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Sofá do Parlamento na Rádio Observador. Estão encerradas as jornadas parlamentares do PS, que acontecem numa altura particularmente marcante para os socialistas, que aparecem aqui numa metáfora futebolística, num bom momento de forma, depois do chumbo do pacote laboral e da viabilização da proposta do governo para criar a Prestação Social Única. É nosso convidado o deputado do PS, André Pinotes Batista. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está o Vasco Maldonado Correia.
Boa tarde, André Pinotes Batista, obrigado por estar conosco na Rádio Observador. Ouvimos hoje José Luís Carneiro clamar vitória nestas duas frentes, a da lei do trabalho e a PSU. Não faria mais sentido atribuir a vitória ao Chega no chumbo da reforma laboral e ao governo, que conseguiu aprovar a Prestação Social Única?
Antes de mais, boa tarde e boa tarde a todos os nossos ouvintes. Deixar um alerta cívico. Nós tivemos três dias de trabalho em que estivemos a avaliar o custo de vida e como ele aumentou para todos os portugueses que nos estão a ouvir, mas temos avisos climáticos e deixar um apelo a que todos cumpram escrupulosamente os pedidos que tenham sido deixados e que levem muito a sério esta questão. Sobre a questão que me colocava, não é exatamente a interpretação que eu faço das palavras do secretário-geral do PS. Um dos motes essenciais para nós é que, de facto, a derrota da contrarreforma laboral foi uma defesa dos trabalhadores e, aliás, aquilo que ouvimos nesses três dias na rua e aquilo que os estudos indicam e a maioria dos especialistas, é que nesta não foi uma posição só que o secretário-geral do Partido Socialista, em agosto de 2025, apontou logo como caminho, que era o que a sociedade civil portuguesa, não digo na sua totalidade, mas na sua grandíssima maioria, desejava. Mas os progressistas não se querem ficar, e é esta a nota que eu quero deixar, não se querem ficar por aquilo que não acontece. E é importante que as pessoas percebam, e aqui para nós isto é essencial, nós mantivemo-nos fiéis aos nossos princípios, mas continuamos num caminho de reconstrução, que o José Luís Carneiro já leva um ano, da confiança dos portugueses no processo e projeto político do Partido Socialista, que carece de tempo e, portanto, nós não celebramos derrotas do governo. Nós defendemos pelo interesse dos portugueses. Quanto à PSU, pelo contrário, nós tivemos a possibilidade de, com a fiabilidade que o Partido Socialista pode dar ao país, ao contrário do partido da instabilidade que há pouco me perguntava, eu não quero entregar medalhas de ouro, nem taças de campeão do mundo, aos campeões da instabilidade e do populismo. E portanto, o Chega, as únicas vitórias que tem são as que celebra sozinho, porque nem tem princípios, nem se revela qual é o caminho que quer para o país. E, portanto, nós não celebramos vitórias contra ninguém.
André Pinotes Batista, entretanto, o líder do PS deixou hoje uma mensagem inspirada em Saramago. Vou aqui citar para não me enganar: "Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo." Isto a pouco tempo da discussão do Orçamento do Estado, quer dizer o quê, André Pinotes Batista?
Neste momento, há muita gente que questiona o que é que está na cabeça do secretário-geral do Partido Socialista, como se fosse difícil responder a esta pergunta. E não é, de facto. Essa frase de José Saramago é feliz por vários motivos. Um, porque sabemos que ainda recentemente tentaram tirar o único Prémio Nobel da Paz daquilo que é o nosso sistema educativo, mas sobretudo porque tivemos hoje notícias muito desagradáveis.
Não era tirar, era tornar facultativo. Facultativo é essa parte.
Eufemizemos então, era tornar facultativo o único Prémio Nobel que tínhamos, mas sobretudo a mensagem que se encerra aí é outra. O Partido Socialista não pode padecer de ansiedade, porque nós neste momento estamos a falar com os portugueses e estamos a gostar de falar com os portugueses de uma outra forma e os portugueses estão a gostar de falar conosco. Ora, o Partido Socialista não pode padecer de ansiedades. José Luís Carneiro é alguém que acorda às 05h e trabalha até à meia-noite num processo que sabemos que é longo, é coletivo, e nestas jornadas parlamentares na área metropolitana com um milhão de pessoas, nós ouvimos muitas queixas do governo, mas também ouvimos pessoas que ainda estão a readquirir a confiança no Partido Socialista. E nós partimos desse ponto de humildade. Andámos a privilegiar um tipo de contacto onde escutamos coisas que alguns políticos não gostam de ouvir. Governámos o país durante muito tempo, acertámos muito mais do que errámos, mas temos a consciência que há uma reconciliação a fazer. E essa frase de Saramago, que aqui é citada, é para ser aplicada em cada dia. Sobre o processo orçamental, o Partido Socialista ainda agora deu provas aquando da PSU que naquilo que é necessário, quando existe bom senso, quando Luís Montenegro não quer andar a baloiçar entre negociatas e namoros de extrema-direita que correm um dia, ou soluções que podem vigorar para o nosso tecido empresarial, social e económico durante muito tempo, o Partido Socialista é garante de estabilidade. Agora, uma coisa que não vale a pena. O Partido Socialista já deu provas sobre a liderança do José Luís Carneiro, que não entrega os seus princípios, mas que também não está aqui para aventureirismos. E, portanto, nós vamos encarar o processo orçamental, recusando que nos venham colocar pressões que nós não temos que aceitar, mas com o sentido de responsabilidade que neste momento acho que podemos dizer que já demos provas cabais de poder estar ao lado da estabilidade do país.
Mas voltando aqui a esta frase do José Saramago, aqui citada por José Luís Carneiro. Quando se fala em não ter pressa, a ideia é esperar para ver o que é que o governo vai fazer na época dos incêndios e em relação a um período que normalmente é de maior pressão nas urgências, para depois atacar?
Eu raramente comento uma pergunta que me é feita pelo respeito que tenho pelos jornalistas, mas vou-lhe lançar um repto. Memorizo esta questão que me colocou sobre os incêndios por uma razão. O Partido Socialista estar a agregar um conjunto de boas sondagens e José Luís Carneiro aparecer até acima dessas sondagens, vai levar com que cada vez mais exista a tentação de perguntar ao Partido Socialista se está à espera de um determinado momento. No caso, perguntou-me pelos incêndios, vou-lhe responder diretamente: absolutamente não. Aquilo que nós pedimos é que o Governo e Luís Montenegro tenham outro tipo de abertura para a cooperação, que muitas vezes é uma cooperação institucional, não vai além disso, uma cooperação com propostas que muitas vezes o Partido Socialista se disponibiliza a fazer e não tem resposta do outro lado. Mas vai acontecer sucessivamente sobre o orçamento, sobre algum episódio climático, sobre algum episódio sanitário, sobre questões do apagamento da economia portuguesa e aquilo que tem vindo a acontecer. Portanto, aquilo que nós constatamos é que quanto mais Luís Montenegro falha, mais se pergunta ao PS qual é o tempo em que quer eleições. Ora, nós não estamos centrados nisso. E é por isso que esta fase é tão importante.
Mas isso não é uma discussão nesta altura no Partido Socialista. Por certo, há quem inspirado pelos bons tempos e por este bom momento de forma que o PS atravessa, possa estar mais interessado nesta altura, dentro do PS, pergunto-lhe, se há algum entusiasmo em provocar uma crise política, o derrube do Governo.
Eu diria que tal como sempre, há muito tempo, alguém também não é difícil de encontrar. E, portanto, existirá com certeza alguém.
Claro, o André Pinotes Batista não subscreve essa...
Não só não subscrevo, como de forma convicta tentarei explicar aos meus camaradas que pensem de uma forma diferente da minha, que apesar deste governo parecer estar em exercício e em falhanço há uma década, a verdade é que Luís Montenegro só governa há dois anos, apesar de os erros serem muitos. Aliás, Luís Montenegro que pediu para trabalhar e que teve como mote de campanha "Deixem o Luís trabalhar", quanto mais trabalha, mais parece próximo de ser despedido.
E até quando é que isso é aceitável, em sua opinião?
Eu diria que existem questões que têm a ver com liberdades, direitos e garantias, dignidade das pessoas, que são coisas que não é uma questão de tempo. Em nenhum momento são aceitáveis para o Partido Socialista. O demais prende-se muito com a capacidade que possa ou não existir do Governo de cumprir com a palavra. Mas repare, eu chamo a atenção do seguinte, numa matéria de extrema preocupação para nós, tem a ver com o desenvolvimento económico que possa garantir melhores condições de vida às pessoas. Eu lembro-me perfeitamente de ouvir Mariana Mortágua falar em vidas boas. Não existirão nunca vidas boas se não houverem contas certas. E como hoje lembrou o professor Mário Centena, estas duas realidades não são incompatíveis. Mas se o governo que apresentou um cenário macroeconómico, na altura, nós tivemos a oportunidade de dizer que era manifestamente exagerado, dizendo que o nosso era insuficiente. Ora, não só não cumpriu o deles, como são incapazes de cumprir as metas com que o Partido Socialista se apresentou. E portanto, eu diria que sem estabelecer linhas vermelhas, o governo não pode andar em total falhanço ad eternum. Mas se há no Partido Socialista quem pense que porque o desempenho é bom e porque além do PS gostar de estar a falar com as pessoas, as pessoas estão a gostar de falar do PS, é condição suficiente para voltarmos ao poder, reformarmos as coisas que têm que ser reformadas, então também existirá uma precipitação de quem faça essa análise. Os portugueses é que têm bastante presente que quem se apresenta para chegar à cadeira do poder, quem manda o caminho, paga rapidamente uma fatura. Tive uma discussão em certo momento com o agora ministro Paulo Rangel, na SIC Notícias, em que lhe dizia isto: os casos e casinhos, os desgastes governativos não são exclusivos do Partido Socialista. Eram uma acumulação de nove anos e meio, onde acertamos muito, mas falhámos também, com certeza. E este governo, como alicerçou a sua entrada falando de coisas que eram circunstanciais, mas que na verdade são estruturais e carecem de tempo, e como mentiu à entrada, tem a fatura que lhe é apresentada muito mais cedo. Mas a democracia portuguesa, a sociedade portuguesa, as pessoas que nos estão a ouvir, a última coisa que querem agora é eleições. O que as pessoas querem é que o governo quebre esta redoma de insensibilidade e que comece a cumprir a palavra que deu. Há coisas que nós sabemos, é impossível o governo cumprir onde mentiu, mas ainda existem algumas matérias onde o governo pode efetivamente legislar e onde o Partido Socialista, inclusivamente, poderá estar ao lado de algumas soluções que são boas para todos. O combate à burocracia, por exemplo.
Permita-me interrompê-lo, André Pinotes Batista, só porque não temos muito mais tempo, mas eu ainda lhe queria perguntar sobre uma acusação de José Luís Carneiro feita hoje. Diz que o governo já tem habitações prontas que não estão a ser distribuídas por quem mais precisa, porque está já à espera do ciclo eleitoral. Acha que o governo se está a preparar para esse cenário?
Com toda a franqueza, neste momento, a leitura que faço é que Luís Montenegro é o único líder partidário que deseja eleições, mas não sabe como é que as há de provocar. E portanto, esse alerta deixado pelo secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, nestas jornadas parlamentares que se realizaram em toda a área metropolitana, corresponde a um sentimento que encontrámos nas duas margens de um desalento profundo das pessoas com Luís Montenegro, que querendo mimetizar historicamente aquilo que Aníbal Cavaco Silva fez, esquece-se primeiro que não é Aníbal Cavaco Silva, segundo que os tempos são outros e terceiro, que não é mimetizável o que aconteceu noutras décadas para a realidade parlamentar e política que temos hoje. E portanto, Luís Montenegro neste momento está a se preparar para eleições, mas eu diria que também nunca fez outra coisa. A problemática de Luís Montenegro é que percebe a inoperacionalidade do seu governo, percebe que precisa de alimentar narrativas e ter atos eleitorais sucessivos, mas não tem uma forma de provocar as eleições que deseja e eu temo pelo país, não por Luís Montenegro, que acaba por ficar preso no labirinto que ele próprio criou.
E como sempre neste sofá do Parlamento, também temos direito à defesa da honra. Tem a palavra para que efeito?
Para defesa da honra, senhor presidente.
André Pinotes Batista, vamos a esta última pergunta, a que chamamos sempre a defesa da honra. O novo porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, anunciou que o partido vai pedir a audição parlamentar de antigos governantes socialistas, como o próprio José Luís Carneiro, para apurar se o anterior Executivo sabia ou não do aumento populacional que foi tornado público na semana passada pelo INE. Eu vou adiantar-me à Assembleia da República e perguntar-lhe se o PS estava a par destes números ou não e se considera que eles têm consequência para a maneira como se deve pensar nas políticas do país.
Antes de mais, desejar a Sebastião Bugalho, que se queixou que em Bruxelas ninguém o reconhecia e ninguém o identificava, que seja bem regressado às elites que tanta falta lhe faziam e dizer que nós temos respeito pelo INE, que inclusivamente responde ao Eurostat, não é uma entidade ao serviço dos sabores políticos. Agora, de qualquer forma, chamar o secretário-geral do Partido Socialista para ir ao Parlamento, quando o secretário-geral do Partido Socialista é parlamentar e participa regularmente nos debates, nunca esconde a cara, é de facto uma defesa da honra que é fora do regimento. Sebastião Bugalho com certeza que precisou mais de fazer uma prova de vida ou dentro do PSD ou em Portugal.
Para concluir, André Pinotes Batista.
Chamar o Deputado ao Parlamento faz pouco sentido.
Para concluir a resposta.
Para concluir, não há honra a defender sobre isso. O Partido Socialista trabalha com os dados que são oficiais e respeita as instituições neste aspeto. O INE e o Eurostat são, para todos os governos, as entidades com as quais nos norteamos, para as instâncias europeias também. Por vezes, nós identificamos, e por uma questão de clareza, é importante dizer isto, por vezes identificamos nas metodologias algumas matérias que podem ser calibradas, mas aquilo que se pede a uma autarquia, a um governo, a uma CCDR ou a uma instância europeia é que confie nas entidades estatísticas que nutrem todas as políticas públicas globalmente. E, portanto, é mesmo uma demagogia, não há mais nada a dizer sobre isso.
André Pinotes Batista, muito obrigado por ter estado aqui neste Sofá do Parlamento, que para a semana regressa.