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Portanto, pergunta o que é que eu senti quando fecharam a porta da cela. O correr do ferrolho da porta de ferro fez-me estremecer e, nesse instante, senti aquilo que um morto possivelmente sentiria se pudesse ter consciência da realidade no momento em que o dessem à sepultura.
O homem na cela sete escapou à morte por pouco. Quando a porta se fecha, não tenta conter as lágrimas. Tem cortes profundos nas costas e o crânio rachado por golpes de katana. Através das grades, no cimo da parede que dá para o exterior, chega-lhe um cheiro nauseabundo. E entra também uma nesga de luz que lhe permite ver a cela minúscula, que atravessa com apenas dois passos para um lado e quatro para o outro. Guiné Conakry, junho de 1963. Passaram 60 anos. Há sensações e memórias que já são difusas. É impossível lembrar-se de tudo. Mas ao reler o que escreveu para que aquele dia nunca caísse no esquecimento, é como se António Lobato vivesse tudo de novo.
Logo a seguir, veio o cair da noite, que me deixou a sós, frente a frente com outro, no qual não me reconheci. Foi exatamente isto. Outra pessoa. Não sou eu que estou aqui. E entra bem a questão: quem era então aquele maltrapalho, sem terra, sem família, sem ninguém?
Esta é uma história de guerra e de amor. De como um homem, sozinho mas sem quebrar, consegue aguentar mais de sete anos numa prisão com condições miseráveis e onde quase todos os dias morria alguém. É a história de António Lobato, o prisioneiro de guerra português que mais tempo passou em cativeiro durante a Guerra de África. E é também a história da operação secreta para o resgatar de uma prisão do PAIGC, em plena ditadura do Estado Novo. Uma operação que o regime da altura negou sempre e nunca reconheceu. Este é o "Sargento na Cela 7", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast+ do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de Noiserv.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast+ do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Episódio um, O Prisioneiro. A história podia ter sido diferente. Bastava que António Lobato sempre tivesse feito o que os outros queriam. Se fosse assim, talvez nem estivesse agora preso. Mas ele sempre foi rebelde. Até mesmo antes de sair de casa dos pais, na pequena aldeia de Sancte, e de se mudar sozinho para Braga, com apenas 10 anos, para fazer o liceu. É por essa altura que começa a olhar para o céu e a apaixonar-se pelos aviões, com as pequenas réplicas do aeromodelismo. Estamos nos anos 50. A Força Aérea foi fundada há pouco tempo. Quando chega aos 19 anos e ouve dizer que vão abrir testes em Lisboa para o curso de piloto, António Lobato não se dá sequer ao trabalho de dizer nada a ninguém. Para quê? Já sabe que vão gritar, dizer-lhe que é um disparate. Nunca lhe vão dar autorização. Arranca de Braga, deixa o liceu por acabar e passa um mês a fazer testes. São mais de 100 candidatos. No final, vão ficar pouco mais de 30. Ele é um dos escolhidos. Mas o papel que lhe entregam e que lê com orgulho, apto para todo o serviço, pode não lhe valer nada. Naquela altura, quem tem 19 anos ainda não é maior de idade e só acontece aos 21. Pode ter todos os sonhos do mundo, mas sem autorização dos pais, nunca poderá voar.
Os aviões, nessa altura, para a maior parte do país, era uma coisa do outro mundo, uma coisa desconhecida, como deve calcular. Até o comboio, para muita gente, lá para trás dos montes, era normal. E quando chegou a altura de voltar para Braga, ele disse: "Não. Não vou para Braga nem para lado nenhum, querem é que me assinem um papel." É claro, fizeram tudo para não assinar. Mas meu pai era mais aberto nessas coisas e perguntou: "É isso que queres? Tudo bem, eu assino". A minha mãe pensou duas vezes, caíram-lhe as lágrimas pela cara abaixo e disse: "Meu filho, eu sei que vou assinar a tua morte, mas é isso que queres, eu assino".
Como a realidade viria mais tarde a mostrar, a mãe de António Lobato tinha motivos para ter receio. Eram os finais dos anos 50. Não havia nada mais extraordinário do que ser piloto aviador. Quase não existiam regras. Lá em cima, valia tudo para fazer disparar os níveis de adrenalina. E isso, às vezes, tinha consequências trágicas. A voz que vai ouvir a conversar com António Lobato é da jornalista Tânia Pereirinha.
A maior parte dos colegas de curso morreram a voar sozinhos, na brincadeira. Vários. Não foi nem dois, nem três. Nós acabámos o curso, se não estou em erro, 12, daqueles todos. Dos tais 30, não é? Dos tais 30 e tal, acabamos o curso 12. A maior parte deles morreu.
Só 12 acabaram o curso. Eram rapazes de 20 e poucos anos com aviões nas mãos. A morte era a última coisa em que pensavam. Muitos morreram em acidentes provocados pela inconsciência da idade e a vontade de impressionar as namoradas.
Um colega meu que morreu, porque veio com um T6 sobrevoar o Liceu da Parede, onde estava a namorada. Destelhou o liceu todo, o motor foi cair no quintal de uma velhinha, não a matou, por sorte, e ele apareceu ao hospital todo esburacado de ferros e morreu. Mesmo se não fosse para a namorada, era outra coisa qualquer, só pelo prazer de vir cá para baixo, por exemplo, para o mar, levantar ondas com o ele e o seu avião, que o avião assim voava. Brincadeira de canalha, perfeita, mas era assim, havia quase liberdade para isso tudo. Não havia restrições, chamava-se andar à vontade.
Para o prisioneiro António Lobato, a morte não era uma novidade. E não apenas por ter convivido de perto com ela durante o treino de piloto. Fechado na sua cela minúscula, pensa agora na estranha coincidência daquele dia, 22 de maio. Quantas vezes pode um raio cair exatamente no mesmo sítio? Como pode alguém praticamente regressar dos mortos, não uma, mas duas vezes durante a vida? Sofrer dois acidentes graves de avião, precisamente no mesmo dia, com poucos anos de diferença? A primeira vez que Lobato quase morreu foi a 22 de maio de 1958, na Base Aérea de Sintra. Era suposto ser um simples voo de teste de um novo avião que os franceses queriam vender a Portugal, mas acabou em desastre, por causa de uma distração dos dois pilotos.
Na aproximação para aterrar, os lugares dos pilotos eram lado a lado. Ele vinha a dar os últimos conselhos porque eu seguiria voar sozinho no avião. E entretanto, olharam para o outro a conversar, quer dizer, foi a andar depressa e fomos para o chão dentro. O chão era antes da pista, é um campo que ainda lá está. Tinha uma vala, o trem de aterragem entrou na vala, ficou para trás, o avião foi rodopiar e chegou a ir neste pista a arder. E nós fizemos precisamente o que havia a fazer, saltar fora do avião, eu para o meu lado, ele para o lado dele, deitámo-nos no chão com medo que aquilo explodisse, mas a arder.
Por incrível que possa parecer, há ali uma estrada que atravessa a pista. É preciso cortar o trânsito para que os aviões possam aterrar. Lobato está em chamas. É um carro civil que para e o leva até à enfermaria da base.
Fiquei para três meses no hospital. Todo queimado. Aliás, estão as mãos queimadas, nota-se. Aqui, orelha queimada. Os meus pais vieram à base falar com o comandante, que não me lembro de ele, dizer que eu era filho único, não podia continuar. Chamou-me, disse: "Olha, vais-te embora, porque os teus pais vieram cá". Eu: "Não vou, não". E não fui. Não tinha que ir.
Poder-se-ia pensar que alguém que sobreviveu a um desastre de avião nunca mais quereria voltar a voar. Mas assim que tem alta, a primeira coisa que faz é meter-se novamente dentro de um cockpit. Menos de um ano depois, em junho de 1959, António tem finalmente o brevê. É logo nomeado instrutor de voo e é com esse estatuto que se instala em Aveiro, na base de São Jacinto, entre a ria e o mar. Aos 21 anos, tem tudo aquilo que quer.
Eu tinha um carro que o meu pai me tinha oferecido por eu ter ido para Aveiro, porque ele tinha me dito: "Se vieres para Aveiro, eu ofereço-te um automóvel". E ele apareceu-me lá um dia com o carro, um Zephyr 6.
António Lobato tem a mesma idade dos alunos que vai ensinar a voar. Se pudesse escolher, teria ido para a OTA ser piloto de caças. Mas já que recebeu ordens para assentar ali, decide que vai aproveitar o tempo da melhor maneira. E para além de trabalhar, diverte-se O carro, na verdade, não vai durar muito tempo, mas esse é um acaso que vai revelar-se essencial para esta história. Décadas mais tarde, António Lobato vai continuar a referir-se àquela noite fatídica como a noite dos dois acidentes. Mas só uma das coisas inesperadas que lhe acontecem é realmente um azar.
Com mais dois colegas meus, ali em Aveiro, resolvemos ir aos bailes de Carnaval. A brasa, sabíamos que era aquilo. Ali por volta de Estarreja, à noite, havia montes paralelos na estrada, que eram quase todas de paralelo. O carro foi por cima de um monte daqueles, furou o depósito, só depois é que eu vi que furou o depósito. Não se via, era no meio do pinhal, peguei no isqueiro, fui ver se passava alguma coisa por baixo. Incendiou-se o carro todo. Pronto, eu ardeu.
Deixaram o carro carbonizado à beira da estrada, meteram-se num táxi e voltaram para Aveiro.
Em Aveiro, percebemos que havia um baile, fomos para o baile, que era um baile de finalistas do Magistério Primário. Quer dizer, foi uma emenda, nós não fomos para lá, tínhamos de ir a algum lado. E fomos para o baile. Foi aí que eu conheci a minha mulher. Foram dois acidentes na mesma noite.
Eu tinha feito 18 anos, estava no último ano de curso e nunca tinha ido a um baile, porque a minha mãe nunca me tinha deixado ir a um baile. Era o tempo do rock and roll, do Elvis Presley, então a gente falava, mas eu nunca fui a um baile. Portanto, o primeiro baile na minha vida foi esse, em que a minha colega convenceu a minha mãe, a mãe dela e ela, e vieram as duas connosco. Nem pensar ir ao baile sozinha.
Como era costume nos bailes da altura, as meninas iam para o baile acompanhadas da mãe ou da avó, sentavam-se à volta e a gente olhava e diziam: "Dança." Elas diziam: "Rodava um tempo e não dançava?" Eu dizia: "Sim, senhora."
Primeiro veio buscar-me um rapaz que não me esqueço, ele morreu depois de desastre de avião. Era também piloto aviador, era o Hélio. E entretanto, a seguir, veio o António buscar-me para dançar. Era costume convidar as senhoras a dançar e depois levá-las ao lugar. Estava lá a minha mãe e ele ficou ao lado, de pé. Na próxima dança, tornou-me a convidar. E na terceira, e na quarta, e na quinta. Essas quatro ou cinco danças que dançamos seguidamente, não dancei com mais ninguém. Ele perguntou-me o nome, perguntou o que eu fazia em Aveiro, onde é que eu vivia. Enfim, conversámos.
Pois eu fui lá várias vezes para dançar e depois a mãe entendeu que já era tempo a mais, pegou na outra: "Vamos embora."
A minha mãe levanta-se e diz: "O baile acabou. Uma menina quando vai ao baile tem que dançar com diferentes cavalheiros, não é sempre com o mesmo." E viemos embora.
No silêncio da prisão na Guiné-Conakry, é nela que agora pensa. Na promessa que lhe fez naquela última noite que passaram juntos antes de um mundo inteiro desabar. Será que ela recebeu o bilhete em que ele lhe dizia que afinal ainda estava vivo? Provavelmente não. O mais certo é que por essa altura, ela o julgasse morto. Haveria sequer alguma hipótese de sair daquela cela com vida, de algum dia voltar a voar. António Lobato não é um prisioneiro de delito comum. É um prisioneiro de guerra. Mesmo assim, não lhe passa pela cabeça que Portugal possa invadir um país estrangeiro para o resgatar. Por agora, preso na cela número sete, acha que só depende de si mesmo. E durante muito tempo vai ser assim. Por impensável que possa parecer, essa operação vai realmente acontecer uns anos mais tarde, mas será tão secreta que dentro do próprio governo português, quase ninguém terá conhecimento dela. E só será aprovada no limite, no último momento, por Marcelo Caetano, o homem que irá suceder a Salazar. Na primavera de 1961, dois anos antes daquele silêncio opressor de prisão, todos os dias bem cedo, António faz o que faria qualquer rapaz apaixonado com o avião nas mãos e liberdade a mais. Maria dos Anjos é cinco anos mais nova e ainda está a estudar. Apanha o comboio em Espinho para ir pra escola em Aveiro. Para a impressionar, António transgride todas as regras, mas até acaba a receber um louvor do comandante da base, que o dá como exemplo de trabalhador dedicado e madrugador. Ninguém chega à base mais cedo do que ele. O comandante só não sonha por quê.
Por quê? Porque o comboio saía de Espinho às 8h, e eu antes de começar a dar a lição ao aluno, pegava o avião, ia ter com o comboio e vinha ao lado do comboio. Uma vez, outra, e outras pessoas acabaram se apercebendo. Depois os colegas olhavam pra ele, que era por causa daquela que o avião vinha.
Às vezes, o avião dele passa por cima do comboio e torna a fazer, e toda a gente no comboio fica algossada, até quando o comboio para, muitos saem do comboio pra ver o rabião passar por cima disso tudo.
Quando as aulas acabam, percorrem juntos a avenida até a estação. Ele, ela e as duas amigas de quem nunca se separa, a Salete e a Odete. Mas não são namorados. É isso que ela há de garantir ao pai, avisado por um informador da PIDE, a polícia política, dos passeios da filha com um homem muito leviano pelas ruas de Aveiro. A única coisa que fazem é conversar. Nunca estiveram sequer sozinhos os dois. E mesmo que assim não fosse, ainda havia outro problema, bem maior, como ele viria a descobrir no dia em que finalmente ganha coragem para a pedir em namoro.
E aí, vão ficar de boca aberta. Eu disse: "Não posso. Eu não posso namorar. Eu estou prometida em casamento desde os 15 anos". E era verdade. Meu pai e minha mãe tinham me prometido em casamento a um senhor mais velho que eu 20 anos. Ele no mês seguinte, o António, em junho, ofereceu-se para ir pra Guiné, porque já estávamos na guerra colonial. Ele não tinha sido ainda convocado, mas com outros gostos, talvez. Ele ofereceu-se e foi pra Guiné, e foi pra guerra.
Março de 1961. Agentes terroristas infiltrando-se em território português, atacavam de surpresa as populações indefesas, brancos, negros e mestiços, preocupadas apenas até então com a sua vida de trabalho.
Em 1961, apesar das críticas e pressões da comunidade internacional, Portugal continua a não abrir mão dos territórios que administra em África: Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé. Bernardo Funchal Pereira é diplomata e autor de vários livros sobre o período do Estado Novo. Explica que quando António Lobato chega a Bissau, a guerra ainda está a um ano e meio de começar oficialmente na Guiné.
Em 61, a guerra começa com um massacre em Angola. E isso, penso que os outros movimentos de libertação depois não quiseram repetir. E consideraram que antes de iniciar as hostilidades militares, era preciso todo um processo de preparação política das populações. E depois, certa altura, passa-se à ação armada, na Guiné em 1963 e em Moçambique em 64.
Estamos a 26 de julho de 1961. Ao contrário do que os pais pensam no sossego da aldeia, o rebelde António Lobato não está em Aveiro a dar instrução de voo. A única pessoa a quem revelou que se tinha dado como voluntário pra Guiné foi Maria dos Anjos. Mais ninguém. Foi pra ela, durante a viagem de 11 horas de avião até Bissau, que escreveu a maior carta de amor da sua vida com 22 páginas. Bem podia ser um amor condenado à partida, mas ele não ia desistir. Nos meses seguintes, nunca deixaram de se escrever. A milhares de quilômetros de distância, Maria dos Anjos conhece Bissau através das descrições de Lobato, um dos dois primeiros pilotos da Força Aérea Portuguesa naquele território. Soares, que conheceu durante a viagem, era o outro.
Primeiro embate na cidade. Entra ali acima, primeiro percurso no primeiro dia, e começa a ver as meninas, uma tanguinha e tronco nu. Nunca mais me esqueci disso. Eu lembro perfeitamente desta cena. Estamos a chegar perto do palácio, que é a última parte da avenida. "Branco, dá um peso e a papa mama." "Dá um peso", um peso era um escudo, "e a papa mama", quer dizer, estava habituado. Papa mama e dava-lhe um escudo. Na altura, aqui era o último conservador.
As meninas vão ao baile com as mães ou com as avós.
Pra ver o tornozelo da menina era um caso sério. Mas lá era o contrário.
Ali é tudo diferente. Em Bissau, até as garrafas de cerveja são maiores, do tamanho das de vinho Nas esplanadas dos dois grandes cafés da cidade, o Império e o Portugal, Lobato e Soares bebem cerveja americana Beck's, que lhes chega à mesa com um prato de camarão a acompanhar, em vez de tramossos. E esperam, sem saber muito bem o que esperar.
Porque nós fomos para a Guiné, não havia nada na Guiné, a Força Aérea não tinha nada, tinha lá uma pessoa. Vamos para lá para começar a guerra, porque tinha começado a guerra e nós vamos para lá.
Não tinha aviões.
Não havia aviões, não havia nada, nem base, nem coisa nenhuma. As coisas eram feitas assim um bocado no joelho. Estão a começar a mandar gente para a Guiné. Pronto, vai.
A guerra ainda não foi declarada oficialmente, mas há o receio de que a população branca seja atacada, como aconteceu em Angola. Logo no verão de 1961, quem vive nas zonas rurais da Guiné começa a debandada rumo a Bissau, na esperança de conseguir arranjar lugar num avião para longe dali. Na capital, quem pode também está a tratar de fugir. O aeroporto está um caos. Lobato e Soares são enviados para lá para controlar as entradas dos passageiros que hão de embarcar nos aviões da Força Aérea, com destino a Lisboa. E de pilotos, passam a guardas alfandegários. Os dias passam na nova azáfama do piloto forçado a estar em terra. Mas António não consegue esquecer Maria dos Anjos. Apesar de saber que aquele amor é impossível e que ela está há muito prometida a outro homem. Ao contrário dele, Maria dos Anjos nunca foi rebelde. Foi para o curso de professora por vontade da mãe, apesar de sempre ter sonhado estudar artes. E está prestes a casar com um homem 20 anos mais velho, por ordem do pai, que não alarga em nenhum momento.
Eu ia de comboio, o meu pai levava-me pela mão.
Com 18 anos?
Com 18, exatamente. Tratava-me como se fosse-- aliás, eu tinha a alcunha na escola e durante toda a época, a Paxá número dois. Havia uma que era a Paxá número um e eu era a Paxá número dois.
Ela já tinha recebido muitas cartas do homem mais velho com quem deveria casar, mas na verdade, nunca lhe tinha escrito uma única linha. Era o pai que abria as cartas e respondia. Maria dos Anjos só tinha de copiar as frases com a sua letra e rabiscar a morada e o destinatário no envelope. Mas com António, tudo é diferente.
O que é certo é que depois, através da escrita, já não era o meu pai que abria as cartas, nem era o meu pai que respondia, era eu. E através das cartas, este sentimento de amor cresceu. E nasceu mesmo. E fiquei mesmo ligada.
Pela primeira vez, a menina bem-comportada ganha coragem e faz a única coisa que nunca tinha conseguido fazer durante toda a vida: dizer não. Não, não vai fazer a vontade ao pai. E não, não vai casar com aquele homem 20 anos mais velho, por quem não sente absolutamente nada. Numa das cartas que escreve a Maria dos Anjos, António Lobato conta-lhe como a chegada do primeiro caça à Guiné, um avião T6, foi um verdadeiro acontecimento. Veio às peças e teve que ser montado em Bissau como se fosse um puzzle. Dois meses depois de chegar à Guiné, o sargento Lobato pode voltar a voar.
Não havia mapas da Guiné, mapas coloridos. Havia um mapa em branco, parecia uma banda desenhada. E a gente, nos primeiros voos, íamo entreter com o mapa, olhar para os rios e a sinalizar com cor os pontos do mapa, para melhor referenciar.
Ao mesmo tempo, em terra, começam as obras da base de Bissau Lanka, onde meses mais tarde vão chegar mais pilotos e oficiais vindos de Portugal.
Fez-se a base, desmatou-se a pista toda. Aliás, fartei-me de matar cobras, surucucus, porque andavam os caterpillars, os tratores a cortar o capim à volta da pista, e surucucus assim em lama e a gente com uma Walther a matar surucucus, a tentar acertar nos surucucus. Aquilo é uma terra de cobras como nunca vi. Cobras aos milhares.
Até ao fim desse ano de 1961, a Força Aérea vai instalar-se em Bissau para ficar. Depois de seis meses sem ninguém a quem reportar, os pilotos têm finalmente ordens para cumprir. As coisas começam a ficar sérias.
A vida do piloto é dura. O número de horas de voo que é chamado a efetuar, muitas vezes com escassos intervalos de tempo e sob temperaturas escaldantes, dentro da cabine a temperatura muitas vezes superior a 50 graus centígrados, provoca um enorme desgaste de energias que só uma vontade férrea consegue levar a cabo a sua missão.
À medida que vai havendo mais ações da parte do inimigo, digamos assim, do IN, vai havendo também mais informações do serviço de informações. Diz: "Olha, na aldeia tal, não sei o quê, ou nesta zona, ou nesta zona, temos informação de que houve isto assim, assim". Pronto, marca-se uma operação para lá, ou com foguetes, ou com um trilhador, não sei, e vão lá dois, ou três, ou quatro aviões, conforme a dimensão da informação que se tenha, e vai-se atacar aquela zona. À medida que o tempo vai passando, as coisas vão encrescendo.
É entre missões, praticamente a meio dos dois anos de comissão na Guiné, que António arranja forma de ir a Espinho pedir a mão de Maria dos Anjos aos pais
E confirmou-se. Eu estou toda arrepiada. Foi mesmo paixão. E fui então pedida em casamento.
Em agosto de 1962, estarão casados. A lua de mel não termina. Duas semanas mais tarde, voam juntos para Bissau e instalam-se numa casa com varanda na Rua Teixeira Pinto, mesmo em frente à escola onde ela irá dar aulas. Maria dos Anjos está quase a fazer 19 anos. António tem 24. Sempre que não estão a trabalhar, estão juntos. Às vezes, até estão juntos quando estão a trabalhar, como na noite em que ele vai quebrar a maior regra de todas.
Fiz uma coisa que ninguém fez na Força Aérea, de certeza. É uma regra sagrada e se uma vez soubessem, tinham-me metido na prisão.
Pois foi, meu Deus do céu.
Como é que isso foi?
Como é que foi? Ele disse: "Olha, vamos agora de tarde, vou-te mostrar o avião para te ensinar como é que se entra para o avião." O avião só tinha dois lugares, o piloto e aqui atrás, e tinha que ser amarrado, tinha que se dar um salto pra dentro do avião.
Havia a informação da parte do serviço de informações que um helicóptero vinha de noite, trazer armas do outro lado da República da Guiné, Conacri, trazer armas para os guerrilheiros. Então estabeleceu-se que todas as noites um piloto ia voar para eventualmente descobrir o helicóptero. E numa dessas noites ele disse à Maria dos Anjos: "Olha, hoje vens comigo pra base. Eu trago-te no jipe, vou-te pôr acolá, no princípio da pista, mas numa placa de estacionamento, havia placas de estacionamento dispersas. Vou vir com o avião, venho até ali, quando chegar ali, o avião está com a cabine aberta, tu saltas para cima de asa, que eu vou-te dizer como é, e entras lá para dentro. Hoje vens comigo."
De noite, a pista estava rodeada de floresta cheia de cobras. Aliás, eu no quintal da nossa casa tinha uma cobra. Cobras, macacos, leões. No fim da pista, no escuro. Eu cheia de medo de andar no escuro. Só me lembrava do meu pai. Lá corri, num pulinho, como quem sobe uma escada, pus-me lá dentro do avião.
Ela saltou para cima, sem paraquedas, sem nada. Disse: "Olha, agora puxa essa coisa, aquela alinha cá pra frente, não tem jeito." E fomos à procura do helicóptero. Fiz uma coisa que ninguém mais fez e ela fez uma coisa que também ninguém mais fez, certeza absoluta, é único. A gente na vida também tem direito a fazer umas asneiras e arriscar umas coisas quando quer. Senão, não vale a pena vivê-la.
Têm oito meses bons. Mas na noite de 21 de maio de 1963, António Lobato pressente que a vida que tinham levado até então está perto de terminar.
Normalmente, às 22:00, 23:00, dormia-se. Não nessa noite. Não posso precisar horas, mas ficamos na conversa, eu e a minha mulher, sentados em cima da cama, pernas cruzadas, a conversar até as 02:00.
Foi uma noite fora do lugar, porque eu lembro-me que ele conversou muito.
E eu disse: "Se algum dia acontecer alguma coisa, que eu não chegue a casa à hora habitual, não te preocupes que eu hei de voltar."
"Não te preocupes que eu hei de voltar." Foi a última promessa que lhe fez. Mas António não voltará a casa na tarde seguinte, nem em nenhuma das tardes da vida de Maria dos Anjos, nos próximos sete anos e seis meses. Naquele dia 22 de maio, ela está em casa, à espera do marido na varanda, quando um jipe para à porta. Assim que vê os olhares dos militares da base, percebe que algo não está bem. Bem acompanhados, não se arriscam a dar-lhe a notícia sem levar um enfermeiro. Há de passar os dias seguintes em choque, incapaz de fechar os olhos e dormir, mesmo sob o efeito de sedativos fortes. Dizem-lhe apenas que o marido desapareceu. Mas pensar no pior é inevitável. Não consegue suportar a ideia de se ter tornado viúva aos 19 anos. No meio do mato da Guiné-Bissau, António Lobato está ferido, coberto de sangue, a lutar pela vida e prestes a ser capturado por guerrilheiros do PAIGC. Mas essa é uma história pro próximo episódio.
Sem eu dar por isso, dá-me uma catanada aqui na cabeça, abre-me a cabeça. E os outros caem todos em cima de mim. De maneira que eu fico no chão, estendido, a sangrar, com os olhos já tapados de sangue, e aquela gente toda em cima de mim, não sei como, nem por quê. Vê-me de saca na mão, fica a olhar pra mim quietinho, e diz-me assim: "Dá a faca." Eu lhe digo assim: "Vem buscá-la." Ele: "Não, dá a faca." Eu levantei-me assim: "Vem buscá-la."
"O Sargento na Cela 7" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserv. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha. A sonorização e pós-produção áudio, de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos ainda as músicas: "Flip, Flop and Fly", de Big Joe Turner, "Come On Let's Go", de Ritchie Valens, "Jailhouse Rock", de Elvis Presley, "Vocês Sabem Lá", tema interpretado pelo conjunto Segundo Galarza, "Já Chegou a Primavera", Simone de Oliveira, "Johnny B. Goode", de Chuck Berry, "Come Fly With Me", de Frank Sinatra. Neste episódio usamos também sons históricos do Centro de Audiovisuais do Exército e outros retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
