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Praticamente ninguém acredita nesta seleção. Ninguém sonha que daqui a quatro dias, muitos destes jogadores vão estar a festejar um apuramento histórico e a embriagar-se numa festa épica com vinho, champanhe e uísque sem limites. Também ninguém adivinha que estes mesmos atletas vão ser daqui a sete meses os protagonistas de um dos escândalos mais embaraçosos da história do futebol português. Agora, em pleno Estádio da Luz, pouco depois da inauguração do terceiro anel que permitiria ter 120 mil pessoas a assistir, sobressai uma mancha. Há mais de 90 mil lugares vazios nas bancadas. Está um lindo dia para fazer outras coisas, como justificaria o jornal A Bola na manhã seguinte. É o penúltimo jogo de qualificação para o Campeonato do Mundo do México em 86. Portugal vem de uma derrota em Praga contra a Checoslováquia, que complicou as contas do apuramento. Este jogo é contra a fraquíssima seleção de Malta e mesmo assim, Portugal sofre para vencer por apenas 3x2, com o gol da vitória a ser arrancado por Fernando Gomes ao minuto 82, quase no fim do jogo, perante a impaciência dos poucos espectadores que foram torcer pela seleção. Os jogadores saem do relvado do Estádio da Luz com ar derrotado depois de uma exibição tão pobre. O país, que ainda se interessa pela seleção, começa a fazer contas de calculadora. Portugal já não depende dele próprio para ir ao mundial. Nesta altura, uma vitória só vale dois pontos. Passam os dois primeiros do grupo. A Alemanha já está apurada. A Suécia tem menos um ponto que Portugal, mas ainda lhe restam dois jogos com equipes teoricamente mais fracas. Portugal tem de esperar que os suecos percam o jogo e tem de vencer o seu último desafio. Mas é em Estugarda, frente à poderosa Alemanha, que até o momento, em toda a história, nunca perdeu em casa em fases de qualificação. Apesar de todas as dificuldades, o selecionador nacional, José Torres, lembra que matematicamente, a qualificação ainda é possível e faz um pedido aos jornalistas: "Deixem-me sonhar. Deixem-me, ao menos, sonhar mais um pouco." José Carlos Freitas, do jornal O Jogo, ficou surpreendido com a ambição do selecionador.

Ninguém acreditou que fosse possível, porque é a tal história. A Alemanha não perdia em casa, raramente empatava e Portugal, os confrontos com a Alemanha eram sempre negativos. Perdíamos 1 x 0, 5 x 0, 3 x 0 por aí fora. E ganhar na Alemanha parecia tarefa impossível.

Quatro dias depois do apelo do José Torres, a seleção portuguesa começa inesperadamente a vencer antes mesmo de entrar em campo para enfrentar a Alemanha. A Suécia perde em Praga contra a Checoslováquia e com este resultado, Portugal passa a depender apenas de si próprio. Se por milagre vencerem em Estugarda, os portugueses garantem um lugar no mundial. As bancadas do Neckar Stadium estão cheias. 55 mil adeptos. José Torres escolhe para a titularidade: Bento, guarda-redes do Benfica. A defesa conta com José António, do Belenenses, a líbero. Joga atrás de Frederico, do Boavista, e de Venâncio, do Sporting. Nas laterais, dois homens do Futebol Clube do Porto: João Pinto à direita e Augusto Inácio à esquerda. No meio-campo, Jaime Pacheco, do Sporting, com o benfiquista Veloso a fechar à direita e Mário Jorge, do Sporting, à esquerda. Carlos Manuel, médio do Benfica, joga ligeiramente mais à frente. A ponta de lança, sozinho, Fernando Gomes, do Porto. Augusto Inácio está confiante.

Fomos pro jogo naquelas: "É possível."

O selecionador tem um plano: defender muito e assumir o contra-ataque. Depois de 45 minutos de futebol, sobrevive. Zero a zero ao intervalo. Na segunda parte, Portugal mantém segurança na defesa, apesar das constantes investidas germânicas. Até que ao minuto 54.

Aquele pontapé fantástico do Carlos Manuel. Com um pontapé fortuito, de sorte, aquilo a que chamaria um treinador, um sorriso do Carlos Manuel.

Ainda estou a ver o gol do Carlos Manuel. Começa com a bola quase no nosso meio-campo, vai por ali fora e a cerca de 30 metros, faz um pontapé fortíssimo.

É aquilo chamado o gol do meio da rua.

Os jornalistas David Borges, Ribeiro Cristóvão e Gabriel Alves descrevem um dos maiores momentos da seleção nacional. E o herói de Estugarda ainda hoje fala de um momento épico, como recordou no programa Bola Branca da Rádio Renascença.

O futebol é de milésimos de segundo, é o espaço que tu vês. Não estou a pensar ali, vou pra cima e quando vou pra cima, eu estou a pensar: vou mesmo pra cima dele. Não, aquilo é normal. Vou direito a ele e acabou. Agora vamos ver o que é que isto dá. Chegou ali, deu-me aquele espaço pra eu pensar e driblá-lo. Arrisquei

A equipa sente que é possível e resiste até ao fim. Álvaro Magalhães, que não sai do banco de suplentes, diz que foi um momento divino.

Deus estava com a seleção portuguesa e acabamos por ganhar.

Resultado final: Alemanha zero, Portugal um. Augusto Inácio sente a euforia logo no relvado.

E nós conseguimos aguentar até que o árbitro apita e ganhamos um a zero. Ficamos incrédulos, todos contentes: "Mas como é que aconteceu isto? Mas ganhámos da Alemanha um a zero e fomos para o mundial."

Depois de 20 anos de ausência em mundiais, Portugal vence a Alemanha e garante um passaporte para a competição que se iria jogar no México. A noite em Estugarda é de uma festa sem limites, com brindes permanentes.

Cada vez que uma das mesas dizia: "À nossa!" Se uma mesa fizesse "à nossa", as outras todas tinham que dizer "à nossa" também. Aquilo ali não havia restrições. Aquilo era à Lagardère como se costuma dizer, era vinho até dizer chega. E depois de acabar o jantar, íamos para o bar, às vezes há champanhe e uísque. Aquilo já não éramos jogadores, já éramos só adeptos, estávamos ali a viver aquele momento. Quando chegámos ao avião, uns foram para o lado a dormir, outros continuaram a festejar, porque parecia que não estava a acreditar que aquilo tinha sido possível, porque afinal estávamos mesmo no mundial.

Sete meses depois deste momento de glória, haverá relatos de outras noitadas que vão embaraçar os jogadores e o país. O Mundial de 1986 está marcado na história do futebol português pelas piores razões. Um estágio de 40 dias com treinos num campo inclinado, um hotel no deserto com seguranças que fumam cannabis e assaltam os jogadores. Uma equipa que exige, há meses, aumentos nos prémios de jogo. Uma federação que teima em adiar as negociações. Suspeitas de doping e uma revolução de jogadores assumida perante toda a imprensa. Vamos escutar quem esteve no México, abrir os jornais de 86 e analisar os relatórios da Federação Portuguesa de Futebol para reconstruir os dias caóticos que mudaram para sempre o futebol português. O escândalo que destruiu a seleção é um podcast especial do Observador, em quatro episódios, sobre a participação portuguesa no Mundial de 1986. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho e este é o episódio um: um passaporte envenenado. A vitória inesperada e épica contra a Alemanha em 1985 é um dos maiores momentos da história da seleção nacional. O jornal A Bola escreve: "Ah, grande Portugal" e "Dá cá o visto, México". Mário Soares, primeiro-ministro, dá os parabéns à equipa, envia um telegrama para a federação em que se manifesta emocionado com a brilhante vitória do futebol português. Ramalho Eanes, o presidente da República, elogia o comportamento brioso que proporcionou a todos a alegria pela passagem à fase final do Mundial de Futebol. Apenas sete meses mais tarde, as manchetes dos jornais serão muito diferentes. Bronca em Saltillo, a seleção faz greve. Escândalo sem precedentes. Está em causa o prestígio de Portugal. Vítor Serpa, do jornal A Bola, recorda que os problemas começavam no ambiente vivido no próprio balneário da seleção.

Por causa dos jogadores que eram do Porto, do Benfica e do Sporting. Faziam-se núcleos, faziam-se grupos, chegavam-se a fazer mesas durante os estágios da seleção, durante o almoço, durante o jantar, apenas com os jogadores do Porto, apenas com os jogadores do Benfica e apenas com os jogadores do Sporting. Basicamente, a diferença maior era do Porto em relação aos clubes de Lisboa. O Porto mantinha-se numa ilha e, portanto, havia aqui uma grande tensão no ambiente de trabalho da seleção.

A personalidade de José Torres, selecionador nacional, ajudava a agravar o problema, em vez de o resolver.

Havia alguma polêmica em redor do próprio treinador e da capacidade que José Torres tinha como selecionador nacional. E o José Torres era um bom rapaz, a alcunha dele era o Bom Gigante. E fazia todo o sentido. Era realmente um homem muito alto e era um homem muito bom e, portanto, tinha muitas vezes dificuldade em escolhas, em decisões, dificuldade em impor uma liderança.

A festa do apuramento para o Campeonato do Mundo ajuda a disfarçar outros conflitos graves que já se sentem no interior da Federação Portuguesa de Futebol. José Eduardo lidera há poucos meses o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, mas já é tempo suficiente para conhecer bem os focos de tensão entre os atletasE a federação?

É uma preocupação essencialmente de sucesso financeiro. E claro que a questão dos prémios era uma questão muito sensível.

Os jogadores consideram que as diárias e os prémios de jogo pagos pela Federação Portuguesa de Futebol são insuficientes. E já desde o Europeu de 84 que querem negociar.

Os jogadores quando foram para a fase final do Europeu, nem sequer estavam alertados pra essa questão dos prémios. E em 84 não fizeram muitas ondas e aceitaram o que a federação decidiu atribuir-lhes como prémio de jogo. Mas na fase final do apuramento pro México, já havia esse alerta por parte dos jogadores para com a direção da federação, que era preciso definir os critérios da distribuição de prémios, que não era só eles irem jogar em representação da seleção e do país, uma vez que a federação ia ter umas receitas extras, eles queriam parte do bolo.

Os acordos publicitários começam a surgir em todo o lado. Chuteiras, camisolas, fatos de treino, no campo de treinos, nos estádios. Tudo é uma montra, principalmente os jogadores. Gabriel Alves acompanha tudo como jornalista da RTP e descreve um atrito constante.

E a tal questão da palavra manequim. E os futebolistas que eram olhados como: "Olha, tens o ordenado e joga." Há aquela frase, nós éramos os manequins de montra. E se a federação vendia publicidade por causa dos manequins de montra, então tínhamos que receber algum.

A 16 de dezembro realiza-se a primeira viagem ao México. Silva Resende, presidente da federação, Amândio de Carvalho, coordenador desportivo, e José Torres, selecionador nacional, lideram a comitiva que vai estar presente no sorteio da competição. Portugal fica no grupo F com Marrocos, Polónia e a poderosa Inglaterra. Em 1966, tinham sido os ingleses a afastar a seleção de Eusébio da final do Mundial. Nesta viagem ao México, os dirigentes recolhem informação sobre os locais dos jogos na fase inicial e traçam cenários para os possíveis percursos em caso de apuramento para a fase seguinte. Como mais tarde há de ficar escrito no relatório da federação, nesta visita ao México, são tomadas várias decisões, todas por unanimidade. Primeiro, fazer o maior tempo de preparação no México. Estabeleceu-se logo a data de 14 de maio para garantir três semanas de aclimatação. Em segundo lugar, fazer toda a preparação na cidade de Saltillo, por reunir condições de altitude muito semelhantes às de Guadalajara, onde Portugal iria jogar o último encontro da fase de grupos frente a Marrocos. Em terceiro, ficou definido que se iria solicitar duas equipas locais para se fazerem jogos de treino. Já este plano está a ser executado quando entra em cena um homem com ideias diferentes.

Sabe como é que eu fui escolhido pro México? Eu não dei entrevista nenhuma pra não parecer que me queria estar na polémica dos players. Uma vez, o Portimonense ia jogar algures lá no Norte, no Varzinho ou no Rio Ave, e numa estação de caminho de ferro, nós saímos do comboio e o Torres ia naquele comboio. Então eu meto a cabeça fora. "Professor, tenho que falar consigo!" Foi o meu convite foi esse. Estou a ser ouvido.

David Monge da Silva, um preparador físico natural de Serpa, que já tinha trabalhado no Benfica no início da década de 80 e que em 85 estava a trabalhar no Portimonense.

Então, a primeira reunião que nós tivemos, reunimos todos, a equipa técnica com o Amândio de Carvalho, que era o chefe, o César Grácio e o Malva, o pessoal todo lá da federação. E naturalmente o Torres, eu, o Jaime Graça, o Dr. Camacho Vieira. E depois reunimos e começaram a explicar como é que era a preparação. E depois eu naturalmente tinha que dizer alguma coisa, não podia ficar calado, mas com muita suavidade, estive a explicar o que é que se devia fazer.

Monge da Silva, um dos mais conceituados preparadores físicos do país, junta-se à equipa e quer mudar todos os planos da federação para o Mundial do México. Passa a haver o desejo de se realizarem três jogos amigáveis no México e antecipa a saída para dia 9 de maio. São também pedidos dois treinos diários, um em Saltillo e outro em Monterrey.

Era o único grupo que ia disputar o campeonato em altitudes variáveis. Os primeiros dois jogos eram ao nível do mar, 520 metros em Monterrey, o terceiro jogo já seria a 1600 metros e depois se fôssemos apurados, tanto podíamos voltar pros 500, como ir pra 1600 ou ir pras 2300 no México.

Por esta razão, Monge da Silva defende que Portugal deve ir mais cedo do que estava previsto e alterar radicalmente o plano de treinos e de jogos de preparação. A Federação Portuguesa de Futebol aceita as alterações. Entre a glória de Estugarda e a partida para o México, a seleção portuguesa faz três jogos amigáveis. Joga com equipes que não se tinham apurado para o mundial. Empata um gol com a Finlândia, a 22 de janeiro, em Leiria. Vitória sobre o Luxemburgo por 2 x 0, em Portimão, a 5 de fevereiro, e derrota por 3 x 1 com a República Democrática Alemã, a 19 de fevereiro, em Braga. Com estes três jogos, José Torres quer começar a desenhar uma equipe para o mundial. Mas estes estágios servem também para outros assuntos, principalmente na concentração no início de fevereiro, no Algarve. José Carlos Freitas, do jornal "O Jogo", não se esquece do que encontrou.

Eu lembro-me que quando eu chego a Portimão, campo da Torre Alta, para um primeiro treino antes desses jogos, não estava lá a seleção. Era suposto haver um treino às 15h e não estava lá ninguém. E o senhor lá do campo da Torre Alta disse: "Olha, eles telefonaram há meia hora a dizer que não há treino, cancelaram o treino." Na altura, os treinos da seleção tinham três, quatro jornalistas. Hoje têm 30 a 40. E fui ao hotel da seleção, falei com o responsável da comitiva, o Amandeo de Carvalho, que entretanto já faleceu, e ele disse: "Há aí um problema. Os jogadores querem discutir os prêmios, mas está uma grande confusão, não sei como é que isto vai ser resolvido."

Os jogadores consideram que o valor pago pela federação é pouco. Querem aumentos nas diárias, aumento nos prêmios de jogo e uma maior fatia dos acordos publicitários que estão a ser feitos. A federação não concorda e empurra a discussão para outra altura. Nada se resolve. Nesta fase, a poucos meses do mundial, também se discute intensamente outro problema.

Vamos supor que Portugal iria até à final do Campeonato do Mundo. Como é que se colocava gente com 30 anos, 20 e tal anos, todos juntos durante aquele tempo, sem, por exemplo, atividade sexual, sem uma relação sexual, portanto, criando, naturalmente, a possibilidade e a oportunidade, a ideia quase obsessiva de fugir do quarto, de ir à procura noutros lados.

O jornalista Vítor Serpa, do jornal A Bola, escreve vários artigos sobre este assunto que todos discutem na praça pública. Os jogadores devem ou não ter acompanhamento da família durante o estágio no México? José Carlos Freitas, do jornal O Jogo, recorda que a imprensa confrontou a federação com estas dúvidas.

Houve um caso em que são chamados à sede da federação, na antiga Praça da Alegria, os jornalistas que iam ao Campeonato do Mundo, pra eles explicarem como é que era o plano de trabalho, os treinos, essas coisas todas. E quando dizem que é um mês antes do Campeonato do Mundo, alguém pergunta se os jogadores estão autorizados a levar as mulheres, a família, o que quer que seja. Era um mês longe de casa. Eles disseram que não, nem pensar nisso, porque têm que estar concentrados no campeonato, nos jogos. Pedir a homens de 20 e poucos anos de idade que estejam um mês sem a família, já nem falamos do aspecto sexual da questão, mas estar um mês sem a família. Na altura, repito, não havia telemóveis, não havia nada disso. As ligações telefônicas eram extremamente difíceis do México pra Portugal. Isso não era possível, porque há uns que são casados e há outros que não são.

Presidentes de clubes, dirigentes, médicos, todos dão opinião. O jornal A Bola publica uma entrevista com Domingos Gomes, médico do Futebol Clube do Porto. Em título: "Levem para o México as mulheres dos jogadores. Não dão para ganhar, mas podem dar para não perder." Domingos Gomes defende na entrevista que as mulheres dos jogadores devem estar presentes num hotel diferente na fase de adaptação à altitude. Depois, no período da competição, se esta se prolongar para além de 15 dias, a presença da família dos jogadores pode ser importante para o equilíbrio psicológico e para diminuir a ansiedade. Esta discussão acontece em vários países. Algumas seleções optam por pagar as despesas aos familiares dos jogadores. Outras permitem visitas pontuais. E há casos em que a presença de familiares foi proibida. Em Portugal, o preparador físico David Monge da Silva não é chamado a falar sobre este assunto, mas tem uma opinião.

Eu julgo que poderiam estar num tempo tão prolongado. Penso que seria sensato elas estarem presentes.

Portugal irá acabar por permitir que as famílias façam visitas no México, mas os custos são responsabilidade dos jogadores. Com o mundial já a ser preparado, Benfica e Futebol Clube do Porto ainda lutam pelo título e são os Dragões que conquistam o campeonato nacional. Em vésperas da última jornada, a 18 de abril, José Torres divulga a lista de convocados para o mundial. São 22 jogadores. Para guarda-redes, Bento, do Benfica, Damas, do Sporting, e Jorge Martins, do BelenensesNa defesa: João Pinto e Augusto Inácio, do Futebol Clube do Porto. Álvaro Magalhães e Veloso, do Benfica. António Morato e Venâncio, do Sporting. José António e Sobrinho, do Belenenses, e Frederico, do Boavista. Os médios são: Jaime Magalhães e António André, do Porto. Carlos Manuel e Diamantino Miranda, do Benfica. Jaime Pacheco e António Sousa, do Sporting, e José Ribeiro, do Boavista. E para avançados: Fernando Gomes e Paulo Futre, do Porto, e Rui Águas, do Benfica.

Só aí é que me caiu a ficha, porque até lá continuava a ser um sonho. Estávamos lá, mas parecia que não estávamos, na minha cabeça, e eu ia estar no mundial.

Augusto Inácio tem 31 anos. Em 84, falhou o Europeu por lesão e finalmente tem a oportunidade de ir a uma grande competição com a camisola de Portugal.

Eu digo assim: "Eu gostava tanto de estar no mundial." Até que para mim era a última oportunidade de estar no mundial, com aquela idade que tinha, era a última oportunidade que tinha de estar no mundial. E eu disse assim: "Augusto, ou é agora ou nunca, nunca mais lá vais." E tinha sempre essa esperança, mas já aquele formiguinho até chegar à lista final do estou, não estou, vou, não vou. Quando é anunciado que eu estou convocado, é um alívio pra mim muito grande de ter a grande oportunidade da minha vida de estar no mundial.

Para todos os jogadores convocados, é uma estreia no mundial de futebol. Para a equipa técnica e dirigentes, também. O sonho está cada vez mais próximo. Dias depois da convocatória, começam os treinos no Jamor. O plano do preparador físico Monge da Silva passa por retirar carga em Lisboa, fazer treinos de recuperação devido ao fim do campeonato, para depois intensificar os treinos de preparação física e adaptação ao clima no México. Entre treinos e momentos livres no estágio, a relação entre os jogadores e a federação fica mais crispada. Não parece existir solução à vista. Nos próximos episódios, vamos desvendar os escândalos da participação portuguesa.

Aliás, chegamos a dormir no aeroporto. Uma coisa impressionante, uma coisa incrível. Acho que devia haver melhores condições pra nós chegarmos ao México, penso eu.

Nós éramos assaltados por nossos próprios seguranças.

Aquilo parecia um hotel dos fantasmas, que me metia medo.

A desorganização em Saltillo e a discussão sobre os prêmios vai conduzir a uma revolta que mudará para sempre a Federação Portuguesa de Futebol.

Nós estamos aqui a falar do futebol profissional português amador. E Saltillo significa, indiscutivelmente, a transformação do amadorismo no futebol profissional em Portugal para o profissionalismo.

O Escândalo que Destruiu a Seleção é um podcast da Rádio Observador, assinado pelos jornalistas Miguel Cordeiro, Carlos Pedro, João Dias, José Rafael Lopes e Martim Madeira. O guião é do jornalista Miguel Cordeiro. A sonoplastia é do Rafael Pego. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio usamos um som do programa Bola Branca, da Rádio Renascença.