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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. No Rio de Janeiro, há pequenos radares de velocidade instalados no topo de alguns postes. Entre os cariocas, são conhecidos como pardais. Não estão sinalizados e à noite são ainda mais difíceis de ver. São tão discretos que muitas vezes até quem conhece bem as estradas, é apanhado. Aurélio Nascimento já percebeu que Duarte Lima não vai colaborar com a investigação. Continua sem saber onde o português alugou o carro em que transportou Rosalina na noite do crime. Aliás, não sabe sequer que carro era. As agências internacionais de rent-a-car e outras mais pequenas, que operam no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, já foram todas contactadas. Não há qualquer registo de aluguer em nome de Domingos Duarte Lima.

Eu pergunto a ele: o senhor veio ao Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, de carro ou de avião? Avião é 40 minutos. De carro. Ok. O senhor alugou esse carro onde? Não lembro. Posso ver nas minhas anotações. Tá. Então tá. Então o senhor pode ver e me dizer depois onde o senhor alugou esse carro? E ele nunca disse. Ele nunca falou. E eu cobrei dele várias vezes. Inclusive, tem e-mails dentro do processo em que eu coloco lá. Eu sei que o senhor se sente constrangido sendo interrogado pela polícia. O senhor é uma pessoa de destaque na sociedade política de Portugal e tal. Eu sei que isso não é agradável, ser questionado pela polícia. Não é. Quem é que gosta de ser questionado pela polícia? E ainda com perguntas que indicam suspeição da participação em um crime. Como é que faz isso? Ah, não sei. Eu vou ver, espera aí. E nunca disse. E ficamos de mãos atadas.

Outubro de 2010, dias depois de Duarte Lima se recusar a responder à carta rogatória enviada a partir do Brasil. Nascimento está em casa, em Copacabana, quando tem uma ideia: ir à procura dos pardais. Não sabe se vai resultar e vai dar muito trabalho, mas é um caminho e a investigação está parada. As principais estradas do Rio de Janeiro até Maricá, onde Duarte Lima diz que deixou Rosalina Ribeiro na noite do homicídio, têm vários pardais. Será possível que o advogado tenha sido apanhado num deles? A polícia não sabe a matrícula do carro, mas Duarte Lima disse que o alugou em Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. E no Brasil, é possível identificar sempre o local de registo de qualquer viatura através da sequência de letras da matrícula. O plano de Aurélio Nascimento é ver o registo de todas as multas passadas no dia 7, entre as 20h e as 23h59, e identificar todas as matrículas de Minas Gerais. O colega Rogério Lima está mais cético. Não tem grande confiança no plano, mas concorda em fazer a viagem até Maricá para anotarem todos os radares que apareçam pelo caminho. Depois enviam um pedido formal. Querem os registos de todas as multas naquele horário e ainda as fotografias captadas por cada radar. É uma hipótese improvável, mas é a melhor ideia que têm agora. Quando receberem os documentos, vão ter uma surpresa e uma desilusão. Há vários meses que a investigação ao assassinato de Rosalina Ribeiro está a avançar devagar, em parte por falta de colaboração de Duarte Lima. Descobrir que carro conduzia naquela noite é muito importante. A vítima viajou nele pouco antes de morrer. E mesmo que ao fim de tantos meses já não seja viável fazer análises de ADN, os registos do percurso podem ajudar a perceber como foi aquela noite. Aurélio Nascimento lembra-se de uma forma de descobrir o carro sem a ajuda de Duarte Lima. E será em Minas Gerais, estado onde a equipe Saturno 46 não tem autorização para investigar, que os dois polícias vão descobrir que tão importante como o que aconteceu na noite do crime, é o que aconteceu no dia anterior. As Sombras de Duarte Lima é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Reposo. Episódio cinco: Um informador chamado Apache.

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Os polícias têm de olhar para o mapa e investigar um triângulo formado por três cidades. O Rio de Janeiro, de onde Duarte Lima saiu com Rosalina Ribeiro, Saquarema, onde o corpo foi encontrado, que fica a 90 km, e Maricá, que está a meio caminho e é onde o português diz que deixou a herdeira. Já têm o registro de todas as multas que pediram. Começam a inspecionar folha a folha e acertam em cheio. Na lista, há uma matrícula de Minas Gerais: HCF 1967. É um Ford Focus cinzento registrado em Belo Horizonte. Na noite do crime, foi multado na estrada principal que vai para Saquarema, num radar que fica junto à saída para Maricá. Passou por lá às 21h38 e ia a mais de 90 km/h. A velocidade máxima permitida era 60. O mesmo carro foi novamente multado uma hora depois, quando seguia no sentido contrário, já na direção do Rio de Janeiro. O excesso de velocidade foi registrado às 22h37. O inspetor Rogério Lima conhece muito bem aquele caminho. Quando era criança, o pai comprou um terreno na praia de Jaconé e durante muitos anos foi lá que passou férias. Por isso, sabe que do radar até ao sítio onde o corpo de Rosalina foi encontrado, em Saquarema, são aproximadamente 30 minutos de carro. Ou seja, o tempo que passou entre as duas multas é exatamente aquele que seria necessário para ir até ao local do crime e voltar.

Do outro lado, na pista contrária, tem o mesmo pardal. Ele também tomou uma multa no outro pardal. E isso significa o quê? Do ponto da primeira multa ao ponto do local onde o corpo foi encontrado, é 30 minutos. São 30 minutos. De lá pra cá, também 30 minutos, porque os pardais são paralelos. Ou seja, passou por ali, foi lá e voltou.

Assim que fazem esta descoberta, os dois polícias decidem percorrer o outro trajeto, aquele que Duarte Lima diz ter feito na noite do homicídio. Percebem que para ir do radar até Maricá bastam menos de 10 minutos. Se efetivamente o português se limitou a deixar Rosalina num hotel dessa cidade, o que é que andou a fazer nos restantes 40 minutos, até às 22h37, quando foi multado pela segunda vez? Repararam noutro pormenor relevante. A RJ 106 é uma estrada larga, com duas faixas em cada sentido. Há muitas empresas, lojas e pequenos cafés ao longo do caminho e é cruzada por pontes pedonais suspensas. O movimento de pessoas e carros é constante. O Ford Focus foi captado pela câmera do radar a circular a mais de 90 km/h na faixa mais à esquerda. Naquele ponto, e àquela velocidade, seria quase impossível virar na saída para Maricá, que fica à direita, mesmo junto ao radar. Para os polícias, a versão de Duarte Lima faz cada vez menos sentido. Mas fica a faltar uma coisa essencial: confirmar que era mesmo ele quem ia ao volante daquele carro. Maria Célia Birchau, 74 anos. Assim que um colega lhes passa por telefone os dados do proprietário do Ford Focus, a tese dos dois investigadores perde força. Afinal, na altura do crime, aquele carro pertencia a um particular e não a uma agência de aluguer de automóveis. Primeiro tentam perceber, através dos contactos informais em Lisboa, se esta mulher tem alguma ligação a Duarte Lima ou, no limite, a Portugal. Mas a resposta é negativa. A seguir, tentam falar com ela. Maria Célia Birchau está reformada Costuma passar temporadas numa casa da família no interior do estado. Durante mais de um mês, não conseguem apanhá-la. Numa sexta-feira, os polícias insistem. Do outro lado, uma empregada diz-lhes que contactem o filho dela. Assim que atende o telefone, Rogério Birchal faz uma revelação que volta a dar força à teoria da equipe Saturno 46. Tem uma empresa de aluguer de carros e é motorista profissional. Explica que, em dezembro do ano anterior, foi contactado por um amigo, dono de uma pequena rent a car em Belo Horizonte, a Locacar. Esse amigo tinha um cliente estrangeiro interessado em alugar um carro automático por uns dias. Mas como não tinha nenhum disponível, lembrou-se de lhe perguntar se estaria interessado em fazer algum dinheiro com o carro da mãe. Rogério Birchal diz aos polícias: nunca se arrependeu tanto. Depois de o estrangeiro devolver o carro, descobriu que tinha várias multas de trânsito por pagar. Nesta altura da conversa, os investigadores já só querem saber duas coisas: qual a nacionalidade e o nome desse cliente. Rogério Birchal não sabe o nome, mas tem uma certeza: é português. Estamos em fevereiro de 2011, mais de um ano após o crime. Aurílio Nascimento pede aos superiores da Polícia Civil do Rio de Janeiro uma autorização urgente para viajar até Belo Horizonte. O comissário leva ofícios e requisições formais de documentos e pede apoio à Divisão de Homicídios da Polícia de Minas Gerais. À espera dele, no aeroporto de Confins, está um jovem polícia que o vai acompanhar. Pede para ir à Locacar. Como o dono da empresa não está, entrega a uma empregada uma solicitação de envio de documentos com urgência. Depois disso, os dois polícias seguem para o departamento de trânsito. Num computador, o polícia do Rio de Janeiro olha para o histórico completo do carro e percebe que há um dado importante. Além das multas no dia do crime, o Ford Focus cinzento também foi apanhado em excesso de velocidade na véspera. Não pelos mesmos radares, mas por outros, numa estrada perto da zona do crime, a apenas oito minutos do local onde foi encontrado o corpo de Rosalina Ribeiro. Quatro dias depois, um envelope chega por correio à Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro. Está dirigido aos investigadores que têm em mãos o inquérito. A correspondência foi enviada pela empresa Locacar depois da visita de Aurílio Nascimento. E lá dentro estão as cópias do contrato com o português que alugou o Ford Focus cinzento. Agora, já há um nome: Domingos Duarte Lima. O nome do advogado português no contrato de aluguer do carro permite que os investigadores concluam duas coisas. Por um lado, ficam a saber que na véspera do crime, quando passou horas com os telemóveis desligados, Duarte Lima esteve muito perto do local onde Rosalina Ribeiro foi assassinada. E também conseguem perceber melhor o percurso que o advogado efetivamente fez no dia do homicídio. Com isso, Aurílio Nascimento e Rogério Lima têm agora a certeza de que Duarte Lima está a mentir. Na véspera do crime, esteve onde garantiu nunca ter estado. E no dia do crime, não pode ter ido apenas a Maricá deixar Rosalina. Demorou tempo demais para uma viagem tão curta. Mais, também mentiu quando disse que não se lembrava de onde tinha alugado o carro. Depois de falar com Aurílio Nascimento, até tinha voltado a contactar a agência. Enviou um e-mail a pedir, com urgência, cópia do contrato e da fatura. Estava propositadamente a esconder informação da polícia. Não é a única coisa suspeita no comportamento do advogado português. Pelas respostas que vieram da Locacar, os polícias também ficam a saber que o carro foi lavado antes de ser devolvido. Não é habitual, sobretudo em períodos de aluguer tão curtos. Outra situação ainda mais incomum: o Ford Focus foi entregue sem tapetes. Quando a agência percebeu, contactou Duarte Lima e mandou-lhe a conta. O advogado pagou.

Porque o carro era importante. Por tudo que se descobriu depois do carro. Se tivéssemos localizado antes, a gente podia fazer um exame mais detalhado do carro sobre DNA, resquícios de sangue, por quê? A gente descobriu uma coisa importantíssima

Os tapetes do carro sumiram. Por quê? Por que os tapetes do carro sumiram? Por que o carro foi entregue lavado? O que não é normal.

No início de agosto de 2010, o caso da morte de Rosalina Ribeiro, até então no sigilo do processo, chega aos jornais. Primeiro, ao Diário Brasileiro, Extra. O título é: "Portuguesa que brigava por fortuna milionária foi assassinada no Rio". Nas horas seguintes, o caso já está na imprensa portuguesa, com o detalhe de que a vítima era cliente de Duarte Lima e de que teria havido um encontro entre ambos antes do crime. O ex-deputado pouco fala, ao contrário de Normando Marques. O defensor de Rosalina no Brasil dá entrevistas e fala em tom crítico sobre a postura do colega português, sobretudo pela falta de colaboração com as autoridades. É nesta altura que, pela primeira vez, diz que o ex-deputado é uma espécie de guru jurídico da vítima. A 23 de agosto, o Diário de Notícias acaba com as dúvidas. A polícia brasileira suspeita de Duarte Lima no caso Rosalina Ribeiro. A manchete do jornal, que cita uma fonte da investigação, fala de vários pormenores comprometedores. A chamada para a loja de armas, a referência a uma mulher, Gisela, que nunca foi encontrada, e a falta de esclarecimentos razoáveis. O cerco em torno dele começa a apertar, diz uma fonte da divisão de homicídios ao jornal. Germano Marques da Silva lidera a defesa de Duarte Lima em Portugal. Diz que o cliente não está sob suspeita e acusa. Os jornais portugueses estão a fazer uma telenovela. Ao mesmo tempo, chegam à imprensa informações sobre o mau relacionamento de Olímpia Feteira com Rosalina Ribeiro e com o próprio pai. E é divulgada a entrevista gravada anos antes, em que Lúcio Feteira dizia que a filha era uma víbora. Olímpia acaba por fazer um comunicado em que desvaloriza a relação de tensão com o pai. Fala em ocasionais desentendimentos, causados quase sempre por Rosalina Ribeiro. Duarte Lima mantém-se em silêncio, no processo e em público. Até ao dia 26 de agosto, quando aceita ir à RTP.

Para todos, muito boa noite. O caso da morte de Rosalina Ribeiro no Brasil tem fixado a atenção da opinião pública.

A jornalista que conduz a entrevista é Judite de Sousa, e faz logo um aviso a pedido do entrevistado. Ele está ali, mas não pode responder a tudo. Logo na primeira resposta, o advogado afasta-se do crime. Parece nervoso, a voz chega a falhar.

Em primeiro lugar, não há relação entre mim próprio e o desaparecimento da senhora dona Rosalina Ribeiro, a não ser o facto de eu ter sido uma das últimas pessoas conhecidas, na qualidade de seu advogado, a ter estado com ela no dia em que ela desapareceu.

Diz que é falso que não esteja a colaborar com as autoridades brasileiras. Aliás, garante que a polícia é que nunca mais entrou em contato com ele. De seguida, fala sobre a viagem ao Brasil, sem detalhar os assuntos que levaram ao encontro com Rosalina Ribeiro. Diz que não se lembra do nome da lanchonete onde estiveram na noite do crime. Explica que, no final do encontro, quando a cliente lhe disse que ia chamar um táxi pra ir ter com uma mulher chamada Gisela, se ofereceu para a levar. E garante que Rosalina chegou a falar por telefone, à frente dele, com essa mulher.

Eu desloquei-me ao Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, a polícia segue atentamente a entrevista e as respostas de Duarte Lima. Os investigadores sabem que Rosalina não tinha nenhum telemóvel com ela. Os três aparelhos ficaram em casa quando saiu. Aurilo e o Rogério tinham-nos apreendido nas diligências no apartamento do Flamengo.

Nesse encontro, ela contactou a tal dona Gisela por telefone, dando conta desse encontro?

É uma informação sobre a qual eu não posso falar.

Portanto, o senhor não pode falar?

Não.

Mas pode me dizer se ela tinha telemóvel consigo ou não? É porque uma das coisas que tenho visto nos jornais é que ela tinha deixado os três telemóveis que teria em casa.

Não é verdade.

E o que o senhor me pode dizer sobre isso?

Não posso dizer nada, mas não é verdade.

Não é verdade que ela não tivesse telemóvel com ela?

Exatamente.

Portanto, ela tinha telemóvel com ela. Concluo.

É a sua conclusão.

As respostas de Duarte Lima são defensivas. Quando é confrontado com alguma inconsistência, diz que não pode falar. E mesmo quando aceita responder, é enigmático. Questionado sobre o fato de se ter recusado a dar esclarecimentos sobre o carro alugado em Belo Horizonte, volta a ser evasivo.

A única coisa que posso dizer é que não há nenhuma declaração minha formal escrita no processo a dizer que me não recordo do carro em que viajei.

Portanto, isso nunca foi negado às autoridades brasileiras.

Estou a dizer que não há nenhuma informação minha, não há nenhuma declaração minha formal ou escrita no processo a dizer que me não recordo do carro em que viajei.

O senhor recorda-se ou não?

Judite Sousa, infira por aquilo que eu estou a dizer, é óbvio.

Assume que ao longo de nove anos houve transferências das contas da cliente para ele, mas não confirma que tenham sido €5 milhões. O valor que Olímpia Feteira disse publicamente ter sido desviado das contas que o pai tinha com a companheira. Aliás, garante que a morte de Rosalina não lhe traria nenhum benefício e sugere que está a ser incriminado.

É óbvio que há uma má condução. Eu não me lembro, na minha vida, enquanto pessoa que tem consciência de si mesmo, de assistir a uma montagem tão vil e tão tenebrosa em relação a alguém.

Aurélio Nascimento aterra em Paris em dezembro de 2010, praticamente um ano depois da morte de Rosalina Ribeiro. Está de férias, mas vai ter um encontro com alguém que diz saber muito sobre Duarte Lima e garante ter dados sobre as ligações ao Banco Português de Negócios e a Hong Kong, para onde o advogado viajou após o crime. É português e recebe um nome de código como informador: Apache. Os dois tinham começado a falar uns meses antes. Conversaram várias vezes por telefone e por e-mail, mas queriam encontrar-se pessoalmente. Apache diz que viaja muito e chegou a pôr a hipótese de um encontro quando estivesse na América Latina. Mas ao saber que o comissário brasileiro ia a Paris, disponibilizou-se logo para se encontrar lá com ele. No dia combinado, Aurélio chega antes das 19h ao Flore, o café de Saint-Germain-des-Prés, muito frequentado pelo filósofo Jean-Paul Sartre. Está de gabardine e chapéu. Cauteloso, dá uma volta ao quarteirão. Não põe de parte a hipótese de estar a ser alvo de uma armadilha. Entra no café, senta-se e deixa em cima da mesa o livro que tinham combinado como código: "Guerra e Paz", de Tolstói. Espera cerca de 15 minutos, sempre atento a todas as movimentações. Até que um homem, já com alguma idade, entra no café. Vem de sobretudo, chapéu e óculos escuros e traz um jornal português, o Diário de Notícias. "O senhor é português?", pergunta Nascimento. O homem acena com a cabeça. "E conhece o Brasil?", continua o comissário. Nesse momento, o informador sorri e responde: "Não, mas gostava de conhecer Saquarema". É a senha combinada. Aquele é mesmo Apache.

E ele muito esperto, porque quando ele chegou lá, ele descobriu, sem ver, que eu ia gravá-lo. E ele pediu: "Eu sei que o senhor vai me gravar. Porra, eu pediria que não. Eu não quero aparecer nisso". Aí falou de negócio de submarino, de negócio dos terrenos, de isso, daquilo, de falcatrua aqui, de falcatrua ali. Eu ouvi.

O informador tem dezenas de documentos sobre os negócios de Duarte Lima. Muitas dessas informações hão de revelar-se verdadeiras mais tarde, quando o ex-deputado for investigado no processo BPN Homeland. Mas Apache é inflexível. O comissário não pode fotografar nem fotocopiar nada, o que faz com que tudo demore muito mais tempo. Ao fim de algumas horas, resolvem marcar outro encontro. E depois, outro. Durante as férias em Paris, Aurélio Nascimento e Apache estão juntos três vezes, sempre em locais icônicos da cidade. A última conversa é no Café de Roma, nos Campos Elísios.

Falava que o Duarte Lima deveria ser punido, que isso, que aquilo. Ele tinha muita raiva do Duarte Lima.

Para além dos negócios, Apache demonstra conhecer bem a vida privada de Duarte Lima. Sabe de pormenores da relação dele com Marlete. Sabe que a brasileira vive num apartamento de luxo no Parque das Nações. Descreve mesmo o interior da luxuosa casa de Duarte Lima, no edifício da Visconde Valmor. Só há um problema: não tem informações sobre o homicídio de Rosalina Ribeiro. Mesmo assim, pede a Nascimento para não abandonar o caso e levar a investigação até ao fim, ao contrário do que tem acontecido sempre em Portugal. Duarte Lima, diz Apache, é uma pessoa fria, que só pensa em dinheiro. Quase dois anos depois do crime, Duarte Lima é formalmente acusado pela Justiça brasileira do homicídio de Rosalina Ribeiro. O Ministério Público do Rio de Janeiro considera que a versão apresentada pelo advogado não faz sentido e que o crime foi cometido por ele. No despacho de acusação, conhecido no final de outubro de 2011, escreve-se: "Embora o denunciado tenha afirmado que deixou a vítima em Maricá, no Hotel Jangada, com uma mulher chamada Giselle, supostamente interessada em adquirir um terreno de propriedade de Rosalina, essa afirmação foi totalmente desmentida no curso da investigação criminal. Isso porque o veículo que o denunciado conduzia nem sequer entrou em Maricá, o que pode ser demonstrado pelas multas de trânsito. A procuradora Gabriela d'Aguilar conclui mesmo que o denunciado Domingos Duarte Lima, com a intenção de matar, desferiu disparos de arma de fogo contra a vítima Rosalina, que pela sua natureza, sede e extensão, foram a causa da sua morte. A acusação dá ainda conta de que Rosalina Ribeiro não tinha como se defender, o que torna o crime ainda mais grave. E sublinha: o denunciado atraiu a vítima com o intuito de ceifar a sua vida. Para o Ministério Público do Rio de Janeiro, a motivação do crime foi o facto de Rosalina ter recusado assinar uma declaração que Duarte Lima pedia insistentemente, dizendo que o advogado não lhe devia qualquer dinheiro, o que, diz a acusação, mostra ausência de sensibilidade e depravação moral. Por fim, refere-se que Duarte Lima não só recusou colaborar com a investigação, como também apresentou subterfúgios com o objetivo de furtar-se à aplicação da lei penal. A conclusão do Ministério Público do Rio de Janeiro é implacável. Duarte Lima é capaz de matar quem não satisfaça os seus desejos pessoais e interesses financeiros. Poucos dias depois, o juiz Ricardo Pinheiro, de Saquarema, decreta a prisão preventiva e o nome do advogado aparece no site da Interpol. Duarte Lima está agora na lista dos mais procurados do mundo. Manhã de 17 de novembro de 2011. O juiz Carlos Alexandre é o primeiro a chegar. Está ainda a alguns metros do prédio do Duarte Lima, junto ao edifício da Culturgest, quando ao longe vê algumas câmaras de televisão. Não é uma surpresa. Há dias que circulam informações de que pode haver buscas no processo BPN Homeland a qualquer momento. Esse momento é agora. O caso é uma investigação à compra de terrenos por parte de um fundo com o nome Homeland, detido em 85% por Pedro Lima, filho de Duarte Lima, e por Vítor Raposo, sócio de Duarte Lima. Os outros 15% eram detidos pelo fundo de pensões do BPN, então sob gestão de Oliveira e Costa. Em causa estão vários negócios em Oeiras. O mais relevante foi feito em 2007. A investigação concluiu que o advogado, o filho e o sócio burlaram o banco, falsificando o valor desses terrenos. Foram comprados por cinco milhões, mas o BPN entrou no negócio a achar que tinham custado 22 milhões. Com o que sobrou do dinheiro injetado pelo BPN para esta compra, os suspeitos pagaram a participação deles no fundo e ainda lhes sobrou algum dinheiro. O juiz vai dar uma volta para que ninguém se aperceba da presença dele. Ali ao lado, cruza-se com o procurador Rosário Teixeira e com os inspetores da Judiciária que vão participar nas buscas. Uma dezena de homens. Agora que a equipa está reunida, é preciso entrar de forma rápida. Dirigem-se ao número um da Avenida Visconde Valmor. O primeiro obstáculo surge logo na entrada do prédio. O segurança não abre completamente a porta e exige saber qual o assunto antes de deixar os magistrados e os inspetores entrarem. Quando insistem, recebem uma resposta: "Eu também sou das forças da lei". É um sargento da GNR na reserva que faz as vezes de porteiro. Em dezenas de buscas a que presidiu, Carlos Alexandre nunca se deparou com uma situação destas e, por isso, nunca se identificou de forma ostensiva, mostrando o cartão de juiz. Nem em casas, nem em bancos, nem em empresas. Ali tem de o fazer. A entrada no prédio é tensa. Descobrem depois que o porteiro tinha sido contratado por intermédio de Duarte Lima. Devia-lhe esses cuidados. Quando sobem ao 11º andar, Carlos Alexandre, Rosário Teixeira e os inspetores da Polícia Judiciária encontram a porta de casa já aberta. Duarte Lima está à espera deles. Lá dentro, vão encontrar um homem nervoso, mas cordial, muitos documentos sigilosos e uma parede falsa que os investigadores vão perceber que é, afinal, uma porta oculta, uma entrada para uma sala secreta. Mas essa é uma história para o último episódio. Se for assinante Standard ou Premium do Observador, não tem de esperar e pode ouvir já todos os episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No último episódio.

Ele chegou assim: "A senhora para com isso, senão a senhora vai se dar muito mal, porque eu sou amigo do Duarte Lima e eu não admito que a senhora fale dele".

Me chegou a informação de que alguém procurou uma bandidagem no Rio, para ver se podia tomar alguma providência contra mim. O Observador contactou Domingos Duarte Lima, mas o advogado recusou ser entrevistado para este podcast. As entrevistas a Olímpia Feteira, Maria Alcina e Rosemary Spinella foram feitas em 2015. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. O guião e as entrevistas são de Carlos Diogo Santos. A sonoplastia deste episódio é de Rafael Pego. O design gráfico é de Miguel Farazo Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.