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Se eu lhe pedir para fechar os olhos e imaginar um agricultor, o que é que vê? Provavelmente, na sua imagem mental, vê alguém mais velho, de feições marcadas pelo sol, talvez de boina, a trabalhar a terra. Deixe-me dizer-lhe que essa imagem pertence ao passado, talvez aos livros da história. Hoje, o novo perfil de quem gere o território em Portugal pode muito bem incluir uma licenciatura em Engenharia de Computadores, por exemplo, Biologia Molecular ou até Engenharia Aeroespacial. E sim, ouviu bem, há cientistas que antes olhavam para as estrelas e que agora usam satélites, inteligência artificial e algoritmos para gerir explorações agrícolas no nosso país. A renovação geracional está a acontecer e trouxe consigo uma vaga de talento super qualificado, e é disso que falamos hoje no "Lado B da Terra", o podcast em parceria com a B Rural. Eu sou o João Costa e Silva e hoje vamos conhecer a nova cara do setor agroalimentar português. E para nos ajudar a perceber quem são estes novos agricultores e como estão a revolucionar o campo, recebemos Nuno Serra, secretário-geral da CONFAGRI. Nuno, seja muito bem-vindo. Está aqui com uma grande missão, não é? Dar-nos a conhecer este novo perfil. Engenheiros aeroespaciais no campo. Eu acho que isto é algo revolucionário por si só, não é? Pensarmos nesta possibilidade. Isto é uma exceção romântica ou o perfil do agricultor mudou mesmo radicalmente nestes últimos anos, daquilo que temos conhecido?
Em primeiro lugar, muito bom dia, muito obrigado pela oportunidade de podermos vir aqui falar sobre o setor agrícola, sobre os jovens, sobre aquilo que é a renovação geracional. Hoje é unânime, para quem está dentro do setor, que a profissão de agricultor já é uma profissão altamente evoluída, quer tecnologicamente, quer em termos de conhecimentos. Hoje, um agricultor tem que saber de um conjunto de ferramentas e um conjunto de matérias que não era habitual até agora. Hoje não há máquina nenhuma que não precise que saibam fazer a referenciação geoespacial, que se trabalhe em dados, que trabalhe em softwares de avaliação e monitorização das culturas, e portanto, hoje mudou radicalmente aquilo que era a necessidade e as exigências ao agricultor. Existe claramente ainda uma perceção por parte da sociedade que o agricultor é aquele senhor que continua a sua ferramenta a ser a enxada, mas já não é assim. Desde a pequena à grande propriedade, hoje o agricultor é efetivamente uma profissão altamente tecnológica, com exigências muito grandes, e não só a nível daquilo que é a parte tecnológica, quer na parte de gestão, quer na parte dos marketings, quer a parte até do customer experience. Hoje, muitas vezes, o próprio agricultor tem que criar alguma diversidade na sua área de intervenção, que o obriga a perceber o que é o consumidor. Para isso é preciso perceber, ler dados, ler estatística e, portanto, eu penso que rapidamente este é um dos grandes desígnios do setor, é passar para a sociedade que efetivamente a profissão de agricultor é uma profissão muito evoluída e que nada tem a ver com o passado.
Sim, e podemos ver isso. Aliás, com estes episódios também do "Be Rural", temos falado muito sobre isso. A CONFAGRI representa aqui milhares de agricultores e cooperativas também por todo o país. Que novas competências é que traz este agricultor 4.0? E como dizia o Nuno, eu acho que já não chega saber se vai chover, não é? É algo que também é importante, mas não chega neste momento.
É essencial saber quando vai chover, mas hoje é mais do que isso. É preciso saber a quantidade de água que está na terra, quanto tempo vai demorar a estar na terra, essencialmente, a quantidade de água que cada cultura precisa para atingir a sua melhor performance. E, portanto, isso só é possível, já não é só olhando para o borda d'água e perceber que vai chover neste mês, como diziam, "Abril, águas mil". Não, agora é preciso olhar para a inteligência artificial, para big data, para os softwares, para os sensores de análise da terra, para a quantidade de umidade que temos e perceber se efetivamente a água é suficiente ou não, até porque a agricultura é um setor altamente ambiental, ao contrário do que dizem. E hoje não há nenhum agricultor que não tenha uma consciência daquilo que é a sustentabilidade, e a sustentabilidade naquilo que é garantirmos para o futuro os recursos que temos hoje. E, portanto, a gestão da água é essencial para qualquer agricultor.
Até porque compromete a sustentabilidade e a longevidade desse setor, não é?
E, portanto, os agricultores sabem perfeitamente que se gastarem mais do que têm, vão comprometer o seu próprio futuro. E, portanto, eu penso, mais uma vez, há uma grande onda que tenta passar para o lado do agricultor estes despesismos, mas é o contrário. O agricultor sabe perfeitamente que se gastar mais do que pode, vai tocar o futuro desse setor. E, portanto, hoje em dia, todas estas questões e conversa se vai chover ou não, que era muito ligado, só interessa saber o borda d'água, isso já não é. É muito importante isso, porque o conhecimento empírico também é muito importante na agricultura, mas acima de tudo, este conhecimento empírico acaba por ser sempre muito suportado pelo conhecimento científico. E hoje, os agricultores todos têm já este conhecimento científico.
Muito bem. É importante também perceber aqui o perfil destes jovens que entram neste ramo. Pergunto-lhe se temos jovens que vêm, por exemplo, da tradição familiar, de filhos de agricultores que até foram estudar e voltaram com novas ferramentas, ou se estamos a assistir a uma vaga de pessoas, podemos-lhes chamar nômades urbanos, sem qualquer ligação à terra, mas que querem investir também no mundo rural. Qual é o perfil?
O perfil essencialmente é esse. São jovens que já têm alguma tradição ligada ao mundo rural e que acabam por agarrar nos seus negócios de família e continuar. Uma coisa são os empresários agrícolas, hoje em dia são todos aqueles que querem fazer da agricultura uma profissão. E essa profissão na agricultura, muitas vezes, não é só para o agricultor, aquele que tem a terra, o proprietário, que tem terra. É todo um conjunto de áreas acessórias ligadas e interconexas com a agricultura, que permitem um conjunto de jovens, muitas vezes sem licenciaturas agrícolas ou na área agroalimentar, mas que possam aportar valor. Hoje temos essencialmente aqueles que são os agricultores, gestores da terra, são aqueles que efetivamente têm já negócios familiares e trazem algum background nessa área da família, mas temos, e com o decorrer de todos estes eventos, muitas vezes conjunturais, que têm acontecido no mundo, eu lembro do Covid, que obrigou muitas pessoas a irem para o mundo rural, também despoletou a curiosidade e o interesse e, acima de tudo, perceberam que existe uma oportunidade de vida. O mundo rural é uma oportunidade de vida para muitas pessoas e para muitos jovens que querem criar família, que querem ambientes com muito menor pressão que aquilo que é os movimentos urbanos, que é as zonas urbanas. E isto trouxe uma nova realidade a Portugal. Felizmente, dentro do mal todo que aconteceu, trouxe uma oportunidade não só para jovens que nunca tinham pensado que investir no setor rural era uma oportunidade, mas trouxe também uma oportunidade para rejuvenescermos este tecido, que é importantíssimo hoje em dia. Eu penso que para além daqueles, nós estamos a crescer muito com um conjunto de gerações que consideram que viver fora dos grandes centros urbanos é importante e essa importância traduz-se exatamente naquilo que é a criação de valor, e a criação de valor, muitas vezes ou na maior parte das vezes, são áreas agroalimentares.
E trazer sempre novas ideias. É também importante falar sobre o fato de muitas vezes começar do zero na agricultura pode ser algo assustador e muito caro para um jovem. É preciso terra, maquinaria, tecnologia, hoje mais do que nunca. E é aqui que entra o papel da Confagri, que quer no fundo também ajudar jovens que possam se querer lançar nesse sentido. Como é que é o vosso papel também nessa gestão e na ajuda para colocar, por exemplo, um produto no mercado? Como é que isso se faz? É muito burocrático ou é mais simples do que se pode pensar?
Em primeiro lugar, há aqui uma questão, que é uma questão do real. O setor agroalimentar é um setor que tem que ser visto de uma forma diferente dos outros setores, até porque é um setor, como eu costumo dizer muitas vezes, insubstituível. Não há alimentação, podemos ter todos os outros setores da economia ou da parte social, da parte mental a funcionar, mas não temos ninguém para os fazer porque a fome não permite que ninguém trabalhe. Isto é um setor insubstituível. Depois, é um setor que é muito volátil. E é volátil por quê? Porque está sujeito a um conjunto de externalidades que muitas vezes condicionam a sua produção. Se chover durante seis meses, vai ter um enorme problema naquilo que é a produção agrícola. Se fizer sol seis meses, vai ter um enorme problema. No setor, por exemplo, da produção de software, por eles é igual, desde que tenham um teto, sejam dentro de uma casa, pode chover ou fazer sol durante seis meses, não importa, estão sempre a produzir software.
Não influencia de forma direta.
Aliás, até vão produzir software para colmatar os problemas. Mas na agricultura não é isto. Estamos sujeitos a um conjunto de volatilidades e de externalidades que condicionam a produção. Para isso é que também há uma atenção especial das políticas públicas para com a agricultura, porque não afeta só o rendimento do agricultor, afeta o consumidor. Se seis meses não produzimos, as pessoas vão passar fome, porque não existe comida. Isso é muito importante que tenham a noção. Por isso é que as políticas públicas tendem a apoiar aquilo que é a produção agrícola. A produção agrícola traduz-se em melhores preços, mais justos, melhor qualidade naquilo que são os alimentos para os consumidores. E este é o ponto de partida. O ponto seguinte é: como é que nós, nas cooperativas, podemos ajudar. Esse é um dos pontos fundamentais que tem que ser dado passo em Portugal. É colmatarmos este déficit estrutural, que é do associativismo em Portugal, para uma maior capacidade que as pessoas tenham de se juntarem, de perceber que juntas vão mais longe. Nós temos grande parte dos países da Europa, aqueles que são mais competitivos agroalimentares, têm um grande rácio de associativismo. Eu dou-lhe exemplo, se formos ver a Holanda, cerca de 70% da sua produção rural passa por cooperativas. Se formos à Noruega, ainda mais. Se formos a Espanha e França, anda à volta entre os 50%, 55%. Portugal está muito metade disso.
É um caminho que ainda tem que ser feito nesse sentido.
É um caminho que tem que ser feito. E temos que perceber, para ser mais competitivos, temos que estar mais juntos. As cooperativas traduzem exatamente esse canal de competitividade e de mitigação de custos de produção. Por exemplo, a questão das imagens por satélite. Para qualquer agricultor é um custo que tem e se for só suportado por ele, vai ter que o pagar sozinho. Eu, se tiver uma cooperativa que compre um conjunto de dados, das variáveis das imagens por satélite, ele depois pode disseminar para os seus agricultores todos. Ou seja, o custo, em vez de ser só para um agricultor, são para 2 mil ou 3 mil, aqueles que estiverem associados. A compra de uma máquina agrícola, que muitas vezes é utilizada num período de uma semana ou duas semanas do ano todo. Se conseguimos que uma associação E aqui eu falo de cooperativas, porque é naquilo que eu revejo esse melhor movimento associativo, mas o que estamos a fazer para cooperativas pode ser para uma associação. Se a associação comprar uma máquina embaladora, uma máquina de arrasto, até inclusivamente um drone. Ou seja, ele pode partilhar, a custos mais baixos para os agricultores, a utilização dessas ferramentas de uma forma generalizada. E isto permite ao próprio jovem agricultor, quando vem dizer: "Eu não tenho dinheiro já para investir num drone ou num trator", mas se a cooperativa tiver e que me possa arrendar ou alugar durante um tempo com um preço muito mais baixo, é ótimo. E depois tem outra coisa, que as cooperativas têm, é que efetivamente recebem todo o produto dos seus associados. Ou seja, nos anos menos bons, é obrigação da cooperativa receber isso. Portanto, o jovem agricultor que queira se instalar e se se associar a uma cooperativa, tem praticamente a garantia que pelo menos vai escoar o seu produto ao fim do ano. Pode ser, se calhar, não aos preços que conseguiria negociar sozinho, mas hoje em dia é difícil negociar sozinho, mas pelo menos vai ter algum retorno. E, portanto, hoje em dia, estarmos juntos, e isto não é só na agricultura, é em tudo na vida, e não só em cooperativas, estarmos juntos tem muito mais valor e traz muito maior recompensa do que estarmos sozinhos. E penso que é algo que nós, nos países da Europa do Sul, temos que ter mais consciência. Espanha, Itália, inclusivamente a Grécia, já estão a fazer esse caminho. Portugal tem que fazer esse caminho. E portanto, temos que perceber que não é dividindo algum daquilo que é o valor que vamos de venda, não é dividindo uma ferramenta, não é dividindo qualquer nova prática e melhor prática, que nos vai diminuir. Pelo contrário, vai nos fazer mais fortes.
É quase como uma ideia de comunidade, não é?
Exatamente, é uma comunidade. E isto não tira qualquer valor ao jovem agricultor, não lhe retira qualquer capacidade de investimento, não lhe tira qualquer capacidade de ter a sua propriedade e de ser um agricultor a nível individual. É um conjunto de oportunidades de poder estar mais sustentado e estar mais suportado naquilo que é a sua vida futura. Por isso é que nós cada vez vemos mais nascerem associações de moradores. Porque é isso mesmo. Juntos temos mais voz, juntos temos mais capacidade de reivindicação, juntos conseguimos comprar produtos mais baratos, juntos conseguimos vender melhor, até negociar. Conseguimos negociar, porque estamos a negociar uma tonelada de batatas é diferente de estar a negociar 1000 toneladas.
É esse o mote.
É esse o mote.
Nuno Serra, para fechar, e acredito que já tenha falado com muitos jovens ao longo deste tempo, até porque a agricultura está a sofrer aqui uma grande revolução. Falamos de várias áreas, informática, biologia também. Se tivesse um jovem agora à sua frente indeciso quanto ao futuro e se o quisesse trazer para o seu lado, vamos supor nestes termos, o que é que lhe diria?
Em primeiro lugar, diria que a agricultura, como eu já disse anteriormente, é uma forma de realização de um jovem, seja ele informático, biólogo ou mecânico. Todos se podem realizar dentro do setor agroalimentar, porque há espaço para todos. E hoje é um setor que está altamente em crescimento. E a coisa importante é, muitas vezes, nós dizemos que há falta de estabilidade no setor agrícola, por todas aquelas questões mais conjunturais que eu acabei de falar. Mas há uma coisa que os jovens têm que pensar, que é aquilo que eu disse, é um setor insubstituível. O setor agroalimentar nunca vai acabar. E tem duas maneiras de pensar. Tem uma maneira de pensar muito mais competitiva para aqueles que querem ser mais competitivos e que se querem realizar profissionalmente, e que pode ser um informático que tem que ajudar o agricultor a analisar dados, um mecânico que tem que ajudar o agricultor a mexer nas inúmeras máquinas que utilizam, ou mesmo um biólogo que tem que olhar para a perspetiva da produção sustentável, numa forma de manutenção dos recursos futuros e ajudar o agricultor. Portanto, há lugar para todos. Mas acima de tudo, há algo que tem que fazer, que é: hoje, amanhã, daqui a 100 anos, daqui a 200 anos, vamos continuar a precisar de comer. E, portanto, é um setor que dá garantias para aqueles que têm uma visão mais filantrópica da coisa, que pensam mais naquilo que é sustentável. É aqui onde eu quero estar. Eu quero garantir um futuro às futuras gerações. É na agricultura, não é em mais lado nenhum. E o outro, que quer ganhar mais dinheiro, quer ter uma vida mais competitiva, hoje em dia o mercado da agricultura é um mercado global e aberto, onde podemos mudar de empresas, onde podemos estar quer numa multinacional, quer numa cooperativa mais nacional. Portanto, há um espaço enorme para que um jovem hoje, seja na área onde for, se sinta realizado dentro do setor agroalimentar, mas acima de tudo, possa crescer durante a sua vida, sempre ligado àquilo que, qual seja a natureza do seu objetivo futuro, possa ter. Pode ser mais ou menos rico, a agricultura engloba tudo, coisa que grande parte dos setores não conseguem ter essa abrangência. Portanto, hoje em dia, há lugares para todos na agricultura e são todos muito bem-vindos, porque são todos muito acarinhados e é essencial. Se queremos futuro em qualquer país, o futuro passa pela alimentação e, portanto, temos que ter mais jovens a pensar nisso.
É um setor estável e que dá aqui grandes oportunidades e, se calhar, para um jovem que nos esteja a ouvir, e se pensar na agricultura como plano B, com estas razões e indicações dadas aqui pelo Nuno, se calhar vai pensar duas vezes. Se calhar até passa para plano A. Veremos.
Espero que não pense duas vezes, pense só uma e venha.
Exato. Nuno Serra, secretário-geral da Confagri. Muito obrigado por ter estado aqui no "Lado B da Terra", que é sempre em parceria com a B Rural e também que pode ouvir todas as semanas aqui na Rádio Observador. Este episódio fica por aqui, mas se conhece algum jovem fascinado por tecnologia e que queira ter um impacto real no planeta, como falava aqui o Nuno, pode partilhar este episódio. O campo está a recrutar as mentes mais brilhantes para transformar este setor. Eu sou o João Costa e Silva, siga este podcast no site da Rádio Observador, nas plataformas habituais e acompanhe ainda todas as novidades do projeto B Rural. Até à próxima semana. Mais uma vez, muito obrigado, Nuno. Um abraço.
Muito obrigado.