa cortina de fumo incide sobre a celebração dos 25 anos de Putin no poder. Uma reportagem televisiva permitiu-nos conhecer os aposentos pessoais do presidente russo e as perspectivas que tem sobre a sua sucessão. General Arnaut Tamara, o que nos mostrou e o que nos escondeu Vladimir Putin?
Dá quase para chorar. Aquilo foi muito sentimental. Os 25 anos de Putin lembram-nos, em primeiro lugar, a diferença do tempo estratégico na Federação Russa e na Europa. Nós tivemos quatro primeiros-ministros em Inglaterra apenas no período da guerra da Ucrânia. Ora, Putin está desde 2000 no poder. Esteve sempre no poder, não obstante passar um certo período como primeiro-ministro, mas ele, na verdade, teve sempre o controle do poder durante 25 anos. Ora, passados estes 25 anos, em que a imagem que Putin passou durante este tempo todo era a do líder firme, intransigente, capaz de trazer a Federação Russa ao esplendor do império, de repente apareceu um filme molezinho. Este filme é molezinho.
É para tocar as pessoas.
É para tocar as pessoas. Ao fim deste tempo todo, Putin sentiu a necessidade de se mostrar humano. Era uma coisa que ele não tinha mostrado. Lembram-se das fotografias dele, peito nu, a cavalo? Tudo isso, lembramo-nos disso. O Super-Homem, cultivar a imagem do Super-Homem, do predestinado para levar a Rússia outra vez à glória. Pois este filme não é nada sobre isto.
E qual é a intenção?
Este filme sobre os 25.
Há sempre uma intenção.
É tocar as pessoas.
No coração.
Tocar no coração das pessoas, mostrar os seus aposentos.
Que não é um insensível.
Onde ele vive, a igreja lá dentro dos apartamentos também, onde ele vai rezar. E sobretudo, também durante esta semana, começou a falar dos seus sucessores. Isto não sei se não é um sinal de velhice. Um sinal de velhice. Porque Lukachenka esta semana também começou a falar nos sucessores. Não sei se isto não é realmente um sinal.
Andam a ter uns almoços estranhos, umas conversas estranhas ao almoço.
Mas portanto, o que Putin aqui nos está a mostrar é a faceta humana. Vamos ver o que isto nos esconde, porque isto esconde muito mais coisas do que aquilo que nos mostra.
O nosso ponto de mira, desta vez, aponta para os resultados eleitorais da primeira volta para a presidência da Roménia, depois do Tribunal Constitucional ter anulado a primeira volta das presidenciais de 24 de novembro. General, como é que devemos ler estes últimos resultados?
Recordando aquilo que se passou aqui há umas semanas, a primeira volta das presidenciais na Roménia tinha dado a vitória a Calin Georgescu. Depois o Tribunal Constitucional veio alegar que esta campanha tinha sido conduzida de forma absolutamente ilegal, com financiamentos pouco explícitos, com a utilização de redes sociais de uma forma descarada e não legal, e que, portanto, não apenas foi abandonada a segunda volta, como foi mandada repetir outra vez a primeira volta. E Calin Georgescu estava impedido de concorrer a esta primeira volta. Mas a Aliança para a União dos Romenos encontrou um novo líder, um homem de natureza populista chamado George Simeon. E os resultados de George Simeon não deixam de ser surpreendentes, porque ele teve, nesta primeira volta, 40,2% dos votos. Isto é uma porcentagem que abre perspectivas muito sérias para uma vitória na segunda volta. O segundo candidato teve metade desta porcentagem, andou por volta dos 22%. Portanto, só uma coligação muito forte de forças antipopulistas na Roménia é que conseguirá, mas não sei. A vantagem é muito grande. Portanto, o que nós estamos a assistir na Roménia é um pouco daquilo que nós já vimos na Hungria, que é a Federação Russa tem hoje em dia mecanismos de interferência nas eleições, através da promoção de candidatos nas redes sociais que rapidamente se tornam virais e com propostas que parecem muito aliciantes. Uma das propostas de Simeon é acabar com o apoio à Ucrânia. Será mais um país na Europa de Leste com uma propensão de fazer com que a Ucrânia possa perder a guerra, seja retalhada e que ainda alguma parte territorial da Ucrânia venha a ser entregue como recompensa à Roménia. Portanto, temos que estar atentos.
Mais um país que temos que estar muito atentos. General Arnaut Tamara, obrigada pela sua presença.
Foi um prazer, um bom fim de semana a todos.
Bom fim de semana para si também.
Obrigado.