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Bem-vindos ao Sofá do Parlamento, hoje em versão especial Parlamento Europeu. Estamos em Estrasburgo, na sessão plenária de outubro, que contou com a presença e a intervenção do primeiro-ministro Luís Montenegro. Por isso, hoje recebemos neste sofá o eurodeputado do PS, Francisco Assis. Muito bem-vindo e obrigado por ter aceito o convite. Obrigado pelo convite. O primeiro-ministro enviou hoje um recado aos países frugais sobre a contribuição de Portugal para o orçamento comunitário, mas também disse que recusa pedinchar dinheiro à Europa. Portugal pode dar-se ao luxo de fazer voz grossa nesta fase?
Agradeço o convite, é com todo gosto que estou convosco. Eu creio que o primeiro-ministro teve razão nesse aspecto. Não é que fazer voz grossa, é dizer claramente que um projeto político europeu só faz sentido se houver simultaneamente uma preocupação de reforçar a competitividade europeia no quadro internacional e de assegurar o reforço da coesão entre os diferentes países e regiões da Europa. Portugal é um interveniente muito ativo na vida europeia de há muitos anos a esta parte, praticamente desde que entramos, tivemos sempre uma voz muito forte no plano europeu e temos não só o direito, mas até o dever de exprimir os nossos pontos de vista sobre os caminhos que a Europa deve prosseguir. Portanto, eu não vi essa declaração do primeiro-ministro como um fazer de voz grossa gratuito e despropositado, mas antes como uma reafirmação da vontade de Portugal de participar ativamente nas discussões da política europeia e salientar que a política de coesão deve prosseguir. Neste momento, há uma discussão, aliás, sempre que se discutem estes quadros financeiros plurianuais, há uma discussão sempre entre países que tendem a desvalorizar esta componente da coesão e outros que tendem a reforçá-la. Vivemos hoje um momento especialmente difícil, porque muitos líderes estão enfraquecidos, nomeadamente nalguns dos países mais importantes. Hoje os líderes estão enfraquecidos por razões diversas, mas a verdade é que estão, simultaneamente, muito dependentes de uma opinião pública que nesta fase essas opiniões públicas não são as mais adeptas do projeto europeu sob vários pontos de vista, com um quadro onde a demagogia e o populismo tendem a imperar, seja à esquerda, seja à direita. E, portanto, nós temos que ter a noção de que este contexto é um contexto particularmente difícil e que é importante fazer a afirmação desse ponto de vista. Estou de acordo com o que o primeiro-ministro disse.
Para além da questão do quadro financeiro, a questão também da resposta comum ou conjunta ao aumento do custo de vida, o próprio presidente da República disse ontem, no 5 de outubro, que devia existir uma resposta europeia. Isto responsabiliza, de certa forma, o governo a avançar com mais medidas?
Vamos ver qual é a evolução da situação. O aumento do custo de vida tem que ver com o quadro internacional que estamos a atravessar, com uma guerra, ou com duas guerras, aliás, e com as consequências que daí decorrem, que têm vindo a provocar inflação e portanto isto tem uma repercussão, de facto, em todo lado e em todos os países europeus, mais nuns do que noutros, mas genericamente. Grande parte da resposta terá que ser uma resposta nacional.
E a que existe é suficiente? Ou seja, a questão do IRS e do abono dos pensionistas é preciso ir mais além?
Eu compreendo a preocupação do secretário-geral do Partido Socialista, nomeadamente na questão do IVA. Tradicionalmente, tenho uma posição crítica. Acho que o modelo normalmente não funciona muito bem, mas neste momento não estou a ver nenhum instrumento, a não ser o de atribuir apoios diretos às pessoas, que de uma maneira mais rápida permita acorrer às necessidades dos mais desfavorecidos.
E acha que terá um efeito real?
Creio que está mais ou menos provado que há sempre algum efeito real, mesmo que uma parte da diminuição possa ser comida pelos agentes envolvidos no processo, há um efeito real, não há dúvida. E neste momento é inquestionável que as medidas que o governo tomou não chegam a uma parte substancial da população, que é aquela que nem tem rendimentos suficientes para sequer pagar impostos e, portanto, qualquer alteração da carga fiscal, que evidentemente é valorizada, não tem qualquer efeito para aqueles que são os setores mais desfavorecidos da população portuguesa. Isto deve ser visto como algo excecional. Nós não estamos a falar de política normal, nem estamos a falar de tempos normais. Estamos a falar de um momento extraordinário, excecional e, portanto, as respostas têm que ser calibradas de acordo com a perspetiva da resolução de problemas.
E transitórias, não é?
E transitórias, isso é evidente. E em segundo lugar, também em função da disponibilidade orçamental do Estado português e da preocupação com o equilíbrio das finanças públicas tem, evidentemente, que existir. Eu diria que neste momento não tenho uma informação tão precisa que me permita afirmar se é possível enveredar por este caminho ou por aquele. Apenas poderei dizer que tenho a sensação de que as preocupações que o secretário-geral José Luís Carneiro tem vindo a exprimir são preocupações legítimas. E creio que esse é um tema em relação ao qual se poderá, pelo menos, estabelecer uma base de discussão séria com o governo, sendo certo que estamos perante uma situação excecional, medidas meramente transitórias para acorrerem, de facto, a uma situação de crise que afeta de forma muito particular os mais pobres, como sempre acontece quando ocorrem crises.
Esse diálogo já existe no Orçamento de Estado, pelo menos o PS já anunciou que se ia abster no orçamento para o próximo ano. Isto não foi passar um cheque em branco, tendo em conta que ainda não conhece o documento?
Eu tenho aí uma posição já muito antiga, ainda nos governos do Do Dr. Pedro Passos Coelho, em que eu fui o primeiro a defender no PS que nós devíamos viabilizar, nem era por causa disso, que eles nem precisavam do nosso apoio, mas que o PS devia dar um sinal de abstenção no primeiro orçamento. Isso até depois veio a acontecer mais tarde e suscitou até uma grande discussão no interior do partido. Eu julgo que neste momento o Partido Socialista e julgo que o secretário-geral, o atual líder do partido, tem compreendido bem o milagre da situação. Nós estamos num momento particularmente angustiante, até no plano internacional, com reflexos inevitáveis na nossa vida interna. O Governo não dispõe de uma base de sustentação majoritária na Assembleia da República. O Partido Socialista, como é um partido altamente responsável, com experiência e vocação para a ação governativa e que compreende a necessidade mínima da existência de determinados instrumentos que são fundamentais para assegurar a governação do país, o Partido Socialista tem que ter aqui uma atitude responsável, contrariamente a partidos populistas, extremistas, esses nunca assumem atitudes responsáveis para eles quanto pior, melhor.
E é mais importante vincar essa atitude do que propriamente olhar para o orçamento.
Sim, acho que neste momento é mais importante isso. Evidentemente que se o orçamento contivesse coisas completamente inaceitáveis, que ofendessem princípios essenciais do Partido Socialista, isso não seria possível. Partindo do pressuposto que isso não vai acontecer, aliás, o doutor José Luís Carneiro teve o cuidado de apresentar aquelas quatro condições prévias.
E são legítimas, por exemplo, a revisão constitucional é uma condição necessária?
Não é que ela esteja diretamente associada ao Orçamento Estado, mas é porque isso significa a criação de uma base de confiança mínima entre os dois partidos.
E o porta-voz do PSD aproveitou isso para tentar, de alguma forma, amarrar o PS até 2028, pelo menos. Ou seja, que enquanto corresse o processo de revisão constitucional, o PS ia dar suporte e estabilidade ao Governo e isso implicaria também o orçamento do próximo ano. É uma leitura abusiva?
Não, isso implicaria um entendimento de fundo que neste momento acho que não estão ainda criadas as condições para que possa acontecer. Agora é preciso melhorar o ambiente no relacionamento entre o Governo e o Partido Socialista. Eu julgo que isso que é muito importante. Repito, as circunstâncias são excepcionais, quer do ponto de vista internacional, quer do ponto de vista estritamente interno. Nós não podemos ignorar, por exemplo, que há hoje um risco real de um grande crescimento da extrema-direita, que está a ocorrer em toda a Europa. E ao mesmo tempo, há uma coisa que nós em Portugal felizmente não temos, mas há um certo ressurgimento de uma violência associada à extrema-esquerda também, nalguns países europeus, e até com algum reconhecimento eleitoral. Portanto, nós temos que ter a noção de que o contexto em que nos movemos atualmente é um contexto especialmente difícil. E os partidos que se reconhecem nos princípios fundamentais da democracia liberal, do Estado de direito democrático e com uma presença de um Estado social, que nuns casos será mais alargado, noutros menos, mas que tem importância, eu creio que esses partidos têm a obrigação histórica até de promoverem neste momento algum entendimento.
Mas concorda que aquele manifesto ou tudo que seja uma solução que cheire a centrão pode ajudar ainda mais o Chega a afirmar-se como a única alternativa?
Todas as soluções políticas têm riscos, têm vantagens e têm inconvenientes. O entendimento de fundo entre os dois grandes partidos, quer a nível europeu, quer a nível nacional, do meu ponto de vista, é necessário. Sem que isso signifique a anulação das diferenças entre uns e outros. Agora, há momentos em que nós temos que compreender que o esforço que se exige para a promoção de algum entendimento tem que ser superior à vontade de divergir.
Mas seria ideal um acordo formal ponderado em três ou quatro setores, ou em três áreas ou três, quatro, cinco medidas?
Nesta fase eu diria que é importante melhorar o ambiente no relacionamento entre os dois partidos. E justamente foi nessa perspectiva que eu entendi essa exigência do doutor José Luís Carneiro, que foi dizer: "Nós temos que ter aqui uma base mínima de entendimento." Quer dizer, não podem crer que o Partido Socialista negoceie um Orçamento de Estado ou viabilize, mais do que negociar, viabilize um Orçamento de Estado e depois não nos darem as garantias de que não vão fazer uma revisão constitucional com o Chega e com a Iniciativa Liberal, que ponha em causa alguns princípios que são fundamentais para o Partido Socialista. Até aqui as revisões constitucionais, até devido à composição dos sucessivos parlamentos, fizeram-se sempre com entendimentos de fundo entre o PS e o PSD. Julgo que é vantajoso que se continue a pensar nestes termos. Eu creio francamente que é isso que vai acontecer e que nem vislumbro uma solução distinta desta. Agora, era importante nesta altura marcar uma posição nesse domínio. Portanto, não tendo diretamente a ver a questão da revisão constitucional com a questão do orçamento, ela é importante no sentido em que significa que entre os dois principais partidos há neste momento uma disponibilidade para um diálogo construtivo que é importante para que depois se possa, em concreto, aprovar esta ou aquela coisa, e chegar a um entendimento neste ou naquele domínio. Eu julgo que essa forma como o assunto foi tratado pela direção do Partido Socialista foi correta. E julgo, aliás, que o líder do Partido Socialista tem tido essa preocupação. É um homem moderado, com sentido de Estado, com altíssimo sentido da responsabilidade pública e que tem dado claros sinais de que não quer radicalizar a oposição ao Governo.
O Presidente da República elogiou, aliás, esta postura do Partido Socialista. Há uma pressão de Belém ou há ajuda a criar essas condições?
Eu como já não falo com o Presidente da República desde antes de ele falar, no sentido de encontrar com ele, já não me encontro com ele.
Não quero correr o risco de ser um porta-voz do Presidente.
Não, não há esse risco. A última vez que estive com o senhor Presidente da República foi antes da sua eleição. Foi num comício em Guimarães, se bem me recordo, oito dias antes da sua eleição para a Presidência da República e depois nunca mais nos encontramos pessoalmente. Eu nem sequer pude estar, porque tinha aqui compromissos na tomada de posse. E desde então até hoje ainda não tivemos oportunidade de nos encontrarmos. Uma vez tínhamos até aprazado um almoço, por responsabilidade minha, não foi possível realizá-lo. Portanto, não sei. Também não tenho tantos contactos, porque estou aqui com o doutor José Luís Carneiro a ponto de saber qual é o grau, o tipo de relacionamento que ele mantém com o senhor Presidente da República e muito menos sei o que é que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro falam Portanto, não sei se há pressão ou não há. Sei que o Presidente da República ontem exprimiu a sua satisfação pela circunstância de existir este entendimento. É a única coisa que sei, porque soube através da imprensa.
Estes números crescentes nas sondagens que José Luís Carneiro tem tido podem criar uma tentação de acelerar o calendário político?
Não creio, até porque nós não estamos iludidos com esses números. Esses números são bons, evidentemente é bom o Partido Socialista estar à frente, mas o que todas as sondagens indicam é que continua a existir uma composição do Parlamento, com ligeiras alterações, quem é que está em primeiro, ou em segundo e terceiro. Do ponto de vista das grandes famílias políticas, não é assim muito distinto. Há neste momento três partidos com uma força muito parecida em Portugal: o PS, o PSD e o Chega. E verdadeiramente ninguém está em condições de responder à questão de saber se existissem hoje eleições, qual deles ficaria em primeiro lugar.
A situação política não ficaria clarificada com esse acelerar do calendário.
Não, eu julgo que não teria efeitos positivos nenhuns para o país, neste momento, fazer eleições. Nós temos que saber colocar o interesse nacional acima de qualquer impulso partidário ou pessoal. Esse impulso nem sequer existe. Aí eu conheço bem e quando falo com ele, a posição do doutor José Luís Carneiro é clara. Ele não quer provocar uma crise política, até porque entende bem que o país não compreenderia neste momento uma crise política. Isto é, ou há um acontecimento extraordinário, imaginemos que o governo tomava uma decisão que fosse totalmente inaceitável ou que ocorresse qualquer coisa, esperemos que isso não suceda. Não sucedendo, julgo que é vantajoso para o país que haja um quadro de estabilidade política mínima, de forma a que o governo possa dizer que há estabilidade.
Ele não precisa de repetir ao espelho qual é a pressa. Ele já está calmo no calendário que tem na cabeça.
Sim, mas isso é uma questão que distingue os partidos responsáveis, dos partidos irresponsáveis, dos partidos que procuram sobrepor o interesse nacional ao mero interesse partidário. Isto não é frase feita, de facto há momentos em que é preciso dizer. Para já, não acho que estivesse garantido qualquer ganho.
Mas ficar em primeiro já não significa ser primeiro-ministro.
Claro que não, isso é evidente.
Por falar no lugar de primeiro-ministro, Mário Centeno lançou um livro onde juntou várias figuras do caustismo, tem também um espaço de comentário semanal, tem dado entrevistas. Centeno está a ser para o PS o que Passos Coelho é para o PSD?
Não me parece, francamente. Eu li alguns comentários sobre isso. Ele próprio disse que não é candidato a primeiro-ministro, não é militante do Partido Socialista. Não pareceu que tivesse manifestado qualquer vontade de ser militante do Partido Socialista.
Mas gostaria de o ver aderir formalmente ao PS?
Isso é uma questão que depende da vontade de cada um. Eu não posso estar aqui a dizer se gostaria ou não gostaria. Diria que se ele aderir ao PS, eu ficaria satisfeito com isso. Agora, se gostaria ou não gostaria, não entro nesse tipo de efabulações neste momento. Eu acho que a questão do professor Mário Centeno, a posição clara, escreveu um livro, que eu ainda não tive oportunidade de ler, aliás, em que pelo que li na imprensa, faz referência ao período em que exerceu funções governativas. É natural que as pessoas, depois de exercerem durante longos anos determinado tipo de funções, publiquem qualquer coisa, uma espécie de memórias, em que se adiantem o trabalho que levaram a cabo, e parece-me que é isso.
Mas o Francisco, assim já tem alguns anos de política, não vê aqui um posicionamento de alguém que está à procura de qualquer coisa no futuro?
Não sei. Justamente porque já tenho muita experiência política e já vi muita coisa, tenho muito cuidado em fazer juízos sobre as intenções dos outros. Francamente não sei, portanto procuro ater-me a uma interpretação literal das palavras que as pessoas pronunciam. E o que ele disse foi muito claro, que não era vontade dele ser líder do PS e ser primeiro-ministro, foi isso que eu li. Portanto, atenho-me a essa interpretação literal.
É parecida com aquela do nem Cristo desce à Terra. O Pedro Nuno Santos também tem andado por aí, já fez umas declarações, vai aparecendo. José Luís Carneiro está um bocadinho encurralado entre o passado e o futuro. Vê com bons olhos também esse regresso de Pedro Nuno Santos, se ele desejar voltar ao espaço público?
Sim, o Pedro Nuno Santos é um caso diferente, porque é um militante do PS, é um homem com uma vida pública, política, desde a sua juventude. É natural que queira voltar um dia a ter uma intervenção mais ativa, isso acho perfeitamente normal e compreensível. Neste momento tem tido também uma atitude relativamente reservada. Creio que fez umas declarações aqui há dias ao próprio Observador. Outros assistiram a uma-
Em que era uma coisa muito mais: é preciso alguém de esquerda, o centro é o extremismo. Houve uma deslocalização dele para o ponto onde estava antes de ser líder do PS, que é um bocadinho mais à esquerda, para não dizer muito à esquerda.
Exato, porque ele já não é líder do PS.
Libertou-se do colete de forças.
Quando ele era líder do PS. É que as pessoas também quando assumem a liderança de um partido, têm que se ter um bocadinho mais de preocupação em representar a pluralidade do partido. Mas é uma pessoa por quem eu tenho, como sabem, uma grande estima pessoal, sou amigo do Pedro Nuno Santos, com quem tenho as minhas convergências e as minhas divergências, e tive grandes divergências ao longo da minha vida com ele, mas com quem tenho gosto em discutir as questões políticas e cujas opiniões, mesmo quando não são coincidentes, respeito. Também não tenho falado com ele. Não imagino o que é que ele possa estar a pensar. Tenho constatado que ele está no Parlamento, onde tem uma presença relativamente discreta, como é próprio de alguém que liderou o partido até há pouco tempo.
Vai arrancar em breve uma comissão de inquérito aos casos que envolvem o ministro Luís Neves, uma outra sobre os exames nacionais. Em particular a de Luís Neves pode desgastar este governo?
Tudo que lance suspeitas desgasta não apenas o governo, mas desgasta o próprio regime. Isso é indiscutível. Portanto, havendo esta comissão, o que eu espero é que essas suspeitas se desfaçam. A comissão vai existir, é um dado da realidade, não podemos ignorá-la. Nesse sentido, eu espero que ela decorra com elevação, com rigor e que as eventuais suspeitas se resolvam, num sentido ou noutro. Eu não vou estar neste momento a queixar-me.
Acha que isso é essencial para defender o tal regime, por envolver a posição judiciária?
Eu acho que é. A democracia é um regime de transparência Não de transparência como alguns querem fazer crer que é o voyeurismo, não é o voyeurismo, mas é um regime de transparência, isso é inquestionável. Pressupõe um elevado grau de transparência e se nós começarmos na vida política a introduzir permanentemente situações de dúvida e de suspeição, isso mina inevitavelmente a confiança das pessoas no próprio regime democrático. Isto não significa que não tenha que haver controle democrático, evidentemente, e quando há dúvidas, elas não tenham que ser colocadas e devam ser dissipadas. Vai haver uma comissão de inquérito. Aguardemos pelo funcionamento e os resultados da mesma.
Seria inteligente Luís Montenegro remodelar o governo para evitar estes desgastes ou entende que o primeiro-ministro queira esperar pela conclusão dos vários inquéritos e até das comissões de inquérito?
Neste caso, propendo até a compreender que queira esperar por isso e que não queira antecipar. Se o primeiro-ministro está convencido, e aparentemente está, que não há nenhuma razão para demitir o ministro, se o demitisse agora, seria estar a fazer uma cedência a um partido em particular que está a exercer uma pressão enorme para que isso suceda. Portanto, independentemente do que cada um pense sobre o caso, eu compreendo essa posição. Agora, havendo uma comissão de inquérito, acho bem que se espere pelo resultado da comissão de inquérito.
Para ameaças na área dos S&D, há alguns artigos sobre isto, de eventualmente romper os acordos que existem até nas top jobs com o PPE, se o PPE continuar a insistir em acordos com a extrema-direita e a chamada maioria Venezuela e por aí fora. Teme que isso de alguma forma radicalize mais os S&D, que é uma bancada de que faz parte, e também até eventualmente possa colocar em causa o segundo mandato de António Costa à frente do Conselho Europeu?
Eu temo é que isso radicalize os dois partidos, o PPE e o S&D. Isso tenho esse temor permanentemente. Nem um, nem outro se podem deixar dominar pelos setores mais radicais que existem em um e noutro. Temos que ter essa ponderação e ter esse cuidado de evitar que tal suceda. O meu trabalho, a minha ação dentro do grupo tem sido totalmente nesse sentido. E até à data há uma maioria no S&D que entende que deve existir uma preocupação em assegurar um compromisso não é só com o PPE, com o Renew, com os Verdes, que são partidos que estão comprometidos com o projeto político europeu, naturalmente, com perspectivas distintas em relação a cada situação concreta com que nos confrontamos. Se nos deixarmos arrastar para posições radicais, quer de um lado, quer de outro, creio eu que estamos a pôr em causa toda a viabilidade do projeto político europeu, porque o projeto político europeu é um projeto de tal maneira complexo e ainda tem debilidades próprias da sua juventude, parece que há muitos anos, mas é uma coisa muito recente e que corresponde à necessidade de fazer face a situações anteriores de grandes antagonismos e de grande conflitualidade entre os países europeus. O projeto é, portanto, ainda é bastante débil a ponto de poder suportar um tipo de discussão idêntico ao que existe em cada Estado nacional. Dentro de cada Estado há, de facto, uma confrontação.
Mas a situação em Espanha não pode ajudar a uma passagem para uma radicalização?
Espero que não. Pode, mas eu espero que não ajude. Vai haver eleições em Espanha e espero que ganhe quem ganhar, que as coisas serene um pouco, porque na verdade o que tem acontecido aqui, nalguns temas, é uma projeção para o plano europeu do debate político interno espanhol. No caso que referiu, o caso da Venezuela, outros casos, isso tem acontecido. O debate faz-se aqui. Isso é uma coisa que nós deputados portugueses temos procurado evitar, e creio que com sucesso, que é transferirmos para o Parlamento Europeu debates que se devem fazer em Portugal, mas não aqui.
Ainda hoje a sua intervenção foi quase a dizer: "Eu não vim para aqui falar de Portugal," com razão, puxando a orelhas a esses outros eurodeputados tantos que falaram de Portugal.
Não, não foi com o intuito de dar puxões de orelhas, foi no sentido de dizer o que eu penso. E não venho, quer dizer, não venho mesmo, porque nunca vim, nunca fiz isso. Ou melhor, falo de Portugal enquanto a dimensão europeia da política portuguesa, isso falo. Agora, vir para aqui discutir as questões internas, aquilo que é um debate próprio do Parlamento português, a meu ver, é um mau serviço que se presta ao próprio Parlamento.
E António Costa pode ficar, principalmente se em Espanha mudar, porque também muda um bocadinho o equilíbrio de forças do Conselho.
Eu acredito que sim, que ele fique. Primeiro porque ele tem feito bem a função, tem desempenhado bem o papel dele como presidente do Conselho. Em segundo lugar, porque creio que não há interesse nenhum em excluir o S&D dos lugares de topo da política europeia.
Mas isso risca sempre, não é? De haver uma do PPE...
Seria um erro da parte dele. Objetivamente, independentemente de ser este ou aquele, seria um erro uma acumulação excessiva de responsabilidades de topo na Europa por parte de um partido político. Isso era um erro atroz. Nós podemos estar momentaneamente enfraquecidos. Amanhã poderá ser o PPE a estar momentaneamente enfraquecido, mas a verdade é que há aqui duas famílias políticas que têm sido determinantes desde a fundação da Comunidade Económica Europeia, depois foram continuar a ser a União Europeia, que eram tradicionalmente a democracia cristã e os partidos da Internacional Socialista, nessa época, e que hoje são os partidos agregados no PPE e são os partidos que integram o S&D. São forças políticas, que estão umas situadas à esquerda e outras à direita, mas que coincidem nalgumas questões de fundo, no modelo de regime, no modelo de sociedade e depois tem as suas divergências noutros campos. E isso é muito importante para garantir.
Inclui também, talvez, os liberais e os verdes.
Sim, claro, inclui os liberais e os verdes. E curiosamente aqui na Europa, se olharmos no grupo mais à nossa esquerda, que é um grupo muito diverso, há deputados que são pró-europeístas, não há dúvida nenhuma. Por isso nós temos aqui uma situação muito especial. Por isso é que o debate político europeu tem que ser diferente do debate político interno, querer projetar na Europa uma discussão nesta fase, ainda não digo que no futuro não possa vir a acontecer, sobretudo se nós evoluíssemos para o modelo que eu até preconizo, que seria avançarmos mais no sentido de um maior federalismo europeu. Se evoluíssemos para aí, a coisa seria distinta e poderíamos eventualmente transferir esse modelo para aqui. Mas até lá não estamos em condições de fazer, porque nós temos que fazer aqui entendimentos entre 27 países com culturas políticas distintas, com composições parlamentares muito diversas. Depois, dentro de cada grande grupo, também há partidos muito distintos e também se refletem as diferenças nacionais. Depois temos a Comissão, o Conselho, tudo isto é um quadro em que o equilíbrio é de fato essencial. Pede a palavra para que efeito?
Para defesa da honra, senhor presidente. Francisco Assis, temos que terminar. Temos só aqui uma pergunta final que chamamos defesa da honra. Neste caso, até já praticamente que a exerceu até no Observador, que foi um bate-boca com o Miguel Morgado sobre o apoio ou não a Ceuta. Por que sentiu necessidade de explicar esta votação em particular, que gerou toda esta polêmica?
Pelo ataque do Miguel Morgado, que curiosamente é uma pessoa que eu leio com gosto no Observador. E leio sempre, porque acho que ele é um bom colunista e é uma pessoa que pensa e que tem uma grande cultura política, e eu tenho admiração por isso nele. E por isso mesmo entendi que ele, naquele caso concreto, não teve razão, porque ele confundiu duas que eu escrevi no vosso jornal aqui há dias. Ele falou de a moção quando devia falar de uma moção. Eu votei contra uma moção. Havia uma outra moção, que não chegou a ser votada, mas que era uma moção do SDI. Creio que houve aqui um erro, mas aquilo que falávamos há pouco, houve uma espanholização do debate daquele tema. Eu também não digo que a responsabilidade dessa espanholização seja permanentemente do PP. Não é. Naquele caso, acho que foi, porque não manifestaram a menor abertura para uma solução de entendimento. Mas há outros momentos em que não é, também é do Partido Socialista Espanhol. O PSOE também tem aqui responsabilidades no processo. A vida política em Espanha está altamente polarizada, não tem nada a ver com a nossa, pelo menos no relacionamento entre os dois grandes partidos democráticos. E infelizmente conseguiram transpor isso aqui para o Parlamento Europeu. Eu espero que as eleições em Espanha, seja qual for o resultado, tenham esse efeito de acalmar um pouco as coisas, pelo menos aqui no Parlamento Europeu.
Clarificar as águas. Francisco Assis, muito obrigado pela disponibilidade.
Muito obrigado.
Eu sou Miguel Viterbo Dias, comigo esteve também Rui Pedro Antunes neste sofá do Parlamento Europeu.