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Sofá do Parlamento na Rádio Observador tem a presença de Luís Montenegro. A AD realizou as jornadas parlamentares ontem e hoje, segunda e terça-feira, com Hugo Soares a garantir que o Governo está a viver um momento de viragem no país e com Nuno Melo a falar numa nuvem cinzenta ou escura no horizonte, uma nova crise política que poderá estar para chegar, diz Nuno Melo, o líder do CDS. No Sofá do Parlamento estou eu, Ricardo Conceição, a Judite França e o Vasco Maldonado Correia, que é o nosso convidado. Vasco.

Alexandre Poço é deputado e vice-presidente do PSD. Começo por lhe dar as boas-vindas e obrigado por aceitar o nosso convite. Já vamos ao conteúdo dessas jornadas parlamentares, mas primeiro: faz sentido que numa altura em que o país atravessa um estado de alerta decretado pelo Governo, Luís Montenegro se volte a ausentar do país para ir ver um jogo de futebol?

Antes de mais, obrigado pelo convite. É um gosto participar em programas da Rádio Observador. Todo o comando, toda a resposta política está naturalmente assegurada. O primeiro-ministro, mesmo quando está em eventos internacionais, como é o caso, sabemos que ontem esteve a assistir ao jogo da Seleção Nacional de Futebol e hoje está na Cimeira da NATO, o comando político, a coordenação política, a decisão política está sempre assegurada. Está sempre assegurada, em primeiro lugar, pelos ministros, mas sempre com uma coordenação ao momento por parte do primeiro-ministro. Portanto, eu desvalorizo, ou melhor, não dou grande relevância a essa matéria. O primeiro-ministro está sempre presente naquilo que importa, que é a coordenação política, que é a capacidade de o Governo responder. E veja, na semana passada, o Governo conseguiu colocar os meios necessários para domar, eu diria, no menor espaço de tempo possível, um incêndio de grandes dimensões. E pra isso teve uma resposta no terreno, que é uma resposta do Estado, da Proteção Civil, dos bombeiros, das autarquias, mas há sempre um comando político e, portanto, eu penso que o mais relevante é saber que esteja o primeiro-ministro onde estiver, pode estar numa cimeira internacional, pode estar a acompanhar um grande evento desportivo onde Portugal está representado, pode estar num evento do Conselho Europeu em Bruxelas, há sempre um comando político presente. E a capacidade, por exemplo, que o Estado teve de responder a estes primeiros incêndios que infelizmente assolaram, nomeadamente o Conselho de Vouzela, demonstram que apesar de o primeiro-ministro não estar em território nacional por uma circunstância que é natural e que as pessoas compreendem, que há sempre uma resposta do Estado.

É indiferente, seguindo essa linha de raciocínio, ser o primeiro-ministro a lançar alertas e a dizer que é preciso cuidado e que vamos ter uma onda de calor, do que ter o ministro da Administração Interna. Estou a perguntar se é indiferente, seguindo a sua linha de raciocínio.

Não, não é. Isso é uma interpretação, não me vai levar a mal, um bocadinho abusiva das minhas palavras. O meu ponto é: a função de primeiro-ministro obriga a que o primeiro-ministro esteja em alguns períodos fora do território nacional. E todos nós sabemos isso. E ora está fora do território nacional numa cimeira internacional, num Conselho Europeu em Bruxelas, ora está a acompanhar a seleção de futebol, tal como esteve há dois anos nos Jogos Olímpicos. Ou seja, o ponto é: há sempre um comando. Pode aí inferir que é totalmente indiferente e tanto faz que o primeiro-ministro esteja? É claro que a pergunta não tem grande relação com aquilo que eu estava a dizer. O meu ponto não é se é indiferente ou não a presença.

Mas há algum momento ou alguma situação em que, na sua opinião... Eu estou a perguntar-lhe, não estou a afirmar. Estou a perguntar-lhe. Há algum ponto em que não, então tem mesmo que ser o primeiro-ministro a estar aqui a dar a cara. Qual é o grau de gravidade nessa escala que implica a presença do primeiro-ministro?

O primeiro-ministro já teve a oportunidade de, em vários momentos, ao longo do tempo em que é primeiro-ministro, em dar a cara. Não há que fazer disso um bicho de sete cabeças. O primeiro-ministro dá a cara, não foge, não se furta às suas responsabilidades. Já houve vários momentos da governação da AD, em momentos críticos, desde que Luís Montenegro é primeiro-ministro, e nunca aconteceu o primeiro-ministro virar a cara. Às vezes os senhores jornalistas perguntam: "Isto não devia ser o ministro ou a ministra? Isto devia ser o primeiro-ministro?" Agora, não dá para pensar, ou sequer imaginar, que o país perde qualquer tipo de coordenação política e de resposta política. E eu penso que as pessoas que estão a assistir a esta nossa agradável conversa compreendem. Algum português imagina que o primeiro-ministro, seja porque agora está na NATO, seja porque esteve a assistir ao jogo da seleção de futebol, ou quando está no Conselho Europeu, algum português imagina que o primeiro-ministro está desligado da realidade? É totalmente incompreensível. O primeiro-ministro está sempre em coordenação política.

Vamos mudar de assunto, porque Nuno Melo viu nuvens negras no horizonte. O país está a caminho de eleições?

Eu não faço essa interpretação. Aquilo que me parece que o presidente do CDS-PP quis fazer foi uma análise política de um conjunto de votações no Parlamento que parecem, às vezes, sugerir que há uma vontade dos partidos da oposição de criar dificuldades ao governo para lá daquela que é a natural expressão de uma alternativa ou de fazer a oposição porque não concordam. Agora, na AD queremos eleições? Não. No PSD queremos eleições? Não. Vai o país ter eleições? Não. Está a AD interessada em qualquer tipo de crise política? Não. Queremos que o país passe por isso? Não. Ou seja, o país teve muitas eleições num curto espaço de tempo e aquela que é a nossa visão, apesar de naturalmente existirem às vezes constrangimentos e existirem dificuldades no caminho, é de que o país deve aproveitar agora este tempo substantivo, este tempo até às próximas eleições, que só ocorrerão daqui por mais três anos, para que o governo tenha a possibilidade de governar, para que as políticas possam começar a surtir efeito. E, portanto, eu respondo-te de forma muito concreta e muito clara: antevemos nós no PSD que haverá alguma eleição no horizonte? Não. Crise política? Não. Agora, não podemos deixar de assinalar que, por vezes, acontece um comportamento dos partidos da oposição, talvez por excitação do momento, em que parece que podem querer precipitar o país para um caminho que eu não acho que exista. Tal como não há nenhum português que ache que o primeiro-ministro não está permanentemente a governar, também não há nenhum português, na minha opinião, que queira que o país tenha qualquer tipo de crise política ou de eleição. E é nesse foco que nós estamos. E por isso é que ainda hoje o nosso líder parlamentar do PSD teve a oportunidade de reafirmar algo que é muito simples, que é factual, mas que parece que, até pela intensidade do tempo em que vivemos, parece que às vezes é necessário recordar. A AD está no governo e Luís Montenegro é primeiro-ministro há dois anos, mas nós temos mais tempo pela frente do que o tempo que já passou. Ou seja, nós estamos no governo há dois anos, fruto da escolha dos portugueses que nos deram duas vitórias eleitorais, mas temos mais tempo pela frente. Temos ainda três anos e por isso é que realçamos que estamos no início.

Permita-me interrompê-lo, porque queria perguntar precisamente por Hugo Soares, que voltou a posicionar a AD ao centro, tem sido essa a estratégia da AD, entre, e estou a citar: "a sufreguidão ideológica do PS e o radicalismo populista do Chega." Esta ideia de pôr a AD ao centro não é exatamente a mesma estratégia que foi seguida por Rui Rio a tentar mostrar um PSD mais ao centro, mais longe desse rótulo do partido de direita?

Não é essa a preocupação. A preocupação que nós temos e que procuramos deixar claro às pessoas que acompanham a realidade política, que acompanham o que os políticos andam a fazer, é de que o PSD é hoje a força que tem a responsabilidade de governar e que é a força que procura avançar com um programa político e que tem de naturalmente governar sabendo que não tem maioria absoluta, tem maioria relativa e que por isso tem de conseguir, seja à sua esquerda com o Partido Socialista, seja à sua direita com o partido Chega, chegar a entendimentos. E portanto, é muito essa visão de moderação, de transformação, de sermos a única força política que consegue, mesmo num cenário em que não há maioria no Parlamento, conversar com quem está à nossa esquerda e com quem está à nossa direita e que nos coloque numa posição, eu diria, de grande responsabilidade, que é a responsabilidade que nós temos de avançar com um programa político, de avançar com políticas e depois procurar que exista no Parlamento responsabilidade por parte dos partidos da oposição para conversar conosco e chegarmos a entendimentos. Isto sem nunca cedermos em convicções. E hoje o líder parlamentar até deu bons exemplos. Nós conseguimos aprovar matéria importante sem ceder nas nossas convicções, mas também por vezes não conseguimos que matérias que consideramos sejam importantes avancem, porque também não cedemos em convicções. Uma coisa é eu conversar convosco e chegar a compromissos convosco sobre determinadas matérias e até alterar um pouco a minha posição para ajustar a vossa visão. Outra coisa diferente é eu vender a minha alma, é eu vender os meus princípios, é eu ceder totalmente. Ora, isso nós não podemos fazer. E é nessa linha que nós estamos.

Sobra uma outra matéria importante destes dias que estamos a viver, a questão dos exames nacionais e da forma como o ministério e o ministro Fernando Alexandre têm lidado com esta questão. A frase é minha, Fernando Alexandre é uma estrela deste governo. Teme que possa sair fragilizado de todo este processo?

Olhe, na minha opinião, há algumas coisas que podemos pensar e que naturalmente gostamos de dizer às pessoas que nos estão a ouvir. Em primeiro lugar, obviamente que lamentamos que esta situação esteja a acontecer. E eu acredito que o ministro Fernando Alexandre, que é um homem muito capaz, muito inteligente, muito sagaz, competente, tem em todas as declarações que tem feito sobre o tema, e o próprio governo como um todo, expressado a nossa, por um lado, compreensão e solidariedade com a situação que esta dificuldade na correção dos exames nacionais está a gerar. E, portanto, a primeira palavra, naturalmente, é de solidariedade e de compreensão pela situação. Em segundo lugar, de assumir as responsabilidades e de não virar a cara a um problema que entendemos que tem de ser resolvido. Há naturalmente, e ainda hoje a vossa rádio esteve a debruçar-se sobre esse tema, um espaço que eu classificaria como Custo de transição ou dores de transição de um governo que quer transformar, desmaterializar processos e digitalizar, e que naturalmente estas transformações digitais, estas desmaterializações, estas mudanças de processos têm custos e dores na transição.

E também precisavam de cautelas adicionais, Alexandre Poço.

Veja, mas eu não estou a dizer isto como uma desculpa, estou apenas e só a situar a discussão. Lamentamos que esteja a acontecer, estamos totalmente disponíveis para dar todos os esclarecimentos em torno desta matéria. Estamos solidários com os professores e com as famílias.

Mas numa comissão de inquérito?

O PSD tem e acredita que essa é a postura correta. Nós não precisamos de fazer logo um espalhafato brutal em torno dos assuntos. Permita-me a minha opinião, essa proposta da comissão de inquérito é mais de quem quer espetáculo, circo em torno de um tema importante do que perceber o seguinte: o que está a causar esta situação, de que forma se resolvem os constrangimentos informáticos, de que forma se garantem as datas que são necessárias para a correção dos exames, tendo em vista a conclusão do ensino secundário e as candidaturas ao ensino superior dos estudantes, para sossego das famílias e para dar paz às famílias portuguesas. É muito mais importante nós sabermos isto do que o espetáculo e o frenesim dessas propostas de uma comissão de inquérito. Há um problema. Nós reconhecemos que há um problema.

E tem a posição sobre a proposta da Iniciativa Liberal, que veio propor que também os prazos de acesso ao ensino superior sejam revistos. Isto não é exato?

Aquilo que é o nosso compromisso e o compromisso do governo é de que o mais rapidamente a situação possa estar resolvida e eu não vou estar aqui a antecipar qualquer tipo de datas. Está a ser feito um esforço brutal por parte do Ministério da Educação para que os exames possam ficar corrigidos a tempo de o processo das candidaturas dos estudantes ao ensino superior acontecer nos prazos referidos e nos prazos que estão previamente estabelecidos. É com esse objetivo que nós temos trabalhado. Do ponto de vista político, o que eu acho que é relevante é perceber o que está a acontecer. Nós assumimos a nossa responsabilidade, damos o enquadramento às pessoas que isto é uma mudança e é uma transição que naturalmente tem dores e tem custos. Agora, procurar fazer espalhafato, frenesim e circo político em torno disto é uma postura com a qual nós não podemos concordar.

Alexandre Poço.

Nós não estamos com uma postura de negação dos problemas ou de negar a realidade. Nós estamos com uma postura de reconhecer que há problemas e de trabalhar para resolver a situação a tempo dos exames serem corrigidos e dos alunos conseguirem ter acesso ao ensino superior.

Alexandre Poço, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para se sentar aqui conosco no "Levado ao Parlamento". Obrigado.

Obrigado.