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A bolsa está viva, vale a pena investir nela, vale a pena uma pessoa estar interessada e manter-se informada na bolsa, ao contrário do que alguns querem fazer crer.
Estamos a ouvir Pedro Caldeira. O corretor bem se esforça por garantir o contrário nesta entrevista à RTP, mas em 1991, a bolsa está tudo menos viva. O problema não é tanto haver fortes quedas ou dias negros. Esses, por vezes, até são vistos como boas oportunidades pra investir. O problema é bem pior. É o desinteresse. Depois da grande euforia dos anos anteriores, a bolsa desce devagarinho numa lenta agonia que nada, nem ninguém, parece ser capaz de reavivar. Mas o corretor não desiste. Na entrevista à RTP, afirma que é um disparate dizer que não vale a pena investir na bolsa. Caldeira garante que continua a haver estrangeiros interessados no mercado nacional. E deixa um aviso: os portugueses têm de aproveitar agora, pra não se arrependerem depois de não terem entrado a tempo. O corretor aparece no ecrã da televisão impecavelmente vestido e penteado, como sempre, com o gel no cabelo que já se tornou a imagem de marca. Menos de dois anos depois, dará outra entrevista em circunstâncias muito diferentes da primeira. Não fala a uma televisão, fala a um jornal. Não está a ser filmado, está a responder às perguntas por telefone. Não está em Portugal, está foragido, em parte incerta. E é procurado pela Interpol. Na primavera de 1993, na entrevista a um jornalista do semanário O Independent, dirigido por Paulo Portas, Pedro Caldeira reconhece que estava redondamente equivocado quando apostou que o início dos anos 90 seria de recuperação nos mercados de ações. E admite: "Confiei demais na minha sorte". Excesso de confiança. Esse foi sempre o grande problema de Pedro Caldeira. Nos dois anos antes da fuga que chocou o país, Caldeira vai apostar todas as fichas numa estratégia perigosa. Quando a bolsa não recupera tão depressa como o corretor precisava, arranja um atalho. Para conseguir os milhões necessários pra pagar a gigantesca dívida ao banco, começa a pedir dinheiro a amigos e conhecidos, em troca de juros altíssimos. Se as coisas corressem bem, todos sairiam a ganhar. Mas havia um senão. Os riscos eram enormes. Ao mesmo tempo que fazia isto, surgiu-lhe uma outra oportunidade. Um negócio tão lucrativo que o poderia salvar de uma vez por todas. Esteve quase. Mas no final, Caldeira cometeu um erro e, sem querer, arranjou um novo inimigo. Depois de ter problemas com um primeiro-ministro, iria agora chocar de frente com um banqueiro poderoso. Este é o "Encantador de Ricos", uma série pra ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio três: A festa não pode parar. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito pra contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Parece um casamento real, mas na verdade, é apenas uma festa de aniversário. Estamos no restaurante La Meridiana, nas colinas de Marbella, o local preferido dos ricos e famosos nas noites quentes de verão. O evento dá tanto nas vistas que até é notícia em Espanha naquele verão de 1989. Um jornal chama-lhe mesmo a festa dos milionários portugueses. É o aniversário de uma mulher que ainda há poucos anos era uma simples empregada de loja de roupa em Cascais. Mas hoje, brindam em honra dela figuras da nobreza europeia. Uma delas é a rainha incontestável do jet set da Costa do Sol, a condessa Gunilla von Bismarck.
Está Marbella como outros anos ou se nota alguma decadência?
Está mejor cada año.
Melhor cada año?
A bisneta do histórico chanceler alemão Otto von Bismarck. Também está ali o irmão de Fabíola da Bélgica, Dom Jaime de Mora e Aragón, ator espanhol que tem um dos bigodes aristocráticos mais repuxados da alta sociedade europeia. Todos se juntam para comemorar o aniversário de Cristina, a mulher de Pedro Caldeira. Cantam e dançam ao som da música tocada pela banda residente. Mas no ponto alto da festa, não é a banda que toca os Parabéns a Você, é outro convidado importante nesta história. Rui Guedes, pai da versão portuguesa do Topo Gigio, o ratinho que mandava os miúdos para a cama com um sorriso através da televisão. É Rui Guedes quem mais tarde vai apresentar Pedro Caldeira a um empresário que vai pôr meio milhão de contos nas mãos do corretor. E que vai perder tudo. Por esta altura, Caldeira continua em dificuldades. Tem a enorme dívida ao Sotto Mayor, esteve suspenso por seis meses e o negócio da corretagem não é tão lucrativo como era. Mas as festas não param. Em Marbella e em Cascais, o casal gasta fortunas em eventos nas próprias casas e em hotéis. Essas festas vão, depois, aparecer nas páginas das revistas cor-de-rosa. Maria João Vieira, antiga editora da Olá Semanário, diz que a vida podia já não estar a correr tão bem a Pedro Caldeira nesta fase, mas o casal não dá sinais de dificuldades, muito pelo contrário.
Tenho ideia de que continuava e que a imagem dele na imprensa social, que era a Olá, resumidamente, não havia outra, não tinha sido afetada por isso.
Naquela noite, em Marbella, em que se comemora o aniversário de Cristina, Pedro Caldeira sente-se a voltar ao topo do mundo. Dois anos depois, quando dá a entrevista à RTP, Pedro Caldeira já é um homem muito pressionado, embora faça tudo para evitar que isso transpareça publicamente. A bolsa nunca mais recuperou o movimento que tinha antes de Cavaco Silva falar em gato por lebre e da segunda-feira negra de outubro de 1987. Para um corretor, esse marasmo significa cada vez menos receitas numa morte lenta. A economia portuguesa até segue a bom ritmo, mas o contexto nos mercados globais não ajuda, recorda o professor universitário Nuno Valério.
A bolsa andou um bocadinho dividida entre o impulso que era dado pelo bom desempenho económico do país e as restrições que lhe eram colocadas pelo facto de a conjuntura internacional não ser tão brilhante quanto tinha sido no princípio dos anos 70 ou corresponderia ao dinamismo que existia na altura em Portugal.
Depois da suspensão, Caldeira ainda consegue recuperar boa parte dos clientes, mas agora há mais concorrência e menos procura. É preciso repensar o negócio. Vende o escritório na Baixa e também prescinde de outros espaços que tinha comprado ou arrendado na Avenida da Liberdade e noutras zonas de Lisboa. Tudo é concentrado num escritório arrendado nas Amoreiras, que nesta fase se afirma como o coração dos negócios em Lisboa. O que também não ajuda Caldeira é que, no governo, ainda está Cavaco Silva, o primeiro-ministro que o corretor mais tarde dirá que o tomou de ponta. Um sentimento, de resto, recíproco. Muitos anos depois, Caldeira ainda lembraria uma frase de Cavaco Silva quando os jornalistas lhe perguntaram o que pensava da suspensão do corretor. "Se o auditor achou por bem tomar essa medida, que não lhe doam as mãos." Jorge de Brito tinha razão. Confirmou-se aquilo que o banqueiro disse a Pedro Caldeira durante o almoço num restaurante em Cascais, momentos antes de ambos saborearem os filetes com arroz de marisco. O banco que Caldeira queria abrir nunca recebeu a aprovação do governo liderado por Cavaco. Seria difícil justificar que alguém pudesse abrir um banco quando tinha acabado de ser suspenso e tinha uma dívida pessoal gigantesca a outro banco, neste caso, o Sotto Mayor. Em alternativa, Caldeira está a tentar lançar uma sociedade de corretagem com alguns dos mesmos acionistas do banco fracassado. Figuras como Américo Amorim, Ilídio Pinho ou Vasco Pessanha, histórico líder da INAPA. Irá chamar-se Eurodealer e terá também um parceiro estrangeiro, a sociedade de investimento hispano-americano. Mas esse parceiro acaba por sair do projeto quando se dá uma mega fusão na banca espanhola. Caldeira fica pendurado. Alguns possíveis sócios começam a desinteressar-se e para tentar contrariar isso, o corretor desafia o Ministério das Finanças a ficar com a posição que seria do banco espanhol. Mas o ministro Miguel Cadilhe recusa e até recomenda a Caldeira que todo o projeto seja reequacionado A Eurodealer acaba por ser mais um fracasso. Só que o corretor tem um prazo para cumprir, e muito apertado. Uma nova lei exige que até abril de 1991 acabem os corretores em nome individual e sejam formadas empresas. Nasce assim, em cima do joelho e sem nomes sonantes entre os acionistas, a Pedro Caldeira Sociedade Corretora. Caldeira tem 40% do capital. Estava obrigado a isso no acordo para o pagamento da dívida ao Sotto Mayor. O segundo maior acionista, com 25%, é Henrique Linhares de Andrade. É um amigo de infância que conheceu assim que veio de África e a família se instalou na linha de Cascais. Um dos advogados que ajudaram Caldeira no conflito com o Sotto Mayor, Nandim de Carvalho, fica como presidente da mesa da Assembleia Geral e com 10% da empresa. E é nesta fase que entra em cena outra figura que acabará por ser crucial pra história do Encantador de Ricos. Alguém que Caldeira vai conhecer, claro, numa festa. Em meados de 1990, há um coquetel organizado no Hotel Ritz. Entre os convidados, estão sobretudo pessoas ligadas às artes, à moda e à decoração. Todas as revistas do social cobrem a festa. Pedro Caldeira vai com a mulher, Cristina, que leva um vestido preto vistoso de um estilista parisiense. É quando vai buscar uma bebida pra mulher que Caldeira se cruza com um homem com quem nunca tinha falado, mas que sabia ser diretor de investimento estrangeiro do Banif. Esse homem chama-se Francisco Capelo. Sempre preferiu viver na sombra, apesar de ser um nome bem conhecido no meio empresarial e, sobretudo, no mundo da arte. Foi ele quem escolheu, peça a peça, todas as obras da coleção de Joe Berardo, empresário madeirense que fez fortuna na África do Sul. Caldeira contará mais tarde que Francisco Capelo lhe fez uma confissão: "Sabe, Pedro, eu não gosto mesmo nada do Cadilhe e fiquei muito chocado com a suspensão". Na versão do corretor, o economista do Banif vai ainda mais longe. Diz que tem muita admiração por Caldeira e nota uma coincidência: são ambos do signo Escorpião. Terá sido depois daquela conversa que Caldeira decidiu, no impulso, convidar o economista para trabalhar na corretora. Ali estava um homem que podia finalmente pôr alguma ordem na desorganização do escritório. Mais do que isso, ali estava um homem que iria trazer muito dinheiro para a corretora. O esquema que permitiria isso chamava-se lavagem de cupons. Em termos muito simples, quem investe em obrigações compra, por exemplo, 100€ e vai recebendo juros anuais enquanto o dinheiro estiver aplicado. Esse juro é chamado de cupom, porque nos primórdios da bolsa eram, de facto, cuponzinhos que se cortavam à tesoura e eram entregues em troca do dinheiro. O problema é que os juros têm de pagar impostos. São 25% na altura, mas Francisco Capelo conhece uma forma de contornar essa lei, usando outra lei a favor dele, aquela que diz que as fundações estão isentas desse imposto.
Eram fundações que tinham o privilégio de não pagar determinado imposto sobre os juros.
Maria Cândida Rocha e Silva, atual presidente do Banco Carregosa e a primeira mulher a trabalhar como corretora em Portugal.
O que é que acontecia? Aparentemente, não havia legalidade nenhuma. Eu tinha os meus títulos, se tivesse quantidades suficientes que justificasse, eu vendia à fundação, a fundação apresentava os cupons à cobrança, não deduzia o imposto e tornava-me a vender os títulos. Se isto é ilegal, eu penso que não. Não sei se seria imoral, pelo menos amoral era de certeza. E tudo quanto seja fulgo ao fisco é crime. Nunca tive clientes desse tipo.
O esquema começa com um acordo entre o dono de um título e uma fundação, e funciona em quatro passos. Primeiro: alguns dias antes de receber os juros, o dono do título vende-o a uma fundação. Depois, a fundação recebe os juros e, como está isenta, não paga impostos. A seguir, o título faz o caminho inverso: é vendido pela fundação ao dono original. No final, as duas partes dividem o dinheiro dos impostos que ficaram por pagar. Mas para executar esta estratégia, falta um terceiro elemento: uma corretora que aceite intermediar aquelas vendas fictícias. Se a corretora estava mesmo ali, a fundação não estava muito longe. Francisco Capelo, já nesta altura, é muito próximo de Joe Berardo, dono de uma fundação. O esquema, que só mais tarde vai ser revelado pelos jornais, fica conhecido como a lavagem de cupões. Chamam-lhe lavandaria self-service e até alguns bancos públicos recorrem a ela.
Na altura, isto foi mais um episódio de mercado que fez muito furor, como imaginam. Porque Portugal é um país de impostos muito pesados, portanto, todo aquele que consegue fugir aos impostos rapidamente é considerado um herói.
Estima-se que no espaço de um ano e meio, movimentaram-se entre a corretora de Caldeira e a fundação de Berardo, mais de 60 milhões de contos em obrigações que deixaram de pagar o imposto devido. O esquema dá um bom rendimento, mas não faz muito pelo patrimônio pessoal do corretor, que se afunda cada vez mais. Até porque a gigantesca dívida ao Souto Mayor não é da empresa, é do próprio Caldeira. Para resolver esse problema, o corretor tem outros planos. Pedro Caldeira está à procura de pessoas com muito dinheiro. Podem ser empresários, médicos ou arquitetos. Pode ser um general das Forças Armadas ou podem ser celebridades. O futebolista Carlos Xavier, por exemplo, é um dos que se sentam com Pedro Caldeira. Depois de se transferir do Sporting para o clube espanhol Real Sociedad, tem vários milhares de contos disponíveis. Aliás, é isso que une todas estas pessoas: ter muito dinheiro pronto a investir. Um dos melhores sítios para descobrir essas pessoas é em festas e eventos sociais. E é num jantar no Hotel da Lapa, em Lisboa, que o corretor se cruza com alguém que um tribunal descreverá mais tarde como senhor de uma considerável fortuna. Ficam sentados na mesma mesa, por acaso, e é Pedro Caldeira quem mete conversa. Percebem que têm os dois escritório no mesmo edifício das Amoreiras, mas o que mais os aproxima naquela noite não é o dinheiro, é a televisão. Caldeira vê todos os programas que consegue. Carlos Cruz é um dos apresentadores mais conhecidos do país.
Um, dois, três. Um, dois, três. Aqui estamos com o nosso convite. Para que fique com o nosso programa. E se divirta antes de ir pra cama.
Em 1992, Carlos Cruz é conhecido por Senhor Televisão, e Pedro Caldeira sabe que além da fama, Cruz também tem dinheiro para investir. A relação torna-se próxima quase de imediato. Passam a ver-se quase todos os dias e almoçam juntos de vez em quando. É num desses almoços que o corretor faz uma proposta. "Carlos, queres investir algum dinheiro que eu dou-te 10% de rendimento?" Carlos Cruz não percebe bem. "10% ao ano?" "Não", diz-lhe Caldeira, "ao mês". Pelo menos desde 1988, Caldeira recebia dinheiro de vários clientes particulares que investia em nome próprio na bolsa. Em troca, prometia lucros fantásticos e investimentos em grandes oportunidades. Na cabeça do corretor, todos ganhavam. Os investidores tinham um retorno impossível de conseguir em qualquer outro negócio na bolsa. Caldeira contava ter lucros tão altos que ainda sobraria dinheiro para pagar a dívida pessoal ao Souto Mayor. Carlos Cruz aceita a proposta e começa a entregar-lhe dinheiro. No início, tudo corre bem, mas muito em breve Caldeira já estará desesperado. São duas figuras influentes da economia portuguesa e naquela noite estão os dois sentados no mesmo avião. Américo Amorim é um empresário riquíssimo e um investidor agressivo. António Neto da Silva tinha deixado, poucos meses antes, o cargo de Secretário de Estado do Comércio Externo. Neto e Silva mexe-se bem nos negócios em Portugal. Tem um passado ligado às associações patronais e, como secretário de Estado, foi decisivo para trazer a Auto Europa para o país. Cresceram ambos na região do Porto. Falam-se bem. A meio da conversa, Américo Amorim confessa que está a perder confiança em Jardim Gonçalves, o banqueiro que o próprio Amorim tinha ido buscar para ficar à frente do BCP. O empresário acha que Jardim Gonçalves quer mandar demais, sobretudo desde que fez aprovar uma regra que tirou o poder aos principais acionistas do banco. Amorim é um desses grandes acionistas, mas está a pensar em vender toda ou quase toda a participação que tem: 20%. Neto da Silva vê ali uma oportunidade e oferece-se a Américo Amorim para tratar da venda Tudo é feito como deve ser, com procuração assinada. Só precisa de encontrar compradores e pensa no homem que tem acesso a uma série de banqueiros europeus que podem estar interessados: Pedro Caldeira. Pouco depois, Caldeira é convidado para almoçar com Neto da Silva, no famoso restaurante Gambrinus, na Baixa de Lisboa. O ex-governante explica-lhe o negócio. Se encontrarem um comprador para a posição que Amorim quer vender por 70 milhões de contos, podem dividir entre eles a comissão, um milhão de contos para cada um. Uma fortuna! É uma oportunidade extraordinária, mas não vai ser fácil. Caldeira tenta Mário Conde, mas o icónico banqueiro espanhol não aceita. Emilio Botín, do Santander, também não está interessado. Ainda sonda investidores árabes, mas só consegue avanços reais com os espanhóis do Banco Hispano Americano. Nesse momento, Caldeira comete um erro. Vai falar com Jardim Gonçalves. Naquela altura, o corretor trabalha muito com o BCP, um banco que sempre lhe deu crédito, profissional e pessoal. Mais tarde, diria que falou com o presidente do banco por uma questão de consciência e lealdade. Mas há um detalhe. Caldeira não diz nada a Neto da Silva, que era, afinal, parceiro dele no negócio. De acordo com o corretor, no livro em que conta esta versão, Jardim Gonçalves fica surpreendido. "Mas como é possível, Pedro, que isto aconteça, que o Amorim não me diga nada sabendo da gravidade de um gesto desses?" Caldeira diz que também compreende o problema. Se os 20% de Amorim forem vendidos aos espanhóis, o BCP passa a ter metade do capital em mãos estrangeiras. Por isso, quer dar a oportunidade a Jardim Gonçalves de arranjar outro comprador. Para o corretor é indiferente, desde que receba a comissão milionária. Segundo Pedro Caldeira, o banqueiro poderoso agradece-lhe efusivamente e tranquiliza-o. A comissão dele não está em risco. Na altura, o corretor não percebeu, mas tinha acabado de fazer um novo inimigo. Trinta e um anos depois, em julho de 2023, Jardim Gonçalves está sentado no escritório que tem nas Amoreiras. Não quer gravar nenhuma declaração sobre o episódio, mas pega no livro onde este diálogo está contado, folheia algumas páginas e dispara: é tudo mentira. Aliás, Jardim Gonçalves garante que nunca teve quaisquer reuniões com Caldeira e que os contactos entre ambos nunca passaram da mais absoluta superficialidade. Fora de questão que algum dia o tenha tratado simplesmente por Pedro. De acordo com a Justiça portuguesa, no processo em tribunal, que mais tarde vai ser lançado contra Pedro Caldeira, essa reunião aconteceu mesmo. E outras fontes com conhecimento da operação também dizem que a reunião não só aconteceu, como acrescentam que esse foi o grande erro de Pedro Caldeira. A tese do próprio corretor é que, a partir dessa reunião, o BCP nunca mais o tratou da mesma forma. O tribunal daria como provado que o banco começou a fazer exigências inesperadas e impossíveis de cumprir. Até lhe cortou o limite de crédito de 400 mil contos que lá tinha há vários anos. No final, nem Caldeira, nem Neto da Silva. Não há comissões porque não há intermediários. Quem vende a posição de Amorim no BCP é Jardim Gonçalves. Caldeira vai andar pela berma da estrada. Acabou de caminhar 36 km. Está visivelmente cansado. Ao cair da noite, de repente, um carro aproxima-se e para ao lado dele. O condutor sai do BMW e abre-lhe a porta de trás. É o motorista. Pedro Caldeira entra e parte rumo a casa para tratar os pés e descansar. No dia seguinte, a história repete-se. De manhã, o motorista deixa-o exatamente no ponto onde o apanhou no dia anterior. Caldeira volta a fazer-se à estrada e caminha outros 36 km até a noite cair. No início de maio de 1992, a situação do corretor é cada vez mais desesperada e Caldeira agarra-se à fé. Decide fazer uma peregrinação a Fátima. Pode parecer estranho, mas muitas outras pessoas fazem a peregrinação assim. Caminham durante o dia e vão dormir a casa à noite. Poucos, porém, recorrem a um motorista sentado ao volante de um BMW. Não se sabe o que é que o corretor foi a Fátima pedir. O que se sabe é que, nesta mesma altura, o encantador de ricos terá pedido dinheiro emprestado a Américo Amorim Mas como o Expresso noticia mais tarde, Amorim nega-lhe esse crédito e ainda contacta o supervisor da bolsa para que investigue a real situação financeira da corretora a que Caldeira preside. A corretora, porém, está ótima. Não há nada que a CMVM possa fazer. O problema é a situação particular de Caldeira. Essa está cada vez mais perto da ruína. Carlos Cruz fica encantado desde o primeiro momento. Caldeira até o convida para ir conhecer o escritório dele. Mas o que mais impressiona o apresentador é a desorganização. O caos não acontecia apenas nos tempos loucos de 1973 e de 1987 na bolsa. Era mesmo assim que Caldeira trabalhava, com ações amontoadas um pouco por todo lado. Carlos Cruz chega a perguntar a Caldeira como é que ele consegue trabalhar no meio de toda aquela confusão. Mas o corretor tranquiliza-o: "Tem calma que eu sei onde está tudo". O apresentador acredita, até porque até agora tudo está a correr bem. Em novembro de 1991, tinha entregado ao corretor 30 mil contos com a promessa de ganhar 10% de juros. Caldeira cumpriu o acordo e três meses depois, Cruz recebeu o dinheiro de volta. Por isso, em março de 1992, o apresentador faz uma nova entrega de 30 mil contos. Um dia, quando nos aproximamos do verão, Pedro Caldeira contacta-o para lhe falar de uma operação que está iminente e aconselha Carlos Cruz a investir mais, se puder. Seria a venda das ações de Américo Amorim no BCP. O apresentador aceita a sugestão e entrega mais 10 mil contos. Cruz é, nesta altura, uma das figuras mais mediáticas e influentes do país e vai continuar a sê-lo até à explosão do caso Casa Pia, processo em que foi condenado e cumpriu pena de prisão, mas no qual continua a afirmar-se inocente. O mundo onde se move não é o mundo financeiro, é o mundo da televisão. Talvez por isso não tenha estranhado assim tanto quando, pela primeira vez, um cheque se atrasou e Caldeira não lhe ligou a avisar. O telefonema acabaria por chegar mais tarde, mas foi diferente dos anteriores. Carlos Cruz conta que estava a trabalhar no estúdio do Teatro Vasco Santana, na Feira Popular, quando Caldeira lhe pediu para se encontrarem. Queria pagar-lhe pessoalmente o que devia. Sentaram-se os dois a uma mesa, cada um com o seu copo de uísque. O corretor assinou o cheque mesmo à frente de Carlos Cruz. Olhando agora para trás, o apresentador admite que havia ali qualquer coisa estranha. Fazia pouco sentido que Caldeira fosse de propósito à antiga Feira Popular encontrar-se com o apresentador de televisão. Só se fosse pelo facto de saber que estava atrasado e que Carlos Cruz iria de férias dali a alguns dias. Mas não era normal. Cruz sente que alguma coisa mudou. Havia uma atmosfera estranha. Caldeira estava nervoso, agitado. Em tribunal, Carlos Cruz irá dizer que nunca pôs a hipótese de o corretor o ter querido enganar. Isso não faz o tipo dele. Hoje, 30 anos depois, mostra ter alguma mágoa em relação ao corretor pelos 40 mil contos que nunca mais viu, mas sobretudo porque Caldeira foi ter com ele de propósito, para lhe passar um cheque que não serviria de nada. Cruz só descobriu quando foi ao banco. Já não havia dinheiro. 22 de julho de 1992. Naquela quarta-feira à noite, os Genesis, liderados por Phil Collins, dão um megaconcerto em Lisboa e enchem o estádio de Alvalade. Pedro Caldeira não falta. Por coincidência, Maria João Vieira, jornalista da revista Olá Semanário, está sentada a poucos metros do corretor, mas não imagina a pressão que já está em cima dele naquele momento.
Lembro-me perfeitamente de o ter visto no concerto do Phil Collins e de o ter cumprimentado. Estivemos ali ao lado um do outro e não notei nada, de tal maneira que no dia a seguir fiquei tão surpreendida. Porque as notícias, fiquei muito espantada, não encontro outra palavra.
O espanto da jornalista é partilhado por todo o país quando chegam as primeiras notícias. Mas para as dezenas de clientes a quem o corretor pediu dinheiro a troco de juros avultados, o sentimento é outro: pânico. Pedro Caldeira desapareceu. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
Não era bem o Casino Estoril, mas quase. As pessoas iam para lá jogar a dinheiro. Eu vi lá uma roleta e era aí que ele angariava a clientela.
O seu risco é o risco de eu falir, pessoalmente. Naquela altura, ninguém acreditava que o Pedro Caldeira pudesse falir. Eles estavam em choque. Aquilo foi quase como uma bomba.
"O Encantador de Ricos" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e ainda sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
