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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.

92ª edição vai ter lugar de 9 para 10 de fevereiro. Conosco em estúdio está o Tiago Pereira, editor de cultura do Observador, também o Gonçalo Correia. Ao telefone, temos o crítico de cinema Eurico de Barros. Muito bem-vindos à Rádio Observador. Há aqui alguma surpresa, Tiago, que possamos identificar nestes nomeados ou andamos mais ou menos pelo que era expectável?

Eu diria que o facto de o "Joker" ter conseguido mais nomeações que todos os outros, não é totalmente surpreendente. Há sempre alguém que tem que sair na frente, calhou ao Joker. Talvez se esperasse que esse lugar fosse mais para o "Marriage Story", ou o irlandês, ou o filme do Quentin Tarantino, ou até o "1917", que ganhou o Globo de Ouro para melhor filme, mas acabou no Joker, que conseguiu 11 nomeações. É talvez um pouco mais surpreendente, porque o filme, quando saiu, as críticas não foram unânimes. A prestação do Joaquin Phoenix, que também está nomeado para melhor ator, é unânime, não dá para fugir.

Mas em relação ao filme, o que se sentiu um bocadinho foi que, há aquela expressão, o primeiro estranha-se, depois entranha-se. Com o Joker foi primeiro entranha-se, depois estranha-se, porque as pessoas parece que se foram afastando do filme à medida que se foi falando nas redes sociais. Parece que houve um efeito inverso.

Sim. Do lado americano, houve alguma, talvez polêmica seja uma palavra muito forte, mas houve muita conversa à volta de: este filme é muito violento e é um incentivo à violência. Parece-me algo exagerado. Acho que tem a ver com aquela mania que hoje acontece em relação ao politicamente correto, e a respeitar tudo e todos da melhor maneira possível, que não dá para fazer, se a ideia é fazer cinema honesto e sincero. Por outro lado, havia muitas críticas que diziam que o filme estava demasiado centrado na personagem, na interpretação do Joaquin Phoenix, e que tudo o resto não funcionava tão bem e não criava um filme, um produto filme coeso o suficiente para, por exemplo, ser nomeado para 11 categorias. A verdade é que é o filme que está na frente. Obviamente que são os Oscars, vale o que vale. Não faço ideia se vai ganhar sequer um.

Mas tal como tu dizias num primeiro comentário aqui na rádio, há cerca de duas horas depois de saber das nomeações, estamos fartos de saber que muitas nomeações não significa necessariamente muitos prêmios no final da noite. Há registro de muitos filmes, de muitas edições dos Oscars, e o Gonçalo está ali a levantar o braço para falar sobre isso também.

Está nervoso.

Há registro de muitos casos em que houve filmes com muitas nomeações e chegaram ao final da noite e foram considerados como os vencidos da noite.

Sim, eu ia só dar o exemplo do "La La Land: Melodia de Amor", penso que é assim o título em português, que foi um dos três filmes mais nomeados de sempre dos Oscars. Esteve ao lado do "Titanic" e de um outro filme, o "Eva" de 1950, com 14 nomeações e chega ao fim da noite e não ganha.

E que ganhou o Oscar para melhor filme durante um minuto.

Exato, foi aquele golpe de teatro final.

Mas é engraçado.

Quem subiu ao palco foi o "Moonlight." Mas é engraçado, dizias que o Joker não foi unânime entre a crítica, isso é verdade. Mas bom, o "Green Book", que também já falaste aqui, também não era absolutamente nada unânime entre a crítica.

Fomos o que o Tiago Pereira mais gostou. Não, não é verdade. Já te ouvia criticar esse prêmio, pelo menos.

Várias vezes. Sempre que possível, sempre que ligarem o microfone.

Entretanto, passei também os olhos pela notícia que o New York Times publicou a propósito destas nomeações e um dos grandes destaques volta a ser o olhar para o contingente feminino e para o contingente negro destas nomeações. 68% dos nomeados são homens, 84% são brancos. Esta volta a ser uma questão que já tem sido discutida noutros anos, mas a que o New York Times não foi alheio. Chamamos, por isso, à conversa o Eurico de Barros. Bem-vindo, Eurico, e obrigado por estar em direto com a Rádio Observador. Esta questão continua a colocar-se em alguns meios de comunicação social e alguns setores da sociedade, esta equidade nos nomeados. Tem alguma opinião sobre esta distribuição que continua a ser feita pela Academia de Hollywood?

Sinceramente, não me adivinha nada que o New York Times publique esse tipo de notícias, porque o New York Times é, neste momento, um dos jornais arauto da agenda politicamente correta. Portanto, quer o New York Times, quer o The Guardian, já estão todos ensurrafados com esse tipo de problemas. Pessoalmente, eu acho que isso reflete o não terem havido este ano filmes realizados, interpretados ou com destaque por atores ditos das minorias ou da diversidade. Acho que é tão simples como isso. E são também minoritários na indústria cinematográfica, temos de ver isso também. Portanto, acho que é uma questão também aqui de matemática e de estatística, interada com política.

Eurico, diz-me uma coisa. Se bem me lembro, foste um dos que não ficou assim tão agradado com o Joker. Queria que recordasses aqui um bocadinho da tua opinião, após teres visto o filme e que ficou refletida num texto que nós publicámos.

Eu acho que o Joker é um dos piores filmes do ano e um dos piores da década.

Cá está.

Final. É mesmo miserável.

Já agora, para quem quiser ler o texto, foi publicado no dia 2 de outubro, é intitulado: "Joker: Tenham Pena do Assassino Psicopata." Isso.

Exatamente. Mas não me admira que esteja com 11 nomeações e lidera a lista por duas razões. Primeiro: foi um filme que fez excelente bilheteira e o dinheirinho é muito importante nos Oscars. Segundo: é um filme que agradou a um setor do público muito importante, que é um setor mais novo, um setor que gosta muito de super-heróis, está muito ligado a este mundo de super-heróis. Embora o Joker não seja um filme de super-heróis, é um filme que tem alguma contiguidade com o universo de super-heróis. No fundo, é uma personagem da DC, do universo do Batman, portanto é um filme que tem essa contiguidade com esse mundo e atrai esse tipo de público. E foi um filme que deu muito que falar, não teve crítico nenhum nos Estados Unidos, por exemplo, mas é um filme que junta esses dois fatores importantes. Deu muito dinheiro nas bilheteiras e tem esse público do seu lado. Portanto, não me admira que apareça na lista das nomeações. Mas eu também vejo aqui excelentes filmes, alguns dos meus favoritos do ano, caso do Irishman, caso do Parasitas, caso do Marriage Story, que são, para mim, três dos melhores filmes do ano passado. Há aí também o filme do Tarantino. Portanto, estou muito satisfeito que haja estes filmes.

Em relação ao Parasitas, por exemplo, foi um dos filmes mais falados dos últimos tempos. O Parasitas está nomeado para melhor filme e também para melhor filme estrangeiro. Este pode ser também uma surpresa na noite dos Oscars.

E para melhor realizador e argumento.

Melhor realizador. Várias nomeações para este filme.

Não sei, mas eu tinha a impressão que o filme tem a chance de levar um ou dois Oscars, nem que seja o melhor filme estrangeiro. É um filme muito bom. Pronto, quero que se saiba, é um filme muito bom. É um dos melhores filmes do ano, para mim. É um grande filme sul-coreano e que mostra a pujança do cinema asiático e o cinema sul-coreano em especial. E eu creio que poderá ter mais que um Oscar. E se assim for, foi extremamente merecido.

Exatamente. Há uma coisa curiosa. Falava-se um bocadinho da questão dessas minorias. Eu estava-me aqui a lembrar que quando Moonlight ganhou o Oscar de melhor filme, houve muita conversa, precisamente na imprensa e tudo mais, sobre agora tudo ia mudar, porque o júri da Academia estava mais diverso, quer dizer, no gênero, na idade, na cor de pele. Portanto, a partir dali, parecia que vinha aí um admirável mundo novo, em que todos os anos haveria igualidade. E, de facto, se calhar, o que isto prova é que talvez, não sei, talvez o acesso e a capacidade de chegar a um estatuto em Hollywood e chegar à capacidade de fazer filmes da dimensão de um Quentin Tarantino, ou de um Sam Mendes, ou de um Martin Scorsese, que têm muitos anos com grande reconhecimento em Hollywood e com grandes filmes e grande importância na história do cinema e na história de Hollywood. Isso não se consegue por decreto, ou muito rapidamente, ou só mudando a composição dos jurados.

Claro que não. Nos últimos dois anos, eu até cheguei a ver filmes, por exemplo, como o de Jordan Peele, como o Moonlight e como outros. Foi uma coincidência de produção eles existirem. Este ano, isso não acontece. Portanto, também é natural que isso não seja refletido nos Oscars. Não podemos pôr à martelo nos Oscars filmes feitos das minorias, só porque alguém decreta que deve haver filmes deles. Aquilo que caracteriza o filme tem de ser a qualidade e o mérito.

Ainda não há cotas nestes prêmios. Tiago, queria também olhar contigo.

Esperemos bem que não haja nunca.

Exato. Tiago, queria também olhar contigo duas questões. Martin Scorsese torna-se num dos mais nomeados de sempre, pelo menos o realizador vivo com mais nomeações, nona para melhor realizador. Ainda lhe faltam três para chegar a William Wyler, de Ben-Hur, que conseguiu 12 nomeações para melhor realizador. Mas isto por Irishman, que é um produto Netflix. Já foi questão nos Globos de Ouro, como é que a Netflix também se porta nestas nomeações agora reveladas para os Oscars. Há um aumento.

A Netflix porta-se muito bem. O facto de o Joker ter mais nomeações que os outros. Para já, só tem mais uma. O Irishman tem 10 nomeações, o Marriage Story tem seis. Mas depois, o filme Dois Papas tem várias nomeações.

Estão nomeados os dois atores.

Os dois atores estão nomeados, o argumento também. Tem dois documentários na corrida para melhor documentário, Democracia em Vertigem, o documentário brasileiro sobre os últimos acontecimentos na política brasileira.

Que está no Netflix.

Está. E o American Factory, que também está na Netflix.

Que é aquela história sobre uma empresa chinesa que ocupou o lugar da antiga General Motors nos Estados Unidos.

Exatamente. Além disso.

Aliás, há uma coisa curiosa.

Diz.

Se posso dizer, eu já vi o American Factory. Não é um grande filme, mas tem um grande trunfo, que é o primeiro filme produzido pelo casal Obama, portanto, se não estivesse na lista, é que eu me admirava.

Exato. Cá está a questão da política também.

Exatamente.

E depois o Klaus, um filme de animação, que está nomeado nessa categoria.

E que tem portugueses na equipa.

Exato, tem. A Netflix conseguiu, no total, 24 nomeações. Tinha conseguido 15 nos Oscars do ano passado e está presente em todas as principais categorias. Portanto, as nomeações mostram aquilo que podemos ver agora. A questão é, quando saírem de facto os resultados dos Oscars, até que ponto a Netflix Parece-me a mim que, em parte, já sai vencedora. Por conseguir ter tantas nomeações com filmes em categorias diferentes e em todas as principais categorias. Vamos ver nos resultados se, de facto, vai sair vencedora e vai dar a volta. Certamente vai continuar a questão de Netflix, ver filmes em casa, salas de cinema, etc.

Continua a falar-se muito do modelo de negócio da Netflix. Não sei se os Oscars poderão ser o impulso para que finalmente a plataforma tenha lucro ou se o objetivo deles nem sequer é esse.

Não sei. A gastar dinheiro como gastam a fazer filmes como o "Irishman", não sei quando é que vão fazer lucro.

É um prejuízo de milhões e milhões que nunca mais acaba.

Não sei. Isso é tudo uma questão de posicionamento e de atitude. Eu acredito que eles tenham pessoas que sabem fazer contas, mas não sei bem quando é que o retorno vai aparecer. Tenho algumas dúvidas.

Há aqui só uma surpresa, que há pouco não falámos, mas eu acho que é consensualmente ou quase unanimemente uma surpresa destas nomeações, que é um filme chamado "Jojo Rabbit", que entra, em termos de número de nomeações, logo naquele segundo comboio. Quer dizer, depois do "Joker" com 11, do "Era uma Vez em Hollywood", do "O Irlandês" e do "1917" com 10. Há depois uma série de filmes com seis nomeações, entre os quais o "Parasitas", e aparece este "Jojo Rabbit", que ninguém estava muito à espera.

Eurico, tu viste o "Jojo Rabbit"?

Não, não vi ainda o "Jojo Rabbit", mas tenho a impressão que o filme é uma comédia, aquelas comédias acauteladoras.

Exatamente.

Uma comédia que apresenta Adolf Hitler sob uma luz aparentemente simpática e leve, mas não é. Tenho a impressão que é o filme mais político que está aí nesse grupo. O que é curioso. Mas olha, ainda falando sobre a questão Netflix. Duas coisas: um filme que eu estava à espera de ver aqui, que não tem nada, é o "Uncut Gems", do Safdie, que é um filme muito bom. Parece um filme de Scorsese dos anos 70. E é curioso não estar aqui.

Em nenhuma categoria.

Em nenhuma. Não sei se foi por ser testeado muito tarde, mas é um filme, como eu digo, o melhor elogio que lhe posso fazer é que é um filme que parece um filme do Scorsese dos anos 70, naquela fase "Taxi Driver", "Cavaleiros do Asfalto". Segunda coisa, os Globos de Ouro, que valem o que valem, a Netflix levou uma tareia no cinema e uma tareia da HBO na televisão. Portanto, também não esquecer isso.

Exato.

Mas como tu dizes, já é importante ter esta presença tão forte e tão assertiva em termos de nomeações.

Exato.

Mas vamos lá ver como é que é o resultado. Mas as coisas não correram bem à Netflix nos Globos de Ouro.

Muito bem, Eurico de Barros, Tiago Pereira e Gonçalo Correia, muito obrigado por terem vindo esta tarde em direto olhar aqui estas nomeações para os Oscars, que foram hoje conhecidas neste "Lado Bom da Vida" especial, nesta tarde de segunda-feira. Já daqui a pouco vamos ter o Jornal Observador. Começa às 18h com o João Alexandre.