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Olá, seja bem-vindo a um novo episódio do podcast "O Valor da Floresta", uma iniciativa Observador e Navigator. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vamos falar de literacia florestal e tentar perceber de que forma o ensino pode ou não mudar a relação da sociedade com a floresta. Para isso, convidamos para estar conosco, Ana Sofia Ribeiro, é coordenadora do Departamento de Sensibilização e Educação Ambiental da Liga para a Proteção da Natureza e também coordenadora do projeto Literacia para a Floresta. Olá, boa tarde, bem-vinda, Ana Sofia. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigada, eu.
Obrigada. A educação pode ajudar a construir uma relação mais informada e equilibrada com os ecossistemas florestais?
Sim. É sempre muito difícil responder a essa questão, mas ao mesmo tempo é tentar perceber que a educação, tudo o que é escola, é a partir de lá que nós acabamos por conhecer o mundo que nos rodeia. É aqui que nós temos informação do que é o planeta, do que é o oceano, do que são os rios. Por isso, a primeira abordagem e o contato que nós temos com o mundo lá fora é sempre através da escola. E daí, sim, a educação é, sem dúvida, a ferramenta ideal para nós podermos falar sobre a floresta.
E como é que a floresta aparece representada nos manuais escolares? Os professores estão preparados para falar sobre o tema?
Nos manuais escolares, nós vamos tendo vários pontos que tocam a floresta. Desde os manuais do primeiro ciclo até ao secundário, nós vamos encontrando em algumas áreas, o Estudo do Meio, as Ciências e Biologia, alguns pontos que nos tocam e que nos falam sobre a floresta integrada no ecossistema ou integrada nos seres vivos, como é a fisiologia de uma célula. Ou seja, aos poucos nós vamos tendo este conhecimento, não digo se calhar amplo do que é a floresta, mas vamos tendo este contato.
Se vai acrescentando, não é?
Exatamente.
O ensino pode, de facto, ser uma ferramenta para combater a ideia de que a floresta é apenas um recurso económico?
Acho que a floresta, na maneira como ela é conhecida, no senso comum e depois também pela escola, a meu ver, está representada de uma forma muito redutora. A floresta é um conjunto de árvores, é um local onde se vai buscar recursos, mas depois deixamos de perceber um pouco mais do que a floresta abrange. E eu acho que aqui, se calhar, a educação poderá explorar um pouco mais este conceito do que é realmente a floresta, não ficar só naqueles conceitos mais básicos.
Mais primários, se calhar, não é?
Sim, porque o que as crianças e os jovens acabam por compreender. E nós também temos trabalhado neste aspeto, mas de certeza que se nós focarmos conceitos da biodiversidade.
Com exemplos.
Com exemplos, com algumas dinâmicas, com algumas metodologias que os professores poderão depois abordar, sim, podemos ir muito mais além do que neste momento se fala sobre a floresta.
Ana Ribeiro, como eu disse no início, é coordenadora do projeto Literacia para a Floresta, que existe desde 2020 e tem como objetivo mostrar às crianças e aos jovens a importância da floresta. Já foi possível observar mudanças concretas no comportamento dos alunos ou até das comunidades envolvidas?
É difícil. Este é um projeto que trabalha por ano letivo. Nós focamo-nos muito nos alunos, obviamente, lhes dar ferramentas para eles poderem explorar, mas também nos professores, porque são eles que estão no dia a dia com os alunos e que acabam por ser o nosso prolongamento na parte da educação. Mas o que é muito difícil é conseguir fazer esta medição dos comportamentos, porque a educação ambiental espera que existam mudanças de comportamento. E para nós conseguirmos ver essas mudanças, às vezes necessitamos de um tempo. E a nível de um ano letivo, é difícil de conseguirmos ver esta transformação, esta mudança. No entanto, há aqui pequenas ferramentas que nos podem auxiliar.
Como por exemplo?
Perceber como é que os alunos interpretavam a floresta ou qual é o conhecimento que eles têm da floresta, inicialmente, antes do arranque do projeto, e depois, se calhar, no final, perceber que conhecimento é que têm, o que é que a floresta lhes diz, se eles já sabem estar na floresta, porque pra nós é muito importante passar o conhecimento, mas também levá-los ao local, à floresta, poderem explorar, poderem sentir a floresta. É a partir daí que nós sentimos que há essa transformação.
Essa parte prática é muito importante, não é?
É. A nosso ver, eu acho que é isto que a escola muitas das vezes tem falta.
Falta de tempo?
Eu acho que é um pouco falta de conjugação, de tempo, de integração no plano curricular, de ferramentas, de formação de professores. Ou seja, há aqui um conjunto de fatores que poderão levar a que esta mensagem, ou pelo menos o conhecer a floresta, não passe. No nosso ponto de vista, e é isto que faz a mudança, é o conhecer, obviamente, passar informação, os vários conceitos da floresta, não só os tais básicos que estávamos a falar, mas também levar os alunos à floresta. E nós quando vamos à floresta com eles, não vamos lhes dizer: "Olha, estão a ver, esta é a espécie X ou aquela é a espécie Y". Não, ensinamos a explorar, a estar na floresta. Se eles forem sozinhos, se eles conhecem, como é que eles aproveitam a floresta. E obviamente, temos depois aqui uma outra componente que é os professores. Damos conhecimento, capacitamos os professores com metodologias, informação, ferramentas em qualquer área, em qualquer disciplina, mostrar que é possível trabalhar o conceito da floresta.
E introduzir o tema.
E introduzir o tema, seja Matemática, Ciências Físico-Química, Português, Inglês. Ou seja, nós tentamos dar estas ferramentas aos professores para poderem trabalhar.
O projeto, como eu disse, existe desde 2020, a Literacia para a Floresta. Quais são os maiores desafios que enfrenta atualmente?
Eu acho que acima de tudo é a percepção de quem está do lado das escolas, que este projeto é fácil de implementar.
Porque assusta?
Assusta.
O Literacia para a Floresta, parece assim uma coisa muito-
Nem é tanto o nome do Literacia para a Floresta. Nós quando apresentamos os conteúdos do projeto, tem várias etapas. E normalmente isto para junto dos professores, no final, nós temos sempre um encontro, ou seja, um momento de avaliação em que juntamos todos. Juntamos os professores, os alunos, a equipa do projeto, para tentarmos perceber como é que funcionou. Mas o que nós sentimos é que normalmente os professores estão tão assoberbados de trabalho, de exigências curriculares, que veem aqui alguma dificuldade em arranjar tempo-
É acrescentar mais, não é?
Para se dedicar ao projeto. E o que nós tentamos mostrar nesta primeira capacitação dos professores é que é fácil de integrar. Por isso é que este projeto é um projeto interdisciplinar, em que tenta mostrar a qualquer disciplina, é possível trabalhar. Quando estão a falar neste conceito, podem incluir e trabalham, ou seja, damos exemplos, damos metodologias, damos ferramentas aos professores para tornar mais fácil esta implementação, porque na prática são eles depois que estão junto com os alunos.
Mas depende depois dos professores incluírem ou não, como é que funciona?
É assim, nós temos algumas etapas do projeto em que nós estamos com os alunos, em que nós vamos, temos sessões presenciais, temos saídas de campo, temos aulas virtuais, mas depois tudo o resto, os desafios-
Tem que haver uma continuidade, não é?
A continuidade é dada pelos professores. E aqui o projeto está muito dependente desta vontade, desta disponibilidade que os professores dão.
E depois dessa primeira abordagem, funciona lindamente. Ficam mais tranquilos e mais seguros e mais convencidos de que sim.
Sim, eu julgo que depois de participarem no projeto, normalmente nós temos o módulo iniciante e o módulo de continuidade. E nós percebemos que quem faz pela primeira vez, tem vontade de continuar, especialmente os professores. Vêm ter conosco e mostram esta vontade de o implementar. Infelizmente, este é um projeto que acaba por acarretar custos de implementação e muitas vezes a escola não tem essa capacidade financeira. E aqui nós vamos muito ao encontro também das autarquias, dos agrupamentos, que acabam por depois dar este apoio, este complemento, para que o projeto seja possível de implementar nas escolas.
Ana Sofia Ribeiro, falamos de um projeto, mas que outras iniciativas podem ser criadas para alertar jovens e a comunidade estudantil dos riscos ambientais que todos corremos se o papel das florestas não for devidamente compreendido?
Eu acho que as florestas ultimamente, ou pelo menos agora, nós vemos os incêndios florestais e normalmente a conotação que tem sido dada à floresta não tem sido a melhor, porque a floresta só é abordada quando há incêndios.
É verdade. E nós temos visto isto neste podcast ao longo dos vários episódios, como é um mundo, não é? Com tantas relações que exatamente, no nosso dia a dia.
E eu acho que é importante, nos projetos, que possam surgir a nível educativo, levar as pessoas, mostrar o concreto, mostrar a realidade. E eu falo na floresta como falo na natureza. Aliás, eu venho da Liga para a Proteção da Natureza, é a nossa missão, mas muitas das vezes nós andamos de costas voltadas para com a natureza, fechamo-nos no nosso mundo e falamos da natureza como se fosse algo longe, inatingível, que na realidade nós somos natureza, nós estamos rodeados dela. E é trazer de volta as pessoas para com a natureza, estar em contato, mostrar-lhes as mais-valias que a floresta ou a natureza, neste caso estamos a falar da floresta, tem para o ser humano.
E a importância que tem no nosso dia a dia.
E eu acho que há várias formas, mesmo em termos do projeto educativo, de mostrar, seja em experiências, levar a que a floresta seja um laboratório vivo, que os alunos possam experimentar usando a floresta como a sala de aula. E há vários aspetos que podem ser falados. E isto tem uma marca muito grande nos alunos. Nós percebemos que quando trazemos as pessoas para o meio natural-
Para o terreno, não é? Sentir
Para o terreno, que muda, há o tal clique. Aquele clique que nós falamos e que necessitamos de que haja a mudança, a transformação.
Muito mais do que ver os PowerPoints, não é, uma sala de aulas.
Sem dúvida. É importante estarmos informados, mas o contato, o estar, o sentir, utilizar os restantes sentidos e conectarmos novamente com o meio natural, nós somos natureza, faz toda a diferença. E eu acho que não é assim tão difícil. E mesmo nós no Literacia para a Floresta, muitas das vezes achamos que a floresta está longe, mas basta até no próprio recreio da escola, na envolvente, há sempre ali algum meio natural que está relacionado com a floresta e que nós podemos adotar até para proteger e mostrar como é tão simples proteger algo que é tão nosso e que está tão perto de nós.
Mas sente que é preciso mudar algumas mentalidades para que essa mensagem passe de forma mais clara, mais rápida?
Eu julgo que sim. Eu julgo que ainda há aqui alguma formatação do que é preciso fazer para proteger. Hoje, quando se fala em proteger o ambiente, proteger a natureza, falamos em metas muito grandiosas e que as pessoas não percebem o que isso é, nem como é que vamos atingir. Eu acho que temos que dar-
E que não é nossa responsabilidade, não é?
Temos que criar casos concretos, simples, como é que eu, este indivíduo, posso contribuir. E eu acho que é passando estas pequenas mensagens, o pouco do pouco se faz muito, se todos nos unirmos, se todos nos juntarmos, conseguimos, sem dúvida, proteger algo muito maior.
Ficamos com essa mensagem. Ana Sofia Ribeiro, muito obrigada por ter partilhado conosco as suas ideias e obrigada por ter aceitado o nosso convite para fazer parte do "Valor da Floresta". É uma iniciativa do Observador e da Navigator. Daqui a 15 dias, não perca um novo episódio. Eu sou a Maria João Simões, muito obrigada pela companhia.